terça-feira, 19 de março de 2013

No Silêncio Da Noite







No silêncio da noite busco por ti
Incansavelmente
Incessantemente
Procuro por quem me tortura
Quem apenas me invade sentimentos
Provoca-me emoções
Sensações há muito enterradas
Soterradas em memórias
Dolorosas memórias de Alguém
Dores que se esbatem no tempo
Apenas se esfumaçam suavemente
Espaço antes ocupado por dores
Agora, apenas invadido com a tua imagem
Dor dilacerante no corpo
Ardor constante no coração
Sensação de flutuar sobre mim mesmo
Em busca apenas do que nunca tive
Antes esperança, agora certezas
Certezas de ser amado
Certezas do que sempre busquei
Estas longe, sim, partiste assim
Promessas de rápido regresso
Mas como vais regressar para mim
Se nunca sais-te de mim
Como posso encontrar quem nunca saiu de mim
Busco na noite
O teu perfume chega-me na brisa que me envolve
Suave brisa que me acaricia o rosto
Por ela, mando-lhe um beijo meu
Não um beijo, um simples beijo
Mas todo o amor por ti num beijo
Repleto de amor
Soprado por lábios que te esperam
Uma Alma que te deseja
Um coração que chora por ti
Busco por ti na noite….


Carlos L. Fonseca





segunda-feira, 18 de março de 2013

A hora da partida





A hora da partida soa quando
Escurece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.

A hora da partida soa quando
as árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.

Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.


Sofia de Mello Bryener Andresen





domingo, 17 de março de 2013

INVICTUS





Out of the night that covers me,
Black as the pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishment the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.



William Ernest Henley 






sábado, 16 de março de 2013

ESTRELA DA TARDE






Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amor, minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor, eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor, eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram

Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!



José Carlos Ary dos Santos






sexta-feira, 15 de março de 2013

Silabas ternurentas






Existem bocas suculentas
Lábios sedentos, atrevidos e delirantes
Línguas loucas que se enrolam e movem, lentas
Beijos carregados de saliva, quentes e palpitantes

Vozes interiores que cantam, gritam e tragam!

Existem roupas quentes
Vincadas e caídas...que se alagam.

Afagos, recurvados e impulsos
Realidades desfolhadas e permitidas
Sensibilidades nas articulações dos meus dedos e pulsos
Ardores visíveis e perfumados nas minhas garras oferecidas

Existem movimentos de rotação audazes
Salpicos de paixão, suados e quentes
Devaneios em vértice perspicazes
Que se vestem e abrigam sentindo-se carentes 


Sensações que se arqueiam, insaciáveis e interessantes
Aliciantes se descontrolam e elevam…
Melodias cadenciadas que se ouvem, distantes.

Existem ventres que se contraem
Que se enleiam e entram em convulsões no momento
Paisagens infinitas que se constroem
E rios de silabas que rompem em sedução no pensamento.


Telma Estêvão






quinta-feira, 14 de março de 2013

A MÃO





A quem vou dar a mão
quando a força que move o meu corpo
faltar?
Pra quem vou sorrir
quando o espelho da alma
quebrar
matando as lembranças do tempo distante,
a ternura dos beijos esquecidos
no hiato das memórias cansadas?
A quem contarei meus sonhos
de princesa adormecida
num tempo sem idade?
Com quem partilharei
minhas dúvidas, meus momentos azuis?
Pra quem tocarei na minha harpa
a balada mais doce que inventei?
Ah, este vazio imenso, profundo,
maior que o próprio mundo!


Paula Amaro






quarta-feira, 13 de março de 2013

Quero-te devagar…





Quero…
Avançar devagar
E sem receio…
Com o coração
Perfumado e cheio.

Num copo divino
Beber a tua alma ao segundo
E sem destino…
Alimentar o nosso pequeno mundo.

Quero…
Que as tuas palavras descobertas
Cresçam espontâneas
E abertas
Que o sorriso íntimo
Das tuas caricias libertas
Reúnam todos os sentimentos
Dos poetas.

