quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Eu sou mais do que digo que sou






Sempre a ver as coisas divididas entre o bem e o mal
Sem perceber que no equilíbrio está uma regra universal
Eu vou à bruxa para tentar descodificar
Aquilo que o destino a mim afinal me vai reservar

Mas há uma coisa no meio disto tudo que eu me estou a esquecer
Onde é que fica aquela parte em que vou reclamar o poder
Para mudar aquilo que está ao meu alcance fazer (mudar)
Mas se eu disser isto à bruxa ela não vai perceber

Porque eu...

Eu sou mais do que digo que sou
Eu continuo quando tudo acabou
Eu vou dizer para todo o mundo entender
Que o nosso destino é viver
Independentemente da forma que acontecer

E anda todo o mundo no modo de sobreviver
Só pensando em satisfazer o seu próprio prazer
E sempre à espera de atrair milhões sem dar um centavo
Mas onde o medo em ser livre provoca orgulho em ser escravo

E eu sempre a por as culpas todas para fora de mim
Não assumindo as responsabilidades até ao fim
Pelo menos aquelas que a mim me compete pagar
É que são precisos sempre dois para o tango dançar

Mas eu sou...

Eu sou mais do que digo que sou
Eu continuo quando tudo acabou
Eu vou dizer para todo o mundo entender
Que o nosso destino é viver
Independentemente da forma que acontecer

E o problema é a pessoa não escutar antes de falar
Antes ou depois é igual, o importante é olhar
para ti, pois veres-te reflectido
É um problema fodido
É que a certeza de encontrares um estranho do lado de lá
Faz com que o medo que tu sentes todo do lado de cá
Te paralise
E naquilo a que eu chamo um deslize
Mandas para o ar
A dizer que eu não posso, não devo e que não é bom passar!

E como podes tu dizer que eu não posso, não passo
Se eu digo posso se quiser e se quiser é o que eu faço
Pois ser genuíno para mim é negócio prefeito
Eu amo e vivo e tu a mim só me exiges respeito
Como se honrasses algo vivo que trouxesses no peito
Por isso eu corto a direito
Torno-me exímio no auto-respeito
E se o teu julgamento for o preço da verdade
Eu compro a liberdade
E tu, julga à vontade!


Pedro Jeremias






sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Te Amo



Te amo de uma manera inexplicable
De una forma inconfesable
De un modo contradictorio

Te amo

Con mis estados de ánimo que son muchos
Y cambian de humor continuamente
Por lo que ya sabes,

El tiempo
La vida
La muerte

Te amo

Con el mundo que no entiendo
Con la gente que no compreende
Con la ambivalencia de mi alma
Con la incoherencia de mis actos
Con la fatalidad del destino
Con la conspiración del desejo
Con la ambigüedad de los hechos

Aún cuando te digo que no te amo, te amo
Hasta cuando te engaño, no te engaño
En el fondo, ilevo a cabo un plan
Para amarte mejor

Te amo.

Sin reflexionar, inconscientemente,
irresponsablemente, involuntariamente,
por instinto
por impulso, iracionalmente
En afecto no tengo argumentos lógicos
ni siquiera improvisados
Para fundamentar este amor que siento por ti,
que surgió misteriosamente de la nada,
Que no ha resuelto mágicamente nada
Y que milagrosamente, de a poco, con poco ya nada
Ha mejorado lo peor de mi

Te amo.

Te amo con un cuerpo que no piensa
Con un corazón que no razona,
Con una cabeza que no coordina

Te amo

incomprensiblemente
Sin preguntarme por qué te amo
Sin importarme por qué te amo
Sin cuestionarme por qué te amo

Te amo

sencillamente porque te amo
Yo mismo no se por qué te amo



Gian Franco Pagliaro







quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Me gustas cuando callas






Me gustas cuando callas porque estás como ausente,
y me oyes desde lejos, y mi voz no te toca.
Parece que los ojos se te hubieran volado
y parece que un beso te cerrara la boca.

Como todas las cosas están llenas de mi alma
emerges de las cosas, llena del alma mía.
Mariposa de sueño, te pareces a mi alma, 
y te pareces a la palabra melancolía.

