domingo, 29 de junho de 2014

you are welcome to elsinore





Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mão e as paredes de Elsinore

E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar


Mário Cesariny
in, Uma Grande Razão






sexta-feira, 27 de junho de 2014

Nomina Nuda





Maldita sea tu ingenuidad y la mía,
maldito el amor de los libros y del cine,
y ese momento de dicha
cuando todos creemos que aquello existe.
Olvídalo porque es mentira,
lo oirás en canciones antiguas, en boleros
que ponen la tarde amarilla y ociosa.

Ya ves que nos han mentido en todo,
que no hay nada bajo los nombres,
y el sonido amor vuela extraño
sobre nosotros
y parece un labio negro
como los hombros de un pájaro lejano.

Ya ves que es mentira el amor,
bautizo falso y doloroso,
que sólo existe un descuido y una red
y un océano finito de placeres,
pero el amor, ya lo ves,
es únicamente su nombre.

**

No sé llegar a tu casa perdida,
a tu casa enredada en las antenas
como un jirón olvidado y miserable.

No sé llegar a tu patio ni a tu vida,
a tu vida de puzzles y palmeras,
a tu patio de lata y de corazas.

No sé llegar desde mi vida hasta tu barrio,
tu barrio hinchado de perguntas,
mi vida extraña sin respuestas.
y sin embargo llegaré. Porque me llamas



Belén Sánchez
in, El Amor y sus Ciudades- 30 poemas de amor 





quarta-feira, 11 de junho de 2014

The New Macho





He cleans up after himself.
He cleans up the planet.
He is a role model for young men.
He is rigorously honest and fiercely optimistic.

He holds himself accountable.
He knows what he feels.
He knows how to cry and he lets it go.
He knows how to rage without hurting others.
He knows how to fear and how to keep moving.
He seeks self-mastery.

He has let go of childish shame.
He feels guilty when he's done something wrong.
He is kind to men, kind to women, kind to children.
He teaches others how to be kind.
He says he's sorry.

He stopped blaming women or his parents or men for his pain years ago.
He stopped letting his defenses ruin his relationships.
He stopped letting his penis run his life.
He has enough self-respect to tell the truth.
He creates intimacy and trust with his actions.
He has men that he trusts and that he turns to for support.
He knows how to roll with it.
He knows how to make it happen.
He is disciplined when he needs to be.
He is flexible when he needs to be.
He knows how to listen from the core of his being.

He's not afraid to get dirty.
He's ready to confront his own limitations.
He has high expectations for himself and for those he connects with.
He looks for ways to serve others.
He knows he is an individual.
He knows that we are all one.
He knows he is an animal and a part of nature.
He knows his spirit and his connection to something greater.

He knows that the future generations are watching his actions.
He builds communities where people are respected and valued.
He takes responsibility for himself and is also willing to be his brother's keeper.

He knows his higher purpose.
He loves with fierceness.
He laughs with abandon, because he gets the joke.


The ManKind Project





segunda-feira, 9 de junho de 2014

Julgava que te tinha dito adeus





Julgava que te tinha dito adeus,
um adeus contundente, ao deitar-me,
quando pude por fim fechar os olhos,
esquecer-me de ti, dessas argúcias,
dessa tua insistência, teu mau génio,
tua capacidade de anular-me.
Julgava que te tinha dito adeus
de todo e para sempre, mas acordo,
encontro-te de novo junto a mim,
dentro de mim, rodeias-me, a meu lado,
invades-me, afogas-me, diante
dos meus olhos, em frente à minha vida,
por sob a minha sombra, nas entranhas,
em cada golpe do meu sangue, entras
por meu nariz quando respiro, vês
pelas minhas pupilas, lanças fogo
nas palavras que minha boca diz.
E agora que faço?, como posso
desterrar-te de mim ou adaptar-me
a conviver contigo? Principie-se
por demonstrar maneiras impecáveis.
Bom dia, tristeza.


Amalia Bautista





quarta-feira, 4 de junho de 2014

Era preciso ir buscar-te aos lugares mais secretos






Aqui deste lado não poderias ser quem eras, quem serias. 
Fugiste de um mundo pequenino, de uma asfixia. 
Agora de ti nada sei: de que te alimentas, quem amas, onde dormes. 
Nem desejo saber. 
Basta-me lembrar-te como quem relembra uma música. 
Eu quis-te com uma violência que desconhecia. 
Tu levaste-me para paragens inóspitas, repletas de perigos. 
Por ti senti pavor. 
Por ti senti raiva. 
Por ti senti desespero. 
Entre nós havia sempre uma impossibilidade, um vazio. 
Tu eras em tudo um bicho indomável. 
Nunca te oferecias. 
Era preciso ir buscar-te aos lugares mais secretos.


Pedro Paixão





terça-feira, 3 de junho de 2014

Não tenho planos






Não tenho planos, nem promessas, nem
filhos que nos convidem para almoços
de domingo - a minha ideia de família
resume-se a um retrato velho preso numa
gaveta; e do amor possível sei tão-só

o que li nos romances que me salvaram
da desordem quando o meu tempo
andava de ferida em cicatriz. Mas guardo
ainda muitos por estrear para essa estante

que ergueste no corredor como uma casa
nova. E trago as portas abertas no coração:

se ainda não sabias, és muito bem-vindo.


Maria do Rosário Pedreira