segunda-feira, 27 de abril de 2015

Possibilidades




Prefiro filmes.
Prefiro gatos.
Prefiro os carvalhos ao longo de Warta.
Prefiro Dickens a Dostoievsky.
Prefiro-me gostando de indivíduos
a mim mesma amando a humanidade.
Prefiro manter uma agulha e linha à mão, em caso de precisão.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não suster
que a razão é a culpada de tudo.
Prefiro exceções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro falar com os médicos sobre outra coisa.
Prefiro as antigas bem alinhadas ilustrações.
Prefiro o absurdo de escrever poemas
ao absurdo de não escrever poemas.
Prefiro, quando o amor diz respeito, aniversários inespecíficos
que podem ser comemorados todos os dias.
Prefiro moralistas
que me prometem nada.
Prefiro bondade astuta ao tipo super confiante.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro conquistados a países conquistadores.
Prefiro ter algumas reservas.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro os contos de fadas dos Grimms às primeiras páginas dos jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro cães com caudas descortadas.
Prefiro os olhos claros, uma vez que os meus são escuros.
Prefiro gavetas.
Prefiro muitas coisas que não mencionei aqui
a muitas coisas que também deixei não ditas.
Prefiro os zeros à solta
àqueles alinhados atrás de uma cifra.
Prefiro o tempo de insetos ao tempo de estrelas.
Prefiro bater na madeira.
Prefiro não perguntar quanto tempo e quando.
Eu prefiro manter em mente a possibilidade
de que a existência tem sua própria razão de ser.


Wislawa Szymborska





sexta-feira, 24 de abril de 2015

E Tudo Era Possível






Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer.

 Ruy Belo





domingo, 12 de abril de 2015

Deve ser por isso






Não esgotei na altura própria
a criança que temos de ser e de gastar.
Deve ser por isso
que eu não distingo as realidades,
que eu não vejo onde começa o impossível

Deve ser por isso
que eu não escolho um destino para me assentar depois
e ando a tropeçar à espera, à espera,
sem mesmo disso ter perfeita consciência…
deve ser por isso
que eu estendo a mão para um objecto
e ele está mais longe que o comprimento do meu braço.

Deve ser por isso
o meu anseio de conjunto universal,
a minha curiosidade do que se disse e se escreveu,
a desordem, gritante dentro e lenta fora, que em mim ondeia e me transporta
e eu não sei expulsar nem quero.

Deve ser por isso
que jamais lembrei o desmedido infinitamente frágil de minha alma
e que, agora, lembrado e conhecido de mim mesmo,
não hei-de ainda ter emenda…
(…)
deve ser por isso
que não consigo ser “pessoa grande.




Jorge de Sena






segunda-feira, 6 de abril de 2015

Não sinto nada mais ou menos





Não sinto nada mais ou menos,
ou eu gosto ou não gosto.
Não sei sentir em doses homeopáticas.
Preciso e gosto de intensidade,
mesmo que ela seja ilusória e se não for assim,
prefiro que não seja.
Não me apetece viver histórias medíocres,
paixões não correspondidas
e pessoas água com açúcar.
Não sei brincar e ser café com leite.
Só quero na minha vida
gente que transpire adrenalina de alguma forma,
que tenha coragem suficiente para me dizer o que sente antes,
durante e depois
ou que invente boas estórias
caso não possa vivê-las.
Porque eu acho sempre
muitas coisas – porque tenho uma mente fértil e delirante – e porque
posso achar errado – e ter que me desculpar – e detesto
pedir desculpas
embora o faça sem dificuldade
se me provarem que eu estraguei tudo
achando o que não devia.
Quero grandes histórias e estórias;
quero o amor e o ódio;
quero o mais, o demais ou o nada.
Não me importa o que é de verdade ou o que é mentira,
mas tem que me convencer,
extrair o máximo do meu prazer
e me fazer crêr que é para sempre
quando eu digo convicto
que nada é para sempre.


Autor Desconhecido
Falsamente atribuído a Gabriel García Marquez






quinta-feira, 2 de abril de 2015

Homem e Mulher






O homem é a mais elevada das criaturas;
A mulher é o mais sublime dos ideais.
O homem é o cérebro;
A mulher é o coração.
O cérebro fabrica a luz;
O coração, o amor.
A luz fecunda, o amor ressuscita.
O homem é forte pela razão;
A mulher é invencível pelas lágrimas.
A razão convence, as lágrimas comovem.
O homem é capaz de todos os heroísmos;
A mulher, de todos os martírios.
O heroísmo enobrece, o martírio sublima.
O homem é um código;
A mulher é um evangelho.
O código corrige; o evangelho aperfeiçoa.
O homem é um templo; a mulher é o sacrário.
Ante o templo nos descobrimos;
Ante o sacrário nos ajoelhamos.
O homem pensa; a mulher sonha.
Pensar é ter , no crânio, uma larva;
Sonhar é ter , na fronte, uma auréola.
O homem é um oceano; a mulher é um lago.
O oceano tem a pérola que adorna;
O lago, a poesia que deslumbra.
O homem é a águia que voa;
A mulher é o rouxinol que canta.
Voar é dominar o espaço;
Cantar é conquistar a alma.
Enfim, o homem está colocado onde termina a terra;
A mulher, onde começa o céu.


Victor Hugo