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terça-feira, 23 de abril de 2024

O PERVERTIDO

 




Durante a noite, ou à hora da sesta,
quando estávamos os dois juntos, via-me 
obrigada a contar umas histórias 
cínicas e mórbidas, sem qualquer 
decência, e sendo eu a protagonista.
Nunca pensei que acreditasse nelas,
pois ele mesmo pedia outro relato,
outra aventura sádica, excitante,
descarada, em que eu fosse sedutora
e seduzida por diferentes homens.
Pensei que era feliz com as mentiras 
que para ele engendrei com tanto esmero.
Mas começou a crer que as minhas palavras
eram memórias, e não fantasias,
e abandonou-me, com a desculpa 
de que o diabo estava entre as minhas pernas 
e ele não tinha nada de exorcista.


Amalia Bautista




segunda-feira, 8 de abril de 2024

Os meus melhores desejos

 






Que a vida te pareça suportável.
Que a culpa não afogue a esperança.
Que não te rendas nunca.
Que o caminho que sigas seja sempre escolhido 
entre dois pelo menos.
Que te interesse a vida tanto como tu a ela.
Que não apanhes o vício 
de prolongar as despedidas.
E que o peso da terra seja leve
sobre os teus pobres ossos.
Que a tua lembrança ponha lágrimas nos olhos 
de quem nunca te disse que te amava.


Amalia Bautista




quarta-feira, 11 de outubro de 2023

O INFERNO

 


Pexels






 Debrucei-me na janela do inferno
e não vi nada que me horrorizasse;
pareceu-me um lugar igual aos outros,
cheio de gente e coisas. Alguém
do inferno convidou-me a entrar.
Não me lembro quem era, ou se eram vários,
nem o que me disseram lá de dentro
ou se aquelas pessoas sorriam,
se havia algum que se lamentasse,
nem se desconfiei em algum momento.
Procurei e achei a porta do inferno,
abri a porta do inferno, entrei
e desde então vivo no inferno.
É um lugar igual a outro qualquer
cheio de gente e coisas. Mas
sei que só pode ser o inferno
porque neste lugar não estás comigo.

Amalia Bautista



quarta-feira, 3 de novembro de 2021

A CASA DA NEBLINA

 






 Entraram para a casa da neblina.
Os seus olhos foram-se acostumando
aos contornos indefinidos. Tudo
era impreciso, tudo era difuso.
Também se iam vendo um ao outro
sem contrastes, os rostos não mudavam,
as expressões eram sempre as mesmas,
sempre veladas pela mesma bruma.
Esqueceram-se ambos do mundo lá fora,
e da luz e da dor e da alegria,
da mentira, da emoção, dos beijos,
da amizade e do amor. Negaram
qualquer verdade ou perfil que os ferisse.
E ficou-lhes ambíguo o coração.


Amalia Bautista
in, ESTOU AUSENTE



terça-feira, 26 de outubro de 2021

Como Velas De Um Barco

 
Harold Feistein





Ao entrar, o vento enfuna as cortinas 
como velas de um barco. Mas o barco 
não se move, ainda que os ventos 
pareçam favoráveis. Há já anos 
que viajo só a bordo desta nave. 
E pergunto-me que problema técnico 
a mantém ancorada neste nada. 
Assim não poderemos encontrar-nos 
apesar de o vento ser favorável, 
do meu experiente manejo do leme 
e da minha ânsia de chegar ao porto.


Amalia Bautista




terça-feira, 13 de julho de 2021

A dor

 

 Sebastien Del Grosso





A dor não humaniza ou enobrece,
não faz de nós melhores nem nos salva,
nada a justifica nem a invalida.
A dor não perdoa nem imuniza,
não fortalece ou dulcifica a alma,
não cria nada e nada a destrói.
A dor existe sempre e volta sempre,
nenhum dos seus actos será o último
e todos podem ser definitivos.
A dor mais terrível consegue sempre 
ser mais intensa ainda e ser eterna.
Vai sempre acompanhada pelo medo
e ambos se alimentam um ao outro. 