Me gustas cuando callas y estás como distante.
Y estás como quejándote, mariposa en arrullo.
Y me oyes desde lejos, y mi voz no te alcanza:
déjame que me calle con el silencio tuyo.

Déjame que te hable también con tu silencio
claro como una lámpara, simple como un anillo.
Eres como la noche, callada y constelada.
Tu silencio es de estrella, tan lejano y sencillo.

Me gustas cuando callas porque estás como ausente.
Distante y dolorosa como si hubieras muerto.
Una palabra entonces, una sonrisa bastan.
Y estoy alegre, alegre de que no sea cierto.


Pablo Neruda





sábado, 29 de novembro de 2014

Dentro da vida







Não estamos preparados para nada:
certamente que não para viver
Dentro da vida vamos escolher
o erro certo ou a certeza errada
Que nos redime dessa magoada
agitação do amor em que prazer
nem sempre é o que fica de querer
ser o amador e ser a coisa amada?
Porque ninguém nos salva de não ser
também de ser já nada nos resgata
Não estamos preparados para o nada:
certamente que não para morrer.


Luis Maffei





sábado, 15 de novembro de 2014

Vamos ser velhos...






Vamos ser velhos ao sol nos degraus
da casa; abrir a porta empenada de
tantos Invernos e ver o frio soçobrar
no carvão das ruas; espreitar a horta
que o vizinho anda a tricotar e o vento
lhe desmancha de pirraça; deixar a

chaleira negra em redor do fogão para
um chá que nunca sabemos quando
será – porque a vida dos velhos é curta,
mas imensa; dizer as mesmas coisas
muitas vezes – por sermos velhos e por
serem verdade. Eu não quero ser velha

sozinha, mesmo ao sol, nem quero que
sejas velho com mais ninguém. Vamos
ser velhos juntos nos degraus da casa –

se a chaleira apitar, sossega, vou lá eu; não
atravesses a rua por uma sombra amiga,
trago-te o chá e um chapéu quando voltar.


Maria do Rosário Pedreira





terça-feira, 11 de novembro de 2014

O meu direito à diferença, num mundo cada vez mais igual





Não me espartilhes em comemorações vazias
pequenas cedências da tua masculinidade intocável
um par de calças condescendido por saberes que todos
os outros nos armários serão inequivocamente teus

não me chames «mulher» como se fosse um insulto,
sintoma de doença nervosa, quando pensas em segredo
que «as mulheres permaneçam caladas» onde quer que
seja o seu mundo – novo ou antigo, doméstico ou laboral

não me endeuses, não me pendures nas paredes,
nem me assentes em pedestais – sossegada, quieta,
inofensiva, agradável à vista dos teus amigos que fumam
charutos e bebem uísques com sabor a misoginia

não me dês flores nem atenções vazias em dias
marcados no calendário, como se fossem pílulas
douradas da prescrição masculina contra a histeria,
suplemento vitamínico do sexo fraco

dá-me anos inteiros para ser a mulher que sou eu,
as mesmas oportunidades, as mesmas lutas,
a mesma retribuição pelo meu trabalho,
o meu direito à diferença, num mundo cada vez mais igual.


Carla Pinto Coelho





sábado, 1 de novembro de 2014

A Demora



O amor nos condena: 
demoras 
mesmo quando chegas antes. 
Porque não é no tempo que eu te espero.
Espero-te antes de haver vida 
e és tu quem faz nascer os dias.
Quando chegas 
já não sou senão saudade 
e as flores 
tombam-me dos braços 
para dar cor ao chão em que te ergues.
Perdido o lugar 
em que te aguardo, 
só me resta água no lábio 
para aplacar a tua sede.
Envelhecida a palavra, 
tomo a lua por minha boca 
e a noite, já sem voz 
se vai despindo em ti.
O teu vestido tomba 
e é uma nuvem. 
O teu corpo se deita no meu, 
um rio se vai aguando até ser mar.


Mia Couto
in, " idades cidades divindades"





quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Os livros





Os livros estão sempre sós. 
Como nós. 
Sofrem o terrível impacto do presente. 
Como nós. 
Têm o dom de consolar, divertir, ferir, queimar. 
Como nós. 
Calam sua fúria com sua farsa. 
Como nós. 
Têm fachadas lisas ou não. 
Como nós. 
Formosas, delirantes, horrorosas. 
Como nós. 
Estão ali sendo entretanto. 
Como nós. 
No limiar do esquecimento. 
Como nós. 
Cheios de submissão ao serviço do impossível. 
Como nós. 


