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segunda-feira, 11 de outubro de 2021

NENHUMA MORTE APAGARÁ OS BEIJOS

 









«Eu estava tão perto de ti que tenho                                                      frio ao pé dos outros.»                                                                                                       Paul ÉLUARD


Nenhuma morte apagará os beijos 
e por dentro das casas onde nos amámos ou pelas ruas 
                                               [clandestinas da grande cidade livre 
estarão para sempre vivos os sinais de um grande amor, 
esses densos sinais do amor e da morte 
com que se vive a vida. 
Aí estarão de novo as nossas mãos. 
E nenhuma dor será possível onde nos beijámos. 
Eternamente apaixonados, meu amor. Eternamente livres. 
Prolongaremos em todos os dedos os nossos gestos e, 
profundamente, no peito dos amantes, a nossa alma líquida
                                                                             [e atormentada
desvenderá em cada minuto o seu segredo 
para que este amor se prolongue e noutras bocas 
ardam violentos de paixão os nossos beijos 
e os corpos se abracem mais e se confundam 
mutuamente violando-se, violentando a noite 
para que outro dia, afinal, seja possível. 



JOAQUIM PESSOA 
in, OS OLHOS DE ISA




sábado, 15 de fevereiro de 2020

Dia 284






Estou vivo. Poderei acreditar nisso? Sei apenas que me
encontro no centro das coisas. No limite das coisas. Onde
gerações de mortais têm falhado. Lanço-me na inquietação,
vou ardendo nos troncos que alimentam as fogueiras brancas
do futuro. A poesia pode levar-me a casa. Os meus joelhos,
os meus ombros, estão próximos da linguagem, do sangue
dos sentidos, da irrepetível história do universo. Surpreende-me
a alegria da lâmpada, os animais que bebem da fonte do
crepúsculo, a hesitação e o medo que se abraçam nas esquinas,
a complexidade do que é simples. Também eu tenho um
punhal na minha gaveta. É um verso de Browning, uma lâmina
dramática e fria para o frio da língua. A felicidade está doente,
o frio dos meus joelhos sabe-o, é grande a coragem dos que
ainda querem saber das coisas, dos que não se interessam
pela purificação da ignorância e do esquecimento.
Sou amante do meu próprio amor, gosto de aplaudir a vida
recolhido na minha cabana cheia de estrelas e de amigos, a
minha memória é um cristal irreverente e interminável.
No dia seguinte do dia seguinte do dia seguinte, encontrarei a
saída do labirinto e saberei finalmente se, fora de mim, existe
um segredo, um qualquer segredo que eu deveria conhecer e
não poderia nunca ter esquecido.
A minha vida escapa-me mas, na verdade, só o que eu não sei
me preocupa.



JOAQUIM PESSOA
in, ANO COMUM





terça-feira, 28 de janeiro de 2020

SONETO





Também eu tenho um "hobby": é viver
minuto após minuto a minha vida,
se possível do lado em que souber
que vale mais a pena ser vivida.

Já deixei de sonhar com andorinhas
e com o deus à venda nos prospectos.
Recuso-me a entrar em capelinhas
pois faço à transparência os meus projectos.

Sei bem que os incapazes me detestam
e nem os preguiçosos aguentam
comigo a funcionar a todo o gás.

Contudo, cada um vale o que vale.
Porquê ambicionar ser imortal
se nunca saberei se fui capaz?



JOAQUIM PESSOA
in, SONETOS PERVERSOS





segunda-feira, 30 de setembro de 2019

OUTONO






Uma lâmina de ar
Atravessando as portas. Um arco,
Uma flecha cravada no Outono. E a canção
Que fala das pessoas. Do rosto e dos lábios das pessoas.
E um velho marinheiro, grave, rangendo o cachimbo como
Uma amarra. À espera do mar. Esperando o silêncio.
É outono. Uma mulher de botas atravessa-me a tristeza
Quando saio para a rua, molhado como um pássaro.
Vêm de muito longe as minhas palavras, quem sabe se
Da minha revolta última. Ou do teu nome que repito.
Hoje há soldados, eléctricos. Uma parede
Cumprimenta o sol. Procura-se viver.
Vive-se, de resto, em todas as ruas, nos bares e nos cinemas.
Há homens e mulheres que compram o jornal e amam-se
Como se, de repente, não houvesse mais nada senão
A imperiosa ordem de (se) amarem.
Há em mim uma ternura desmedida pelas palavras.
Não há palavras que descrevam a loucura, o medo, os sentidos.
Não há um nome para a tua ausência. Há um muro
Que os meus olhos derrubam. Um estranho vinho
Que a minha boca recusa. É outono
A pouco e pouco despem-se as palavras.



