quinta-feira, 31 de março de 2016

Aqui





Aqui, deposta enfim a minha imagem, 
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem, 
No interior das coisas canto nua.

Aqui livre sou eu — eco da lua 
E dos jardins, os gestos recebidos 
E o tumulto dos gestos pressentidos, 
Aqui sou eu em tudo quanto amei.

Não por aquilo que só atravessei, 
Não pelo meu rumor que só perdi, 
Não pelos incertos actos que vivi,

Mas por tudo de quanto ressoei 
E em cujo amor de amor me eternizei.


Sophia de Mello Breyner Andresen
in, Dia do Mar









quarta-feira, 30 de março de 2016

Canção de Mim Mesmo 46




Sei que tenho o melhor do tempo e do espaço, que nunca foi e nunca será medido.

Percorro uma jornada perpétua (vinde todos ouvir!)
Meus sinais são um casaco à prova de chuva, bons sapatos e um cajado de madeira da floresta,
Nenhum amigo meu descansa em minha cadeira,
Não tenho cadeira, não tenho igreja, nem filosofia,
Não levo homem algum para o jantar, para a biblioteca, para a bolsa de valores,
Mas cada homem e cada mulher entre vós eu conduzo ao cimo de um outeiro,
Minha mão esquerda abraça-os pela cintura,
Minha mão direita aponta para as paisagens de continentes e estradas públicas.

Não eu, ninguém mais pode viajar aquela estrada em teu lugar,
Deves viajá-la com teus próprios passos.

Ela não é distante, ela está dentro do alcance,
Talvez estejas nela desde o teu nascimento e não saibas,
Talvez ela esteja em toda parte pela água e pela terra.

Põe tua mochila em teus ombros, filho amado, e eu farei o mesmo, e vamos apressar nossa jornada,
Cidades maravilhosas e nações livres tomaremos no caminho.

Se te cansares, entrega-me ambos os fardos e descansa o fôlego de tua mão em meus quadris,
E quando a hora chegar, tu hás de fazer o mesmo por mim,
Pois quando tivermos partido não repousaremos mais.

Hoje, antes do nascimento do sol, subi ao cimo de uma montanha e observei o céu povoado,
E disse para o meu espírito: Quando nos tornarmos os guardiões desses orbes e de todo o prazer e do conhecimento que neles há, estaremos, então, plenos e satisfeitos?
E meu espírito respondeu: Não, superaremos essa etapa apenas para passar adiante e ir mais além.

Estás, também, fazendo-me perguntas e eu posso ouvir-te,
Respondo que não posso responder, pois que encontres a resposta por ti mesmo.

Senta-te por um instante, filho amado,
Aqui estão alguns biscoitos para comeres e aqui algum leite para beberes,
Mas assim que dormires e te vestires com roupas limpas, eu te darei um beijo de despedida e abrirei o portão para que saias daqui.

Por tempo suficiente tens sonhado sonhos desprezíveis,
Agora, limpo a remela de teus olhos,
Deves habituar-te ao fascínio da luz e de todos os momentos de tua vida.

Por muito tempo, tu te agarraste timidamente a uma prancha na praia,
Agora quero que sejas um nadador ousado,
Para que mergulhes em alto mar, te ergas novamente, acenes para mim, grites e,
sorrindo, agites teus cabelos.


in, Song of Myself
Walt Whitman





domingo, 27 de março de 2016

Vem, sem medo




e tu sussurras:
- não, não afastes a boca da minha orelha.
derrama dentro dela aquilo que não consegues dizer em voz alta.
e eu digo:
- as tuas mãos queimam-me a fala.
tu sorris, dizes:
- vem , sem medo, pela aridez do meu corpo.
no fundo de mim existe um poço onde guardo a tua imagem. 
é tempo de ta devolver. 
é tempo de te reconheceres nela.


Al Berto





sábado, 26 de março de 2016

THIS LOVE WE SEEK IS NOT REAL






There will  be times when we
feel like we are meant to be
alone, like this love we seek
is not real and we created it
to make sense of our emptiness.

