domingo, 31 de janeiro de 2016




Mesmo que quisesse agradar
a todos jamais conseguiria 
e nunca tive essa pretensão.
Quero, é viver em paz, 
sorrindo e sentindo.
Minha pretensão é viver com 
emoção, amando com o coração 
cheio de ternura
Não sigo muitas regras; minha regra
é não ter regras, assim não fico 
a olhar somente na vertical
gosto é de viver e ver na horizontal.
Assim tenho visão completa 
do que quero para mim.
E o que quero é ser feliz 
e andar tranquilamente
nos caminhos que escolhi.


Irma Jardim


quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Teria gostado de te levar comigo outra vez





A claridade estava a crescer
numa cama que já se tinha atravessado no escuro
como uma nave enfileirando para a guerra.

Eu não tinha ficado para conhecer a vista
das tuas janelas: imaginava um pátio riscado por ervas
mas não cheguei a levantar as persianas.
Talvez fosse um sítio ao qual não se pudesse regressar
porque quando falávamos os nossos olhos
não coincidiam com nenhuma palavra.

Teria gostado de te levar comigo outra vez
mas era difícil recuperar as razões
para o desejo. E no caso de nos ter acontecido
uma mudança, onde é que havíamos de procurar
os seus indícios? Estavas a dar de comer aos peixes
e eu só falava em livros.


Rui Pires Cabral








domingo, 24 de janeiro de 2016

Os amigos





Os amigos
Esses estranhos que nós amamos 
e nos amam 
olhamos para eles e são sempre 
adolescentes, assustados e sós 
sem nenhum sentido prático 
sem grande noção da ameaça ou da renúncia 
que sobre a luz incide 
descuidados e intensos no seu exagero 
de temporalidade pura 
Um dia acordamos tristes da sua tristeza 
pois o fortuito significado dos campos 
explica por outras palavras 
aquilo que tornava os olhos incomparáveis 
Mas a impressão maior é a da alegria 
de uma maneira que nem se consegue 
e por isso ténue, misteriosa: 
talvez seja assim todo o amor.


José Tolentino Mendonça






sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Uma sábia anciã me disse


 Kareva Fahrenheit




Uma sábia anciã me disse:
Que o rio iria me moldar
E o vento selvagem me resfriar
Aquele pai Sol iria me aquecer
Mãe Terra iria me vestir
Lua avó me cumprimentar
Para andar sempre levemente
Pisar a Terra sempre gentilmente
E tirar dela com moderação
para compartilhar com os outros
O que aprendi dela
Ficar quieta e respirar, sempre com paciência
Para a teia da vida
Mas ainda assim escolher
Meu próprio caminho,
E, finalmente, a mulher sábia me disse:
Para ouvir a Sábia
Que habita dentro de mim
Para andar no meu caminho em equilíbrio
É também ser livre
Não ser apenas palavras.


Silvia Duarte


quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Inocência







O mundo não se fez 
para pensarmos nele
Mas para olharmos para ele 
e estarmos de acordo.
Eu não tenho filosofia: 
tenho sentidos...
Se falo na natureza 
não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama 
nunca sabe o que ama,
Nem sabe porque ama, 
nem o que é amar...
Amar é a inocência
E toda a inocência é não pensar...


Alberto Caeiro






quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

A dor de todas as ruas vazias






deus tem que ser substituído rapidamente por 
poemas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis,
vivos e limpos.

a dor de todas as ruas vazias.

sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste
silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abis-
mo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de aca-
bar comigo mesmo.

a dor de todas as ruas vazias.

mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do
deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e
dos encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu cora-
ção, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.

a dor de todas as ruas vazias.

pois bem, mário - o paraíso sabe-se que chega a lis-
boa na fragata do alfeite. basta pôr uma lua nervosa no
cimo do mastro, e mandar arrear o velame.

é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem
cadastro.

a dor de todas as ruas vazias.

sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o
filme acabou. não nos conheceremos nunca.

a dor de todas as ruas vazias.

os poemas adormeceram no desassossego da idade.
fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais
curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me
as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas. ..e
nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida - e
a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.

a dor de todas as ruas vazias.