JOAQUIM PESSOA
in, GUARDAR O FOGO




domingo, 18 de agosto de 2019

Dia 349






Ontem fui uma luz. Hoje sou uma luz.

Uma luz serei entre as espáduas e no interior
da tua boca, na tua nuca incandescente, no ombro que
a minha língua percorre, faminta e transtornada.
A tua pele é um doce delírio, um fogo em território de paixão,
percorrido à velocidade desta luz. Sobre ela correm
animais assustados, fugindo da voracidade dos meus lábios,
dos meus dentes que mordem a surpresa.
E em cada centímetro do teu corpo beijo árvores e casas
de uma cidade branca onde Deus habita, e onde esvoaça
para o céu da minha boca um coro de anjos transparentes
que exultam aleluias no meu sangue.

O meu corpo é uma pátria de desejo. A tua boca
um poema manuscrito, dito em silêncio à minha boca
que mastiga as tuas palavras de seda e de incêndio.
Beijo a tua voz, e mordo nos teus gemidos as raízes da água,
as raízes do dia, as raízes da música, enquanto
longe dos nossos beijos, tudo grita, tudo se cala gritando.
Só a noite chegará atrasada à festa do teu corpo
no meu corpo. Da tua voz na minha voz. Das tuas mãos
nas minhas mãos. Da tua pele na minha pele.
E nem mesmo ela conseguirá aperceber-se de qual
de nós é o sorriso que quase a ilumina. Porque
as nossas bocas permanecerão
coladas.


Joaquim Pessoa
in, Ano Comum




sábado, 10 de agosto de 2019

Dia 281





Conta comigo sempre. Desde a sílaba inicial até à última gota 
de sangue. Venho do silêncio incerto do poema e sou, umas ve- 
zes constelação e outras vezes árvore, tantas vezes equilíbrio, 
outras tantas tempestade. A nossa memória é um mistério, re- 
cordo-me de uma música maravilhosa que nunca ouvi, na qual 
consigo distinguir com clareza as flautas, os violinos, o oboé. 

O sonho é, e será sempre e apenas, dos vivos, dos que masti- 
gam o pão amadurecido da dúvida e a carne deslumbrada das 
pupilas. Estou entre vazios e plenitudes, encho as mãos com 
uma fragilidade que é um pássaro sábio e distraído que se a- 
ninha no coração e se alimenta de amor, esse amor acima do 
desejo, bem acima do sofrimento. 

Conta comigo sempre. Piso as mesmas pedras que tu pisas, 
ergo-me da face da mesma moeda em que te reconheço, con- 
tigo quero festejar dias antigos e os dias que hão-de vir, con- 
tigo repartirei também a minha fome mas, e sobretudo, repar- 
tirei até o que é indivisível. 

Tu sabes onde estou. Sabes como me chamo. Estarei presente 
quando já mais ninguém estiver contigo, quando chegar a ho- 
ra decisiva e não encontrares mais esperança, quando a tua 
antiga coragem vacilar. Caminharei a teu lado. 

Haverá decerto algumas flores derrubadas, 
mas haverá igualmente um sol lim- 
po que interrogará as tuas mãos e que te ajudará a encontrar, 
entre as respostas possíveis, as mais humildes, quero eu dizer, 
as mais sábias e as mais livres. 

Conta comigo. Sempre. 



Joaquim Pessoa
in, Ano Comum




segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Poema De Agradecimento À Corja





Obrigado, excelências.

Obrigado por nos destruírem o sonho 
e a oportunidade de vivermos felizes e em paz.

Obrigado pelo exemplo que se esforçam em nos dar 
de como é possível viver 
sem vergonha, sem respeito e sem dignidade.

Obrigado por nos roubarem. 
Por não nos perguntarem nada. 
Por não nos darem explicações.

Obrigado por se orgulharem de nos tirar as coisas por que lutámos 
e às quais temos direito.

Obrigado por nos tirarem até o sono. 
E a tranquilidade. 
E a alegria.

Obrigado pelo cinzentismo, 
pela depressão, 
pelo desespero.

