sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Livro de Horas




Aqui, diante de mim, 
Eu, pecador, me confesso 
De ser assim como sou. 
Me confesso o bom e o mau 
Que vão ao leme da nau 
Nesta deriva em que vou. 

Me confesso 
Possesso 
Das virtudes teologais, 
Que são três, 
E dos pecados mortais, 
Que são sete, 
Quando a terra não repete 
Que são mais. 

Me confesso 
O dono das minhas horas. 
O das facadas cegas e raivosas 
E o das ternuras lúcidas e mansas. 
E de ser de qualquer modo 
Andanças 
Do mesmo todo. 

Me confesso de ser charco 
E luar de charco, à mistura. 
De ser a corda do arco 
Que atira setas acima 
E abaixo da minha altura. 

Me confesso de ser tudo 
Que possa nascer e mim 
De ter raízes no chão 
Desta minha condição. 
Me confesso de Abel e de Caim. 

Me confesso de ser Homem 
De ser um anjo caído 
Do tal céu que Deus governa. 
De ser um monstro saído 
Do buraco mais fundo da caverna. 
Me confesso de ser eu 
Eu, tal e qual como vim 
Para dizer que sou eu 
Aqui, diante de mim! 


Miguel Torga





quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Pirata




Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.

Gosto de uivar no vento com os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.

A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.


Sophia de Mello Breyner Andresen





domingo, 25 de outubro de 2015

Eu não Quero o Presente, Quero a Realidade






Vive, dizes, no presente, 
Vive só no presente. 

Mas eu não quero o presente, quero a realidade; 
Quero as cousas que existem, não o tempo que as mede. 

O que é o presente? 
É uma cousa relativa ao passado e ao futuro. 
É uma cousa que existe em virtude de outras cousas existirem. 
Eu quero só a realidade, as cousas sem presente. 

Não quero incluir o tempo no meu esquema. 
Não quero pensar nas cousas como presentes; quero pensar nelas 
como cousas. 

Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes. 

Eu nem por reais as devia tratar. 
Eu não as devia tratar por nada. 

Eu devia vê-las, apenas vê-las; 
Vê-las até não poder pensar nelas, 
Vê-las sem tempo, nem espaço, 
Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê. 
É esta a ciência de ver, que não é nenhuma. 


Alberto Caeiro 
in, "Poemas Inconjuntos" 





A pele é o meu único limite






A pele é o meu único limite
atravessa-a
onde a luz é mais forte
não feches lá fora o mundo
nem a mim cá dentro

mostra-me
que o sol no céu
é o sonho em mim própria
a realidade ardente
quando me mordes
e me fazes sentir
que não há diferença
entre lado de fora e lado de dentro
entre dor e carícia
pedra e palavra

porosa às tuas investidas
sou aquela que
se abre em desejo
de existir no mundo
em todo o lado e ao mesmo tempo

dá-me o que tens
de tudo
não exijo mais nada.


Pia Trafdup





sábado, 24 de outubro de 2015

Canção de Mim Mesmo 21




Sou o poeta do Corpo e sou o poeta da Alma,
Os prazeres do céu estão comigo e as dores do inferno estão comigo,
O primeiro eu transplanto e amplio sobre mim e o segundo traduzo em uma nova língua.

Eu sou o poeta da mulher tanto quanto o do homem,
E digo que é tão grandioso ser uma mulher como ser um homem,
E digo que não há nada maior do que ser a mãe dos homens.

Canto o canto da expansão ou do orgulho,
Já tivemos fuga e censura o suficiente,
Revelo que o tamanho é apenas o desenvolvimento.

Ultrapassaste os demais? És o Presidente?
Isso é ninharia, eles irão além desse teu feito.

Eu sou aquele que caminha com a noite que cresce brandamente,
Clamo à terra e ao mar, em parte abraçados pela noite.

Estampa-te em mim, noite de seio nu — estampa-te em mim, noite magnética e nutritiva!
Noite do vento sul — noite de estrelas grandes e escassas!
Noite imóvel e ondulante — noite de verão louca e desnuda.

