domingo, 29 de novembro de 2015

Nada Sei




Não me perguntes,
porque nada sei
Da vida,
Nem do amor,
Nem de Deus,
Nem da morte.
Vivo,
Amo,
Acredito sem crer,
E morro, antecipadamente
Ressuscitando.
O resto são palavras
Que decorei
De tanto as ouvir.
E a palavra
É o orgulho do silêncio envergonhado.
Num tempo de ponteiros, agendado,
Sem nada perguntar,
Vê, sem tempo, o que vês
Acontecer.
E na minha mudez
Aprende a adivinhar
O que de mim não possas entender.

Miguel Torga







terça-feira, 24 de novembro de 2015

Pelo sonho é que vamos



Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia a dia.
Chegamos? Não chegamos?
– Partimos. Vamos. Somos.

Sebastião da Gama





segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Canção de Mim Mesmo 22



Tu, ó mar! Eu também me entrego a ti — adivinho o que queres dizer,
Vejo da praia teus dedos deformados que me convidam,
Creio que recusas retornar sem antes me sentir,
Precisamos juntos dar uma volta, eu me dispo, me apresso para fora da vista da terra,
Amortece-me suavemente, embala-me em encapelado adormecimento,
Espirra-me a tua humidade amorosa, eu posso recompensar-te.

Mar de estendidos elementos avultados,
Mar de respirações vastas e convulsivas,
Mar da água da vida e das sepulturas não cavadas sempre prontas,
Uivador e escavador de tempestades, caprichoso e requintado mar,
Sou um contigo, também sou de uma fase e de todas as fases.

Compartilhador do influxo e do efluxo eu, cantor do ódio e da conciliação,
Cantor dos amigos e daqueles que dormem nos braços uns dos outros.

Eu sou aquele que oferece solidariedade,
(Devo fazer a minha lista das coisas que estão dentro da casa e esquecer a casa que as sustenta?)

Não sou o poeta da bondade apenas, não rejeito a possibilidade de ser também o poeta da maldade.

Que parvoíce é essa de virtude e vício?
O mal me impele e a reforma do mal também me impele, e eu permaneço indiferente,
Meu modo de andar não é o de um crítico ou o de alguém que contesta,
Eu molho a raiz de tudo o que cresceu.

Temias alguma escrófula após a persistente gravidez?
Pensavas que as leis celestiais precisariam ser aperfeiçoadas e corrigidas?

Encontro de um lado o equilíbrio e do lado oposto um equilíbrio,
Uma doutrina maleável é tão segura quanto uma doutrina estável,
Pensamentos e feitos do presente são nosso despertar e nosso início prematuro.

Este minuto que me chega após os decilhões passados,
Não há nada melhor do que ele agora.

O que se comportou bem no passado ou se comporta bem no presente não é por isso um assombro,
O assombro é sempre e sempre que possa haver um homem mau ou infiel.


Walt Whitman
in, Song of Myself





quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Para atravessar contigo o deserto do mundo








Para atravessar contigo o deserto do mundo 
Para enfrentarmos juntos o terror da morte 
Para ver a verdade para perder o medo 
Ao lado dos teus passos caminhei 

Por ti deixei meu reino meu segredo 
Minha rápida noite meu silêncio 
Minha pérola redonda e seu oriente 
Meu espelho minha vida minha imagem 
E abandonei os jardins do paraíso 

Cá fora à luz sem véu do dia duro 
Sem os espelhos vi que estava nua 
E ao descampado se chamava tempo 

Por isso com teus gestos me vestiste 
E aprendi a viver em pleno vento


Sophia de Mello Breyner Andersen
in "Livro Sexto"




terça-feira, 17 de novembro de 2015

O amor é uma espécie de preconceito





O amor é uma espécie de preconceito. 
A gente ama o que precisa, 
ama o que faz sentir bem, 
ama o que é conveniente. 
Como se pode dizer que se ama uma pessoa 
quando há dez mil outras no mundo 
que você amaria mais se conhecesse? 
Mas a gente nunca conhece. 