Obrigado pela vossa mediocridade. 
E obrigado por aquilo que podem e não querem fazer.
Obrigado por tudo o que não sabem e fingem saber.
Obrigado por transformarem o nosso coração numa sala de espera.

Obrigado por fazerem de cada um dos nossos dias 
um dia menos interessante que o anterior.
Obrigado por nos exigirem mais do que podemos dar.
Obrigado por nos darem em troca quase nada.

Obrigado por não disfarçarem 
a cobiça, a corrupção, a indignidade. 
Pelo chocante imerecimento 
da vossa comodidade e da vossa felicidade 
adquirida a qualquer preço. 
E pelo vosso vergonhoso descaramento.

Obrigado por nos ensinarem tudo o que nunca deveremos querer, 
o que nunca deveremos fazer, 
o que nunca deveremos aceitar.

Obrigado por serem o que são.
Obrigado por serem como são. 
Para que não sejamos também assim. 
E para que possamos reconhecer facilmente 
quem temos de rejeitar.


Joaquim Pessoa







terça-feira, 2 de julho de 2019

CANTA





Atreve-te a julgar. Julga os outros julgando-te a ti mesmo.
A natureza das coisas é a tua natureza. Respira-te, despe-te
faz amor com as tuas convicções, não te limites a sorrir
quando não sabes mais o que dizer. Os teus dentes
estão lavados, as tuas mãos são amáveis, mas falta-te
decisão nos passos e firmeza nos gestos.
Procura-te. Tenta encontrar-te antes que te agarre a
voracidade do tempo.

Faz as coisas com paixão. Uma paixão irrequieta,
que não te dê descanso
e te faça doer a respiração. Aspira o ar, bebe-o com força, é
teu, nem um centavo pagarás por ele.
Quanto deves é à vida, o que deves é a ti mesmo. Canta.
Canta a água e a montanha e o pescoço do rio,
e o beijo que deste e o beijo que darás, canta
o trabalho doce da abelha e a paciência com que crescem
as árvores,
canta cada momento que partilhas com amigos, e cada
amigo
como um astro que desponta no firmamento breve do teu
corpo.

E canta o amor. E canta tudo o que tiveres razão para
cantar.
E o que não souberes e o que não entenderes, canta.
Não fujas da alegria. A própria dor ajuda-te a medir
a felicidade. Carrega nos teus ombros os séculos passados e
os séculos vindouros,
muito do pó que sacodes já foi vida, talvez beleza, orgulho,
pedaços de prazer.
A estrela que contemplas talvez já não exista, quem sabe,
o que te ajudou a ser vida de quantas vidas precisou. Canta!
Se sentires medo, canta. Mas se em ti não couber a alegria,
não pares de cantar.

Canta. Canta. Canta. Canta. Canta. Constrói o teu amor,
vive o teu amor,
ama o teu amor. De tudo o que as pessoas querem, o que
mais querem é o amor.
Sem ele, nada nunca foi igual, nada é igual, nada será igual
alguma vez.
Canta. Enquanto esperas, canta.
Canta quando não quiseres esperar.
Canta se não encontrares mais esperança. E canta quando a
esperança te encontrar.
Canta porque te apetece cantar e porque gostas de cantar e
porque sentes que é preciso cantar.
E canta quando já não for preciso. Canta porque és livre.

E canta se te falta a liberdade.


JOAQUIM PESSOA
in, VOU-ME EMBORA DE MIM




quarta-feira, 6 de março de 2019

POEMA PRIMEIRO





Gosto-te. E desta certeza
se abre a manhã como uma imensa
rosa de desejo indestrutível. O futuro
é o próximo minuto, para além
da infatigável religião dos meus versos,
em cuja luz me acendo, feliz e nu.
O meu sorriso conhece a bondade
dos animais, o poder frágil das corolas,
e repete o nome feminino dos arcanjos de
peitos redondos, perfumados
pelas giestas dos caminhos
do céu.
Gosto-te. Amarrado
pelos meus braços de beduíno do sol,
pobre senhor dos desertos,
profeta da distância que há dentro das palavras,
onde se alongam sombras
e o sofrimento se estende até à orla
da mais inquieta serenidade.
Gosto-te. E tenho sido
feliz, por nunca ter seguido os trilhos
que me quiseram destinar. Aqui
e ali me pergunto, despudoradamente. E sei
que não sei mentir. É por isso,
que recolho na face a luz imprescindível
ao orgulho dos peixes
e dos frutos.
Gosto-te. Na-na-na, na-ô...
Na-na-na, na-ô... na-nô...
Canta o espírito do caminho,
canta para mim e canta para ti, eleva
o coração das grandes árvores, coração
de seiva e de coragem,
sangue fresco e verde, apaixonado
e doce,
de tanto contemplar o perfil das tardes.
Gosto-te. Mas "longe"
é uma palavra húmida, grávida,
onde os sinos da erva tocam
para convocar as sílabas. E,
ao procurar-te, tremo apenas
de ternura
para que nem mesmo a inteligente brisa
da manhã
possa dar por mim.

