terça-feira, 19 de março de 2013

No Silêncio Da Noite







No silêncio da noite busco por ti
Incansavelmente
Incessantemente
Procuro por quem me tortura
Quem apenas me invade sentimentos
Provoca-me emoções
Sensações há muito enterradas
Soterradas em memórias
Dolorosas memórias de Alguém
Dores que se esbatem no tempo
Apenas se esfumaçam suavemente
Espaço antes ocupado por dores
Agora, apenas invadido com a tua imagem
Dor dilacerante no corpo
Ardor constante no coração
Sensação de flutuar sobre mim mesmo
Em busca apenas do que nunca tive
Antes esperança, agora certezas
Certezas de ser amado
Certezas do que sempre busquei
Estas longe, sim, partiste assim
Promessas de rápido regresso
Mas como vais regressar para mim
Se nunca sais-te de mim
Como posso encontrar quem nunca saiu de mim
Busco na noite
O teu perfume chega-me na brisa que me envolve
Suave brisa que me acaricia o rosto
Por ela, mando-lhe um beijo meu
Não um beijo, um simples beijo
Mas todo o amor por ti num beijo
Repleto de amor
Soprado por lábios que te esperam
Uma Alma que te deseja
Um coração que chora por ti
Busco por ti na noite….


Carlos L. Fonseca





segunda-feira, 18 de março de 2013

A hora da partida





A hora da partida soa quando
Escurece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.

A hora da partida soa quando
as árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.

Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.


Sofia de Mello Bryener Andresen





domingo, 17 de março de 2013

INVICTUS





Out of the night that covers me,
Black as the pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishment the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.



William Ernest Henley 






sábado, 16 de março de 2013

ESTRELA DA TARDE






Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amor, minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor, eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor, eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram

Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!



José Carlos Ary dos Santos






sexta-feira, 15 de março de 2013

Silabas ternurentas






Existem bocas suculentas
Lábios sedentos, atrevidos e delirantes
Línguas loucas que se enrolam e movem, lentas
Beijos carregados de saliva, quentes e palpitantes

Vozes interiores que cantam, gritam e tragam!

Existem roupas quentes
Vincadas e caídas...que se alagam.

Afagos, recurvados e impulsos
Realidades desfolhadas e permitidas
Sensibilidades nas articulações dos meus dedos e pulsos
Ardores visíveis e perfumados nas minhas garras oferecidas

Existem movimentos de rotação audazes
Salpicos de paixão, suados e quentes
Devaneios em vértice perspicazes
Que se vestem e abrigam sentindo-se carentes 


Sensações que se arqueiam, insaciáveis e interessantes
Aliciantes se descontrolam e elevam…
Melodias cadenciadas que se ouvem, distantes.

Existem ventres que se contraem
Que se enleiam e entram em convulsões no momento
Paisagens infinitas que se constroem
E rios de silabas que rompem em sedução no pensamento.


Telma Estêvão






quinta-feira, 14 de março de 2013

A MÃO





A quem vou dar a mão
quando a força que move o meu corpo
faltar?
Pra quem vou sorrir
quando o espelho da alma
quebrar
matando as lembranças do tempo distante,
a ternura dos beijos esquecidos
no hiato das memórias cansadas?
A quem contarei meus sonhos
de princesa adormecida
num tempo sem idade?
Com quem partilharei
minhas dúvidas, meus momentos azuis?
Pra quem tocarei na minha harpa
a balada mais doce que inventei?
Ah, este vazio imenso, profundo,
maior que o próprio mundo!


Paula Amaro






quarta-feira, 13 de março de 2013

Quero-te devagar…





Quero…
Avançar devagar
E sem receio…
Com o coração
Perfumado e cheio.

Num copo divino
Beber a tua alma ao segundo
E sem destino…
Alimentar o nosso pequeno mundo.

Quero…
Que as tuas palavras descobertas
Cresçam espontâneas
E abertas
Que o sorriso íntimo
Das tuas caricias libertas
Reúnam todos os sentimentos
Dos poetas.

Quero…
Desabrochar a cada instante, na verdade
Cativar a tua alma com entusiasmo e paixão
Enlaçar os meus dedos nus nos teus com vontade
E sentir o que nunca senti nem tive ocasião

Quero…
Libertar a semente
De quem sonha
E nesta ansia louca e delirante
Sentir o lume que palpita, sem vergonha.

Renovar todo o fogo que um dia inventei e perdi.