Ana Hatherly





quarta-feira, 17 de setembro de 2014

If you want






If you want to 'feel good' all the time, 
please, forget about waking up.
If you want to wake up, 
if you long for the raw truth of existence, 
please, prepare for your status quos to shatter.
Prepare for heartbreak, the devastation of dreams.
Everything you know about yourself
will be smashed into a million pieces.
Prepare to allow an unimaginable sorrow, 
the sorrow of distant universes,
to move through you, to penetrate your very core.
And prepare for joys so unbearable 
you'll wonder why your heart hasn't exploded.
Prepare for love to drain your tear ducts.
Prepare to fall on your knees time and time again,
in awe, in horror, in gratitude, in the deepest calm.
Prepare to never be prepared.
If you want to 'feel good' all the time, 
if you want pleasure without pain, joy without sorrow,
light without night, a 'feel-good' spirituality,
please, I beg you:
Turn back. 
Turn back, right now!


Jeff Foster





segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Sou Lúcido






Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa 
Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara, 
Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele; 
E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha
(Exceto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro: 
Não sou parvo nem romancista russo, aplicado, 
E romantismo, sim, mas devagar...). 

Sinto uma simpatia por essa gente toda, 
Sobretudo quando não merece simpatia. 
Sim, eu sou também vadio e pedinte, 
E sou-o também por minha culpa. 
Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte: 
É estar ao lado da escala social, 
É não ser adaptável às normas da vida, 
'As normas reais ou sentimentais da vida - 
Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta, 
Não ser pobre a valer, operário explorado, 
Não ser doente de uma doença incurável, 
Não ser sedento da justiça, ou capitão de cavalaria, 
Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas 
Que se fartam de letras porque tem razão para chorar lagrimas, 
E se revoltam contra a vida social porque tem razão para isso supor. 

Não: tudo menos ter razão! 
Tudo menos importar-se com a humanidade! 
Tudo menos ceder ao humanitarismo! 
De que serve uma sensação se ha uma razão exterior a ela? 

Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou, 
Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente: 
É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio, 
É ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte. 

Tudo o mais é estúpido como um Dostoiewski ou um Gorki. 
Tudo o mais é ter fome ou não ter o que vestir. 
E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente 
Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece. 

Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato, 
E estou-me rebolando numa grande caridade por mim. 

Coitado do Álvaro de Campos! 
Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações! 
Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia! 
Coitado dele, que com lagrimas (autenticas) nos olhos, 
Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita, 
Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha pouco 
Aquele pobre que não era pobre que tinha olhos tristes por profissão. 

Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa! 
Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo! 

E, sim, coitado dele! 
Mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam, 
Que são pedintes e pedem, 
Porque a alma humana é um abismo. 

Eu é que sei. Coitado dele! 
Que bom poder-me revoltar num comício dentro de minha alma! 

Mas até nem parvo sou! 
Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais. 
Não tenho, mesmo, defesa nenhuma: sou lúcido. 

Não me queiram converter a convicção: sou lúcido! 

Já disse: sou lúcido. 
Nada de estéticas com coração: sou lúcido. 
Merda! Sou lúcido. 


Álvaro de Campos
in, "Poemas" 





quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Cancioneiro





Tenho tanto sentimento 
Que é frequente persuadir-me 
De que sou sentimental, 
Mas reconheço, ao medir-me, 
Que tudo isso é pensamento, 
Que não senti afinal. 

Temos, todos que vivemos, 
Uma vida que é vivida 
E outra vida que é pensada, 
E a única vida que temos 
É essa que é dividida 
Entre a verdadeira e a errada. 

Qual porém é a verdadeira 
E qual errada, ninguém 
Nos saberá explicar; 
E vivemos de maneira 
Que a vida que a gente tem 
É a que tem que pensar. 