Sorri, ó voluptuosa terra de hálito fresco!
Terra das árvores sonolentas e líquidas!
Terra do crepúsculo finado — terra das montanhas dos topos de neblina!
Terra da vertente vítrea da lua cheia, subtilmente tingida de azul!
Terra do brilho e da escuridão que mosqueiam a maré do rio!
Terra do cinza límpido, das nuvens que são mais brilhantes e mais claras em meu nome!
Terra angulada dos grandes precipícios — terra rica em flores de macieira!
Sorria, teu amante está chegando.

Pródiga, tu me deste amor — assim sendo eu também te dou amor!
Ó amor apaixonado e indizível.


in, Song of Myself
Walt Whitman




segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Poema Taoísta





No início, a criação. O céu e a terra.
Os dois se tocam formando o homem no meio do céu e da terra.
A natureza e todas as coisas, o todo unido e simbolizado pelo Tao.
O homem sai em busca do conhecimento.
Ele o conquista e traz para si, para o seu interior,
e tudo que aprende ele devolve ao mundo, através de seus actos,
recebendo em troca a sabedoria. O homem aprende e abre o seu coração.
E quando o coração está aberto, pleno de bondade e quietude,
os pássaros vêm cantar em seu jardim.
Parte em busca de novas fronteiras e nessa busca 
procura os céus que generosamente lhe concedem mais sabedoria
que ele incorpora, e procura transmitir ao mundo.
Mas muitas coisas o mundo não compreende e o agride, 
ele se defende e retira todos os obstáculos de seu caminho.
Como a cegonha, ele limpa seus obstáculos,
e prossegue seu caminhar pelo mundo.
E se depara então próximo ao mar.
Senta à beira da praia e observa o fluir das ondas em seu contínuo ir e vir
e compreende que sua vida se assemelha às ondas,
em seu constante ciclo de ir e vir.
Se levanta e continua o seu caminho.
A seguir, começa a observar os animais. 
O homem que se julgava a maior e melhor obra da criação
inveja a liberdade do voo das aves,
mas para a conquista desta liberdade o homem deve sair para a luta
e enfrentar os desafios da vida, lutando como um tigre na floresta.
Ao caminhar pela floresta o tigre não faz barulho,
ele é silencioso, tão leve quanto o bater das asas de uma ave.
Assim deve ser o homem e sua caminhada pelo mundo.
Caminhar sem fazer barulho algum, sem fazer alarde,
viver sua vida com naturalidade estando sempre em profunda perfeição.
E assim continua seu caminho indo em todas as direcções,
buscando experiências diversas, andando, expandindo-se,
interagindo com a natureza que o cerca.
Mas a vida do homem é muito turbulenta e ele baila frente às dificuldades.
Ora se encontra no céu ora nas mais tortuosas e profundas dores da terra,
mas quando se está no fundo o único caminho é para cima.
Então o homem volta-se para o céu
e retorna à terra prosseguindo a sua jornada, almejando novos horizontes.
Neste momento ele se encontra no ponto importantíssimo de sua caminhada.
Ele se depara com uma montanha.
A montanha simboliza um grande obstáculo 
de cada um de nós que deve ser enfrentado.

O discípulo do Tai-Chi não fugirá da luta, jamais.
Pois sabe que a montanha e todas as coisas que surgem no seu caminho
são elementos de aprendizado para sua experiência na terra.
Libera sua força e ataca como um tigre e se defende como tigre,
usa energia de seu interior e a expande.
Prossegue sua jornada lutando,
estando sempre no limiar de situações aparentemente antagónicas.
O homem agradece este presente dos céus e regressa à terra.
E nisso, surge um lago de águas calmas e brilhantes
simbolizando um problema do interior do guerreiro,
um problema espiritual, que não pode ser enfrentado com socos e pontapés.
O sábio, ao encontrar o lago, caminha com uma máxima suavidade,
por sobre as águas, tornando-se leve como o vento, leve como um espírito,
atravessando até chegar à sua margem e então ele olhará
para o lago e para os novos horizontes. 
Continua o seu caminhar, porém seus passos não são como de início.
São mais belos e harmoniosos apreciando novas situações.
Até que o nosso caminhante se depara com o bruxo, o mago,
a personificação do medo do desconhecido.
O bruxo somente estará morto pela flecha da sabedoria,
removendo o sentimento de terror e ignorância que caia na consciência dos homens.
Depois de ter enfrentado seus fantasmas, o nosso venerável guerreiro 
caminha guiado pela sua consciência e encontra o monge,
o mestre, o sábio, que aponta uma nova direcção, mudando o seu rumo.
Ele segue esta orientação tranquilo. 
Porém, no terceiro passo, ele se depara com um abismo e decide saltar,
retornar é o caminho dos covardes.
O nosso guerreiro se encontra no fundo do abismo envolto pela escuridão
e como uma serpente ele rasteja pela lama do fundo do abismo
sem ver uma direcção a seguir, rastejando; sujando-se de lama, ele percebe
que, como uma serpente, deve levantar-se, erguer-se para avistar novos horizontes.
Neste momento ocorre a morte do velho guerreiro.
E o nascimento de um novo homem que observa no horizonte distante uma luz
e resolve ir na sua direcção, porém percebe algo estranho,
quanto mais ele caminha na sua direcção mais ela se afasta.
Então ele pára e medita, e decide caminhar em direcção oposta, 
caminhando para o seu interior. 
Procurou tanto nas coisas externas
e quando ele se volta para o seu interior ocorre a iluminação.
A felicidade brota no seu ser e ele está livre para alçar o voo,
como uma gota de água no oceano que se evapora,
cai com a chuva formando os rios;
mas não há outro destino senão retornar ao grande oceano.
Liberto ele voa retornando ao lar, retornando ao grande Tao.
E este homem já não sabe mais o que é o céu
nem a terra, pois ele é toda a natureza,
tudo que está à sua volta são uma coisa só.


