quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Sem Ver




Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.


Eugénio de Andrade




quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Dama dos Desejos






Deixa-me entrar na tua vida
Extravasar do teu querer,
E da tua cabeça escandecida...

Entrarei nas tuas loucas utopias
E no teu mais profundo sentir
Que é o fogo das tuas fantasias!...

Deixa-me entrar na tua paixão
Extravasar dos teus desejos,
E sentir o pulsar do teu coração...

Entrarei por tuas veias quentes
E nos teus mais intensos êxtases
Que são delírios tão ardentes!...

Deixa-me entrar no teu amor
Extravasar dos teus afectos,
E sentir o teu abundante frescor...

Entrarei no teu formoso jardim
E na tua mais intensa fragrância
Que é a essência entre tu e mim!


Dolandmay





terça-feira, 28 de agosto de 2012

Meu Glorioso Pecado






Se te injuriei, por uma rebeldia
dos meus nervos exaustos de pesar,
pensa com que perversa hipocrisia
tu me agastaste para me magoar!

Pensa que, só por teu sabor de um dia
- glória de uma conquista singular -
minha vida perdeu toda a alegria,
é uma morte que vivo devagar!

Sempre a revolta vem de uma agonia:
a injúria ser um beijo poderia,
teu beijo envenenou-me o paladar

Medita alma volúvel, alma fria:
- Quanta vez uma ofensa acaricia!
- Como um carinho sabe nos matar!


Gilka Machado






segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Meu Glorioso Pecado II








Quantas horas felizes, quantos dias
nos contemplamos sem jamais trocar
uma frase! - Eu temia... Tu temias...
Mas como era expressivo nosso olhar!...

Nem uma frase! E tantas melodias
no meu, no teu silêncio, no do mar,
no do céu, no das árvores sombrias,
como tudo se amava sem falar!

Trocamos o vocábulo e (oh! tristeza!)
Quantas injúrias, que contradição
nessas palestras de alma
em ciúme acesa!

Ah! se mudos ficáramos então,
não profanara o orgulho
e a singeleza
das palavras sem voz
do coração!

Gilka Machado




domingo, 26 de agosto de 2012

Meu Glorioso Pecado - III





A que buscas em mim,
que vive em meio de nós,
e nos unindo nos separa,
não sei bem aonde vai,
de onde veio,
trago-a no sangue
assim como uma tara

Dou-te a carne que sou...
Mas teu anseio
fôra possuí-la -
a espiritual, a rara,
essa que tem o olhar
ao mundo alheio,
essa que tão somente
astros encara

Por que não sou
como as demais mulheres?
Sinto que, me possuindo,
em mim preferes
aquela que é
o meu íntimo avantesma...

E, o meu amor,
que ciúme dessa estranha,
dessa rival
que os dias
me acompanha,
para ruína gloriosa
de mim mesma!


Gilka Machado




sábado, 25 de agosto de 2012

Direcção Do Sol




Tome a tua vida em tuas mãos,
e não entregue a direção dela a ninguém.
Por mais que te amem, por mais que desejem, o teu bem,
só você é capaz de sentir o que realmente sente,
e aquilo que você passa de impressão para os outros,
nem sempre corresponde ao que vai na sua alma.

Quantas vezes você já sorriu
para disfarçar uma lágrima teimosa?
Quantas vezes quis gritar e sufocou o pranto?
Quantas vezes quis sair correndo de algum lugar
e ficou por educação, respeito ou medo?
Quantas vezes desejou apenas um beijo,
e ficou com a boca seca esperando o que não veio?
Quantas vezes tudo o que você desejou era apenas um abraço.
um consolo, uma palavra amiga e só recebeu ingratidão?

Quantos passos foram necessários
para chegar até onde você chegou?
Quantos sabem dar o valor que você realmente merece?

Criticar é fácil, mas usar o seu sapato ninguém quer,
vestir as suas dores ninguém quer,
saber dos seus problemas, só se for por curiosidade,
por isso, não entregue a sua vida nas mãos de ninguém,
nada de acreditar que sem essa ou aquela pessoa,
você não vai viver...
Vai viver sim, o mundo continua girando,
e se você deixar, pode te trazer algo muito melhor.

Pegue a direcção da sua vida e aponte rumo ao Sul,
lá onde a placa diz "caminho do sol",
bem na curva da felicidade, que te espera
sem pressa, para viver com amor e intensidade,
a paz, a harmonia e a felicidade..