Charles Bukowski







domingo, 15 de novembro de 2015

Não sei quantas almas tenho






Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu.


Fernando Pessoa





quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Amo-te Por Todas as Razões e Mais Uma







Por todas as razões e mais uma.
Esta é a resposta que costumo dar-te quando me perguntas por que razão te amo.
Porque nunca existe apenas uma razão para amar alguém.
Porque não pode haver nem há só uma razão para te amar.
Amo-te porque me fascinas e porque me libertas e porque fazes sentir-me bem.
E porque me surpreendes e porque me sufocas
e porque enches a minha alma de mar e o meu espírito de sol e o meu corpo de fadiga.
E porque me confundes e porque me enfureces
e porque me iluminas e porque me deslumbras.
Amo-te porque quero amar-te
e porque tenho necessidade de te amar
e porque amar-te é uma aventura.
Amo-te porque sim mas também porque não e, quem sabe, porque talvez.
E por todas as razões que sei e pelas que não sei e por aquelas que nunca virei a conhecer.
E porque te conheço e porque me conheço.
E porque te adivinho.
Estas são todas as razões.
Mas há mais uma:
porque não pode existir outra como tu.


Joaquim Pessoa 
in, Ano Comum





quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Let’s just lay around.






Look, let’s give it up. 
Let’s just lay around and make love and take walks and talk a little. 
Let’s drive down and look at the ocean. 
It’s only 45 minutes. 
Let’s play games in the arcades. 
Let’s go to the races, the Art Museum, the boxing matches. 
Let’s have friends. 
Let’s laugh. 
This kind of life like everybody else’s kind of life: it’s killing us.


Charles Bukowski




domingo, 8 de novembro de 2015

No Centro da Cidade Um Grito







Mas hoje, ainda longe daquele grito, sento-me na fímbria do mar.
Medito no meu regresso.
Possuo para sempre tudo o que perdi.
E uma abelha pousa no azul do lírio, e no cardo que sobreviveu à geada. 
Penso em ti.
Bebo, fumo, mantenho-me atento, absorto – aqui sentado, junto à janela fechada.
Ouço-te ciciar amo-te pela primeira vez, e na ténue luminosidade que se recolhe ao horizonte 
acaba o corpo.
Recolho o mel, guardo a alegria, e digo baixinho: 
Apaga as estrelas, vem dormir comigo no esplendor da noite do mundo que nos foge.


Al Berto 
in, Lunário





quarta-feira, 4 de novembro de 2015

A paixão grega







Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?…
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão
e eu me perdesse nela
a paixão grega.


Herberto Hélder





terça-feira, 3 de novembro de 2015

Contemplo o lago mudo






Contemplo o lago mudo
Que uma brisa sacode.
Não sei se fodo tudo
Ou se tudo me fode.

A brisa é o lago a ir
A uma ideia de mar.
Não sei se me ate a rir
Ou desate a chorar.

Trémulos vincos medonhos
Cercando a água toda,
Por que fiz eu dos sonhos
A minha única nódoa?


Mario Cesariny




segunda-feira, 2 de novembro de 2015

No esquecimento de te amar




escrevo-te a sentir tudo isto
e num instante de maior lucidez poderia ser o rio
as cabras escondendo o delicado tilintar dos guizos nos sais de prata da fotografia
poderia erguer-me como o castanheiro dos contos sussurrados junto ao fogo
e deambular trémulo com as aves
ou acompanhar a sulfúrica borboleta revelando-se na saliva dos lábios
poderia imitar aquele pastor
ou confundir-me com o sonho de cidade que a pouco e pouco morde a sua imobilidade



habito neste país de água por engano
são-me necessárias imagens radiografias de ossos
rostos desfocados
mãos sobre corpos impressos no papel e nos espelhos
repara
nada mais possuo
a não ser este recado que hoje segue manchado de finos bagos de romã
repara
como o coração de papel amareleceu no esquecimento de te amar



Al Berto





domingo, 1 de novembro de 2015

Terror de te amar







Terror de te amar

Num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.


Sophia de Mello Breyner Andresen