Quero…
Que os meus lábios, num fogo ateado
Colham o beijo teu, alimentem uma voz…calma
E ao gemerem-te, gritem embriagados
Silaba a silaba, por todo o teu corpo e alma.

Quero…
Tremer, sem cansaço
Anular as pausas e o elástico do silente
Embarcar no encanto que é o teu regaço
E em desalinho ter-te para sempre nem que seja na minha mente.


Telma Estêvão






terça-feira, 12 de março de 2013

NI ÁNGEL NI REBELDE





No arriesgó nada
no practicó la irreverencia
no mordió el sexo del paraíso
no padeció la pesadilla de vivir

no aulló por falta de demonios en el vientre
no enturbió el agua de ninguna academia
no gozó la locura de la realidad
no destruyó su propia fisiología

no reveló lo insensato de la sensatez
no orinó ni escupió ni eyaculó fuera de foco
no hizo de la palabra la enemiga total
no metió ningún dedo en la llaga
de ninguna cosa hizo destino

no tuvo miedo de sí mismo
no metió mundo ni absoluto en sus venas
no arrulló entre sus brazos una bomba ni siquiera pacífica
no tuvo pensamiento ni ademanes
ni colores militantes

no se encamó con el monstruo de sí mismo
no hizo del vacío una utopía
no amó ni para nacer ni para morir
no telefoneó al otro mundo, no arrojó
bocanadas de sangre sobre el orden y el lenguaje.

Fue correcto adecuado municipal y obvio
o sea una buena persona en el peor sentido de la palabra.


Joaquín Giannuzzi 







segunda-feira, 11 de março de 2013

Atritos






 Quando finalmente aceitamos
que somos pequenos, ínfimos,
dada a compreensão da existência
e importância do outro,
e principalmente da grandeza de Deus,
é que finalmente nos tornamos grandes em valor.

Já viu o tamanho do diamante polido, lapidado?
Sabemos quanto se tira
de excesso para chegar ao seu âmago.

É lá que está o verdadeiro valor...
Pois, Deus fez a cada um de nós
com um âmago bem forte
e muito parecido com o diamante bruto,
constituído de muitos elementos,
mas essencialmente de amor.
Deus deu a cada um de nós essa capacidade,
a de amar...
Mas temos que aprender como.

Para chegarmos a esse âmago,
temos que nos permitir,
através dos relacionamentos,
ir desbastando todos os excessos
que nos impedem de usá-lo,
de fazê-lo brilhar

Por muito tempo em minha vida acreditei
que amar significava evitar sentimentos ruins.
Não entendia que ferir e ser ferido,
ter e provocar raiva,
ignorar e ser ignorado
faz parte da construção do aprendizado do amor.

Não compreendia que se aprende a amar
sentindo todos esses sentimentos contraditórios e...
os superando.
Ora, esses sentimentos simplesmente
não ocorrem se não houver envolvimento...

E envolvimento gera atrito.
Minha palavra final: ATRITE-SE!
Não existe outra forma de descobrir o amor.
E sem ele a vida não tem significado."



Roberto Crema





domingo, 10 de março de 2013

EROTICAMENTE TUA…





Acende-se-me a volúpia
num pedaço de conversa,
fruto da mente perversa
e de muitos afectos,
quando os gostos predilectos se juntam.
Mata a vontade, da tua pele
incandescente, na minha!
Lambe-me a palma da mão, de mansinho,
com o olhar cravado no meu,
deliciosa, e provocadoramente sorrindo,
promessa, de tudo o que terei a seguir,
E… Irei contigo? Oh, sim irei, 
sem o encarar, um castigo
mas castigando-me a preceito,
já as tuas mãos o meu peito
se contentam. As nossas línguas se provam,
e as minhas defesas, capitulam
quando nas minhas pernas abertas,
inicias as descobertas, 
dum mundo, em que amiúde mergulhamos, 
quanto tão impregnados, um no outro ficamos
que a definição de amor reinventamos,
e não sei já quem és tu, ou sou eu. 


