quarta-feira, 17 de setembro de 2014

If you want






If you want to 'feel good' all the time, 
please, forget about waking up.
If you want to wake up, 
if you long for the raw truth of existence, 
please, prepare for your status quos to shatter.
Prepare for heartbreak, the devastation of dreams.
Everything you know about yourself
will be smashed into a million pieces.
Prepare to allow an unimaginable sorrow, 
the sorrow of distant universes,
to move through you, to penetrate your very core.
And prepare for joys so unbearable 
you'll wonder why your heart hasn't exploded.
Prepare for love to drain your tear ducts.
Prepare to fall on your knees time and time again,
in awe, in horror, in gratitude, in the deepest calm.
Prepare to never be prepared.
If you want to 'feel good' all the time, 
if you want pleasure without pain, joy without sorrow,
light without night, a 'feel-good' spirituality,
please, I beg you:
Turn back. 
Turn back, right now!


Jeff Foster





segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Sou Lúcido






Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa 
Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara, 
Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele; 
E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha
(Exceto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro: 
Não sou parvo nem romancista russo, aplicado, 
E romantismo, sim, mas devagar...). 

Sinto uma simpatia por essa gente toda, 
Sobretudo quando não merece simpatia. 
Sim, eu sou também vadio e pedinte, 
E sou-o também por minha culpa. 
Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte: 
É estar ao lado da escala social, 
É não ser adaptável às normas da vida, 
'As normas reais ou sentimentais da vida - 
Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta, 
Não ser pobre a valer, operário explorado, 
Não ser doente de uma doença incurável, 
Não ser sedento da justiça, ou capitão de cavalaria, 
Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas 
Que se fartam de letras porque tem razão para chorar lagrimas, 
E se revoltam contra a vida social porque tem razão para isso supor. 

Não: tudo menos ter razão! 
Tudo menos importar-se com a humanidade! 
Tudo menos ceder ao humanitarismo! 
De que serve uma sensação se ha uma razão exterior a ela? 

Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou, 
Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente: 
É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio, 
É ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte. 

Tudo o mais é estúpido como um Dostoiewski ou um Gorki. 
Tudo o mais é ter fome ou não ter o que vestir. 
E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente 
Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece. 

Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato, 
E estou-me rebolando numa grande caridade por mim. 

Coitado do Álvaro de Campos! 
Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações! 
Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia! 
Coitado dele, que com lagrimas (autenticas) nos olhos, 
Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita, 
Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha pouco 
Aquele pobre que não era pobre que tinha olhos tristes por profissão. 

Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa! 
Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo! 

E, sim, coitado dele! 
Mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam, 
Que são pedintes e pedem, 
Porque a alma humana é um abismo. 

Eu é que sei. Coitado dele! 
Que bom poder-me revoltar num comício dentro de minha alma! 

Mas até nem parvo sou! 
Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais. 
Não tenho, mesmo, defesa nenhuma: sou lúcido. 

Não me queiram converter a convicção: sou lúcido! 

Já disse: sou lúcido. 
Nada de estéticas com coração: sou lúcido. 
Merda! Sou lúcido. 


Álvaro de Campos
in, "Poemas" 





quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Cancioneiro





Tenho tanto sentimento 
Que é frequente persuadir-me 
De que sou sentimental, 
Mas reconheço, ao medir-me, 
Que tudo isso é pensamento, 
Que não senti afinal. 

Temos, todos que vivemos, 
Uma vida que é vivida 
E outra vida que é pensada, 
E a única vida que temos 
É essa que é dividida 
Entre a verdadeira e a errada. 

Qual porém é a verdadeira 
E qual errada, ninguém 
Nos saberá explicar; 
E vivemos de maneira 
Que a vida que a gente tem 
É a que tem que pensar. 


Fernando Pessoa 
in, "Cancioneiro"





terça-feira, 9 de setembro de 2014

Tenho medo





Às vezes tenho medo, muito medo.
Às vezes sofro.
Às vezes, penso nas pessoas que amo e penso na
possibilidade de as perder.
Às vezes vejo alguém doente e fico incomodado.
Pode não ser um amigo ou familiar.
Posso estar a vê-lo pela primeira vez.
Mas fico incomodado.
Aquela doença pertence-me. 
Todas as doenças pertencem a toda a gente.
Todos os sofrimentos pertencem a toda a gente.
Todas as mortes pertencem um pouco a toda a gente.
Às vezes sinto isso muito,
outras vezes sinto menos.
Quando sinto menos posso preocupar-me com o mundo,
brincar com a poesia,
com a filosofia e com as palavras.
Mas quando sinto, deixo de conseguir pensar.
Quando sofro ou sinto o que alguém sofre, deixo mesmo
de querer ser inteligente.
Se estivermos cheios a sentir, não temos espaço para pensar.
Não fazem sentido as lógicas,
as filosofias,
as discussões.
Todo o nosso corpo sente.
E o que resta? Nada.
Só existe aquela morte, aquela doença, aquela velhice.
Só aquele pai que amo e está a envelhecer. Só aquela mãe
que amo e está a envelhecer.
Só aquele amigo que morreu num estúpido acidente.
Só aquele amigo que se tornou amargo
porque a mulher o deixou.
Só o amor e a falta de amor.
As mulheres que nos enganam e as mulheres que são enganadas,
as mulheres e os homens que enganam.
Os amigos que deixam de o ser,
alguns inimigos que morrem, e temos pena.
Que importa o resto?
Onde está o livro importante?
O filme que resolve?
Podemos chorar à frente de um quadro, mas não resolve nada.
Podemos pintar um quadro, escrever um poema, mostrar às
mulheres bonitas como somos bonitos, exibir o nosso corpo,
mas que adianta?
Estamos sozinhos.
Se não estamos, vamos estar.
Os amigos vão-nos deixando, vão-nos deixar.
Vão morrer ou nós vamos morrer.
Ou então deixam de nos telefonar, ou então deixamos de
lhes querer telefonar.
Estamos sozinhos. As pessoas que amo vão morrer.
Os livros não resolvem nada. A poesia é bonita e por vezes
descansa, acalma, mas não resolve nada, não resolve nada.
Somos artistas ou não somos, e qualquer coisa que seja não
adianta nada e nada impede.
Escrevemos poemas, mas não ajudam ninguém.
Escrevemos peças de teatro, sorrimos, tentamos pensar,
tentamos ter ideias, tentamos distrair as pessoas, tentamos
fazer pensar as pessoas, tentamos fazer chorar as pessoas, e
isso é bom, e até pode ser bonito, mas não adianta nada,
não resolve nada,
não adianta nada.


Gonçalo M. Tavares 
in, "Um homem ou é mulher"





quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Não sou...






Não sei a mulher que sou, 
mas sei a mulher que não sou.

Não sou a mulher que se esconde nos tachos, 
a mulher que se cala nas horas, 
que se entrega ao embuste da segurança, 
à fraude suportável de ver passar o tempo. 
Não. Não sou.

Não sou a mulher do fado e das lágrimas, 
a mulher do enfado e das rotinas, 
dos sonhos que se arrastam pelas esquinas. 
Não. Não sou.

Não sou mulher de sorrisos quando existe a gargalhada, 
de aldeias quando existe o mundo.

Não sou nem um milímetro menos do que aquilo que posso ser, 
e se um dia cair, 
foi porque tentei saltar, 
e não porque preferi aceitar.


Pedro chagas Freitas