terça-feira, 31 de março de 2015

Dança a tua valsa nos meus cabelos






Dança a tua valsa nos meus cabelos
e permite que as almas se entrelacem,
sem limites nem cadeias.
Ah que anseio de coração,
este ressuscitar...
do Amor que detém a minha alma.
Desse uivo sobreposto
ao clamor do vento em noites de tempestade,
desse sussurro do Espírito
mavioso como vozes de anjos em coro celestial...
Afago-te o rosto distante
com os olhos postos nas silhuetas que dançam também
através dos teus olhos...
jogos de luz e sombra que ensinam
a ilusão do céu como um génio da lâmpada
que brilha só de vez em quando,
como se fossem irmãos, a Lua e o Sonho
cujo feitiço se mantém na noite escura.
Mas a dança continua,
num movimento de mentes e corações
queimando a alma e os sentidos
até ao vácuo absoluto
onde a caneta goteja
e o poeta só tem sede...

Sara Lima





segunda-feira, 23 de março de 2015

Mas tu estás aí





Solta-me as mãos
E deixa livre o meu coração!
Deixa que os meus dedos percorram
Os caminhos do teu corpo.
A paixão – sangue, fogo, beijos –
Incendeia-me em labaredas trémulas.
Ai, tu não sabes o que é isto!
É a tempestade dos meus sentidos
Dobrando a selva sensível dos meus nervos.
É a carne que grita, com suas línguas ardentes!
É o incêndio!
E está aqui, mulher, como um tronco intacto.
Agora que a minha vida feita de cinzas voa
Até ao teu corpo cheio, como a noite, de astros!
Deixa-me livres as mãos
E deixa livre o meu coração!
Só te desejo a ti, a ti só desejo!
Não é amor, é um desejo que se esgota e que se extingue,
É a precipitação de fúrias, aproximação do impossível.
Mas tu estás aí.
Estás para me dares tudo,
E para me dares o que tens, à terra vieste –
Como eu, para te ter
E te desejar,
E te receber!"



Pablo Neruda






quinta-feira, 12 de março de 2015

Nocturno





¡Pues bien!, yo necesito decirte que te adoro,
decirte que te quiero con todo el corazón;
que es mucho lo que sufro, que es mucho lo que lloro,
que ya no puedo tanto, y al grito en que te imploro,
te imploro y te hablo en nombre de mi última ilusión.
Yo quiero que tú sepas que ya hace muchos días
estoy enfermo y pálido de tanto no dormir;
que están mis noches negras, tan negras y sombrías,
que ya se han muerto todas las esperanzas mías,
que ya no sé ni dónde se alzaba el porvenir.
De noche, cuando pongo mis sienes en la almohada
y hacia otro mundo quiero mi espíritu volver,
camino mucho, mucho, y al fin de la jornada,
las formas de mi madre se pierden en la nada,
y tú de nuevo vuelves en mi alma a aparecer.
Comprendo que tus besos jamás han de ser míos,
comprendo que en tus ojos no me he de ver jamás;
y te amo y en mis locos y ardientes desvaríos,
bendigo tus desdenes, adoro tus desvíos,
y en vez de amarte menos te quiero mucho más.
A veces pienso en darte mi eterna despedida,
borrarte en mis recuerdos y huir de esta pasión;
mas si es en vano todo y el alma no te olvida,
¿qué quieres tú que yo haga, pedazo de mi vida,
qué quieres tú que yo haga con este corazón?
Y luego que ya estaba concluido el santuario,
tu lámpara encendida, tu velo en el altar,
el sol de la mañana detrás del campanario,
chispeando las antorchas, humeando el incensario,
y abierta allá a lo lejos la puerta del hogar...
¡Qué hermoso hubiera sido vivir bajo aquel techo,
los dos unidos siempre y amándonos los dos;
tú siempre enamorada, yo siempre satisfecho,
los dos una sola alma, los dos un solo pecho,
y en medio de nosotros mi madre como un Dios!
¡Figúrate qué hermosas las horas de esa vida!
¡Qué dulce y bello el viaje por una tierra así!
Y yo soñaba en eso, mi santa prometida;
y al delirar en eso con alma estremecida,
pensaba yo en ser bueno por ti, no más por ti.
Bien sabe Dios que ese era mi más hermoso sueño,
mi afán y mi esperanza, mi dicha y mi placer;
¡bien sabe Dios que en nada cifraba yo mi empeño,
sino en amarte mucho en el hogar risueño
que me envolvió en sus besos cuando me vio nacer!
Esa era mi esperanza... mas ya que a sus fulgores
se opone el hondo abismo que existe entre los dos,
¡adiós por la vez última, amor de mis amores;
la luz de mis tinieblas, la esencia de mis flores;
mi lira de poeta, mi juventud, adiós!