Al Berto






terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Saberás






Saberás que não te amo e que te amo 
pois que de dois modos é a vida, 
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem a sua metade de frio.
Amo-te para começar a amar-te, 
para recomeçar o infinito 
e para não deixar de amar-te nunca: 
por isso não te amo ainda.
Amo-te e não te amo como se tivesse 
nas minhas mãos a chave da felicidade 
e um incerto destino infeliz.
O meu amor tem duas vidas para amar-te. 
Por isso te amo quando não te amo 
e por isso te amo quando te amo.


Pablo Neruda






domingo, 17 de janeiro de 2016

Canção de mim Mesmo 24




Walt Whitman, um Cosmos, de Manhattan o filho,
Turbulento, corpulento, sensual, comendo, bebendo e reproduzindo,
Sem sentimentalismo, sem estar acima de homens e mulheres ou separado deles,
Não mais modesto do que imodesto.

Desatai as fechaduras das portas!
Desatai mesmo as portas de seus batentes!

Quem quer que degrade o outro, degrada a mim,
E tudo o que é feito e dito retorna ao final para mim.

Através de mim a inspiração chega em ondas sobre ondas, através de mim a corrente e o catálogo.

Digo a senha primordial, eu dou o sinal da democracia,
Por Deus! Não aceitarei nada de que todos não possam ter sua compensação nos mesmos termos.

Através de mim muitas vozes emudecidas há muito tempo,
Vozes das gerações intermináveis de prisioneiros e escravos,
Vozes de doentes e desesperados e de ladrões e anões,
Vozes dos ciclos de preparação e crescimento,
E das linhas que se conectam aos astros, dos úteros e das coisas dos pais,
E dos direitos daqueles submetidos aos outros,
Dos deformados, dos fúteis, dos apáticos, dos tolos, dos desprezados,
Nevoeiro no ar, besouros rolando bolas de esterco.

Por mim, vozes proibidas,
Vozes de sexos e de desejos, vozes veladas e eu retiro o véu,
Vozes indecentes, por mim clarificadas e transfiguradas.

Não aperto meus dedos sobre a boca,
Cuido com delicadeza de meus intestinos, do mesmo modo com que cuido da cabeça ou do coração,
A cópula não é mais digna para mim do que a morte.

Acredito na carne e nos apetites,
A visão, a audição, o tacto são milagres, e cada parte e fragmento de mim é um milagre.

Divino eu sou por dentro e por fora e tudo o que toco ou aquilo por que sou tocado torna-se sagrado.
O cheiro dessas axilas é um perfume mais elevado do que a prece,
Esta cabeça é mais do que as igrejas, as bíblias, e todas as crenças.

Se eu cultuar algo com especial intensidade esse algo será a extensão de meu próprio corpo ou de qualquer parte dele.
Translúcido molde meu, serás tu!
Telhado e descanso que a sombra oferece, serás tu!
Arado firme e masculino, serás tu!
Qualquer coisa que vá para a minha lavoura serás tu!
Tu, meu rico sangue! Teu córrego lácteo são tiras pálidas da minha vida!
Peito que se aperta a outros peitos, serás tu!
Meu cérebro serão tuas recônditas torções!
Raiz de cálamo lavado! Temerosa narceja do lago! Ninho de ovos duplos vigiados! Serás tu!
Dança rústica misturada e indistinta de cabeça, barba, músculo, serás tu!
Gotejo de seiva de ácer, fibra de másculo trigo, serás tu!
Sol tão generoso, serás tu!
Vapor que ilumina e faz sombra em minha face, serás tu!
Regatos e orvalhos suados, sereis vós!
Ventos cujos genitais gotejam suavemente ao se roçarem contra mim, sereis vós!
Vastos campos musculares, ramos de carvalho vivo, amantes vadios em meus caminhos sinuosos, sereis vós!
Mãos que segurei, rosto que beijei, mortal que sempre toquei, sereis vós!

Tenho loucura por mim, há tanto de mim, e tudo tão saboroso,
Cada momento — aconteça o que acontecer — me enche de deleite.
Não posso dizer como meus tornozelos se torcem, nem a origem de meus menores desejos,
Nem a causa da amizade que irradio, nem a causa da amizade que recebo em troca.

