segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Se Eu Pudesse




Se eu pudesse trincar a terra toda 
E sentir-lhe um paladar, 
Seria mais feliz um momento ... 
Mas eu nem sempre quero ser feliz. 
É preciso ser de vez em quando infeliz 
Para se poder ser natural... 
Nem tudo é dias de sol, 
E a chuva, quando falta muito, pede-se. 
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade 
Naturalmente, como quem não estranha 
Que haja montanhas e planícies 
E que haja rochedos e erva ... 
O que é preciso é ser-se natural e calmo 
Na felicidade ou na infelicidade, 
Sentir como quem olha, 
Pensar como quem anda, 
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre, 
E que o poente é belo e é bela a noite que fica... 
Assim é e assim seja ... 

Alberto Caeiro 
in, "O Guardador de Rebanhos - Poema XXI" 






sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Gostava de falar em voz alta comigo mesmo, mas tenho medo






Silêncios, silêncios de todos os géneros circulam no meu sangue.
Silêncios inexplicáveis, silêncios que vêm dalgum lado desconhecido
do meu corpo, do sul muito ao sul da memória. E as moscas voam
em volta do candeeiro, desesperadamente. O silêncio mais constrangedor
emana-se delas, do ruído surdo das asas cortando o ar.
    Ouço-me agora atentamente, as mãos cansadas sobre a mesa de trabalho.
    Não me ocorre qualquer palavra escrever. A noite acende-se pelas
paredes, abro a janela e um rumor de mar chega até mim.
    Os roncos dos petroleiros no porto, o zumbido laminar dum insecto. Apoio-me
ao parapeito e começo a esmigalhar as formigas que passam.
    Que horas serão no tremer inquieto do coração?
    Uma ave nocturna levantou voo, por entre as palmeiras, e noite tornou-se
mais escura. Incompreensível, distante desta janela.
    O silêncio abate-se também sobre o rosto. Sinto-o quente no lado de dentro da pele.
    Gostava de falar em voz alta comigo mesmo, mas tenho medo.


Al Berto







segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

No Sol






Irás achar que foi um erro e foi 
um erro, que nada se passou 
e na verdade nada acontece nunca 
de verdade: a verdade seria 

eterna e o acontecido pertence 
aos eclipses do tempo precipícios 
em que depois da morte ficam vivos, 
como se o não estivessem, os momentos 

caídos; 
foi isso um erro porque nada existe 
nem nós, já ao império das vagas 
submetidos, 

porém na praia oblíqua onde estivemos 
permanecer no sol foi tudo o que quisemos 


Gastão Cruz
 in, A Moeda do Tempo






domingo, 21 de fevereiro de 2016

A MELODY ONLY SHE COULD SING






It is not
that she loved his laughter
any more than the rest
or that the draw of his skin
fit more neatly
across his chest
or that his kiss did not carry
the taste of all the love
he had given before

It’s that in the silence
with still breathing
and hearts beating
he whispered the lines
and played a melody
that only she could sing.


Tyler Kent White 




sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Gatos


Zora Milutinovic





Gatos não morrem de verdade:
eles apenas se reintegram
no ronronar da eternidade.

Gatos jamais morrem de facto:
suas almas saem de fininho
atrás de alguma alma de rato.

Gatos não morrem: sua fictícia
morte não passa de uma forma
mais refinada de preguiça.

Gatos não morrem: rumo a um nível
mais alto é que eles, galho a galho,
sobem numa árvore invisível.

Gatos não morrem: mais preciso
- se somem - é dizer que foram
rasgar sofás no paraíso

e dormirão lá, depois do ónus
de sete bem vividas vidas,
seus sete merecidos sonos.


Nelson Ascher







Súplica





Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria…
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.


Miguel Torga






domingo, 14 de fevereiro de 2016

Canção de mim Mesmo 26




Agora nada farei além de ouvir,
Para acrescer o que ouço aos meus cantos, para deixar que os sons contribuam em sua direcção.