Wu San Dji Tao



sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Eu não me importo com nada do que me digas esta noite






Hoje podes deitar-te na minha cama
e contar-me mentiras - dizer, não sei,
que o amor tem a forma da minha mão
ou que os meus beijos são perguntas que
não queres que ninguém te faça senão eu; 
que as flores bordadas na dobra do meu lençol 
são de jardins perfeitos que
antes só existiam nos teus sonhos; 
e que na curva dos meus braços 
as horas são mais pequenas 
do que uma voz que no escuro se apagasse. 
Hoje podes rasgar cidades no mapa do meu corpo e
inventar que descobriste um continente
novo - uma pátria solar onde gostavas
de morrer e ter nascido. 
Eu não me importo com nada do que me digas 
esta noite: amo-te, e amar-te é reconhecer 
o pólen excessivo das corolas, 
o seu vermelho impossível. 
Mas amanhã, antes de partires,
não digas nada, 
não me beijes nas costas do meu sono. 
Leva-me contigo para sempre
ou deixa-me dormir - eu não quero ser
apenas um nome deitado entre outros nomes.


Maria do Rosário Pedreira





quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Just Dare






Dare to re-invent yourself
even when you don’t know 
what that looks like yet.
Dare to dream bigger than
you feel comfortable dreaming.
Dare to love unreasonably,
even if you have been hurt. 
Dare to practice radical self love
even when you aren’t sure how.
Dare to practice big compassionate love
for others, even those you don’t know.
Dare to say yes to your own self
even when your life or family or friends
don’t see it that way. 
Dare to not let fear get in your way,
and when it does, dare to keep moving forward.
Dare to be the most you that you can be
while daring to accepting yourself as you are.
Dare to discover what beautiful means,
to you and only you.
Dare to call yourself an artist, a poet, a dreamer,
a thinker, a revolutionary…
and then dare to take passionate action.
Dare to take risks that make you feel hopeful
even when you don’t know how it will all work.
Dare be a colorful woman, and dance alone.
Dare to live. Dare to love. Dare to laugh. 
Dare to not get it right. 
Dare to live in amazing grace.


Shiloh Sophia McCloud





segunda-feira, 12 de outubro de 2015

A Idade é Isto:


Laura Zalenga






Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.

Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo.