Carlos Alberto Baltazar





sexta-feira, 24 de agosto de 2012

REGRESSO AO LAR




Ai, há quantos anos que eu parti chorando
Deste meu saudoso, carinhoso lar!...
Foi há vinte?...há trinta? Nem eu sei já quando!...
Minha velha ama, que me estás fitando,
Canta-me cantigas para eu me lembrar!...


Dei a volta ao mundo, dei a volta à Vida...

Só achei enganos, decepções, pesar...
Oh! a ingénua alma tão desiludida!...
Minha velha ama, com a voz dorida,
Canta-me cantigas de me adormentar!...


Trago d'amargura o coração desfeito...

Vê que fundas mágoas no embaciado olhar!
Nunca eu saíra do meu ninho estreito!...
Minha velha ama que me deste o peito,
Canta-me cantigas para me embalar!...


Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho

Pedrarias d'astros, gemas de luar...
Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!...
Minha velha ama, sou um pobrezinho...
Canta-me cantigas de fazer chorar!


Como antigamente, no regaço amado,

(Venho morto, morto!...) deixa-me deitar!
Ai, o teu menino como está mudado!
Minha velha ama, como está mudado!
Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!...


Cante-me cantigas, manso, muito manso...

Tristes, muito tristes, como à noite o mar...
Canta-me cantigas para ver se alcanço
Que a minh'alma durma, tenha paz, descanso,
Quando a Morte, em breve, ma vier buscar!...


Guerra Junqueiro





quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Amor é fogo que arde sem se ver








Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?


Luís de Camões




quarta-feira, 22 de agosto de 2012

A tus ojos oceánicos








Inclinado en las tardes tiro mis tristes redes
a tus ojos oceánicos.

Allí se estira y arde en la más alta hoguera
mi soledad que da vueltas los brazos como un náufrago.

Hago rojas señales sobre tus ojos ausentes
que olean como el mar a la orilla de un faro.

Sólo guardas tinieblas, hembra distante y mía,
de tu mirada emerge a veces la costa del espanto.

Inclinado en las tardes echo mis tristes redes
a ese mar que sacude tus ojos oceánicos.

Los pájaros nocturnos picotean las primeras estrellas
que centellean como mi alma cuando te amo.

Galopa la noche en su yegua sombría
desparramando espigas azules sobre el campo.

Pablo Neruda
in, Inclinado en las tardes





terça-feira, 21 de agosto de 2012

Dois pontos que se encontram


Mark Kostabi; Passion Kiss





Que nome dar a dois pontos que se encontram
senão um ponto apenas? Como chamar a duas linhas
que unem os extremos senão uma única linha?
Duas gotas de água que se juntam não são uma só gota?
Não serão os oceanos apenas nomes para um único nome: mar?
Todos os continentes são a terra.
Todos os passos, o andar.
Todas as palavras são a fala.
Todas as folhas, o livro.
Quando o mesmo se une, cumpre-se. Tem o mesmo sentido,
a mesma matéria, o mesmo nome.
É uno. Único. Diverso, apenas esse modo
de tocar uma única boca. Como hei-de chamar-te agora?
Teu nome é plural. Plural é o meu nome.
Só o amor que os une é singular.


Joaquim Pessoa




segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Amor na imensidão do mar






Bebo em teu corpo,
Néctar dos deuses;
Embriagando-me de desejos,
Beijos de cachoeira,
Na ladeira do teu corpo,
Descanso meu cansaço;
Abraço-te com manhas,
Reviro-te com artimanhas;
Arco-íris nocturno, plantão seguro;
Colorindo no escuro,
Iluminando nosso amor,
Carícias delicadas,
Multiplicam-se mais ousadas;
Audaciosa, maliciosa;
Faço-te meu mar,
Com ondas macias, ora bravias;
Num eterno movimento;
Que o coração pode escutar,
Amor, na imensidão do mar.


Marisa de Medeiros




domingo, 19 de agosto de 2012

Escravatura Moderna






Há escravos na maior parte do mundo, 
definitivamente no teu. 
E tu não podes pensar 
que isso não é uma preocupação tua: 
provavelmente comes, vestes ou brincas 
com produtos que podem estar ligados 
ao trabalho escravo. 
Estás implicado na economia da escravidão, 
gostes ou não.


CARLOS FONTES





sábado, 18 de agosto de 2012

Desejos Ocultos








Teu amor me fez reviver...
Atiçando em mim um fogo intenso!
Trazendo lembranças adormecidas
me conduzindo outra vez ao prazer
E libertando meu corpo amortecido
Do desejo por mim reprimido.Contido!
Revelando as fantasias escondidas
Que por muito guardei em segredo!

