terça-feira, 30 de junho de 2015

Creio nos anjos que andam pelo mundo






Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes;

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o amor tem asas de ouro. 
Amém.


Natália Correia





domingo, 28 de junho de 2015

The Journey



Kirsty Mitchell
Spirited Away: 
 Blooms stand out against a snowy forest backdrop - a promise of the spring to come



One day you finally knew
what you had to do, and began,
though the voices around you
kept shouting
their bad advice 
though the whole house
began to tremble
and you felt the old tug
at your ankles.
"Mend my life!"
each voice cried.
But you didn't stop.
You knew what you had to do,
though the wind pried
with its stiff fingers
at the very foundations,
though their melancholy
was terrible.
It was already late
enough, and a wild night,
and the road full of fallen
branches and stones.
But little by little,
as you left their voices behind,
the stars began to burn
through the sheets of clouds,
and there was a new voice
which you slowly
recognized as your own,
that kept you company
as you strode deeper and deeper
into the world,
determined to do
the only thing you could do 
determined to save
the only life you could save.


Mary Oliver




sexta-feira, 19 de junho de 2015

Pedagogia das Quedas




Há aqueles que caem e não se levantam,
passam a fazer parte da terra
deitam-se, minerais, entre pedras e raízes
e dormem o sono dos ausentes.

Mas há aqueles que quando caem
buscam no solo fértil novas energias,
buscam as raízes, reencontram as sementes,
abraçam o planeta e bebem os rios.

Nunca estão sós,
nem mesmo no vazio da noite e da espera,
pois lhe encontram multidões de mãos companheiras
de todos os sonhos aprisionados

de toda a fome não saciada
de toda a terra não repartida
de toda a fúria contida
de todo futuro adiado

Há aqueles que quando caem não se levantam,
mas há aqueles que se levantam ainda mais fortes,
mais fortes que as derrotas,
mais fortes que as vitórias vazias,

mais fortes do que toda a força
que a aurora em vão adia

Mauro Iasi






quinta-feira, 18 de junho de 2015

Bach Segovia Guitarra



A música do ser 
Povoa este deserto 
Com sua guitarra 
Ou com harpas de areia 
Palavras silabadas 
Vêm uma a uma 
Na voz da guitarra 
A música do ser 
Interior ao silêncio 
Cria seu próprio tempo 
Que me dá morada 
Palavras silabadas 
Unidas uma a uma 
Às paredes da casa 
Por companheira tenho 
A voz da guitarra 
E no silêncio ouvinte 
O canto me reúne 
De muito longe venho 
Pelo canto chamada 
E agora de mim 
Não me separa nada 
Quando oiço cantar 
A música do ser 
Nostalgia ordenada 
Num silêncio de areia que não foi pisada.


Sophia de Mello Breyner Andresen





E a vida, lá fora me chama





Houve uma mudança de planos e eu sinto-me,
incrivelmente leve e feliz. 
Descobri tantas coisas. 
Tantas, Tantas.
Existe tanta coisa mais importante nesta vida do que sofrer por amor.
Que viver um amor.
Tantos amigos.
Tantos lugares.
Tantas frases e livros sentidos.
Tantas pessoas novas.
Indo.
Vindo.
Tenho só um mundo pela frente.
E olhe para ele.
Olhe o mundo!
É tão pequeno diante de tudo o que sinto... 
Meu tempo não se mede em relógios. 
E a vida lá fora me chama.


Caio Fernando Abreu





sábado, 13 de junho de 2015

Frémito do Meu Corpo a Procurar-te






Frémito do meu corpo a procurar-te, 
Febre das minhas mãos na tua pele 
Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel, 
Doído anseio dos meus braços a abraçar-te, 

Olhos buscando os teus por toda a parte, 
Sede de beijos, amargor de fel, 
Estonteante fome, áspera e cruel, 
Que nada existe que a mitigue e a farte! 

E vejo-te tão longe! Sinto tua alma 
Junto da minha, uma lagoa calma, 
A dizer-me, a cantar que não me amas... 

E o meu coração que tu não sentes, 
Vai boiando ao acaso das correntes, 
Esquife negro sobre um mar de chamas... 


Florbela Espanca 
in, "A Mensageira das Violetas"




quinta-feira, 11 de junho de 2015

Nada é Real






Sonhei, confuso, e o sono foi disperso,
Mas, quando dispertei da confusão,
Vi que esta vida aqui e este universo
Não são mais claros do que os sonhos são
Obscura luz paira onde estou converso
A esta realidade da ilusão
Se fecho os olhos, sou de novo imerso
Naquelas sombras que há na escuridão.
Escuro, escuro, tudo, em sonho ou vida,
É a mesma mistura de entre-seres
Ou na noite, ou ao dia transferida.
Nada é real, nada em seus vãos moveres
Pertence a uma forma definida,
Rastro visto de coisa só ouvida.


Fernando Pessoa





domingo, 7 de junho de 2015

Um dia talvez faça sentido a tua fuga






Um dia talvez faça sentido a tua fuga
 urgente e fria
pela calada do silêncio.
Só então perdoarei o tempo
pela dor de não te ter tido
nem ter sabido de cor.

Podias ter sido um barco
a navegar no mesmo ritmo das ondas,
mas não. Quiseste ser vento contrário...

Mas tudo tem duas faces.
A tristeza é só a outra face da alegria
tal como a morte é só a outra face da vida.
Este amor tem duas faces:nós...
e nós somos apenas tu e eu,
o desencontro na volta lenta da vida
o reencontro além do tempo.

Logo chegará o dia
em que o teu espaço será o meu espaço
e o teu tempo será o meu tempo
e jamais haverá sinais a apontar destinos
proibidos.
Seremos apenas nós,
com a certeza de um amor sobrevivente
na memória longínqua do olhar.
E será pelo olhar que nos reconheceremos...

Hoje eu sei que não vou morrer por não te ter,
porque um dia
atravessarei o portão desconhecido
e, ainda que tu não saibas,
levar-te-ei comigo...

e se não posso ter-te aqui,
ter-te-ei além
onde os barcos navegam sem vento...

ainda que não te tenha nunca...


Maria José Quintela