Eu ouço o talento dos pássaros, o alvoroço do trigo que cresce, a fofoca das chamas, os estalos dos gravetos a cozinhar as  minhas refeições,
Eu ouço o som que amo, o som da voz humana,
Eu ouço todos os sons a propagarem-se juntos, combinados, fundidos ou em sequência,
Sons da cidade e sons fora da cidade, sons do dia e da noite,
Jovens faladores com os que deles gostam, a risada estridente dos trabalhadores durante as refeições,
A base irritada da amizade desfeita, os tons débeis dos doentes,
O juiz com as mãos presas à mesa, seus lábios pálidos a pronunciar uma sentença de morte,
Os altos brados dos estivadores descarregando os navios no cais, o refrão dos levantadores de âncora,
O toque dos alarmes, o grito de "fogo!", o ronco dos motores rápidos e do carro com mangueiras e tinidos premonitórios e luzes coloridas.
O apito a vapor, o rolamento sólido do comboio que está a chegar,
A marcha lenta tocada à frente da associação, a marchar dois a dois,
(Eles vão recolher alguns corpos, o topo das bandeiras drapejado com musselina negra).

Ouço o violoncelo (é o lamento do coração do rapaz),
Ouço a corneta de teclado que desliza rapidamente pelos meus ouvidos,
Ela causa uma agonia louca e doce que atravessa as minhas entranhas e o meu peito.

Ouço o coro, é a grande ópera,
Ah, isso sim é música! — isso se casa comigo.

Um tenor grande e novo como a criação me preenche,
O céu esférico da sua boca está a jorrar em mim e a realizar-me.

Ouço a soprano virtuosa (o que é este trabalho quando comparado ao dela?)
A orquestra faz-me rodopiar numa órbita mais larga que a do vôo de Urano,
Faz surgir em mim tais ardores que não imaginava possuir,
Ela faz-me navegar, mergulho meus pés descalços, eles são lambidos pelas ondas indolentes,
Sou cortado por um granizo amargo e irado, perco o fôlego,
Macerado por melíflua morfina, minha traqueia sufocada em farsas da morte,
Ao fim, solto-me uma vez mais para sentir o enigma dos enigmas,
E aquilo chamamos Ser.


Walt Whitman
in, Song of Myself






sábado, 13 de fevereiro de 2016

Amar






Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente…
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi para cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... para me encontrar...


Florbela Espanca
in , "Charneca em Flor",
Poesia Completa



sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

WHERE THE GENTLE MADNESS IS






The night was meant for
people like us. For people
who use it to get away.
For people who see themselves
in the city lights and for
those who lose themselves in
the long walks home.
The night is where the
gentle madness is, my friends,
and that is where people
like us belong.


 R.M. Drake 







quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Prazeres Partilhados






Bebo o meu café enquanto bebes
do meu café. Intriga-me que faças isso.
Se te posso pedir um
(se podes tomar um igual)
porque hás-de querer do meu?
Que
não. Que não queres. Escuso
de pedir
que não queres. Então
começo um cigarro e tu fumas
do meu cigarro dizes
«tenho quase a certeza de
não acabar um sozinha» por isso
fumas do meu.
Dá-te gozo esse roubar de
leves goles furtivos
dá gozo participar
do prazer que eu possa ter
contigo
(e entre nós)
dá-se agora tudo
a meias.


João Luís Barreto Guimarães






terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

TAKE ALL THAT YOU HAVE & BE POOR







Love the world, work for nothing.
Take all that you have and be poor.
Love someone who does not deserve it.
Denounce the government and embrace
the flag. Hope to live in that free
republic for which it stands.
Give your approval to all you cannot
understand. Praise ignorance, for what man
has not encountered, he has not destroyed.
Ask the questions that have no answers.
Invest in the millenium. Plant sequoias,
say that your main crop is the forest
that you did not plant,
that you will not live to harvest.
Say that the leaves are harvested
when they have rotted into mold.
Call that profit. Prophecy such returns.
Put your faith in the two inches of hummus
that will build under the trees
every thousand years.


Wendell Berry 



sábado, 6 de fevereiro de 2016

KEEP EXPERIENCING YOURSELF UNTIL IT TERRIFIES YOU






Fall deeply into something
indefinable. Believe me, it is
a beautiful thing. Let it grow
inside you until it becomes you,
and then let it grow some more.

