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domingo, 24 de novembro de 2019

O Que Somos





Uma vertigem, 
a dor que não passa, 
um sabor que nos falta, 
uma ardência que nos gasta. 

Por tudo isto nos movemos 
sem conhecer, muito bem, 
o destino final. 

Os amores, 
as estórias que necessitamos contar. 

De repente, 
vindo de um sítio inexplicável, 
alguém nos dá um beijo. 

Duas lágrimas embelezam uma face. 
Partes de um todo escondido.
É quase uma loucura, 
servida numa bandeja de fogo, 
a amálgama de sentimentos 
que faz de nós sua casa. 

Correr como uma criança, 
não olhar aos obstáculos, 
ultrapassar o impossível. 
Dar e pedir colo.

Somos, 
por vezes, 
a impossível convivência. 
Quase bichos. 
A muito estranha maneira de estar. 
A resposta sem sentido. 
As desculpas e o perdão. 
Tudo sem confissão nem genuflexório. 
Só festas e olhares de crianças perdidas. 
A absolvição sem rezas nem sacrifícios. 
Apenas uma dádiva, 
um colar de braços 
e uns lábios que se colam aos nossos. 
Os corpos ligados.

Somos uma montanha russa 
de sentimentos por estabilizar. 
Somos muitas vezes a louca e abrupta descida, 
o looping infernal. 
De cabeça para baixo, 
enchemos a consciência 
de tudo o que nos erra pelo corpo. 
Ficamos prenhes de coisas novas.

Nunca mais seremos os mesmos.


JORGE C. FERREIRA



segunda-feira, 12 de março de 2018

Mulher Amor

 





Diz-me mulher de asas redondas quais os segredos do teu corpo. 
Fala-me dos teus mais íntimos desejos, 
da vertigem da busca, 
dos socalcos da vida. 

Conta-me do que te falta no teu sentir. 
As minhas mãos serão tuas sempre que o desejares. 
As tuas mãos guiarão as minhas pela tua pele até ao fim de tudo. 

Amante, mulher, heroína das noites encontradas. 
Também mãe, colo meu, meu suor, minha luz, meu cordão. 
Assim te percorro, assim me percorres. 
Um diálogo silencioso. 
Um reaprender a viver. 
Um sonho escrito numa lousa. 
As teclas de um piano sem som. 
O adormecer num fetal aconchego. 

Amar uma mulher sem nome e chamar-lhe: Amor. 
Gritar a toda gente que aquela é a mulher que amamos. 
Ter uma cama. 
Incensar com o perfume das deusas o nosso caminho. 
Sentir o calor de todos os sentimentos. 
Amar.


JORGE C. FERREIRA
in, À SOMBRA DO SILÊNCIO