sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Convite à Viagem





Irmã, filha, escuta,
Pensa na doçura 
De irmos para lá viver, sim!
Amar à vontade,
Amar e morrer
Nessa terra igual a ti!
Os húmidos sóis
Dos nevoentos céus
Têm pra mim os encantos
Assim misteriosos
Dos teus falsos olhos,
Entre as lágrimas brilhando.

Lá tudo é beleza e luxo,
É ordem, calma e volúpia.

Móveis reluzentes,
Polidos pelo tempo,
Decorariam a câmara;
As mais raras flores
Fundindo os odores
Ao vago aroma do âmbar,
Riquíssimos tectos,
Profundos espelhos,
O esplendor oriental,
Tudo falaria
Com a alma em surdina
A sua língua natal.

Lá tudo é beleza e luxo,
É ordem, calma e volúpia.

Vê nesses canais
Dormir essas naus
Cujo humor é vagabundo;
É pra saciar
As tuas vontades
Que vêm do fim do mundo.
- Os sóis, já deitando-se,
Envolvem os campos,
Os canais, toda a cidade,
Com oiro e jacinto;
E o mundo dormindo
Numa quente claridade.

Lá tudo é beleza e luxo.
É ordem, calma e volúpia.


Charles Baudelaire
in, "As flores do mal"





quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Porque te amo







Estou mais perto de ti porque te amo.
Os meus beijos nascem já na tua boca.
Não poderei escrever teu nome com palavras.
Tu estás em toda a parte e enlouqueces-me.

Canto os teus olhos mas não sei do teu rosto.
Quero a tua boca aberta em minha boca.
E amo-te como se nunca te tivesse amado
porque tu estás em mim mas ausente de mim.

Nesta noite sei apenas dos teus gestos
e procuro o teu corpo para além dos meus dedos.
Trago as mãos distantes do teu peito.

Sim, tu estás em toda a parte. Em toda a parte.
Tão por dentro de mim. Tão ausente de mim.
E eu estou perto de ti porque te amo.


Joaquim Pessoa




sábado, 15 de agosto de 2015

La mujer que se tiene a sí misma





Cuando una mujer se tiene a sí misma
podrás entrar o salir de su vida
podrás halagarla o juzgarla
y ella, te recibirá o despedirá amablemente
y ella te agradecerá y comprenderá tus sombras
porque ya conoce las suyas
Probablemente no la toleres y a la vez quieras poseerla
y terminaras por alejarte si no tienes el valor de respetarla.
Cuando una Mujer se tiene a si misma
el Universo Danza a sus pies, y Ella se eleva.
Ella se vuelve compasión.
Ella elije.
Ella es consciente.
Ella da y recibe Amor.
Es sencillo reconocerla.
La Mujer que se tiene a si misma
sonríe en el sol como en la tormenta. 
Celebra la vida y comprende la muerte.
Vive y danza los procesos.
No tiene un tono, ella es un arcoiris.


Maria Harchanan Kaur





sexta-feira, 7 de agosto de 2015

O amor é o amor - e depois?!






O amor é o amor - e depois?!
Vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?


O meu peito contra o teu peito,

cortando o mar, cortando o ar.
Num leito
há todo o espaço para amar!


Na nossa carne estamos

sem destino, sem medo, sem pudor,
e trocamos, somos um? somos dois?
espírito e calor!
O amor é o amor - e depois?!


Alexandre O´Neill





quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Soneto




Fecham-se os dedos donde corre a esperança,
Toldam-se os olhos donde corre a vida.
Porquê esperar, porquê, se não se alcança
Mais do que a angústia que nos é devida?

Antes aproveitar a nossa herança
De intenções e palavras proibidas.
Antes rirmos do anjo, cuja lança
Nos expulsa da terra prometida.

Antes sofrer a raiva e o sarcasmo,
Antes o olhar que peca, a mão que rouba,
O gesto que estrangula, a voz que grita.

Antes viver do que morrer no pasmo
Do nada que nos surge e nos devora,
Do monstro que inventámos e nos fita.