Fernando Pessoa 
in, "Cancioneiro"





terça-feira, 9 de setembro de 2014

Tenho medo





Às vezes tenho medo, muito medo.
Às vezes sofro.
Às vezes, penso nas pessoas que amo e penso na
possibilidade de as perder.
Às vezes vejo alguém doente e fico incomodado.
Pode não ser um amigo ou familiar.
Posso estar a vê-lo pela primeira vez.
Mas fico incomodado.
Aquela doença pertence-me. 
Todas as doenças pertencem a toda a gente.
Todos os sofrimentos pertencem a toda a gente.
Todas as mortes pertencem um pouco a toda a gente.
Às vezes sinto isso muito,
outras vezes sinto menos.
Quando sinto menos posso preocupar-me com o mundo,
brincar com a poesia,
com a filosofia e com as palavras.
Mas quando sinto, deixo de conseguir pensar.
Quando sofro ou sinto o que alguém sofre, deixo mesmo
de querer ser inteligente.
Se estivermos cheios a sentir, não temos espaço para pensar.
Não fazem sentido as lógicas,
as filosofias,
as discussões.
Todo o nosso corpo sente.
E o que resta? Nada.
Só existe aquela morte, aquela doença, aquela velhice.
Só aquele pai que amo e está a envelhecer. Só aquela mãe
que amo e está a envelhecer.
Só aquele amigo que morreu num estúpido acidente.
Só aquele amigo que se tornou amargo
porque a mulher o deixou.
Só o amor e a falta de amor.
As mulheres que nos enganam e as mulheres que são enganadas,
as mulheres e os homens que enganam.
Os amigos que deixam de o ser,
alguns inimigos que morrem, e temos pena.
Que importa o resto?
Onde está o livro importante?
O filme que resolve?
Podemos chorar à frente de um quadro, mas não resolve nada.
Podemos pintar um quadro, escrever um poema, mostrar às
mulheres bonitas como somos bonitos, exibir o nosso corpo,
mas que adianta?
Estamos sozinhos.
Se não estamos, vamos estar.
Os amigos vão-nos deixando, vão-nos deixar.
Vão morrer ou nós vamos morrer.
Ou então deixam de nos telefonar, ou então deixamos de
lhes querer telefonar.
Estamos sozinhos. As pessoas que amo vão morrer.
Os livros não resolvem nada. A poesia é bonita e por vezes
descansa, acalma, mas não resolve nada, não resolve nada.
Somos artistas ou não somos, e qualquer coisa que seja não
adianta nada e nada impede.
Escrevemos poemas, mas não ajudam ninguém.
Escrevemos peças de teatro, sorrimos, tentamos pensar,
tentamos ter ideias, tentamos distrair as pessoas, tentamos
fazer pensar as pessoas, tentamos fazer chorar as pessoas, e
isso é bom, e até pode ser bonito, mas não adianta nada,
não resolve nada,
não adianta nada.


Gonçalo M. Tavares 
in, "Um homem ou é mulher"





quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Não sou...






Não sei a mulher que sou, 
mas sei a mulher que não sou.

Não sou a mulher que se esconde nos tachos, 
a mulher que se cala nas horas, 
que se entrega ao embuste da segurança, 
à fraude suportável de ver passar o tempo. 
Não. Não sou.

Não sou a mulher do fado e das lágrimas, 
a mulher do enfado e das rotinas, 
dos sonhos que se arrastam pelas esquinas. 
Não. Não sou.

Não sou mulher de sorrisos quando existe a gargalhada, 
de aldeias quando existe o mundo.

Não sou nem um milímetro menos do que aquilo que posso ser, 
e se um dia cair, 
foi porque tentei saltar, 
e não porque preferi aceitar.


Pedro chagas Freitas





quinta-feira, 28 de agosto de 2014

És a melhor maneira de viver





És a melhor maneira de viver. 
Podia dizer-te que te quero por tudo o que és. 
Mas estaria a mentir. 
Quero-te por tudo o que sou contigo. 
Quero-te pelo que sou. 
Porque me sinto, em ti, a pessoa que quero ser. 
És a minha melhor maneira de viver. 
Quero-te por egoísmo. 
É isso. 
Quero-te por egoísmo. 
Espero que me queiras pelo mesmo motivo.


in, "Prometo falhar" 
Pedro Chagas Freitas




quarta-feira, 2 de julho de 2014

Recuerda en tu vientre






"Soy hija de un pasado de mujeres que encendieron el fuego
Que regaron la tierra con su sangre
Que parieron con placer y nutrieron con sus tetas
Soy hija de los hombres que honraban el vientre de mis abuelas
Y nos sabían serpientes, lobas, hermosas