Quero…
Desabrochar a cada instante, na verdade
Cativar a tua alma com entusiasmo e paixão
Enlaçar os meus dedos nus nos teus com vontade
E sentir o que nunca senti nem tive ocasião

Quero…
Libertar a semente
De quem sonha
E nesta ansia louca e delirante
Sentir o lume que palpita, sem vergonha.

Renovar todo o fogo que um dia inventei e perdi.

Quero…
Que os meus lábios, num fogo ateado
Colham o beijo teu, alimentem uma voz…calma
E ao gemerem-te, gritem embriagados
Silaba a silaba, por todo o teu corpo e alma.

Quero…
Tremer, sem cansaço
Anular as pausas e o elástico do silente
Embarcar no encanto que é o teu regaço
E em desalinho ter-te para sempre nem que seja na minha mente.


Telma Estêvão






terça-feira, 12 de março de 2013

NI ÁNGEL NI REBELDE





No arriesgó nada
no practicó la irreverencia
no mordió el sexo del paraíso
no padeció la pesadilla de vivir

no aulló por falta de demonios en el vientre
no enturbió el agua de ninguna academia
no gozó la locura de la realidad
no destruyó su propia fisiología

no reveló lo insensato de la sensatez
no orinó ni escupió ni eyaculó fuera de foco
no hizo de la palabra la enemiga total
no metió ningún dedo en la llaga
de ninguna cosa hizo destino

no tuvo miedo de sí mismo
no metió mundo ni absoluto en sus venas
no arrulló entre sus brazos una bomba ni siquiera pacífica
no tuvo pensamiento ni ademanes
ni colores militantes

no se encamó con el monstruo de sí mismo
no hizo del vacío una utopía
no amó ni para nacer ni para morir
no telefoneó al otro mundo, no arrojó
bocanadas de sangre sobre el orden y el lenguaje.

Fue correcto adecuado municipal y obvio
o sea una buena persona en el peor sentido de la palabra.


Joaquín Giannuzzi 







segunda-feira, 11 de março de 2013

Atritos






 Quando finalmente aceitamos
que somos pequenos, ínfimos,
dada a compreensão da existência
e importância do outro,
e principalmente da grandeza de Deus,
é que finalmente nos tornamos grandes em valor.

Já viu o tamanho do diamante polido, lapidado?
Sabemos quanto se tira
de excesso para chegar ao seu âmago.

É lá que está o verdadeiro valor...
Pois, Deus fez a cada um de nós
com um âmago bem forte
e muito parecido com o diamante bruto,
constituído de muitos elementos,
mas essencialmente de amor.
Deus deu a cada um de nós essa capacidade,
a de amar...
Mas temos que aprender como.

Para chegarmos a esse âmago,
temos que nos permitir,
através dos relacionamentos,
ir desbastando todos os excessos
que nos impedem de usá-lo,
de fazê-lo brilhar

Por muito tempo em minha vida acreditei
que amar significava evitar sentimentos ruins.
Não entendia que ferir e ser ferido,
ter e provocar raiva,
ignorar e ser ignorado
faz parte da construção do aprendizado do amor.

Não compreendia que se aprende a amar
sentindo todos esses sentimentos contraditórios e...
os superando.
Ora, esses sentimentos simplesmente
não ocorrem se não houver envolvimento...

E envolvimento gera atrito.
Minha palavra final: ATRITE-SE!
Não existe outra forma de descobrir o amor.
E sem ele a vida não tem significado."



Roberto Crema





domingo, 10 de março de 2013

EROTICAMENTE TUA…





Acende-se-me a volúpia
num pedaço de conversa,
fruto da mente perversa
e de muitos afectos,
quando os gostos predilectos se juntam.
Mata a vontade, da tua pele
incandescente, na minha!
Lambe-me a palma da mão, de mansinho,
com o olhar cravado no meu,
deliciosa, e provocadoramente sorrindo,
promessa, de tudo o que terei a seguir,
E… Irei contigo? Oh, sim irei, 
sem o encarar, um castigo
mas castigando-me a preceito,
já as tuas mãos o meu peito
se contentam. As nossas línguas se provam,
e as minhas defesas, capitulam
quando nas minhas pernas abertas,
inicias as descobertas, 
dum mundo, em que amiúde mergulhamos, 
quanto tão impregnados, um no outro ficamos
que a definição de amor reinventamos,
e não sei já quem és tu, ou sou eu. 