Teu amor me fez reviver...
Aflorando sensações já esquecidas,
Com mãos, toques, carícias ousadas...
Bocas que se encontravam ansiosas,
Sedentas por teus beijos molhados!
Meus seios que te chamavam irados;
Implorando em serem por ti tocados!
Corpos suados...Colados...Unidos...
Somos agora um só _ Entrelaçados.

E rompe louco o gozo em desatino!
Prazeroso e louco sentimento...
Suave loucura que me liberta!
Fazendo-me plena nesse momento...


Ginna Gaiotti





sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Slug






"Eu posso acordar doce, 
ficar amarga e até dormir ácida 
sem você perceber.
Mas eu quero que você perceba.

Eu quero que você se alimente 
do que há de melhor e pior em mim.

Eu quero te mostrar cada gosto, 
te misturar, 
te revirar o estômago, 
te virar do avesso, 
jogar a receita fora. 
(Nada de banho-maria!)."



quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Talvez






Talvez eu quisesse ser teu lado mais bonito
a parte da tua história mais repleta, plena
a coisa certa
de uma forma tão serena, tão doce
mas que ao mesmo tempo fosse
selvagem e obscena....


Bruna Lombardi






quarta-feira, 15 de agosto de 2012

A profundeza do Ser







O que for a profundeza do teu ser, assim será teu desejo.
o que for o teu desejo, assim será tua vontade.
O que for a tua vontade, assim serão teus atos.
O que forem teus atos, assim será teu destino

E quando descobrimos que nosso
verdadeiro Eu é potencialidade pura,
alinhamo-nos à força que coordena
tudo no universo.

A fonte de toda a criação é a conscientização pura…
a potencialidade pura que busca
expressar-se do não manifesto
ao manifesto…

O universo opera através de trocas dinâmicas…
dar e receber são diferentes aspectos
do fluxo da energia universal.

Toda ação gera uma força energética
que retorna a nós da mesma forma…
O que semeamos é que colheremos amanhã.

Em nossa própria capacidade de dar tudo aquilo
que almejamos encontra-se a chave
para atrair a abundância do universo
- o fluxo da energia universal – para a nossa vida.

E quando escolhemos ações que
levam felicidade e sucesso aos outros,
o fruto deste ato é sem dúvida alguma
a felicidade e o sucesso que
certamente nos virão.

E quando utilizamos as forças
da harmonia, da alegria,
do amor, atraímos sucesso e
boa sorte facilmente.

A inteligência da natureza opera
pela lei do mínimo esforço…
sem ansiedade, com harmonia
e amor.

É inerente a toda intenção e a todo desejo
o mecanismo da sua realização…
a intenção e o desejo têm,
no campo da potencialidade pura,
o poder da organização infinita.

No distanciamento está a sabedoria da incerteza…
na sabedoria da incerteza está a libertação do passado,
do conhecido, que é a prisão dos velhos
condicionamentos.
E na mera disponibilidade para o desconhecido,
para o campo de todas as possibilidades,
rendemo-nos à mente criativa
que rege o universo.

E quando introduzimos uma intenção
no campo fértil da potencialidade pura,
colocamos essa infinita organização
a nosso serviço.

Todos têm um propósito de vida…
um dom singular ou um talento único
para dar aos outros.
E quando misturamos esse talento singular
com benefícios aos outros,
experimentamos o êxtase
da exultação de nosso próprio espírito – entre todos,
o supremo objetivo.


Brhadaranyaka Upanishad





terça-feira, 14 de agosto de 2012

Déclaration des droits de l’homme et la femme à l’amour





Te rencontrer sans te réduire
Te désirer sans te posséder
T’aimer sans t’envahir
Te dire sans me trahir
Te garder sans te dévorer
T’agrandir sans te perdre
T’accompagner sans te guider
Et être ainsi moi-même
au plus secret de toi.


Jacques Salomé





segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Quero






Quero que me oiças sem me julgares
Quero que me dês a tua opinião sem me aconselhares
            Quero que confies em mim sem me exigires
Quero que me ajudes sem tentares decidir por mim
            Quero que cuides de mim sem me anulares
Quero que olhes para mim sem projectares as tuas coisas em mim
            Quero que me abraces sem me asfixiares
Quero que me animes sem me empurrares
            Quero que me apoies sem te encarregares de mim
Quero que me protejas sem mentiras
            Quero que te aproximes sem me invadires
Quero que conheças as coisas que mais te desagradem em mim
            Que as aceites e não pretendas mudá-las
Quero que saibas…que hoje podes contar comigo…
            Sem condições.