And because of that, sometimes
some of us become bitter with
the idea that love is only the
anticipation of finding someone
we will never live to meet.

So we live our lives looking for
something to fill us and give us
meaning. Only to discover that
in the end, love was never meant
to be received by one person
but rather all the people who
made us feel at home.



R.M. Drake





sexta-feira, 25 de março de 2016

I will remember...






I will remember your small room, 
the feel of you, 
the light in the window, 
your records, your books, 
our morning coffee, 
our noons, our nights, 
our bodies spilled together, 
sleeping, 
the tiny flowing currents, 
immediate and forever.
Your leg, my leg, your arm, my arm, 
your smile and the warmth of you 
who made me laugh again.


Charles Bukowski





quinta-feira, 24 de março de 2016

O sábio se entrega






O sábio se entrega 
para tudo que o momento traz. 
Ele sabe que irá morrer
e não possui mais nada a que se agarrar:
não há ilusões em sua mente.
nem resistência em seu corpo.
Ele não pensa sobre suas acções;
elas fluem do âmago do seu ser.
Ele não se prende a nada que conquistou na vida;
por isso ele está pronto para a morte,
como um homem está pronto para dormir.

Anónimo





WE ARE MOMENTS




We are magic.
we are moments.
we are dreams and
we are memories.
we are everything.
and in the depths
we swim deeper to
discover that we
are not born whole
so we cannot be
broken. we are born
searching, searching
for the other piece
that other person
to guide us home.


R.M. Drake




quarta-feira, 23 de março de 2016

Ausência






Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.



Carlos Drummond de Andrade






domingo, 20 de março de 2016

Para quê?!






Tudo é vaidade neste mundo vão…
Tudo é tristeza, tudo é pó, é nada!
E mal desponta em nós a madrugada,
Vem logo a noite encher o coração!

Até o amor nos mente, esta canção
Que o nosso peito ri à gargalhada,
Flor que é nascida e logo desfolhada,
Pétalas que se pisam pelo chão!…

Beijos de amor! Para quê?! … Tristes vaidades!
Sonhos que logo são realidades,
Que nos deixam a alma como morta!

Só neles acredita quem é louca!
Beijos de amor que vão de boca em boca,
Como pobres que vão de porta em porta!…



Florbela Espanca






sábado, 19 de março de 2016

Frémito do meu corpo







Frémito do meu corpo a procurar-te, 
Febre das minhas mãos na tua pele 
Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel, 
Doido anseio dos meus braços a abraçar-te,

Olhos buscando os teus por toda a parte, 
Sede de beijos, amargor de fel,
Estonteante fome, áspera e cruel, 
Que nada existe que a mitigue e a farte!

E vejo-te tão longe! Sinto a tua alma 
Junto da minha, uma lagoa calma, 
A dizer-me, a cantar que me não amas...

E o meu coração que tu não sentes, 
Vai boiando ao acaso das correntes, 
Esquife negro sobre um mar de chamas...


Florbela Espanca





Nasceu-te um Filho







Nasceu-te um filho. Não conhecerás, 
jamais, a extrema solidão da vida. 
Se a não chegaste a conhecer, se a vida 
ta não mostrou - já não conhecerás 

a dor terrível de a saber escondida 
até no puro amor. E esquecerás, 
se alguma vez adivinhaste a paz 
traiçoeira de estar só, a pressentida, 

leve e distante imagem que ilumina 
uma paisagem mais distante ainda. 
Já nenhum astro te será fatal. 

E quando a Sorte julgue que domina, 
ou mesmo a Morte, se a alegria finda 
- ri-te de ambas, que um filho é imortal. 


Jorge de Sena
in, Visão Perpétua





sexta-feira, 18 de março de 2016

Queixa e Imprecações Dum Condenado à Morte






Por existir me cegam,
Me estrangulam,
Me julgam,
Me condenam,
Me esfacelam.
Por me sonhar em vez de ser me insultam,
Por não dormir me culpam
E me dão o silêncio por carrasco
E a solidão por cela.
Por lhes falar, proíbem-me as palavras,
Por lhes doer, censuram-me o desejo
E marcam-me o destino a vergastadas
Pois não ousam morder o meu corpo de beijos.