José Carlos Ary dos Santos
in, Liturgia do Sangue




quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Esta Noite Morrerás


Ana Hatherly
Escuta o Conto Profano
1998





Esta noite morrerás. 
Quando a lua vier tocar-me o rosto 
terás partido do meu leito 
e aquele que procurar a marca dos teus passos 
encontra urtigas crescendo 
por sobre o teu nome. 
Esta noite morrerás. 
Quando a lua vier tocar-me o rosto 
terás partido do meu leito 
e uma gota de sangue ressequido 
é a marca dos teus passos. 
No coração do tempo pulsa um maquinismo ínscio 
e na casa do tempo a hora é adorno. 
Quando a lua vier tocar-me o rosto a tua sombra extinta marca 
o fim de um eclipse horário de uma partida iminente e o tempo 
apaga a marca dos teus passos sobre o meu nome. 
Constante. 
O mar é isso. 
A lua vir tocar-me o rosto e encontrar urtigas crescendo 
por sobre o teu nome. 
O mar é tu morreste. 
O mar é ser noite e vir a lua tocar-me o rosto quando tu par- 
tiste e no meu leito crescem folhas sangue. 
A febre é uma pira incompreensível como a aparição da lua 
e a opacidade do mar. 
No meu leito a lua vai tocar-me o rosto e a tua ausência é um 
prisma, um girassol em panóplia. 
Agora a lua chega devagar e o mar é o leito de tu teres 
partido, uma infrutescência de eu procurar a marca dos teus 
passos por sobre o meu rosto. 
A noite é eu procurar a marca dos teus passos. 
Esta noite a lua terá um halo de concêntricas florações 
de gotas do teu sangue e a irisada sombra do meu leito 
é o teu rosto iminente. 
A lua é uma seta. 
Tu partiste é o silêncio em forma de lança. 
Esta noite vou erguer-me do meu leito e quando a lua vier 
tocar-me o rosto vou uivar como um lobo. 
Vou clamar pelo teu sangue extinto. 
Vou desejar a tua carne viva, os teus membros esparsos, 
a tua língua solta. 
O teu ventre, lua. 
Vou gritar e enterrar as unhas nos teus olhos até que 
o mar se abra e a lua possa vir tocar-me o rosto. 
Esta noite vou arrancar um cabelo e com a tua ausência faço 
um pêndulo para interrogar a lua por tu teres partido e a marca 
dos teus passos ser a razão mágica de a lua poder surgir de 
noite e urtigas crescerem no meu leito. 
E se encontrar a marca dos teus passos vou crivar-lhe 
o coração de alfinetes para que tu partiste seja a razão 
mágica de tu poderes morrer-te. 
Quando a lua vier em forma de lança vai trespassar um pássaro 
para lhe ler nas entranhas a direcção tu partiste e a marca dos 
teus passos consiste nos olhos abertos de um pássaro esventrado. 
Ah, mas o luar é uma pluma do meu leito e a lua é o colo de 
tu morreste para poderes enfim tocar-me o rosto.

Ana Hatherly
in, “Poesia 1958-1978”






segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Fases





Tenho fases, como a lua,
Fases de andar escondida, 
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida! 
Perdição da vida minha! 
Tenho fases de ser tua, 
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm, 
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!

Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...).
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...

E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...


Cecília Meireles




domingo, 2 de agosto de 2015

Lisbon Revisited





Nada me prende a nada.
Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja —
Definidamente pelo indefinido…
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.

Fecharam-me todas as portas abstractas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver na rua.
Não há na travessa achada número de porta que me deram.

Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta — até essa vida…

Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.

Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do Sul impossível aguardam-me náufrago;
Ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.

Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma…
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos últimos da alma onde memoro sem causa
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, últimos restos
Da ilusão final,
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas coortes por existir, esfaceladas em Deus.

Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavorosamente perdida…
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui…
Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar,
E aqui de novo tornei a voltar?
Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma série de contas-entes ligadas por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?

Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.

Outra vez te revejo — Lisboa e Tejo e tudo —,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver…

Outra vez te revejo,
Sombra que passa através de sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir…

Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim não me revejo!
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim —
Um bocado de ti e de mim!…


Álvaro de Campos 
in, "Poemas"




sábado, 1 de agosto de 2015

Gnossienne nº 1



Eu acreditei que podia amar
o teu corpo, o teu modo de insinuar o coração
nas palavras. Mas era apenas a forma como a noite
sublinhava as superfícies, eu nunca pude atravessar
essa espessura. Estavas ali para te dispores aos meus sentidos
mas crescias fora de alcance no teu próprio
pensamento. Uma distância que só serviria
aos lobos, um mau caminho arrancado às fragas.

Já só conhecia os dias onde tu os frequentavas, o sítio
em que me mantinhas era mais urgente
que o sangue. Sem dúvida que vinhas pelo meu desejo
mas eu perdia sempre alguma coisa
quando te ganhava. Às vezes era só
a minha vontade, outras vezes era toda a frase
do meu nome.


RUI PIRES CABRAL
in, "Música Antológica & Onze Cidades"