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sábado, 4 de janeiro de 2025

New Year’s Morning

 




Only a night from old to new!
Only a night, and so much wrought!
The Old Year's heart all weary grew,
But said: "The New Year rest has brought."
The Old Year's hopes its heart laid down,
As in a grave; but, trusting, said:
"The blossoms of the New Year's crown
Bloom from the ashes of the dead."
The Old Year's heart was full of greed;
With selfishness it longed and ached,
And cried: "I have not half I need.
My thirst is bitter and unslaked.
But to the New Year's generous hand
All gifts in plenty shall return;
True love it shall understand;
By all my failures it shall learn.
I have been reckless; it shall be
Quiet and calm and pure of life.
I was a slave; it shall go free,
And find sweet peace where I leave strife."
Only a night from old to new!
Never a night such changes brought.
The Old Year had its work to do;
No New Year miracles are wrought.

Always a night from old to new!
Night and the healing balm of sleep!
Each morn is New Year's morn come true,
Morn of a festival to keep.
All nights are sacred nights to make
Confession and resolve and prayer;
All days are sacred days to wake
New gladness in the sunny air.
Only a night from old to new;
Only a sleep from night to morn.
The new is but the old come true;
Each sunrise sees a new year born.


Helen Hunt Jackson






quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

O Ano Passado

 





O ano passado não passou,
continua incessantemente.
Em vão marco novos encontros.
Todos são encontros passados.

As ruas, sempre do ano passado,
e as pessoas, também as mesmas,
com iguais gestos e falas.
O céu tem exatamente
sabidos tons de amanhecer,
de sol pleno, de descambar
como no repetidíssimo ano passado.

Embora sepultos, os mortos do ano passado
sepultam-se todos os dias.
Escuto os medos, conto as libélulas,
mastigo o pão do ano passado.

E será sempre assim daqui por diante.
Não consigo evacuar
o ano passado.


Carlos Drummond de Andrade




terça-feira, 29 de dezembro de 2020

PASSAGEM DO ANO

 





O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus…

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles… e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.



CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
in, ROSA DO POVO








terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Year's End





Now winter downs the dying of the year,
And night is all a settlement of snow;
From the soft street the rooms of houses show
A gathered light, a shapen atmosphere,
Like frozen-over lakes whose ice is thin
And still allows some stirring down within.

I’ve known the wind by water banks to shake
The late leaves down, which frozen where they fell
And held in ice as dancers in a spell
Fluttered all winter long into a lake;
Graved on the dark in gestures of descent,
They seemed their own most perfect monument.

There was perfection in the death of ferns
Which laid their fragile cheeks against the stone
A million years. Great mammoths overthrown
Composedly have made their long sojourns,
Like palaces of patience, in the gray
And changeless lands of ice. And at Pompeii

The little dog lay curled and did not rise
But slept the deeper as the ashes rose
And found the people incomplete, and froze
The random hands, the loose unready eyes
Of men expecting yet another sun
To do the shapely thing they had not done.

These sudden ends of time must give us pause.
We fray into the future, rarely wrought
Save in the tapestries of afterthought.
More time, more time. Barrages of applause
Come muffled from a buried radio.
The New-year bells are wrangling with the snow.


Richard Wilbur





segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

The Year


Antoine Janssens 



What can be said in New-Year rhymes,
That’s not been said a thousand times?

The new years come, the old years go,
We know we dream, we dream we know.

We rise up laughing with the light,
We lie down weeping with the night.

We hug the world until it stings,
We curse it then and sigh for wings.

We live, we love, we woo, we wed,
We wreathe our brides, we sheet our dead.

We laugh, we weep, we hope, we fear,
And that’s the burden of the year.


Ella Wheeler Wilcox




segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Receita de Ano Novo

 





Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


Carlos Drummond de Andrade





domingo, 31 de dezembro de 2017

Epifania

 




Me gustaría que el nuevo año me trajera una epifanía,
una manifestación de otra dimensión que trascienda las pérdidas,
los dolores cotidianos, los aburrimientos y obligaciones

O si no puede ser una epifanía,
estaría bien -me conformaría-
con el brote de ese bambú japonés
que lleva años gestándose en tierra oscura y sombría;
el alumbramiento tras la gestación

O el punto de inflexión donde la vida,
como en una función de matemáticas vitales,
cambia de signo y se manifieste ese amor,
que descubrí en un punto oscuro del corazón,
y que surja, por fin, como el manantial
que da nacimiento a un río

Y me gustaría poder navegar por él,
conocer sus corrientes,
saltar sus saltos y beber sus aguas,
antes de llegar al mar del que todos procedemos

Sí, me gustaría conocer aquello oculto a lo cotidiano,
trascender y trascenderme
antes de que la muerte me impida la conciencia



Ana Cortiñas Payeras





terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Um natal e um ano-novo inventado


Miró




Linhas para amigos e amigas de todas as partes, 
de um natal e de um ano-novo inventado.

Tenho amigos de todos os colores.
Carrego continentes de todas as árias.
Num quase mínimo acorde musical.
Guia-me um deus que senta comigo. 
Assim, ando quase sempre de bicicleta,
margeada por cercas-vivas de papoilas vermelhas e amarelas.
Tem um pipoqueiro na minha paisagem provinciana 
e uma radiadora sentimental.
Eu nunca deixei de brincar.
Amigo é mantra que me adormece e desperta.
E tem mais.
Sou acometida por indignações, desde antes da fala.
Para a mínima coisa que cerceia a liberdade e semeia o medo, não.
Posso ficar meses lá fora e camuflada atrás da porta.
Sou bem pequena, também.
Avisto multidão no olho de quem se ausenta.
E me retraio no pavor de não mais conseguir ver.
Natal é mirar, quotidianamente, a estrela que se oculta,
em linhas de fuga.
Natal é devir-criança, 
no jogo das mão dadas diante de um mundo que se acaba, todos os dias.
E nasce.
É isso que nos desejo,
força-arte para recriar a estrela que nos guia,
flores vivas para adornar desertos.


Gloria Diogenes