Passo a passo os encontro no caminho
Que os Deuses e o sangue me traçaram.
E negando-me, bebem do meu vinho
E roubam um lugar na minha cama
E comem deste pão que as minhas mãos infames amassaram
Com angústia e com lama.


Passo a passo os encontro no caminho.
Mas eu sigo sozinho!
Dono dos ventos que me arremessaram,
Senhor dos tempos que me destruíram,
Herói dos homens que me derrubaram,
Macho das coisas que me possuíram.


Andando entre eles invento as passadas
Que hão-de em triunfo conduzir-me à morte
E as horas que sei que me estão contadas,
Deslumbram-me e correm, sem que isso me importe.


Sou eu que me chamo nas vozes que oiço,
Sou eu quem se ri nos dentes que ranjo,
Sou eu que me corto a mim mesmo no pescoço,
Sou eu que sou doido, sou eu que sou anjo.


Sou eu que passeio as correntes e as asas
Por sobre as cidades que vou destruindo,
Sou eu o incêndio que lhes devora as casas,
O ladrão que entra quando estão dormindo.


Sou eu quem de noite lhes perturba o sono,
Lhes frustra o amor, lhes aperta a garganta.
Sou eu que os enforco numa corda de sonho
Que apodrece e cai mal o sol se levanta.


Sou eu quem de dia lhes cicia o tédio,
O tédio que pensam, que bebem e comem,
O tédio de serem sem nenhum remédio
A perfeita imagem do que for um homem.


Sou eu que partindo aos poucos lhes deixo
Uma herança de pragas e animais nocivos.
Sou eu que morrendo lhes segredo o horror
De serem inúteis e ficarem vivos.



José Carlos Ary dos Santos






quinta-feira, 17 de março de 2016

O Guardador de Rebanhos






Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.



Alberto Caeiro






terça-feira, 15 de março de 2016

Ambiciosa








Para aqueles fantasmas que passaram,
Vagabundos a quem jurei amar,
Nunca os meus braços lânguidos traçaram
O vôo dum gesto para os alcançar…

Se as minhas mãos em garra se cravaram
Sobre um amor em sangue a palpitar…
– Quantas panteras bárbaras mataram
Só pelo raro gosto de matar!

Minha alma é como a pedra funerária
Erguida na montanha solitária
Interrogando a vibração dos céus!

O amor dum homem? – Terra tão pisada!
Gota de chuva ao vento baloiçada…
Um homem? – Quando eu sonho o amor dum deus!…



Florbela Espanca








segunda-feira, 14 de março de 2016

Presságio






O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar para ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente…
Cala: parece esquecer…

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Para saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar…



Fernando Pessoa






domingo, 13 de março de 2016

Eis-me







Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face

Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas do tempo em que não moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio

Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente.



Sophia de Mello Breyner Andresen






Canção de Mim Mesmo 28





É isto, então, um toque? Um estremecimento que me dá uma nova identidade,
Chamas e éter a correr pelas minhas veias,
Desleal pedaço de mim alcançando e entrando pela multidão para ajudá-la,
Minha carne e meu sangue a lançar raios para derrubar o que mal difere de mim mesmo,
De todos os lados lúbricos provocadores imobilizando os meus membros.
Puxando o úbere do meu coração para obter a seiva interna,
Comportando-se licenciosamente em relação a mim, não aceitando recusa,
Despojando-me do meu melhor a pretexto de uma causa,
Desabotoando as minhas roupas, abraçando-me pela cintura nua,
Enganando a minha confusão com a calma da luz solar e das pastagens,
Sem modéstia, afastando de mim os sentidos companheiros,
Eles os subornaram em troca do toque e foram pastar à beira de mim,
Nenhuma consideração, nenhuma atenção às minhas forças exauridas ou minha raiva,
Atraíram o resto do rebanho em torno de si para desfrutar deles por um momento,
Depois, todos se uniram em pé sobre um promontório a me afligir.