Amalia Bautista 
in, Estou Ausente




quinta-feira, 28 de maio de 2020

Al Cabo




Al cabo, son muy pocas las palabras

que de verdad nos duelen, y muy pocas

las que consiguen alegrar el alma.

Y son también muy pocas las personas

que mueven nuestro corazon, y menos

aún las que lo mueven mucho tiempo.

Al cabo, son poquíssimas las cosas

que de verdad importan en la vida:

poder querer a alguien, que nos quieran

y no morrir después que nuestros hijos.



Amalia Bautista

in, Cuentamelo Otra Vez






Ao Fim


Ao fim são muito poucas as palavras

que nos doem a sério e muito poucas

as que conseguem alegrar a alma.

São também muito poucas as pessoas

que tocam nosso coração e menos

ainda as que o tocam muito tempo.

E ao fim são pouquíssimas as coisas

que em nossa vida a sério nos importam:

poder amar alguém, sermos amados

e não morrer depois dos nossos filhos.



Tradução: Joaquim Manuel Magalhães







quarta-feira, 20 de junho de 2018

IDA E VOLTA

 




Quando nos encaminhamos para o amor
todos vamos ardendo.
Levamos amapolas nos lábios
e uma centelha de fogo no olhar.
Sentimos que o sangue
nos golpeia as têmporas, as pelves, os pulsos.
Damos e recebemos rosas vermelhas
e vermelho é o espelho do quarto na penumbra.

Quando voltamos do amor, vagarosos,
desprezados, culpados
ou simplesmente estupefatos,
regressamos muito pálidos, muito frios.
Com olhos e cabelos envelhecidos e o número
de leucócitos nas alturas,
somos um esqueleto e sua derrota.

Porém continuamos indo.


Amalia Bautista






sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

IDA E VOLTA

 



Quando nos encaminhamos para o amor
todos vamos ardendo.
Levamos amapolas nos lábios
e uma centelha de fogo no olhar.
Sentimos que o sangue
nos golpeia as têmporas, as pelves, os pulsos.
Damos e recebemos rosas vermelhas
e vermelho é o espelho do quarto na penumbra.

Quando voltamos do amor, vagarosos,
desprezados, culpados
ou simplesmente estupefatos,
regressamos muito pálidos, muito frios.
Com olhos e cabelos envelhecidos e o número
de leucócitos nas alturas,
somos um esqueleto e sua derrota.

Porém continuamos indo.


Amalia Bautista





quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Dizes que me amas

 



Dizes que me amas de uma tal forma,

que não consigo deixar de corar;
que me amas de um modo primitivo,
sem razão aparente e sem desculpas
e que me amas porque me desejas,
porque sabes que eu também te amo
e como o monstro deste amor nos devora
a alma, a paciência e as maneiras.
É uma pena que todas estas coisas
morram em nós afogadas de silêncio.


Amalia Bautista







segunda-feira, 9 de junho de 2014

Julgava que te tinha dito adeus





Julgava que te tinha dito adeus,
um adeus contundente, ao deitar-me,
quando pude por fim fechar os olhos,
esquecer-me de ti, dessas argúcias,
dessa tua insistência, teu mau génio,
tua capacidade de anular-me.
Julgava que te tinha dito adeus
de todo e para sempre, mas acordo,
encontro-te de novo junto a mim,
dentro de mim, rodeias-me, a meu lado,
invades-me, afogas-me, diante
dos meus olhos, em frente à minha vida,
por sob a minha sombra, nas entranhas,
em cada golpe do meu sangue, entras
por meu nariz quando respiro, vês
pelas minhas pupilas, lanças fogo
nas palavras que minha boca diz.
E agora que faço?, como posso
desterrar-te de mim ou adaptar-me
a conviver contigo? Principie-se
por demonstrar maneiras impecáveis.
Bom dia, tristeza.


Amalia Bautista