Maria Fátima Soares




sábado, 9 de março de 2013

Mudanças






Algo está diferente sinto certo desconforto
Superei a raiva, curei a melancolia,
Calei o choro e deixei fluir...
Perdoei, aceitei e renasci.
Vivi novas aventuras
Arrependi e fui feliz em alguns momentos...
Estive morta por anos 
Revi ciclos e mais ciclos
Sou intensa demais e necessito da CURA!
Fiquei em silêncio esperando o tempo passar...
Foi difícil e é difícil manter-se sóbria e sã
Então mergulho na LOUCURA
Sou generosa sem ser boazinha
O cérebro me domina e o corpo grita em dor
Procurei esvaziar os pensamentos
Na entrega do equilíbrio e da sabedoria
E a tristeza e os pensamentos insistem e persistem...
Preciso superar metas
Ter relacionamentos estáveis
Estar sempre rodeadas de amigos
Para sentir a vida e a tal da felicidade
E de uma hora para outra aprendi!
Com muito esforço eu aprendi!
Aprendi que só me realizo
Quando suporto a solidão e me perdoo.
Quando PRECISO DE NADA para me sentir feliz e especial...
A felicidade só depende de mim; EXCLUSIVAMENTE de mim!
Me vejo como uma lâmpada 
De uma varanda de praia
De vez e sempre preciso limpar a maresia
E quando conscientizo
Do meu desconforto emocional
Cresço e transcendo
Escuto as vozes do coração
Para me colocar para cima
Me amar e sentir orgulho 
Por tudo que construí
Vivo com Fé e GARRA
Na certeza que tudo esta bem
No seu devido tempo
Solto um sorriso e....
ESCOLHO SER FELIZ!


Lucileyma Rocha Louzada Carazza





sexta-feira, 8 de março de 2013

Anúncio de entardecer






Procura-se um sonho.
Ele andou fatiado de medos,
Iludiu-se, imiscuiu-se,
E chegou a flertar com a utopia.

Quem o encontrar,
Diz a ele que o perdoo por tudo.
Que o meu peito, em cicatrizes,
É hoje até mais bonito que antes.

Que aprendi que a força se desdobra
Em indizíveis fraquezas.
E que enquanto ainda chorava de inércia
Meus olhos colheram do sol
A força de desabrochar o meu mundo.

Diz que a solidão me consome os espaços.
E a vizinhança inteira me ouviu a gritar por seu nome.
Diz que sangro a sua ausência
E os seus silêncios me transbordam.
Diz ao meu sonho que ele venceu.
A minh' alma não se vendeu.


Nara Rúbia Ribeiro





quinta-feira, 7 de março de 2013

Ai como eu queria


Ai como eu queria
Mergulhar-te em bebedeiras de ternura
Tecer os teus cabelos um a um
Ligar os nossos corpos numa jura.

Ai como eu queria
Fazer da nossa cama um sol escaldante
Fundir as luzes todas da cidade
E ser em cada esquina tua amante.

Ai como eu queria
Nadar, nadar nas ondas do teu corpo
Ter um navio de esperança à nossa espera
Fazer amor contigo em cada porto.

Ai como eu queria
Encharcar-te nos meus beijos docemente
Regar a tua pele
E pela manhã, deixar em cada poro uma semente.

Ai como eu queria
Espreguiçar-me em gestos ternos de criança
Viver em fantasia alegremente
Poder, ora ser fera, ora ser mansa.

Ai como eu queria
saber o que de mim já te entreguei
Ouvir-te desfiar os meus segredos
Escutar o que de mim eu já não sei.


Ana Zanatti





quarta-feira, 6 de março de 2013

Aprender a Viver






O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver.


Cora Coralina





terça-feira, 5 de março de 2013

Imagine a Woman II






Imagine a woman who is interested in her own life.
A woman who embraces her life as teacher, healer, and challenge.
Who is grateful for the ordinary moments of beauty and grace.

Imagine a woman who participates in her own life.
A woman who meets each challenge with creativity.
Who takes action on her own behalf with clarity and strength.