Maria Fátima Soares




sábado, 9 de março de 2013

Mudanças






Algo está diferente sinto certo desconforto
Superei a raiva, curei a melancolia,
Calei o choro e deixei fluir...
Perdoei, aceitei e renasci.
Vivi novas aventuras
Arrependi e fui feliz em alguns momentos...
Estive morta por anos 
Revi ciclos e mais ciclos
Sou intensa demais e necessito da CURA!
Fiquei em silêncio esperando o tempo passar...
Foi difícil e é difícil manter-se sóbria e sã
Então mergulho na LOUCURA
Sou generosa sem ser boazinha
O cérebro me domina e o corpo grita em dor
Procurei esvaziar os pensamentos
Na entrega do equilíbrio e da sabedoria
E a tristeza e os pensamentos insistem e persistem...
Preciso superar metas
Ter relacionamentos estáveis
Estar sempre rodeadas de amigos
Para sentir a vida e a tal da felicidade
E de uma hora para outra aprendi!
Com muito esforço eu aprendi!
Aprendi que só me realizo
Quando suporto a solidão e me perdoo.
Quando PRECISO DE NADA para me sentir feliz e especial...
A felicidade só depende de mim; EXCLUSIVAMENTE de mim!
Me vejo como uma lâmpada 
De uma varanda de praia
De vez e sempre preciso limpar a maresia
E quando conscientizo
Do meu desconforto emocional
Cresço e transcendo
Escuto as vozes do coração
Para me colocar para cima
Me amar e sentir orgulho 
Por tudo que construí
Vivo com Fé e GARRA
Na certeza que tudo esta bem
No seu devido tempo
Solto um sorriso e....
ESCOLHO SER FELIZ!


Lucileyma Rocha Louzada Carazza





sexta-feira, 8 de março de 2013

Anúncio de entardecer






Procura-se um sonho.
Ele andou fatiado de medos,
Iludiu-se, imiscuiu-se,
E chegou a flertar com a utopia.

Quem o encontrar,
Diz a ele que o perdoo por tudo.
Que o meu peito, em cicatrizes,
É hoje até mais bonito que antes.

Que aprendi que a força se desdobra
Em indizíveis fraquezas.
E que enquanto ainda chorava de inércia
Meus olhos colheram do sol
A força de desabrochar o meu mundo.

Diz que a solidão me consome os espaços.
E a vizinhança inteira me ouviu a gritar por seu nome.
Diz que sangro a sua ausência
E os seus silêncios me transbordam.
Diz ao meu sonho que ele venceu.
A minh' alma não se vendeu.


Nara Rúbia Ribeiro





quinta-feira, 7 de março de 2013

Ai como eu queria


Ai como eu queria
Mergulhar-te em bebedeiras de ternura
Tecer os teus cabelos um a um
Ligar os nossos corpos numa jura.

Ai como eu queria
Fazer da nossa cama um sol escaldante
Fundir as luzes todas da cidade
E ser em cada esquina tua amante.

Ai como eu queria
Nadar, nadar nas ondas do teu corpo
Ter um navio de esperança à nossa espera
Fazer amor contigo em cada porto.

Ai como eu queria
Encharcar-te nos meus beijos docemente
Regar a tua pele
E pela manhã, deixar em cada poro uma semente.

Ai como eu queria
Espreguiçar-me em gestos ternos de criança
Viver em fantasia alegremente
Poder, ora ser fera, ora ser mansa.

Ai como eu queria
saber o que de mim já te entreguei
Ouvir-te desfiar os meus segredos
Escutar o que de mim eu já não sei.


Ana Zanatti





quarta-feira, 6 de março de 2013

Aprender a Viver






O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver.


Cora Coralina





terça-feira, 5 de março de 2013

Imagine a Woman II






Imagine a woman who is interested in her own life.
A woman who embraces her life as teacher, healer, and challenge.
Who is grateful for the ordinary moments of beauty and grace.

Imagine a woman who participates in her own life.
A woman who meets each challenge with creativity.
Who takes action on her own behalf with clarity and strength.

Imagine a woman who has crafted a fully-formed solitude.
A woman who is available to herself.
Who chooses friends and lovers with the capacity to respect her solitude.

Imagine a woman who acknowledges the full range of human emotion.
A woman who expresses her feelings clearly and directly.
Who allows them to pass through her as naturally as the breath.

Imagine a woman who tells the truth.
A woman who trusts her experience of the world and expresses it.
Who refuses to defer to the perceptions, thoughts, and responses of others.

Imagine a woman who follows her creative impulses.
A woman who produces original creations.
Who refuses to color inside someone else's lines.

Imagine a woman who has relinquished the desire for intellectual approval.
A woman who makes a powerful statement with every action she takes.
Who asserts to herself the right to reorder the world.

Imagine a woman who has grown in knowledge and love of herself.
A woman who has vowed faithfulness to her own life.
Who remains loyal to herself. Regardless.

Imagine yourself as this woman.


Patricia Lynn Reilly 






segunda-feira, 4 de março de 2013

Imagine A Woman





Imagine a woman 
who believes it is right and good she is woman.
A woman who honors her experience and tells her stories.
Who refuses to carry the sins of others within her body and life.