And when the indefinable becomes
the familiar, then I urge you to
keep going, to keep finding,
there will always be more. That
is your role, to keep on experiencing
yourself until you know so much
that it terrifies you.


R.M. Drake


sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Canção de mim Mesmo 25


Walt Whitman com 28 anos





Fascinante e tremendo, com que rapidez o nascer do sol me mataria,
Se eu pudesse agora e sempre emitir, de dentro de mim, o nascer do sol.

Também nos erguemos fascinantes e tremendos como o sol,
Encontramos o que é nosso, ó minha alma, na calmaria e no frescor da alvorada.

Minha voz persegue o que meus olhos não alcançam,
Com um giro de minha língua abarco mundos e volumes de mundos.

A fala é gémea de minha visão, ela é inigualável em sua própria medida,
Ela me provoca para sempre, ela diz sarcasticamente,
Walt, conténs o bastante, por que não te abres para o mundo?

Vem agora, não serei atormentado, concebes articulação em demasia,
Não sabes, ó discurso, como os botões sob ti se fecham?
Esperando na escuridão, protegido pela geada,
A poeira retrocedendo perante os meus gritos proféticos,
Eu sublinhando causas para equilibrá-las finalmente,
Meu conhecimento são minhas partes vivas, ele mantém a conta do significado de todas as coisas,
Felicidade (quem quer que me ouça deixe que se lance em busca dela neste dia).

Meu mérito final recuso a ti, recuso-me a entregar o que de facto sou,
Abrange os mundos, mas nunca tentes me abranger,
Preencho o que tens de mais macio e de melhor simplesmente olhando para ti.

A escrita e a fala não me provam.
Carrego a plenitude das provas e tudo o mais em minha face,
Na quietude de meus lábios o céptico desconcerta-se inteiramente.


in, Song of Myself
Walt Whitman


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Viver? Ou sobreviver?






Nós falamos demais,
amamos raramente,
odiamos frequentemente.
Nós bebemos demais,
gastamos sem critérios.
(...).
Aprendemos a sobreviver,
mas não a viver;
adicionamos anos à nossa vida
e não vida aos nossos anos.
Fomos e voltamos à Lua,
mas temos dificuldade em cruzar a
rua e encontrar um novo vizinho.
Conquistamos o espaço,
mas não o nosso próprio.

(...)
Estamos na era (...) do homem grande, de carácter pequeno;
lucros acentuados e relações vazias.
Essa é a era de dois empregos,
vários divórcios, casas chiques e lares despedaçados.
Essa é a era das viagens rápidas,
fraldas e moral descartáveis,
das rapidinhas, dos cérebros ocos e das pílulas 'mágicas'.
Um momento de muita coisa na vitrina e muito pouco na dispensa.



George Carlin






Freedom






The most important kind of freedom
is to be what you really are. 
You trade in your reality for a role. 
You trade in your sense for an act. 
You give up your ability to feel,
and in exchange,
put on a mask. 
There can’t be any large-scale revolution
until there’s a personal revolution,
on an individual level.
It’s got to happen inside first. 


Jim Morrison 






segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Notas Para o Diário








deus tem que ser substituído rapidamente por poe-
mas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis,
vivos e limpos.

a dor de todas as ruas vazias.

sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste
silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abis-
mo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de aca-
bar comigo mesmo.

a dor de todas as ruas vazias.

mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do
deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e
dos encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu cora-
ção, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.

a dor de todas as ruas vazias.

pois bem, mário - o paraíso sabe-se que chega a lis-
boa na fragata do alfeite. basta pôr uma lua nervosa no
cimo do mastro, e mandar arrear o velame.

é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem
cadastro.

a dor de todas as ruas vazias.

sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o
filme acabou. não nos conheceremos nunca.

a dor de todas as ruas vazias.

os poemas adormeceram no desassossego da idade.
fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais
curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me
as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas. ..e
nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida - e
a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.

a dor de todas as ruas vazias.



Al-Berto
in, Horto de Incêndio