As sentinelas abandonam todas as outras partes de mim,
Deixaram-me desamparado diante de um saqueador escarlate,
Todos eles vêm ao promontório para testemunhar e se unir contra mim.

Sou entregue por traidores,
Falo abertamente, perdi as minhas graças, eu e ninguém além de mim sou o maior dos traidores,
Fui o primeiro a ir ao promontório, minhas próprias mãos me carregaram até lá.

Tu, toque canalha! O que estás a fazer? Minha respiração está apertada na garganta,
Abre as tuas comportas, és demais para mim.



Walt Whitman
in, Song of Myself





sábado, 12 de março de 2016

Prece






Senhor, a noite veio e a alma é vil. 
Tanta foi a tormenta e a vontade! 
Restam-nos hoje, no silêncio hostil, 
O mar universal e a saudade. 

Mas a chama, que a vida em nós criou, 
Se ainda há vida ainda não é finda. 
O frio morto em cinzas a ocultou: 
A mão do vento pode erguê-la ainda. 

Dá o sopro, a aragem — ou desgraça ou ânsia — 
Com que a chama do esforço se remoça, 
E outra vez conquistaremos a Distância — 
Do mar ou outra, mas que seja nossa! 



Fernando Pessoa





Mar Português







Ó mar salgado, quanto do teu sal 
São lágrimas de Portugal! 
Por te cruzarmos, quantas mães choraram, 
Quantos filhos em vão rezaram! 
Quantas noivas ficaram por casar 
Para que fosses nosso, ó mar! 

Valeu a pena? Tudo vale a pena 
Se a alma não é pequena. 
Quem quer passar além do Bojador 
Tem que passar além da dor. 
Deus ao mar o perigo e o abismo deu, 
Mas nele é que espelhou o céu. 



Fernando Pessoa




O mostrengo






O mostrengo que está no fim do mar 
Na noite de breu ergueu-se a voar; 
À roda da nau voou três vezes, 
Voou três vezes a chiar, 
E disse, “Quem é que ousou entrar 
Nas minhas cavernas que não desvendo, 
Meus tectos negros do fim do mundo?” 
E o homem do leme disse, tremendo: 
«El-Rei D. João Segundo!» 

“De quem são as velas onde me roço? 
De quem as quilhas que vejo e ouço?” 
Disse o mostrengo, e rodou três vezes, 
Três vezes rodou imundo e grosso. 
«Quem vem poder o que só eu posso, 
Que moro onde nunca ninguém me visse 
E escorro os medos do mar sem fundo?» 
E o homem do leme tremeu, e disse: 
«El-Rei D. João Segundo!» 

Três vezes do leme as mãos ergueu, 
Três vezes ao leme as reprendeu, 
E disse no fim de tremer três vezes: 
«Aqui ao leme sou mais do que eu: 
Sou um povo que quer o mar que é teu; 
E mais que o mostrengo, que me a alma teme 
E roda nas trevas do fim do mundo, 
Manda a vontade, que me ata ao leme, 
De El-Rei D. João Segundo!» 



Fernando Pessoa





O Infante







Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. 
Deus quis que a terra fosse toda uma, 
Que o mar unisse, já não separasse. 
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma, 

E a orla branca foi de ilha em continente, 
Clareou, correndo, até ao fim do mundo, 
E viu-se a terra inteira, de repente, 
Surgir, redonda, do azul profundo. 

Quem te sagrou criou-te português. 
Do mar e nós em ti nos deu sinal. 
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. 
Senhor, falta cumprir-se Portugal! 