Imagine a woman
who believes she is good.
A woman who trusts and respects herself.
Who listens to her needs and desires and meets them with tenderness and grace.

Imagine a woman 
who has acknowledged the past's influence on the present.
A woman who has walked through her past.  
Who has healed into the present.

Imagine a woman
who authors her own life.
A woman who exerts, initiates, and moves on her own behalf.
Who refuses to surrender except to her truest self and to her wisest voice.

Imagine a woman
who names her own gods.
A woman who imagines the divine in her image and likeness.
Who designs her own spirituality and allows it to inform her daily life.

Imagine a woman
in love with her own body.
A woman who believes her body is enough, just as it is.
Who celebrates her body and its rhythms and cycles as an exquisite resource.

Imagine a woman
who honors the face of the Goddess in her changing face.
A woman who celebrates the accumulation of her years and her wisdom.
Who refuses to use her precious life energy disguising the changes in her body and life.

Imagine a woman
who values the women in her life.
A woman who sits in circles of women.
Who is reminded of the truth about herself when she forgets.

Imagine yourself as this woman. 



Patricia Lynn Reilly





domingo, 3 de março de 2013

O RETORNO DE INANNA






Quando o minha última dama chegar
Vai me encontrar alerta
Armada de mil argumentos
Disposta a não mais amar...
A porta semi-aberta
Mas com placa de 'Não Perturbar'.
Vai fazer uma reverência lenta
Respeitando as dores do meu coração
Mas vai ignorar o aviso
E usando como chave um sorriso
Invadir meu jardim
E fechar por dentro o portão.
Vai espreitar pela janela
Uma leve batida para não me assustar
Vai sentar-se à varanda
E perder-se a me olhar.
Vai fazer-se de 'velho amigo'
Embaralhar suas memórias, como se fossem comigo
Aceitar um café e oferecer-se para ir buscar.
Quando minha última dona chegar
Aquecendo a vida entre os dedos
Perguntando porquê antes de nós
Passaram-se tantos dias assim
Vai roubar para ela meus segredos
E entregar os dela pra mim.
Vamos falar primeiro das flores,
Da época de poda do roseiral
Dos espinhos, passaremos às dores
E entre impossíveis e risíveis amores
Ela vai me contar das afrontas
Das mulheres que se diziam prontas...
Mas que a vida tratou de medrar.
Vai me falar em especial sobre uma delas
Aqueles casos que não têm porquê acabar
Talvez só para eu ficar sabendo
Que o coração que agora me cabe
Já foi capaz de muito amar...
Vai respeitar meu silêncio enquanto penso
No que ela pode ser melhor que eu
E antes que eu me desmereça
Vai pousar um olhar no meu medo
Pintar nos meus olhos um futuro distante
Fazer-se una, até perder de vista
Até fazer sumir do foco
Todos os que já vieram antes, pois :
- Em cada amor, meu amor, as coisas são diferentes.
E em meio a ervas daninhas
Vai arrancar lágrimas que eram só minhas
Mas que ela promete nunca mais deixar brotar.
Quando minha última Amazona chegar
Vai me embalar nas suas histórias
Vai puxar pra perto minha cadeira
E feita criado-mudo na cabeceira
Me dar seus sonhos pra eu guardar.
Vai trazer no bolso uma flor
Dessas do campo, que se dá sem ninguém cuidar
Emaranhá-la nos meus cachos
Chegar perto para um cheiro
E inundar-me os ouvidos com seus passos
Dizer - Porque sim, isto de amor
Acho que não tem que explicar.
Antes que minha última rainha me beije
Fará das palavras dedos longos
A percorrer-me os contornos
Eriçar-me os entornos
Pedindo para eu nada dizer.
Quando esta 'Mulher' tomar-me as mãos entre as suas
Eu vou esquecer o cansaço
De ter estado à procurar
E por todos os outros rostos que beijei
Por todos os prazeres que lhes dei
Só vou me sentir agradecida
Por nada terem feito
A não ser me preparar.
Minha última Chama terá assim um olhar
Daqueles que eu não consigo desviar
Rirá de mim, por mim, comigo, de si
Encherá meu mundo de um riso sem motivo
Estas coisas bobas de tão boas
Que fica só entre os amantes
E ninguém tem coragem de contar.
Esse meu último Dharma
Trará velas e incensos
E perguntará que disco eu tenho, pra combinar
Encherá o ar de suspiros amiúde
Dançará comigo, instigando meu querer urgente
Deixando o corpo afastado e rente
A brincar com meu desejo
No anti-clímax de me entregar.
E só então vai me dar um beijo
Lento, longo, possesso, posseiro
E daí pra frente eu não responderei por mim...
Só lembrarei ela fazendo um carinho
Apertando meu biquinho
Colocando a mão pra esquentar.
Minha última Mãe,
Não me dará direito a frescores
Manterá em brasa meus pudores
Vai me enlouquecer, fazer pedir, gritar.
Quando esta 'Alma' me despir
Contemplará minhas imperfeições
Achando as coisas mais lindas de se olhar
Brincará com meu corpo nu...
Mandará buscar nos meus sonhos infantis
As fábulas, os contos, os encantos
E todos os sonhos a que faço jus.
O que este Imã quer de mim?
É a centelha,
Menina faceira
Cabocla trigueira
Gueixa submissa
Dama da corte
Fêmea felina
Fera assassina,
Dançarina única do harém,
Maestrina da Noite...
Imponente no açoite,
Potente na Carne e na Fonte...
Com a fronte erguida o fogo consome...
Faria tudo novamente se possível...
Toquei e vi o invisível...
Arranquei o véu...
E vi a face ardor do fogo no céu!
E o que eu mais quero?
É em mim, o que ela quer também:
Eu sempre junto à ela, como sua única e última 'Phi-lha'.
Imagem à Semelhança.
Jamais rastejem. 