Manuel Acuña




terça-feira, 10 de março de 2015

Viver é arriscar-se





Rir é arriscar-se a parecer louco.
Chorar é arriscar-se a parecer sentimental.
Estender a mão para o outro é arriscar-se a se envolver.
Expor seus sentimentos é arriscar-se a expor seu eu verdadeiro.
Amar é arriscar-se a não ser amado.
Expor suas ideias e sonhos ao público é arriscar-se a perder.
Viver é arriscar-se a morrer...
Ter esperança é arriscar-se a sofrer decepção.
Tentar é arriscar-se a falhar.

Mas... é preciso correr riscos.
Porque o maior azar da vida é não arriscar nada...

Pessoas que não arriscam, que nada fazem, nada são.
Podem estar evitando o sofrimento e a tristeza.
Mas assim não podem aprender, sentir, crescer, mudar, amar, viver...
Acorrentadas às suas atitudes, são escravas;
Abrem mão de sua liberdade.
Só a pessoa que se arrisca é livre.

Arriscar-se é perder o pé por algum tempo.
Não se arriscar é perder a vida...


Soren Kierkegaard





quinta-feira, 5 de março de 2015

Um Dia Branco






Dai-me um dia branco, um mar de beladona,
um movimento
inteiro, unido, adormecido,
como um só momento.

Eu quero caminhar como quem dorme,
entre países sem nome que flutuam.

Imagens tão mudas
que ao olhá-las me pareça
que fechei os olhos.

Um dia em que se possa não saber.


Sophia de Mello Breyner Andresen





quarta-feira, 4 de março de 2015

O meu génio vem de ti





O meu génio vem de ti
 O que me acalma ou o que me agita, 
o que me torna alegre ou triste, 
o que refulge no meio da noite, a meu lado, 
e me alumia mil vezes melhor do que o candeeiro de trabalho, 
o que me encanta os dias durante os meus passeios solitários, 
os meus estudos, 
os meus devaneios, 
e até as mais enfadonhas tarefas, 
é a tua imagem, 
a lembrança de que existes, 
de que me amas, 
de que me esperas, 
de que pensas em mim! 

Se tenho algum génio, é de ti que me vem.


Victor Hugo






terça-feira, 3 de março de 2015

Se Me Esqueceres



Quero que saibas
uma coisa.

Sabes como é:
se olho
a lua de cristal, o ramo vermelho
do lento outono à minha janela,
se toco
junto do lume
a impalpável cinza
ou o enrugado corpo da lenha,
tudo me leva para ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fosse pequenos barcos que navegam
até às tuas ilhas que me esperam.

Mas agora,
se pouco a pouco me deixas de amar
deixarei de te amar pouco a pouco.

Se de súbito
me esqueceres
não me procures,
porque já te terei esquecido.

Se julgas que é vasto e louco
o vento de bandeiras
que passa pela minha vida
e te resolves
a deixar-me na margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
a essa hora
levantarei os braços
e as minhas raízes sairão
em busca de outra terra.

Porém
se todos os dias,
a toda a hora,
te sentes destinada a mim
com doçura implacável,
se todos os dias uma flor
uma flor te sobe aos lábios à minha procura,
ai meu amor, ai minha amada,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor alimenta-se do teu amor,
e enquanto viveres estará nos teus braços
sem sair dos meus.


Pablo Neruda
in "Poemas de Amor de Pablo Neruda"