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sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Ouve, Meu Anjo

 




Ouve, meu anjo: 
Se eu beijasse a tua pele? 
Se eu beijasse a tua boca 
Onde a saliva é um mel?... 

Quis afastar-se mostrando 
Um sorriso desdenhoso; 
Mas ai! 
- A carne do assassino 
É como a do virtuoso. 

N'uma atitude elegante, 
Misteriosa, gentil, 
Deu-me o seu corpo doirado 
Que eu beijei quase febril. 

Na vidraça da janela, 
A chuva, leve, tinia... 

Ele apertou-me, cerrando 
Os olhos para sonhar... 
E eu, lentamente, morria 
Como um perfume no ar! 



António Botto
in, "Canções" 





segunda-feira, 31 de julho de 2017

Quanto me queres?

 





Quanto, quanto me queres? – perguntaste
Olhando para mim mas distraída; 
E quando nos meus olhos te encontraste, 
Eu vi nos teus a luz da minha vida. 

Nas tuas mãos, as minhas, apertaste. 
Olhando para mim como vencida, 
"...quanto, quanto..." - de novo murmuraste 
E a tua boca deu-se-me rendida! 

Os nossos beijos longos e ansiosos,  
Trocavam-se frementes! - Ah! ninguém 
Sabe beijar melhor que os amorosos! 

Quanto te quero?! - Eu posso lá dizer!... 
- Um grande amor só se avalia bem 
Depois de se perder. 



António Botto
in, "Canções"





terça-feira, 25 de julho de 2017

Quem não Ama não Vive

 




Já na minha alma se apagam 
As alegrias que eu tive; 
Só quem ama tem tristezas, 
Mas quem não ama não vive. 

Andam pétalas e folhas 
Bailando no ar sombrio; 
E as lágrimas, dos meus olhos, 
Vão correndo ao desafio. 

Em tudo vejo Saudades! 
A terra parece morta. 
- Ó vento que tudo levas, 
Não venhas à minha porta! 

E as minhas rosas vermelhas, 
As rosas, no meu jardim, 
Parecem, assim caídas, 
Restos de um grande festim! 

Meu coração desgraçado, 
Bebe ainda mais licor! 
- Que importa morrer amando, 
Que importa morrer d'amor! 

E vem ouvir bem-amado 
Senhor que eu nunca mais vi: 
- Morro mas levo comigo 
Alguma coisa de ti. 



António Botto
in, "Canções"





segunda-feira, 24 de julho de 2017

Bendito Sejas

 




Bendito sejas, 
Meu verdadeiro conforto 
E meu verdadeiro amigo! 

Quando a sombra, quando a noite 
Dos altos céus vem descendo, 
A minha dor, 
Estremecendo, acorda... 

A minha dor é um leão 
Que lentamente mordendo 
Me devora o coração. 

Canto e choro amargamente; 
Mas a dor, indiferente, 
Continua... 

Então, 
Febril, quase louco, 
Corro a ti, vinho louvado! 
- E a minha dor adormece, 
E o leão é sossegado. 

Quanto mais bebo mais dorme: 
Vinho adorado, 
O teu poder é enorme! 

E eu vos digo, almas em chaga, 
Ó almas tristes sangrando: 
Andarei sempre 
Em constante bebedeira! 

Grande vida! 

- Ter o vinho por amante 
E a morte por companheira! 



António Botto 
in, "Canções"





sábado, 22 de julho de 2017

Se duvidas

 





Se duvidas que teu corpo

Possa estremecer comigo –

E sentir

O mesmo amplexo carnal,

– desnuda-o inteiramente,

Deixa-o cair nos meus braços,

E não me fales,

Não digas seja o que for,

Porque o silêncio das almas

Dá mais liberdade

às coisas do amor.


Se o que vês no meu olhar

Ainda é pouco

Para te dar a certeza

Deste desejo sentido,

Pede-me a vida,

Leva-me tudo que eu tenha

Se tanto for necessário

Para ser compreendido.



António Botto
in, Canções"





domingo, 16 de julho de 2017

Se Me Deixares, Eu Digo

 




Se me deixares, eu digo 
O contrario a toda a gente; 
E, n'este mundo de enganos, 
Fala verdade quem mente. 
Tu dizes que a minha boca 
Já não acorda desejos, 
Já não aquece outra boca, 
Já não merece os teus beijos; 
Mas, tem cuidado comigo, 
Não procures ser ausente: 
- Se me deixares, eu digo 
O contrario a toda a gente. 



António Botto
in, "Canções"