Quando ando até o alpendre, paro para conjeturar sobre a realidade deste fato:
Uma planta que cresce em minha janela me satisfaz mais do que a metafísica dos livros.

Testemunhar a alvorada!
A luz débil enfraquece a sombra diáfana e imensa,
O ar tem um gosto bom para o meu paladar.

A maior parte de um mundo em movimento, em inocentes cambalhotas se erguendo silenciosamente, gotejando com frescor.
Fugindo obliquamente acima e abaixo.

Algo que não posso ver ergue seus forcados libidinosos,
Mares de fluidos brilhantes inundam o céu.

A terra pelo céu acompanhada, o fechamento diário de sua junção,
Desafio do leste erguido naquele momento sobre minha cabeça,
O insulto zombeteiro. Vê, então, se serás o Mestre!



Walt Whitman
in, Song of Myself






quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Lago Mudo




Contemplo o lago mudo
Que uma brisa sacode.
Não sei se fodo tudo
Ou se tudo me fode.

A brisa é o lago a ir
A uma ideia de mar.
Não sei se me ate a rir
Ou desate a chorar.

Trémulos vincos medonhos
Cercando a água toda,
Por que fiz eu dos sonhos
A minha única nódoa?


Mario Cesariny






Primeiro foi o Pessoa a dar o mote, ao contemplar o Lago Mudo. 
O Cesariny seguiu-lhe os passos em “O Virgem Negra” para explicar as palavras do poeta dos heterónimos às criancinhas naturais e estrangeiras.
Para quem não conhece ou quiser recordar o original do Pessoa, aqui está:


Contemplo o lago mudo
Que uma brisa estremece.
Não sei se penso em tudo
Ou se tudo me esquece.

O lago nada me diz,
Não sinto a brisa mexê-lo
Não sei se sou feliz
Nem se desejo sê-lo.

Trémulos vincos risonhos
Na água adormecida.
Por que fiz eu dos sonhos
A minha única vida?


Fernando Pessoa



E ainda a outra versão do Cesariny:

Contemplo o lago mudo
Que uma brisa revolve
Não sei se culpo tudo
Ou se tudo me absolve.

A brisa não me conforta
E o lago é uma visão distante
Não sei se leio em linha torta
Ou se me enleio no instante.

Trémulos vincos enfadonhos
Não sei se de vinda se de ida
Por que fiz eu dos sonhos
A minha única saída?


Mario Cesariny

                                                                   






sábado, 9 de janeiro de 2016

O que te queria dizer talvez não fosse isto






nem sequer telefonaste
tentava caminhar e tudo o que conseguia era bater
com a cabeça no lavatório tentava lembrar-me do meu nome
e só um rápido movimento de barbatanas sujas me aflorou a boca
esperei que viesses ao entardecer
abrisses os braços para mim
esperava que surgisses como um osso de luz reconhecível
mesmo durante a noite esperei
que me prendesses de novo para que não se enchesse o quarto
de peixes de enxofre devoradores de paredes
e tu nunca vieste
mais nada me poderia acontecer
teu rosto chegava-me à memória como mancha de fumo
longínqua nódoa de água e sangue
nos pulsos
uma mancha e tu não chegaste

desculpa
o que te queria dizer talvez não fosse isto
a solidão turva-se-me de lágrimas
e nas pálpebras tremem visões do meu delírio
olho as fotografias de antigos desertos
corpos coerentes que fomos
bocas de papel amarelecido
onde a sede nunca encontrou a sua água
e às vezes ainda tenho sede de ti


Al Berto 







sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Aquela





Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objecto de amor, atenta e bela.

Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha)

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.


Hilda Hilst





quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Quando aqui não estás o que nos rodeou põe-se a morrer







Quando aqui não estás
o que nos rodeou põe-se a morrer

a janela que abre para o mar
continua fechada só nos sonhos
me ergo
abro-a
deixo a frescura e a força da manhã
escorrem pelos dedos prisioneiros
da tristeza
acordo
para a cegante claridade das ondas

um rosto desenvolve-se nítido
além
rasando o sal da imensa ausência
uma voz

quero morrer
com uma overdose de beleza

e num sussurro o corpo apaziguado
perscruta esse coração
esse
solitário caçador.