Imagine a woman who has crafted a fully-formed solitude.
A woman who is available to herself.
Who chooses friends and lovers with the capacity to respect her solitude.

Imagine a woman who acknowledges the full range of human emotion.
A woman who expresses her feelings clearly and directly.
Who allows them to pass through her as naturally as the breath.

Imagine a woman who tells the truth.
A woman who trusts her experience of the world and expresses it.
Who refuses to defer to the perceptions, thoughts, and responses of others.

Imagine a woman who follows her creative impulses.
A woman who produces original creations.
Who refuses to color inside someone else's lines.

Imagine a woman who has relinquished the desire for intellectual approval.
A woman who makes a powerful statement with every action she takes.
Who asserts to herself the right to reorder the world.

Imagine a woman who has grown in knowledge and love of herself.
A woman who has vowed faithfulness to her own life.
Who remains loyal to herself. Regardless.

Imagine yourself as this woman.


Patricia Lynn Reilly 






segunda-feira, 4 de março de 2013

Imagine A Woman





Imagine a woman 
who believes it is right and good she is woman.
A woman who honors her experience and tells her stories.
Who refuses to carry the sins of others within her body and life.

Imagine a woman
who believes she is good.
A woman who trusts and respects herself.
Who listens to her needs and desires and meets them with tenderness and grace.

Imagine a woman 
who has acknowledged the past's influence on the present.
A woman who has walked through her past.  
Who has healed into the present.

Imagine a woman
who authors her own life.
A woman who exerts, initiates, and moves on her own behalf.
Who refuses to surrender except to her truest self and to her wisest voice.

Imagine a woman
who names her own gods.
A woman who imagines the divine in her image and likeness.
Who designs her own spirituality and allows it to inform her daily life.

Imagine a woman
in love with her own body.
A woman who believes her body is enough, just as it is.
Who celebrates her body and its rhythms and cycles as an exquisite resource.

Imagine a woman
who honors the face of the Goddess in her changing face.
A woman who celebrates the accumulation of her years and her wisdom.
Who refuses to use her precious life energy disguising the changes in her body and life.

Imagine a woman
who values the women in her life.
A woman who sits in circles of women.
Who is reminded of the truth about herself when she forgets.

Imagine yourself as this woman. 