Mais discreto que isto
é impossível.



JOAQUIM PESSOA
in, GUARDAR O FOGO 




sábado, 3 de novembro de 2018

EUROPA ACIDENTAL

 




Europa acidental.
Europa acidental.

Aqui nem mal nem bem.
Aqui nem bem nem mal.

Aqui se alguém não é ninguém
é porque a gente nasce
de um modo ocidental:
Vivem uns bem e outros mal.

E afinal
é natural
(naturalmente)
que haja também
gente que é gente de bem
e gente que é apenas gente.

Europa acidental.
Europa acidental.

O mal
é ter na nossa frente
um mar de sal.
Um mar de gente
que de repente
(é assim mesmo: de repente!)
fica vazio e sem ninguém
se um dia alguém
por mal ou bem
quiser ser gente.

Europa acidental.
Europa acidental.

Não andar para trás
nem para a frente.

Nascer morto ou vivo
é tão normal
que é indiferente.

E vai-se toda a vida
na corrente.
E a gente morre de repente.
Sempre de costas.
Nunca de frente.
De morte necessária e natural
(naturalmente).

Europa acidental.
Europa acidental.

O principal
não é viver:
é estar presente
nesta maneira ocidental
de apodrecer decentemente.
Esta é uma questão fundamental
(é evidente!).


JOAQUIM PESSOA
in, PORTUGUÊS SUAVE






segunda-feira, 22 de outubro de 2018

POEMA 9

 




Para onde quer que vás a pequena gente não te entenderá
porque tu não fazes a imitação da vida.
A mais sombria das palavras pede sol à tua boca
e tu enches a boca de sol e vens até mim para ser poema,
para ficares cintilando com a luz do leopardo,
essa luz que os pintores misturam com a terra.
Para onde quer que vás a pequenina gente
não deixará de perseguir-te
com vozes que se quebram nas mãos cheias de pressa
levando à boca uma água de vespas,
oprimindo o brilho de todos os instantes; gente
que não aprendeu nunca a lição mais alta
dos pássaros e dos frutos.
Para onde quer que vás a sombra da pequena gente
morderá os teus pés,
gente árida, sem crenças, sem o sentido do amor,
assustada com o sonho, vivendo
na véspera dos dias.
Para onde quer que vás haverá um regresso.
No entanto, a pequena gente ficará lá, o rosto em contraluz,
com a antiquíssima inveja dos arbustos.
E aqui, na terra que tu mesma desejaste assim,
como um rio sem margens,
habitarás a árvore dos meus versos
cujos frutos molhados são palavras cantando.


JOAQUIM PESSOA
in, À MESA DO AMOR




sexta-feira, 29 de junho de 2018

Amei Demais

 




Madruguei demais. Fumei demais. Foram demais 
todas as coisas que na vida eu emprenhei. 
Vejo-as agora grávidas. Redondas. Coisas tais, 
como as tais coisas nas quais nunca pensei.

Demais foram as sombras. Mais e mais. 
Cada vez mais ardentes as sombras que tirei 
do imenso mar de sol, sem praia ou cais, 
de onde parti sem saber por que embarquei.

Amei demais. Sempre demais. E o que dei 
está espalhado pelos sítios onde vais 
e pelos anos longos, longos, que passei

à procura de ti. De mim. De ninguém mais. 
E os milhares de versos que rasguei 
antes de ti, eram perfeitos. Mas banais.