in “Cartas para Cláudia”
Jorge Bucay





domingo, 12 de agosto de 2012

Meu Homem







Me tome, me consome
Você não é apenas mais um, na minha lista
é aquele, que em versos, me conquista...
é o meu único e verdadeiro amor
aquele que deixa meu corpo
em fogo abrasador
que consegue me fazer delirar
em nenhum outro, pensar...
aqui, amor e desejo se misturam
numa miscelânea de sentimentos
você, amor
só você em meus pensamentos...
delirante como eu
me conquista todos os dias
com a tua poesia...
meu homem, é pota como eu
os mesmos desejos
as mesmas fantasias
as mesmas loucuras
seja noite, ou dia...
meu homem tem alma como a minha:
febril em, desejos
espalha meu corpo, doces beijos
mesmo que sejam virtuais
mas como ele, sou febril
e cada vez que estamos juntos
me corpo se torna um ardil...
Ah, meu homem!
quanto que te amo
que te quero
assim... ao meu lado
nesse sofá
que teclo sempre com você
que nos damos em total desejo
em uma aventura, alucinada de prazer...


Fátima Abreu





sábado, 11 de agosto de 2012

Gerontion’s






Eis-me aqui, um velho em tempo de seca,
Um jovem lê para mim, enquanto espero a chuva.
Jamais estive entre as ígneas colunas
Nem combati sob as centelhas de chuva
Nem de cutelo em punho, no salgado imerso até os joelhos,
Ferroado de moscardos, combati.
Minha casa é uma casa derruída,
E no peitoril da janela acocora-se o judeu, o dono,
Desovado em algum barzinho de Antuérpia, coberto
De pústulas em Bruxelas, remendado e descascado em Londres.
O bode tosse à noite nas altas pradarias;
Rochas, líquen, pão-dos-pássaros, ferro, bosta.
A mulher cuida da cozinha, faz chá,
Espirra ao cair da noite, cutucando as calhas rabugentas.
                                                                       E eu, um velho,
Uma cabeça oca entre os vazios do espaço.

Tomaram-se os signos por prodígios: “Queremos um signo!”
A Palavra dentro da palavra, incapaz de dizer uma palavra,
Envolta nas gazes da escuridão. Na adolescência do ano
Veio Cristo, o tigre.
Em maio corrupto, cornisolo e castanha, noz das
faias-da-judéia,
A serem comidas, bebidas, partilhadas
Entre sussurros; pelo Senhor Silvero
Com suas mãos obsequiosas e que, em Limoges,
No quarto ao lado caminhou a noite inteira;
Por Hakagawa, a vergar-se reverente entre os Ticianos;
Por Madame de Tornquist, a remover os castiçais
No quarto escuro, por Fraülein von Kulp,
A mão sobre a porta, que no vestíbulo se voltou.
Navetas ociosas
Tecem o vento. Não tenho fantasmas,
Um velho numa casa onde sibila a ventania
Ao pé desse cômoro esculpido pelas brisas.

Após tanto saber, que perdão? Suponha agora
Que a história engendra muitos e ardilosos labirintos,
estratégicos
Corredores e saídas, que ela seduz com sussurrantes ambições,
Aliciando-nos com vaidades. Suponha agora
Que ela somente algo nos dá enquanto estamos distraídos
E, ao fazê-lo, com tal balbúrdia e controvérsia o oferta
Que a oferenda esfaima o esfomeado. E dá tarde demais
Aquilo em que já não confias, se é que nisto ainda confiavas,
Uma recordação apenas, uma paixão revisitada. E dá cedo
demais
A frágeis mãos. O que pensado foi pode ser dispensado
Até que a rejeição faça medrar o medo. Suponha
Que nem medo nem audácia aqui nos salvem. Nosso heroísmo
Apadrinha vícios postiços. Nossos cínicos delitos
Impõem-nos altas virtudes. Estas lágrimas germinam
De uma árvore em que a ira frutifica.

O tigre salta no ano novo. E nos devora. Enfim suponha
Que a nenhuma conclusão chegamos, pois que deixei
Enrijecer meu corpo numa casa de aluguel. Enfim suponha
Que não dei à toa esse espetáculo
E nem o fiz por nenhuma instigação
De demônios ancestrais. Quanto a isto,
É com franqueza o que te vou dizer.
Eu, que perto de teu coração estive, daí fui apartado,
Perdendo a beleza no terror, o terror na inquisição.
Perdi minha paixão: por que deveria preservá-la
Se tudo o que se guarda acaba adulterado?
Perdi visão, olfato, gosto, tato e audição:
Como agora utilizá-los para de ti me aproximar?

