sábado, 29 de novembro de 2014

Dentro da vida







Não estamos preparados para nada:
certamente que não para viver
Dentro da vida vamos escolher
o erro certo ou a certeza errada
Que nos redime dessa magoada
agitação do amor em que prazer
nem sempre é o que fica de querer
ser o amador e ser a coisa amada?
Porque ninguém nos salva de não ser
também de ser já nada nos resgata
Não estamos preparados para o nada:
certamente que não para morrer.


Luis Maffei





sábado, 15 de novembro de 2014

Vamos ser velhos...






Vamos ser velhos ao sol nos degraus
da casa; abrir a porta empenada de
tantos Invernos e ver o frio soçobrar
no carvão das ruas; espreitar a horta
que o vizinho anda a tricotar e o vento
lhe desmancha de pirraça; deixar a

chaleira negra em redor do fogão para
um chá que nunca sabemos quando
será – porque a vida dos velhos é curta,
mas imensa; dizer as mesmas coisas
muitas vezes – por sermos velhos e por
serem verdade. Eu não quero ser velha

sozinha, mesmo ao sol, nem quero que
sejas velho com mais ninguém. Vamos
ser velhos juntos nos degraus da casa –

se a chaleira apitar, sossega, vou lá eu; não
atravesses a rua por uma sombra amiga,
trago-te o chá e um chapéu quando voltar.


Maria do Rosário Pedreira





terça-feira, 11 de novembro de 2014

O meu direito à diferença, num mundo cada vez mais igual





Não me espartilhes em comemorações vazias
pequenas cedências da tua masculinidade intocável
um par de calças condescendido por saberes que todos
os outros nos armários serão inequivocamente teus

não me chames «mulher» como se fosse um insulto,
sintoma de doença nervosa, quando pensas em segredo
que «as mulheres permaneçam caladas» onde quer que
seja o seu mundo – novo ou antigo, doméstico ou laboral

não me endeuses, não me pendures nas paredes,
nem me assentes em pedestais – sossegada, quieta,
inofensiva, agradável à vista dos teus amigos que fumam
charutos e bebem uísques com sabor a misoginia

não me dês flores nem atenções vazias em dias
marcados no calendário, como se fossem pílulas
douradas da prescrição masculina contra a histeria,
suplemento vitamínico do sexo fraco

dá-me anos inteiros para ser a mulher que sou eu,
as mesmas oportunidades, as mesmas lutas,
a mesma retribuição pelo meu trabalho,
o meu direito à diferença, num mundo cada vez mais igual.


Carla Pinto Coelho





sábado, 1 de novembro de 2014

A Demora



O amor nos condena: 
demoras 
mesmo quando chegas antes. 
Porque não é no tempo que eu te espero.
Espero-te antes de haver vida 
e és tu quem faz nascer os dias.
Quando chegas 
já não sou senão saudade 
e as flores 
tombam-me dos braços 
para dar cor ao chão em que te ergues.
Perdido o lugar 
em que te aguardo, 
só me resta água no lábio 
para aplacar a tua sede.
Envelhecida a palavra, 
tomo a lua por minha boca 
e a noite, já sem voz 
se vai despindo em ti.
O teu vestido tomba 
e é uma nuvem. 
O teu corpo se deita no meu, 
um rio se vai aguando até ser mar.


Mia Couto
in, " idades cidades divindades"