Joaquim Pessoa
in 'Ano Comum'






terça-feira, 20 de setembro de 2016

Conta comigo. Sempre

 




Tu sabes onde estou. 
Sabes como me chamo. 
Estarei presente
quando já mais ninguém 
estiver contigo, quando chegar a ho-
ra decisiva e não encontrares 
mais esperança, quando a tua
antiga coragem vacilar. 
Caminharei a teu lado. Haverá decerto
algumas flores derrubadas, 
mas haverá igualmente um sol lim-
po que interrogará as tuas mãos e que 
te ajudará a encontrar,
entre as respostas possíveis, 
as mais humildes, quero eu dizer,
as mais sábias e as mais livres.
Conta comigo.
Sempre.


| Joaquim Pessoa |







quinta-feira, 18 de agosto de 2016

O Poeta Enamorado

 



A tua casa é o meu coração
e o teu perfume enche de nostalgia as minhas noites.
Pelos meus braços vens caminhando nua, com a doçura da
gazela e a brevidade suicida das flores do hibisco.
O meu coração dá abrigo a um grande amor,
como a palmeira protege as tâmaras dos ventos do deserto
ou a romã se transforma em cofre para guardar os seus rubis.
Não há armadilhas montadas no percurso que te leva
à minha cama, e nada será perturbado pelo júbilo
de beijar todas as sílabas que a tua boca pronuncia.
És em mim. Estás em mim. Há-de o meu coração
ficar em ruínas e, assim mesmo, defenderá
o teu corpo, a tua vontade, e o teu sorriso que
tem a envergonhada cor da flor do lótus.
Há-de o meu coração calar-se, mas
esse silêncio não impedirá a promessa
de uma eterna noite de amor.


Joaquim Pessoa
in, O Poeta Enamorado








quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

VIVER É...






Viver é uma peripécia. 
Um dever, um afazer, um prazer, um susto, uma cambalhota. 
Entre o ânimo e o desânimo, um entusiasmo ora doce, ora dinâmico e agressivo. 
Viver não é cumprir nenhum destino, não é ser empurrado ou rasteirado pela sorte. 
Ou pelo azar. 
Ou por Deus, que também tem a sua vida. 
Viver é ter fome. Fome de tudo. 
De aventura e de amor, 
de sucesso e de comemoração de cada um dos dias que se podem partilhar com os outros. 
Viver é não estar quieto, nem conformado, nem ficar ansiosamente à espera. 
Viver é romper, rasgar, repetir com criatividade. 
A vida não é fácil, nem justa, e não dá para a comparar a nossa com a de ninguém. 
De um dia para o outro ela muda, muda-nos, 
faz-nos ver e sentir o que não víamos nem sentíamos antes e, possivelmente, 
o que não veremos nem sentiremos mais tarde. 
Viver é observar, fixar, transformar. 
Experimentar mudanças. 
E ensinar, acompanhar, aprendendo sempre. 
A vida é uma sala de aula onde todos somos professores, onde todos somos alunos. 
Viver é sempre uma ocasião especial. 
Uma dádiva de nós para nós mesmos. 
Os milagres que nos acontecem têm sempre uma impressão digital. 
A vida é um espaço e um tempo maravilhosos mas não se contenta com a contemplação. 
Ela exige reflexão. 
E exige soluções. 
A vida é exigente porque é generosa. 
É dura porque é terna. 
É amarga porque é doce. 
É ela que nos coloca as perguntas, cabendo-nos a nós encontrar as respostas. 
Mas nada disso é um jogo. 
A vida é a mais séria das coisas divertidas.


Joaquim Pessoa 
in, Ano Comum





quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Amo-te Por Todas as Razões e Mais Uma







Por todas as razões e mais uma.
Esta é a resposta que costumo dar-te quando me perguntas por que razão te amo.
Porque nunca existe apenas uma razão para amar alguém.
Porque não pode haver nem há só uma razão para te amar.
Amo-te porque me fascinas e porque me libertas e porque fazes sentir-me bem.
E porque me surpreendes e porque me sufocas
e porque enches a minha alma de mar e o meu espírito de sol e o meu corpo de fadiga.
E porque me confundes e porque me enfureces
e porque me iluminas e porque me deslumbras.
Amo-te porque quero amar-te
e porque tenho necessidade de te amar
e porque amar-te é uma aventura.
Amo-te porque sim mas também porque não e, quem sabe, porque talvez.
E por todas as razões que sei e pelas que não sei e por aquelas que nunca virei a conhecer.
E porque te conheço e porque me conheço.
E porque te adivinho.
Estas são todas as razões.
Mas há mais uma:
porque não pode existir outra como tu.