Essas e milhares de outras ponderações
Distendem-lhe os lucros do enregelado delírio,
Excitam-lhe a franja das mucosas, quando os sentidos esfriam;
Com picantes temperos, multiplicam-lhe espetáculos
Numa profusão de espelhos. Que irá fazer a aranha?
Interromper o seu bordado? O gorgulho
Tardará? De Bailhache, Fresca, Madame Cammel, arrastados
Para além da órbita da trêmula Ursa
Num vórtice de espedaçados átomos. A gaivota contra o vento
Nos tempestuosos estreitos da Belle Isle,
Ou em círculos vagando sobre o Horn,
Brancas plumas sobre a neve, o Golfo clama,
E um velho arremessado por alísios
A um canto sonolento.
                                                          Inquilinos da morada,
Pensamentos de um cérebro seco numa estação dessecada.




T.S. Eliot





sexta-feira, 10 de agosto de 2012

East Coker






Em meu princípio está meu fim. Umas após as outras
As casas se levantam e tombam, desmoronam, são ampliadas,
Removidas, destruídas, restauradas, ou em seu lugar
Irrompe um campo aberto, uma usina, um atalho.
Velhas pedras para novas construções, velhos lenhos para novas chamas,
Velhas chamas em cinzas convertidas, e cinzas sobre a terra semeadas,
Terra agora feita carne, pele e fezes,
Ossos de homens e bestas, trigais e folhas.
As casas vivem e morrem: há um tempo para construir
E um tempo para viver e conceber
E um tempo para o vento estilhaçar as trêmulas vidraças
E sacudir o lambril onde vagueia o rato silvestre
E sacudir as tapeçarias em farrapos tecidas com a silente legenda.

Em meu princípio está meu fim. Agora a luz declina
Sobre o campo aberto, abandonando a recôndita vereda
Cerrada pelos ramos, sombra na tarde,
Ali, onde te encolher junto ao barranco enquanto passa um caminhão,
E a recôndita vereda insiste
Rumo à aldeia, ao aquecimento elétrico
Hipnotizada. Na tépida neblina, a luz abafada
É absorvida, irrefratada, pela rocha grisalha.
As dálias dormem no silêncio vazio.
Aguarda a coruja prematura.


T.S. Eliot




quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Burnt Norton (de “Quatro quartetos, nº 5)






As palavras se movem, a música se move
Apenas no tempo; mas só o que vive
Pode morrer. As palavras, após a fala, alcançam
o silêncio. Apenas pelo modelo, pela forma,
As palavras ou a música podem alcançar
O repouso, como um vaso chinês que ainda se move
Perpetuamente em seu repouso.
Não o repouso do violino, enquanto a nota perdura,
Não apenas isto, mas a coexistência,
Ou seja, que o fim precede o princípio,
E que o fim e o princípio sempre estiveram lá
Antes do princípio e depois do fim.
E tudo é sempre agora. As palavras se distendem,
estalam e muita vez se quebram, sob a carga,
Sob a tensão, tropeçam, escorregam, perecem,
Apodrecem com a imprecisão, não querem manter-se
[ no lugar,
Não querem ficar quietas. Vozes estridentes,
Irritadas, zombeteiras, ou apenas tagarelas,
Sem cessar as acuam. A Palavra no deserto
É mais atacada pelas vozes da tentação,
A sombra soluçante da funérea dança,
O clamoroso lamento da quimera inconsolada.


T.S. Eliot





quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Burnt Norton (de “Quatro quartetos”, nº 3)






Aqui é um lugar de desamor
Tempo de antes e tempo de após
Numa luz mortiça: nem a luz do dia
Que reveste formas de lúcida quietude
Transfigurando sombras em beleza transitória
E cuja lenta rotação sugere permanência
Nem a escuridão que purifica a alma
Esvaziando o sensual com privação
Purgando de afeto o temporal.
Nem plenitude nem vazio. Um bruxuleio apenas
Sobre faces tensas repuxadas pelo tempo
Distraídas da distração pela distração
Cheias de fantasmagorias e ermas de sentido
Túmida apatia sem concentração
Homens e pedaços de papel rodopiados pelo vento frio
Que sopra antes e depois do tempo, vento
Fora e dentro de pulmões enfermos
Tempo de antes e tempo de após.
Eructação de almas doentias
No ar estiolado, miasmas
Carregados pelo vento que varre as lúgubres colinas de Londres,
Hampstead e Clerkenwell, Campden e Putney,
Highgate, Primrose e Ludgate. Não aqui
Não aqui a escuridão, neste mundo de gorjeios.


T.S. Eliot