A idade é isto: o peso da luz
com que nos vemos

Mia Couto





sábado, 10 de outubro de 2015

Anonimamente



Pertenço-te no silêncio dos meus lábios
Que dão guarida aos meus segredos.
Pertenço-te na primeira luz da manhã,
Enquanto o sono abraça teus olhos,
Posseiro dos teus caminhos e vontades.
Pertenço-te, sem saber porquê, nem como,
Sem explicações e mesmo anonimamente.
Pertenço-te no desejo atrevido e húmido
Que te instiga a imaginação e te dilui a razão.
Pertenço-te quanto mais me negas,
E sei-me tua nos beijos que não me deste,
Nos arrepios que eriçam meu nome em tua nuca,
Nos sussurros que em tua boca acorrentas.
Pertenço-te na indecisão das tuas mãos,
E nas tuas tantas deliberadas recusas,
Nos trilhos que ocultas tuas confissões.
Pertenço-te na distância que me impões
Quando transbordam carícias do teu corpo
E indefeso, clamas para que meu tacto adormeça.
Pertenço-te nas entregas que adias,
Nos carinhos que tão bem atas,
E que vais somando aos teus desamparos.
Pertenço-te, quando teu corpo se debruça
Buscando em meu êxtase, os teus ais.
Pertenço-te no espalmar de tuas ânsias
Quando em teus lençóis, me procuras
Resgatando-me nos vestígios dos teus sonhos.
Pertenço-te no entrelaçar dos teus dedos tensos,
Quando ainda não presumes a minha chegada,
E hesitas em fazer-me teu destino, porto e acalanto.
Pertenço-te, quando te ausentas de ti,
E apenas a saudade de mim te alcança.
Pertenço-te sem horas, sem entender onde
Porque sempre fui tua, antes mesmo de te amar...

Fernanda Guimarães





sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Re-Union...with Jaguar




The jaguar gripped my hand, in his wet and gnashing mouth. 
Wounds are mysterious things;

How they can speak out so long
and loud
after new skin and new stories
tuck them
out of sight…

Sometimes it’s hard to put a
name to the old voice,
Mostly because there are so
many options:

Shame, grief, despair, anger, rage,
Fear…

But it is a growl that is recognizable –

in the ear of memory,
or the pit of the stomach.

And, in the last breath of an addict,
the jingle of prison cell keys,
the door slamming on bruised and beaten hearts,
the moment that innocence is stolen.

And, in all the Self-betrayals.

In every act of prey turned predator.

Unlike other cats, jaguars kill
with a bite to the head.

When he takes you by the hand,
it’s an invitation to go
to where you have always
had an invitation to go –

Where Light’s canine teeth
pierce
the Darkness.

It is here where wounds become
Sacred Wounds.

It is here where artists make vows to beauty,
musicians become composers,
poets transform poems into prayers,
prayers become a way of walking,
and the body begins to understand Love.

It is here where poison becomes Medicine.

Follow this path,
this Path,
though it twists and turns sharply downward,
though it leads to the lair
of everything you have been avoiding…

for a long, long time.

Follow this Path,
though you realize:
You’ve already been here.
This is the cave of your Dreams.
Yes, yes!

All those nightmares were
perfectly inscribed love notes
from the lily-scented Underworld,
always beckoning you to claim the
potential of this place,

Calling on you to honor
your blood –

The red thread embroidering
the edges of the tapestry
in which past, present, and future
are continuously being
woven together
in a circle.

Back to the jaguar:
I have found him to be a trusty guide.
And, odd as it may seem,
Thanked him for the bite.


Jamie K. Reaser
in, From "Re-Union: Coming Home to Each Other"




quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Canção de Mim Mesmo 20




Quem vai ali? Cheio de realizações, tosco, místico, nu;
Como extraio energia da carne que como?

O que é um homem afinal? O que sou eu? O que és tu?

Tudo o que marco como sendo meu tu deves compensar com o que é teu.
De outro modo seria perda de tempo ouvir-me.
Não lanço a lamúria da minha lamúria pelo mundo inteiro,
De que os meses são vazios e o chão é lamaçal e lixo.

Choradeira e servilismo são encontrados junto com os remédios para inválidos, a conformidade polariza-se no ordinário mais remoto.
Uso o meu chapéu como bem entender dentro ou fora de casa.

Por que eu deveria rezar? Por que deveria venerar e ser cerimonioso?

Tendo inquirido todas as camadas, analisado as minúcias, consultado os doutores e calculado com perícia,
Não encontro gordura mais doce do que aquela que se prende aos meus próprios ossos.

Em todas as pessoas vejo-me a mim mesmo, em nenhuma vejo mais do que eu sou, ou um grão de cevada a menos.
E o bem e o mal que falo de mim mesmo, eu falo delas.

Sei que sou sólido e sadio.
Para mim os objectos convergentes do universo fluem perpétuamente,
Todos são escritos para mim, e eu devo entender o que a escrita significa.