Soy hija de las mujeres-bosque
Que corrían desnudas por la tierra mojada
Y mojaban sus vientres con ella
Soy hija de las mujeres-madre
Que amaban a los árboles como a sus hij@s
Y ofrecían su cuerpo como alimento

Soy la mujer que recuerda
Soy la mujer que corre desnuda por el bosque
La loba
La que se arranca la ropa
Y se da cuenta de que también respira por el coño
Y por los brazos
Y por los pies
Y por el pecho
Y que la ropa es la red, la trampa!

Soy la que sabe que la tierra cura
Y abre las piernas y se cura con ella
Ungüento sagrado

Mujer sagrada

Mujer de luz
Mujer de sombra

Diosa de la muerte y de la vida

Que lleva en su vientre el recuerdo

Recuerda en tu vientre, mujer
Recuerda en tu vientre
Recuerda en tu vientre

Y enciende la hoguera"





domingo, 29 de junho de 2014

you are welcome to elsinore





Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mão e as paredes de Elsinore

E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar


Mário Cesariny
in, Uma Grande Razão






sexta-feira, 27 de junho de 2014

Nomina Nuda





Maldita sea tu ingenuidad y la mía,
maldito el amor de los libros y del cine,
y ese momento de dicha
cuando todos creemos que aquello existe.
Olvídalo porque es mentira,
lo oirás en canciones antiguas, en boleros
que ponen la tarde amarilla y ociosa.

Ya ves que nos han mentido en todo,
que no hay nada bajo los nombres,
y el sonido amor vuela extraño
sobre nosotros
y parece un labio negro
como los hombros de un pájaro lejano.

Ya ves que es mentira el amor,
bautizo falso y doloroso,
que sólo existe un descuido y una red
y un océano finito de placeres,
pero el amor, ya lo ves,
es únicamente su nombre.

**

No sé llegar a tu casa perdida,
a tu casa enredada en las antenas
como un jirón olvidado y miserable.

No sé llegar a tu patio ni a tu vida,
a tu vida de puzzles y palmeras,
a tu patio de lata y de corazas.

No sé llegar desde mi vida hasta tu barrio,
tu barrio hinchado de perguntas,
mi vida extraña sin respuestas.
y sin embargo llegaré. Porque me llamas



Belén Sánchez
in, El Amor y sus Ciudades- 30 poemas de amor 





quarta-feira, 11 de junho de 2014

The New Macho





He cleans up after himself.
He cleans up the planet.
He is a role model for young men.
He is rigorously honest and fiercely optimistic.

He holds himself accountable.
He knows what he feels.
He knows how to cry and he lets it go.
He knows how to rage without hurting others.
He knows how to fear and how to keep moving.
He seeks self-mastery.

He has let go of childish shame.
He feels guilty when he's done something wrong.
He is kind to men, kind to women, kind to children.
He teaches others how to be kind.
He says he's sorry.

He stopped blaming women or his parents or men for his pain years ago.
He stopped letting his defenses ruin his relationships.
He stopped letting his penis run his life.
He has enough self-respect to tell the truth.
He creates intimacy and trust with his actions.
He has men that he trusts and that he turns to for support.
He knows how to roll with it.
He knows how to make it happen.
He is disciplined when he needs to be.
He is flexible when he needs to be.
He knows how to listen from the core of his being.

He's not afraid to get dirty.
He's ready to confront his own limitations.
He has high expectations for himself and for those he connects with.
He looks for ways to serve others.
He knows he is an individual.
He knows that we are all one.
He knows he is an animal and a part of nature.
He knows his spirit and his connection to something greater.

He knows that the future generations are watching his actions.
He builds communities where people are respected and valued.
He takes responsibility for himself and is also willing to be his brother's keeper.

He knows his higher purpose.
He loves with fierceness.
He laughs with abandon, because he gets the joke.