Al Berto








quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Sê paciente






Sê paciente 
em relação a tudo o que 
está por resolver no teu coração
e tenta amar as próprias interrogações.
Não procures as respostas que não te podem ser
dadas, porque não serias capaz de as viver.
E o propósito é viver tudo.
Vive as interrogações agora. Talvez então, 
gradualmente,
sem que repares, possas um dia, 
no futuro distante, dar com
as respostas.


Rainer Maria Rilke
in, Cartas a Um Jovem Poeta










terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Quando Fores Velha




Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono,
Dormitando junto à lareira, toma este livro,
Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar
Que outrora tiveram teus olhos, e com as suas sombras profundas;

Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,
Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,
Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,
E amou as mágoas do teu rosto que mudava;

Inclinada sobre o ferro incandescente,
Murmura, com alguma tristeza, como o Amor te abandonou
E em largos passos galgou as montanhas
Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas.


W.B. YEATS 
in, UMA ANTOLOGIA






segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Canção de mim Mesmo 23







Interminável desdobramento de verbos de eras!
E o meu é o verbo do moderno, o verbo da Massa.

Um verbo de fé que nunca empaca,
Aqui, ou daqui em diante, tudo é o mesmo para mim, aceito o tempo de modo absoluto.

Só ele não tem falha, só ele a tudo circunda e tudo completa,
Essa mística e desconcertante maravilha a tudo completa.

Aceito a realidade e não ouso questioná-la,
O materialismo saturando o alfa e o ómega.

Hurra para a ciência positiva! Vida longa para a demonstração exacta!
Alcança a erva-pinheira misturada com o cedro e os galhos de lilás,
Este é o lexicógrafo, este é o químico, este fez uma gramática de antigos cartuchos,
Estes marinheiros colocam o navio por mares perigosos e desconhecidos,
Este é o geologista, este trabalha com o escalpelo e este é um matemático.

Cavalheiros, para vós sempre as primeiras honras!
Vossos fatos são úteis, mas não são o meu domínio,
Apenas cruzo com eles numa área de meu domínio.

Minhas palavras são menos que lembranças de propriedades descritas,
E são mais as lembranças da vida oculta, e de liberdade e desenredo,
E fazem pouco caso de eunucos e castrados, favorecendo homens e mulheres totalmente equipados,
E batem o gongo da revolta, e acampam com fugitivos e com aqueles que tramam e conspiram.


in, Song of Myself
Walt whitman






domingo, 3 de janeiro de 2016

ANDRÉ GIDE






O mais veloz corredor da sua geração, pelo menos 
no arranque, não admira que tenha chegado primeiro 
a muito lado. Mas tão cedo partia, invariavelmente, 
que nem louros nem medalhas, pois a prova ainda não 
tinha começado. Sofria essa mania de correr por fora 
de qualquer certame, por conta própria, em mandatos 
espontâneos, auto-atribuídos. Deste modo, andava 
sempre sozinho, porque quando os seus émulos partiam, 
já ele estava em casa, a preparar com a sombra a sua 
próxima aventura, que no fundo consistia em abrir pistas 
para quem viesse atrás. Assim, se queria conversar com 
alguém, só lhe restava fingir uma queda no senso-comum, 
uma lesão no joelho – e amiúde o fazia, pois na verdade 
pouco tinha de misantropo, chegando mesmo a execrar 
como maldita a compulsão que o levava a partir antes 
do tiro de largada, e a chegar primeiro onde ninguém 
o esperava. Talvez isso explique a timidez de anacoreta 
que sempre exibia, e a prudência relativa das suas passadas. 
Dez ou vinte anos depois, acelerados epígonos diriam 
morosas as suas corridas, convenientemente esquecidos, 
como é próprio de retardatários sem vergonha, que se 
faziam melhores tempos (os que faziam), era em pistas 
utilmente batidas e inauguradas por ele, o pujante pioneiro. 


José Miguel Silva





Aniversário







No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui…
A que distância!…
(Nem o acho…)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes…
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim…
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!


Fernando Pessoa