Fernando Pessoa





quinta-feira, 10 de março de 2016

SO GOODNIGHT

                                           






Não posso dizer que tenha aprendido grande coisa
nos últimos, digamos, duzentos anos.
Há muitas perguntas que vão perdendo altura
à medida que as penas tombam e também
as garras já não prendem como soíam.
Depois de ter visto de que palha são enchidos
os príncipes felizes, já não saio de casa
sem levar comigo uma carteira de fósforos.
Agora tenho mais tempo morto, só de cinco
em cinco anos compro uma pilha nova
para o relógio. Em vez de cortar os pulsos
cortei a linha do telefone. Já não acordo de noite
para lhe perguntar por que não tocas.
E o que mais me custa, no fim de contas,
é dar razão a Confúcio quando afirma:
quanto mais te ergues para Deus mais ele
de ti se afasta, deixando-te sozinho
a arrumar a casa. Mas estes chineses,
na filosofia moral como no ténis de mesa,
acabam sempre por levar a taça,
e por esta altura da minha queda já concedo
que seja o silêncio a condição natural
para uma ave sem nome que Setembro chamou
e que há duzentos anos não aprende nada.




José Miguel Silva e Manuel de Freitas
in, "Walkmen"




quarta-feira, 9 de março de 2016

À peine défigurée






Adeus tristeza
Bom dia tristeza
Estás inscrita nas linhas do tecto
Estás inscrita nos olhos que amo
Não chegas a ser a miséria
Pois os lábios mais pobres te denunciam
Por um sorriso

Bom dia tristeza
Amor dos corpos amáveis
Potência do amor
Cuja amabilidade surge
Como um monstro sem corpo
Cabeça desapontada
tristeza belo rosto



Paul Eluard
in, La vie immédiate





segunda-feira, 7 de março de 2016

Congresso Internacional do Medo






Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,

não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.



Carlos Drummond de Andrade







quinta-feira, 3 de março de 2016

In Memoriam




Que a terra lhe seja pesada.
Que lhe apodreça o corpo e os olhos fiquem vivos,
Se lhe soltem os dentes e a fome fique intacta
E a alma, se a tiver, que lha fustigue o vento
E arrase com ela a memória gravada
Na lembrança demente dos que o choram.

Que a mulher que foi dele oiça o vento na noite,
Cheio de ossos e uivos
E garfos aguçados
E que reparta o medo com o primeiro intruso
E o vento se insinue pelas portas fechadas
E rasteje no quarto
E suba pela cama
E lhe entre no olhar como estiletes de aço
Lhe penetre os ouvidos como agulhas de som,
Lhe emaranhe os cabelos como um nó de soluços,
Lhe desfigure o rosto como um ácido em chama.

Que a mulher que foi dele oiça o vento na noite,
Que a mulher que foi dele oiça o vento na cama!

Que o nome que era o seu o persigam os ecos,
O gritem no deserto as gargantas com sede,
O murmurem no escuro os mendigos com frio,
O clamem na cidade as crianças com fome,
O soluce o amante de súbito impotente,
O maldigam no exílio as almas sem descanso

Que o nome que era o seu seja a bandeira negra,
A pálpebra doente,
O vómito de sangue..

Que o gesto que era o seu o imitem as mães
Que se torcem de dor quando abortam nas trevas,
O desenhem a lume os braços amputados,
O perpetue o esgar dos jovens mutilados,
O dance o condenado que morre na fogueira.

Que o gesto que era o seu seja o punhal do louco
A arma do ladrão
A marca do vencido.

Que o sangue que era o seu seja o rictus da tara,
A máscara de sal,
A vingança do pobre.
E que o Exterminador, no seu trono de enxofre,
O faça tilintar os guizos da tortura
Até que o mundo o esqueça
E mais ninguém o chore.



José Carlos Ary dos Santos
in, A Liturgia do Sangue 






quarta-feira, 2 de março de 2016

É Isto o Amor








Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que 
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a 
manhã da minha noite. É verdade que te podia 
dizer: «Como é mais fácil deixar que as coisas 
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos 
apenas dentro de nós próprios?» Mas ensinaste-me 
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou, 
até sermos um apenas no amor que nos une, 
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor: 
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua 
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo 
esse que mal corria quando por ele passámos, 
subindo a margem em que descobri o sentido 
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo 
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor, 
de chegar antes de ti para te ver chegar: com 
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água 
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu: 
a primavera luminosa da minha expectativa, 
a mais certa certeza de que gosto de ti, como 
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste. 



Nuno Júdice
in, "Pedro, Lembrando Inês"