Patricia Lynn Reilly





domingo, 3 de março de 2013

O RETORNO DE INANNA






Quando o minha última dama chegar
Vai me encontrar alerta
Armada de mil argumentos
Disposta a não mais amar...
A porta semi-aberta
Mas com placa de 'Não Perturbar'.
Vai fazer uma reverência lenta
Respeitando as dores do meu coração
Mas vai ignorar o aviso
E usando como chave um sorriso
Invadir meu jardim
E fechar por dentro o portão.
Vai espreitar pela janela
Uma leve batida para não me assustar
Vai sentar-se à varanda
E perder-se a me olhar.
Vai fazer-se de 'velho amigo'
Embaralhar suas memórias, como se fossem comigo
Aceitar um café e oferecer-se para ir buscar.
Quando minha última dona chegar
Aquecendo a vida entre os dedos
Perguntando porquê antes de nós
Passaram-se tantos dias assim
Vai roubar para ela meus segredos
E entregar os dela pra mim.
Vamos falar primeiro das flores,
Da época de poda do roseiral
Dos espinhos, passaremos às dores
E entre impossíveis e risíveis amores
Ela vai me contar das afrontas
Das mulheres que se diziam prontas...
Mas que a vida tratou de medrar.
Vai me falar em especial sobre uma delas
Aqueles casos que não têm porquê acabar
Talvez só para eu ficar sabendo
Que o coração que agora me cabe
Já foi capaz de muito amar...
Vai respeitar meu silêncio enquanto penso
No que ela pode ser melhor que eu
E antes que eu me desmereça
Vai pousar um olhar no meu medo
Pintar nos meus olhos um futuro distante
Fazer-se una, até perder de vista
Até fazer sumir do foco
Todos os que já vieram antes, pois :
- Em cada amor, meu amor, as coisas são diferentes.
E em meio a ervas daninhas
Vai arrancar lágrimas que eram só minhas
Mas que ela promete nunca mais deixar brotar.
Quando minha última Amazona chegar
Vai me embalar nas suas histórias
Vai puxar pra perto minha cadeira
E feita criado-mudo na cabeceira
Me dar seus sonhos pra eu guardar.
Vai trazer no bolso uma flor
Dessas do campo, que se dá sem ninguém cuidar
Emaranhá-la nos meus cachos
Chegar perto para um cheiro
E inundar-me os ouvidos com seus passos
Dizer - Porque sim, isto de amor
Acho que não tem que explicar.
Antes que minha última rainha me beije
Fará das palavras dedos longos
A percorrer-me os contornos
Eriçar-me os entornos
Pedindo para eu nada dizer.
Quando esta 'Mulher' tomar-me as mãos entre as suas
Eu vou esquecer o cansaço
De ter estado à procurar
E por todos os outros rostos que beijei
Por todos os prazeres que lhes dei
Só vou me sentir agradecida
Por nada terem feito
A não ser me preparar.
Minha última Chama terá assim um olhar
Daqueles que eu não consigo desviar
Rirá de mim, por mim, comigo, de si
Encherá meu mundo de um riso sem motivo
Estas coisas bobas de tão boas
Que fica só entre os amantes
E ninguém tem coragem de contar.
Esse meu último Dharma
Trará velas e incensos
E perguntará que disco eu tenho, pra combinar
Encherá o ar de suspiros amiúde
Dançará comigo, instigando meu querer urgente
Deixando o corpo afastado e rente
A brincar com meu desejo
No anti-clímax de me entregar.
E só então vai me dar um beijo
Lento, longo, possesso, posseiro
E daí pra frente eu não responderei por mim...
Só lembrarei ela fazendo um carinho
Apertando meu biquinho
Colocando a mão pra esquentar.
Minha última Mãe,
Não me dará direito a frescores
Manterá em brasa meus pudores
Vai me enlouquecer, fazer pedir, gritar.
Quando esta 'Alma' me despir
Contemplará minhas imperfeições
Achando as coisas mais lindas de se olhar
Brincará com meu corpo nu...
Mandará buscar nos meus sonhos infantis
As fábulas, os contos, os encantos
E todos os sonhos a que faço jus.
O que este Imã quer de mim?
É a centelha,
Menina faceira
Cabocla trigueira
Gueixa submissa
Dama da corte
Fêmea felina
Fera assassina,
Dançarina única do harém,
Maestrina da Noite...
Imponente no açoite,
Potente na Carne e na Fonte...
Com a fronte erguida o fogo consome...
Faria tudo novamente se possível...
Toquei e vi o invisível...
Arranquei o véu...
E vi a face ardor do fogo no céu!
E o que eu mais quero?
É em mim, o que ela quer também:
Eu sempre junto à ela, como sua única e última 'Phi-lha'.
Imagem à Semelhança.
Jamais rastejem. 


V.S. Fergunson
in, "O retorno de Inanna"
Os Deuses Ancestrais e a Evolução do Planeta terra






sábado, 2 de março de 2013

Amar





Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.


Carlos Drummond de Andrade





sexta-feira, 1 de março de 2013

I am a Wild Woman







I am a Wild Woman
I know, inspite of myself
and in spite of what I've been told
that there's beauty in every age
no matter how old

I am a Wild Woman
I've learned what it means to be a life bearer
to bear children
to create art
to plant seeds of Love

I am a Wild Woman
from the depths of the dirt underneath my fingernails
to the height of my very Soul
I am one with the Earth
the winds from the four directions whisper through my skin

I am a Wild Woman
and the Spirit of every Wild Woman coalesces in me
for we are each Wild Women
and we are all the Spirit of the Wild Woman
I will follow the oVice in my Heart

I am a Wild Woman
I sing from my Heart
I Dance with the Stars
I howl at the Moon
I Love uncontrollably

I am a Wild Woman
from the deepest, darkest, most Sacred part of me
I am fearless
I cry in Strength
I open my arms to the sky and welcome the rain

I am a Wild Woman
I Nurture, Love and Protect
I stand, strongly, silently, sweetly for my brothers
I walk dutifully, prayerfully, joyfully upon the mother
and I will not be stopped

I am a Wild Woman.


Melissa Clary