The ManKind Project





segunda-feira, 9 de junho de 2014

Julgava que te tinha dito adeus





Julgava que te tinha dito adeus,
um adeus contundente, ao deitar-me,
quando pude por fim fechar os olhos,
esquecer-me de ti, dessas argúcias,
dessa tua insistência, teu mau génio,
tua capacidade de anular-me.
Julgava que te tinha dito adeus
de todo e para sempre, mas acordo,
encontro-te de novo junto a mim,
dentro de mim, rodeias-me, a meu lado,
invades-me, afogas-me, diante
dos meus olhos, em frente à minha vida,
por sob a minha sombra, nas entranhas,
em cada golpe do meu sangue, entras
por meu nariz quando respiro, vês
pelas minhas pupilas, lanças fogo
nas palavras que minha boca diz.
E agora que faço?, como posso
desterrar-te de mim ou adaptar-me
a conviver contigo? Principie-se
por demonstrar maneiras impecáveis.
Bom dia, tristeza.


Amalia Bautista





quarta-feira, 4 de junho de 2014

Era preciso ir buscar-te aos lugares mais secretos






Aqui deste lado não poderias ser quem eras, quem serias. 
Fugiste de um mundo pequenino, de uma asfixia. 
Agora de ti nada sei: de que te alimentas, quem amas, onde dormes. 
Nem desejo saber. 
Basta-me lembrar-te como quem relembra uma música. 
Eu quis-te com uma violência que desconhecia. 
Tu levaste-me para paragens inóspitas, repletas de perigos. 
Por ti senti pavor. 
Por ti senti raiva. 
Por ti senti desespero. 
Entre nós havia sempre uma impossibilidade, um vazio. 
Tu eras em tudo um bicho indomável. 
Nunca te oferecias. 
Era preciso ir buscar-te aos lugares mais secretos.


Pedro Paixão





terça-feira, 3 de junho de 2014

Não tenho planos






Não tenho planos, nem promessas, nem
filhos que nos convidem para almoços
de domingo - a minha ideia de família
resume-se a um retrato velho preso numa
gaveta; e do amor possível sei tão-só

o que li nos romances que me salvaram
da desordem quando o meu tempo
andava de ferida em cicatriz. Mas guardo
ainda muitos por estrear para essa estante

que ergueste no corredor como uma casa
nova. E trago as portas abertas no coração:

se ainda não sabias, és muito bem-vindo.


Maria do Rosário Pedreira






sexta-feira, 25 de abril de 2014

Não posso desesperar da humanidade






Não posso desesperar da humanidade. E como
Eu gostaria de! Mas como não posso
Pensar que há povos maus, há maus costumes?
A América é detestável. Mas deu - americanos - 
Walt Whitman e Emily Dickson. Posso
não confiar neles? A Rússia é
detestável. Mas Tolstoi é tão russo!
São máus os japoneses? Como podem
sê-lo, se têm Kurosowa e o sr. Roberto
que me vendia hortaliças lá no Brasil?
E o meu Brasil tão infeliz amor, e tão
ridículo? Mas não são brasileiros Euclides 
e o coração dos meus amigos? E
Portugal, como pode ser mau e detestável,
se mesmo eu que amo sobretudo o vário mundo,
o amo - ao mundo - como português?
A humanidade e as patrias são uma chatice, eu sei.
Mas como desesperar delas, desde que
não sejam para mim o gesto ou as sardinhas,
o feijão ou o sirloin, ou a terrível capa
dos usos e dos costumes, da vaidade,
mas uma forma de ser-se humano e solitário
Acompanhadamente?


In, 40 ANOS DE SERVIDÃO 
- JORGE DE SENA
1965






Portugal





(...) 
Torpe dejecto de romano império; 
babugem de invasões; salsugem porca 
de esgoto atlântico: irrisória face 
de lama, de cobiça, e de vileza, 
de mesquinhez, de fátua ignorância; 
terra de escravos, cu pro ar ouvindo 
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto; 
terra de funcionários e de prostitutas, 
devotos do milagre, castos 
na hora vaga da doença oculta: 
terra de heróis a peso de ouro e sangue, 
e santos com balcão de secos e molhados 
no fundo da virtude; terra triste, 
à luz do sol caiada, arrebicada, pulha, 
cheia de afáveis para os estrangeiros 
que deixam moedas e transportam pulgas... 
(...) 


Jorge de Sena 
in, QUARENTA ANOS DE SERVIDÃO