Joaquim Pessoa 
in, Ano Comum





sábado, 12 de setembro de 2015

Quero ouvir o vento que vem da tua pele






Abraça-me. Quero ouvir o vento que vem da tua pele,
e ver o sol nascer do intenso calor dos nossos corpos.

Quando me perfumo assim, em ti, nada existe a não ser
este relâmpago feliz, esta maçã azul que foi colhida na
palidez de todos os caminhos, e que ambos mordemos
para provar o sabor que tem carne incandescente das estrelas.

Abraça-me. Veste o meu corpo de ti, para que em ti possa buscar
o sentido dos sentidos, o sentido da vida. Procura-me
com os teus antigos braços de criança
para desamarrar em mim a eternidade, a soma formidável
de todos os momentos livres que a um e a outro pertenceram.

Abraça-me. Quero morrer de ti em mim, espantado de amor.

Dá-me a beber, antes, a água dos teus beijos,
para que possa levá-la comigo e oferecê-la aos astros
pequeninos. Só essa água fará reconhecer
o mais profundo, o mais imenso amor do universo,
e eu quero que dele fiquem a saber
até as estrelas mais antigas e brilhantes.
Abraça-me. Uma vez só. Uma vez mais.
Uma vez que nem sei se tu existes.


Joaquim Pessoa





quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Porque te amo







Estou mais perto de ti porque te amo.
Os meus beijos nascem já na tua boca.
Não poderei escrever teu nome com palavras.
Tu estás em toda a parte e enlouqueces-me.

Canto os teus olhos mas não sei do teu rosto.
Quero a tua boca aberta em minha boca.
E amo-te como se nunca te tivesse amado
porque tu estás em mim mas ausente de mim.

Nesta noite sei apenas dos teus gestos
e procuro o teu corpo para além dos meus dedos.
Trago as mãos distantes do teu peito.

Sim, tu estás em toda a parte. Em toda a parte.
Tão por dentro de mim. Tão ausente de mim.
E eu estou perto de ti porque te amo.


Joaquim Pessoa




sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Antes de Ti



Madruguei demais. Fumei demais. Foram demais 
todas as coisas que na vida eu emprenhei. 
Vejo-as agora grávidas. Redondas. Coisas tais, 
como as tais coisas nas quais nunca pensei. 

Demais foram as sombras. Mais e mais. 
Cada vez mais ardentes as sombras que tirei 
do imenso mar de sol, sem praia ou cais, 
de onde parti sem saber por que embarquei. 

Amei demais. Sempre demais. E o que dei 
está espalhado pelos sítios onde vais 
e pelos anos longos, longos, que passei 

à procura de ti. De mim. De ninguém mais. 
E os milhares de versos que rasguei 
antes de ti, eram perfeitos. Mas banais.


Joaquim Pessoa






segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Tentaremos passar






Os meus dedos costumam andar loucos
sobre a tua pele
ou folheando livros
ou segurando com impaciência
os auscultadores dos telefones.
Já alguma vez reparaste nos meus dedos?
Eles vieram do fundo de um rio de prata
como a Excalibur
e um dia hão-de lá voltar manchados de sangue,
talvez já rugosos e sem harmonia
incapazes
frios
tolerantes.
Por enquanto eles abrem brechas
derrubam árvores e cavam trincheiras
constroem cercas para o amor
alisam as penas do medo
e pagam adiantado o serviço do corpo que os mantêm vivos
capazes de acusar
de perdoar
de colocar um rastilho de dinamite na boca do silêncio
de violentar qualquer noite
escorando os túneis que vão dar à insatisfação e ao inferno.
Se os meus dedos segurarem os teus
o que é que de novo acontece?
Construiremos uma casa, uma cabana, um palácio?
Repetiremos o percurso até à exaustão?
Quero acreditar que desconheço o caminho
e que a sua erva terá aos nossos pés uma nova resposta.
É aliciante pensar que chegaremos onde
ainda hoje não poderemos pensar.
Não adianta encher as mãos.
Quando há que caminhar-se muito
não convém demasiado peso.
Já basta o coração.
Ele transportará a inquietação,
carregará todas as dúvidas,
e talvez tropece na sua própria angústia
ou fique preso na armadilha.
De qualquer modo, dá-me as tuas mãos.
Aqui tens as minhas.
Tentaremos passar. 



JOAQUIM PESSOA
in 125 POEMAS - ANTOLOGIA POÉTICA