V.S. Fergunson
in, "O retorno de Inanna"
Os Deuses Ancestrais e a Evolução do Planeta terra






sábado, 2 de março de 2013

Amar





Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.


Carlos Drummond de Andrade





sexta-feira, 1 de março de 2013

I am a Wild Woman







I am a Wild Woman
I know, inspite of myself
and in spite of what I've been told
that there's beauty in every age
no matter how old

I am a Wild Woman
I've learned what it means to be a life bearer
to bear children
to create art
to plant seeds of Love

I am a Wild Woman
from the depths of the dirt underneath my fingernails
to the height of my very Soul
I am one with the Earth
the winds from the four directions whisper through my skin

I am a Wild Woman
and the Spirit of every Wild Woman coalesces in me
for we are each Wild Women
and we are all the Spirit of the Wild Woman
I will follow the oVice in my Heart

I am a Wild Woman
I sing from my Heart
I Dance with the Stars
I howl at the Moon
I Love uncontrollably

I am a Wild Woman
from the deepest, darkest, most Sacred part of me
I am fearless
I cry in Strength
I open my arms to the sky and welcome the rain

I am a Wild Woman
I Nurture, Love and Protect
I stand, strongly, silently, sweetly for my brothers
I walk dutifully, prayerfully, joyfully upon the mother
and I will not be stopped

I am a Wild Woman.


Melissa Clary





terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

I am that which






Listen to the words of the Great Mother,
the Mother Goddess,
she who of old has been called Artemis,
Astarte, Dione, Melusine, Cerridwen, Diana
and by many other names:

Hear the words of the Star Goddess, the dust
of whose feet are the hosts of heaven, and 
whose body encircles the universe:

I who am the beauty of the green earth,
and the white moon among the stars,
and the mysteries of the waters,
I call upon your soul to arise and come unto Me.
For I am the soul of nature that gives life to the universe.
From me all things proceed and unto me they must return.

I am the Queen of Magick and the Dark of the Moon, 
hidden in the deepest night. 
I am the mystery of the Otherworlds 
and the fear that coils about your heart 
in the times of your trials. 

I am the soul of nature that gives form to the universe; 
it is I who awaits you at the end of the spiral dance. 

Most ancient among gods and mortals, 
let my worship be within the heart that has truly tasted life, 
for behold all acts of magick and art are my pleasure 
and my greatest ritual is love itself
Therefore let there be beauty in your strength, 
compassion in your wrath, 
power in your humility, 
and discipline balanced through mirth and reverence. 

You who seek to remove my veil and behold my true face, 
know that all your questioning and efforts are for nothing, 
and all your lust and desires shall avail you not at all. 

For unless you know my mystery, 
look wherever you will, it will elude you, 
for it is within you and nowhere else. 

For behold, I have ever been with you, 
from the very beginning, 
the comforting hand that nurtured you in the dawn of life, 
and the loving embrace that awaits you at the end of each life, 
for I am that which is attained at the end of the dance, 
and I am the womb of new beginnings, 
as yet unimagined and unknown.



