terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Se um dia regressares




Se um dia regressares, a terra estremecerá na memória
de tua ausência. E a água formará um vasto oceano no outro
lado do teu olhar.
Regressarás, talvez, quando o ar se tornar rubro em redor
do meu sono – e o lume das horas, a pouco e pouco,
saciar a boca que clama pelo teu nome.
Encontrar-nos-emos nas imagens deste jardim de
afectos e de ódios. Porque os jardins são labirínticas arquitecturas
mentais, onde podemos rasgar os corpos de
qualquer voragem do tempo.
Por isso, enquanto não regressas, construo jardins de areia e cinza, jardins de
água e fogo, jardins de répteis e de
ervas aromáticas, jardins de minerais e de cassiopeias –
mas todos abandono à invasão do tempo e da melancolia.
Mas se um dia regressares, passeia-te por dentro do
meu corpo. Descobrirás o segredo deste jardim interior –
cuja obscuridade e penumbras guardaram intacto o
nocturno coração.


Al Berto






segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Se Tu Viesses Ver-me...




Se tu viesses ver-me hoje à tardinha, 
A essa hora dos mágicos cansaços, 
Quando a noite de manso se avizinha, 
E me prendesses toda nos teus braços... 

Quando me lembra: esse sabor que tinha 
A tua boca... o eco dos teus passos... 
O teu riso de fonte... os teus abraços... 
Os teus beijos... a tua mão na minha... 

Se tu viesses quando, linda e louca, 
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo 
E é de seda vermelha e canta e ri 

E é como um cravo ao sol a minha boca... 
Quando os olhos se me cerram de desejo... 
E os meus braços se estendem para ti... 


Florbela Espanca
in, "Charneca em Flor" 





quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

CÂNTICO 09






Os teus ouvidos estão enganados.
E os teus olhos.
E as tuas mãos.
E a tua boca anda mentindo
Enganada pelos teus sentidos.

Faz silêncio no teu corpo.
E escuta-te.
Há uma verdade silenciosa dentro de ti.
A verdade sem palavras.

Que procuras inutilmente,
há tanto tempo,
pelo teu corpo, que enlouqueceu.


Cecília Meireles






domingo, 20 de dezembro de 2015

Mistério




Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,
Dizendo coisas que ninguém entende!
Da tua cantilena se desprende
Um sonho de magia e de pecados.

Dos teus pálidos dedos delicados
Uma alada canção palpita e ascende,
Frases que a nossa boca não aprende,
Murmúrios por caminhos desolados.

Pelo meu rosto branco, sempre frio,
Fazes passar o lúgubre arrepio
Das sensações estranhas, dolorosas…

Talvez um dia entenda o teu mistério…
Quando, inerte, na paz do cemitério,
O meu corpo matar a fome às rosas!


Florbela Espanca






domingo, 13 de dezembro de 2015

Los Ojos, la puerta del alma






No hay nada mas interesante que los ojos.
¿Ya miraste a los ojos de la otra persona?
De la persona amada y no amada.
Del amigo y del conocido.
Del jefe y del compañero de trabajo.
De un niño y un anciano.
Los ojos emiten una energía 
que es la misma energía del alma, 
por eso son conocidos como 
las ventanas del alma. 
Cuando miro en los ojos 
y dejo que los otros miren en mis ojos, 
estoy abriendo puertas 
hacia un mundo de comprensión y amor.


Pablo Neruda





sábado, 12 de dezembro de 2015

Vida


Anton Belovodchenko





Vida que às costas me levas
porque não dás um corpo às tuas trevas?

Porque não dás um som àquela voz
que quer rasgar o teu silêncio em nós?

Porque não dás à pálpebra que pede
aquele olhar que em ti se perde?

Porque não dás vestidos à nudez
que só tu vês?


Natália Correia





quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

VIVER É...






Viver é uma peripécia. 
Um dever, um afazer, um prazer, um susto, uma cambalhota. 
Entre o ânimo e o desânimo, um entusiasmo ora doce, ora dinâmico e agressivo. 
Viver não é cumprir nenhum destino, não é ser empurrado ou rasteirado pela sorte. 
Ou pelo azar. 
Ou por Deus, que também tem a sua vida. 
Viver é ter fome. Fome de tudo. 
De aventura e de amor, 
de sucesso e de comemoração de cada um dos dias que se podem partilhar com os outros. 
Viver é não estar quieto, nem conformado, nem ficar ansiosamente à espera. 
Viver é romper, rasgar, repetir com criatividade. 
A vida não é fácil, nem justa, e não dá para a comparar a nossa com a de ninguém. 
De um dia para o outro ela muda, muda-nos, 
faz-nos ver e sentir o que não víamos nem sentíamos antes e, possivelmente, 
o que não veremos nem sentiremos mais tarde. 
Viver é observar, fixar, transformar. 
Experimentar mudanças. 
E ensinar, acompanhar, aprendendo sempre. 
A vida é uma sala de aula onde todos somos professores, onde todos somos alunos. 
Viver é sempre uma ocasião especial. 
Uma dádiva de nós para nós mesmos. 
Os milagres que nos acontecem têm sempre uma impressão digital. 
A vida é um espaço e um tempo maravilhosos mas não se contenta com a contemplação. 
Ela exige reflexão. 
E exige soluções. 
A vida é exigente porque é generosa. 
É dura porque é terna. 
É amarga porque é doce. 
É ela que nos coloca as perguntas, cabendo-nos a nós encontrar as respostas. 
Mas nada disso é um jogo. 
A vida é a mais séria das coisas divertidas.


Joaquim Pessoa 
in, Ano Comum





terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Little dark girl with kind eyes





little dark girl with
kind eyes
when it comes time to
use the knife
I won’t flinch and
I won’t blame
you,
as I drive along the shore alone
as the palms wave,
the ugly heavy palms,
as the living does not arrive
as the dead do not leave,
I won’t blame you,
instead
I will remember the kisses
our lips raw with love
and how you gave me
everything you had
and how I
offered you what was left of
me,
and I will remember your small room
the feel of you
the light in the window
your records
your books
our morning coffee
our noons our nights
our bodies spilled together
sleeping
the tiny flowing currents
immediate and forever
your leg my leg
your arm my arm
your smile and the warmth
of you
who made me laugh
again.
little dark girl with kind eyes
you have no
knife. the knife is
mine and I won’t use it
yet.


in, Raw With Love 
Charles Bukowski