Sei que sou imortal,
Sei que a órbita do meu eu não pode ser varrida pelo compasso de um carpinteiro,
Sei que não passarei como os círculos luminosos que as crianças fazem à noite, com paus em brasa.

Sei que sou augusto.
Não perturbo o meu próprio espírito para que se defenda ou seja compreendido,
Vejo que as leis elementares nunca pedem desculpas,
(Reconheço que me comporto com um orgulho tão alto quanto o do nível com que assento a minha casa, afinal).

Existo como sou, isso me basta,
Se ninguém mais no mundo está ciente, fico satisfeito.
E se cada um e todos estiverem cientes, satisfeito fico.

Um mundo está ciente e esse é incomparavelmente o maior de todos para mim, e esse mundo sou eu mesmo,
E se venho para o que é meu, ainda hoje ou dentro de dez mil anos, ou dez milhões de anos,
Posso alegremente recebê-lo agora, ou esperá-lo com alegria igual.

Meus pés estão espigados e encaixados no granito,
Rio-me daquilo que chamas de dissolução,
E conheço a amplitude do tempo.


Walt Whitman
in, Song of Myself




quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Gosto quando te calas







Gosto quando te calas porque estás como ausente,
e me ouves de longe, minha voz não te toca.
Parece que os olhos tivessem de ti voado
e parece que um beijo te fechara a boca.

Como todas as coisas estão cheias da minha alma
emerge das coisas, cheia da minha alma.
Borboleta de sonho, pareces com minha alma,
e te pareces com a palavra melancolia.

Gosto de ti quando calas e estás como distante.
E estás como que te queixando, borboleta em arrulho.
E me ouves de longe, e a minha voz não te alcança:
Deixa-me que me cale com o silêncio teu.

Deixa-me que te fale também com o teu silêncio
claro como uma lâmpada, simples como um anel.
És como a noite, calada e constelada.
Teu silêncio é de estrela, tão longinquo e singelo.

Gosto de ti quando calas porque estás como ausente.
Distante e dolorosa como se tivesses morrido.
Uma palavra então, um sorriso bastam.
E eu estou alegre, alegre de que não seja verdade.


Pablo Neruda





Há historias que não acabam






Há historias que não acabam.
Até podemos tentar colocar-lhes um ponto final. Reclamar. Rebater pontos de vista.
Trocar acusações. Dizer "adeus, até um dia".
Fechar o livro e tentar passar à história seguinte.

Há historias que não se calam sozinhas.
Que não sabem ficar sossegadas e teimam em rasgar a folha da palavra fim.
Há historias em que se tenta fechar o livro.
Devolvê-lo ou oferece-lo, mas que voltam sempre às nossas mãos.
Que não saem da nossa mesa de cabeceira, como um eterno livro que não se acaba de ler.

Há historias que são únicas.
Começam e não mais acabam.
Vão-se reescrevendo, reinventando, reformulando. Mas duram.
Sempre com uma nova perspectiva, com um novo capitulo ou sequela.

Há historias assim. De amor. A minha e a tua.


Rita Leston




sábado, 3 de outubro de 2015

Anota aí para seu futuro menina:



Anota aí para seu futuro menina:

Desapegar das pessoas, 
se importar menos, 
não se abalar por nada nem ninguém, 
correr atrás daquilo que faça seu coração vibrar, 
ficar perto de quem te quer bem, 
correr atrás dos seus sonhos, 
se amar mais, 
esquecer tudo aquilo que te faça mal. 

Anota aí: Cair na real.


Caio Fernando Abreu




quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Para ti





Foi para ti 
que desfolhei a chuva 
para ti soltei o perfume da terra 
toquei no nada 

e para ti foi tudo 

Para ti criei todas as palavras 
e todas me faltaram 
no minuto em que talhei 
o sabor do sempre 

Para ti dei voz 
às minhas mãos 
abri os gomos do tempo 
assaltei o mundo 
e pensei que tudo estava em nós 
nesse doce engano 
de tudo sermos donos 
sem nada termos 
simplesmente porque era de noite 
e não dormíamos 
eu descia em teu peito 
para me procurar 
e antes que a escuridão 
nos cingisse a cintura 
ficávamos nos olhos 
vivendo de um só 
amando de uma só vida 

Mia Couto 
in,  Raiz de Orvalho e Outros Poemas