Jim Garrison





segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

O mar nos olhos






Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os Homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes 
e calma



Sophia de Mello Breyner Andresen







domingo, 24 de fevereiro de 2013

Receita de Casa






Uma casa deve ter varandas para sonhar,
cantos confortáveis para chorar,
salas bonitas para os amigos bem receber,
cantos para os segredos desabafar,
para as confidências, e para o bem amar.

Uma casa precisa um ninho ser,
pois o amor precisa de espaço para crescer,
de alguns empurrões para saltar e voar,
muita liberdade para querer ficar,
alguns espaços para conceber e procriar,
jardins para a alegria plantar.

Uma casa precisa de muito amor,
cuidados para não ter medo de alguém partir,
um pouco de ciúmes para proteger,
amizade para o companheirismo perdurar,
o dom de sempre surpreender,
e enfeitiçar sempre para durar.

Uma casa precisa ser um bom e doce lar,
com muita cumplicidade a esbanjar,
união e somatório para ter sempre o que dar,
família grande para ter a vida sempre a se doar,
um grande amor - lógico - para nos realizar.


Lia Luft





sábado, 23 de fevereiro de 2013

Pastelaria






Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante

Afinal o que importa é não ter medo: 
fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra 


Mário Cesariny




sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Entender uma mulher






Para entender uma mulher
é preciso mais que deitar-se com ela… 
Há que se ter mais sonhos e cartas na mesa
que se possa prever nossa vã pretensão… 

Para possuir uma mulher
é preciso mais do que fazê-la sentir-se em êxtase numa cama, em uma seda,
com toda viril possibilidade… 
Há que conseguir fazê-la sorrir antes do próximo encontro. 

Para conhecer uma mulher,
mais que em seu orgasmo,
tem de ser mais que amante perfeito… 
Há que se ter o jeito certo ao sair,
e fazer da saudade e das lembranças, todo sorriso… 
O potente, o amante, o homem viril, são homens bons…
 bons homens de abraços e passos firmes…
bons homens para se contar histórias… 
Há, porém, o homem certo, de todo instante: O de depois!

Para conquistar uma mulher,
mais que ser este amante,
há que se querer o amanhã, e depois do amor um silêncio de cumplicidade…
e mostrar que o que se quis é menor do que o que não se deve perder.
É esperar amanhecer, e nem lembrar do relógio ou café… 
Há que ser mulher, por um triz e, então, ser feliz!

Para amar uma mulher,
mais que entendê-la,
mais que conhecê-la,
mais que possuí-la,
é preciso honrar a obra de Deus,
e merecer um sorriso escondido,
e também ser possuído e,
 ainda assim,
também ser viril…

Para amar uma mulher,
mais que tentar conquistá-la,
há que ser conquistado…
todo tomado e,
com um pouco de sorte,
também ser amado!


Carlos Drummond de Andrade





quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

BRUXARMS





Metade de mim é fada,
a outra metade é bruxa.
Uma escreve com o sol,
a outra escreve com a lua.
Uma anda pelas ruas
cantarolando baixinho.
A outra caminha de noite,
dando de comer à sua sombra.
Uma é séria, a outra sorri,
uma voa, a outra é pesada.
Uma sonha dormindo,
a outra sonha acordada.
Cabe a você decifrar me ...


Roseana Murray





quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Alma de fada, carma de bruxa num corpo de Deusa






Alma de fada, carma de bruxa num corpo de Deusa.
Tenho sombra felina, quatro patas, garras e pêlos.
E deixo rastros para que me siga...
Sussurro em sonhos noturnos para que me decifre.

Eu encho tua vida de sinais
Para que tenha vontade de encontrá-La, libertá-La e amá-La.
Sou a música, a poesia, a arte e o encanto
O sopro, o tiro, cheiro de cama, Eu de tudo um tanto.

E sou selvagem... Elfa, demônio, anjo, raposa.
E sou a dona da matilha, amante e esposa.
E serei tudo que te dira que estas vivo
quando achar que chegamos ao fim.

Sei sentir, disfarçar e amar profundamente
Sei trazer para perto, repelir, criar e destruir.
A que faz rir, o ponto para fazer o olho brilhar
E o olho Dela brilha...

Dou mais sabor ao culto da paixão...
Porque sou celestial, selvagem, sublime.
Dá mais sentido a vida...
Ser o casulo, as asas, o rumo e a libertação.


Carolina Salcides





terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

TABACARIA



Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chave, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamos-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.



Álvaro de Campos