domingo, 29 de maio de 2016

O Vento






É fácil dizer que o vento
tem gatos na voz
enfurecidos.

Que afaga e despenteia,
traz a chuva.

Que levanta as telhas
exercita na noite
os nossos mais pesados
pesadelos.

É fácil ser poeta
à custa do vento.

Fingir que não sabemos
que o vento não é senão
o vazio que muda de lugar.



António M. Pires Cabral







sexta-feira, 27 de maio de 2016

DENTRO DA VIDA






Não estamos preparados para nada:
certamente que não para viver
Dentro da vida vamos escolher
o erro certo ou a certeza errada

Que nos redime dessa magoada
agitação do amor em que prazer
nem sempre é o que fica de querer
ser o amador e ser a coisa amada?

Porque ninguém nos salva de não ser
também de ser já nada nos resgata
Não estamos preparados para o nada:
certamente que não para morrer



GASTÃO CRUZ 
 in, A MOEDA DO TEMPO





quinta-feira, 26 de maio de 2016

O amor que ela sente é o silêncio





O amor que ela sente é o silêncio.
Constitui um ramo sentimental da sua própria solidão.
Às vezes o amor cresce-lhe no interior da ausência
e a sua felicidade mal adubada
adoece-lhe as raízes da vida.

Subimos sempre ao corpo de quem amamos
mesmo que a razão seja obtida a partir
do silêncio de certas palavras
uma forma emotiva de transformar em vazio
todas as verdades que não sabemos aceitar.


Fernando Esteves Pinto 
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 Temas Originais









quarta-feira, 25 de maio de 2016

Que faço com a minha cara de índia?




Que faço com a minha cara de índia?

E meus cabelos
E minhas rugas
E minha história
E meus segredos?

Que faço com a minha cara de índia?

E meus espíritos
E minha força
E meu Tupã
E meus círculos?

Que faço com a minha cara de índia?

E meu Toré
E meu sagrado
E meus "cabôcos"
E minha Terra

Que faço com a minha cara de índia ?

E meu sangue
E minha consciência
E minha luta
E nossos filhos?

Brasil, o que faço com a minha cara de índia?

Não sou violência
Ou estupro
Eu sou história
Eu sou cunhã
Barriga brasileira
Ventre sagrado
Povo brasileiro

Ventre que gerou
O povo brasileiro
Hoje está só ...
A barriga da mãe fecunda
E os cânticos que outrora cantavam
Hoje são gritos de guerra
Contra o massacre imundo



ELIANE POTIGUARA





terça-feira, 24 de maio de 2016

Boletim Metereológico






Acreditar na vida como
acreditamos no boletim
metereológico de todos os dias.
Apesar de todas as previsões,
profundamente científicas,
há sempre uma variável que não
controlamos. E por isso temos
esperança e desconfiamos. E tal
como toda a gente, aprendemos
que há que saber sair de casa
esquecendo deliberadamente o
guarda-chuva.


Ricardo Marques





HOMEM






Homem que nesta fortaleza mágica
És capaz de transformar
Tua dor e tua coragem sólidas
Os vícios e os princípios másculos
Em carinhos e créditos
Mas amantes com fé ?
Homem, que me dizes - Hoje - Mulher !
És capaz de te despir
Deste sórdido destino
Deste código maldito
Que te faz muito sofrer
E que a história impõe te dar ?
Homem, que me fazes, porém, sorrir...
És capaz de te impor
Diante da crueldade maior
Do egoísmo secular
Do poder e do julgar
E defender tua mulher ?
Homem que me fazes, então, chorar
É possível despertar
Tão virgens teus fortes peitos
Rir de teus velhos conceitos
E ver o fêmeo em ti brotar
Acreditando em quem te quer ?
Homem que não permites-me errar !
És capaz de perdoar
Sem cobrar mil sacrifícios
Me ceder bens ou benefícios
E lá na frente me tomar ?
Então, homem !
Contigo e por ti quero criar
E nas matas fecundar.
Produzir nas fábricas
Produzir nos campos
Produzir no lar...
Trabalhar com as mãos
Batalhar com as mentes
Numa célula crente.
É aí que eu te quero gente
E aí, eu te quero amante...
Portanto, homem
Eu te quero forte
Mas também te quero fraco...
Eu te quero rindo
Mas te quero chorando...
Eu te vejo indo
Mas te quero chegando...
Suponho-te potente
Porém também és impotente
Parece-me prepotente
Mas muito esforça-te humilde...
Eu te quero homem
Eu te quero humano
Eu te amo hoje
Eu te amo sempre
Eu te quero herói
Porém te vejo homem
Homem até errante
Mas da verdade urgente
Homem !
Concebeu a mim, não de uma costela
Mas de uma estrela, que trabalhava bela:
Mãe, fêmea, amante sécula
Mas com seus direitos de mulher. 


ELIANE POTIGUARA






domingo, 22 de maio de 2016

O tempo de sedução terminou






O tempo de sedução terminou.
Terás de me tocar, 
terás de trocar o tacto dos olhos pelo tacto dos dedos.
Apenas persistirá o jogo, a cumplicidade, 
e uma ténue vibração do corpo 
que se perdeu contra o meu corpo.
Por isso me ergo daqui 
e atravesso estas imagens coladas às paredes, 
e ao atravessá-las descubro que estou perdido, 
e condenado também a perder-te.


Al Berto 
 in, Lunário





sábado, 21 de maio de 2016

I will remember






I will remember your small room, 
the feel of you, the light in the window, 
your records, your books, 
our morning coffee, our noons, our nights, 
our bodies spilled together, sleeping, 
the tiny flowing currents, 
immediate and forever.
Your leg, my leg, 
your arm, my arm, 
your smile and the warmth of you 
who made me laugh again.


Charles Bukowski






sexta-feira, 20 de maio de 2016

A ILHA DO LAGO DE INNISFREE




Erguer-me-ei e partirei já, e partirei para Innisfree,
E uma pequena cabana erguerei lá, de barro e vime feita:
Nove renques de feijão aí terei, uma colmeia de obreiras e
Viverei sozinho na ensurdecedora clareira.

E aí terei uma certa paz, porque a paz vem lentamente,
Caindo dos véus da manhã, até onde o grilo canta;
Onde a meia-noite é trémula, e o meio-dia é roxo brilho,
E a noite, de asas de pardais se completa.

Erguer-me-ei e partirei já, porque sempre noite e dia
Oiço a água do lago a folhear murmúrios na rebentação;
Quando vou por estradas, ou por passeios cinza,
Oiço-a no lúmen profundo do coração.



WILLIAM BUTLER YEATS





quarta-feira, 18 de maio de 2016

Poemas Canhotos







de tal maneira no tempo se é que se enganam de tal maneira

sempre se enganam em qualquer coisa enganam-se
no tempo que pouco têm para morrer —
de tal maneira se enganam nas palavras que se enganam
na cabeça que têm
que a têm pouca —
e por isso quando metem os dedos na matéria
vê-se que a matéria não estava madura ainda —
que pressa é essa? é a de já lhes fugir janeiro e estarem ainda
em setembro ou outubro —
de que lhes valem as flores da época se trocam
rosas por margaridas silvestres?
de tal maneira os aromas nas narinas dos búfalos
e as borboletas de prata pousam
apenas em nomes vagos não em corolas ferozes
nas primaveras com grandes espaços entre palavras —
mas que procuram eles? nomes?
apenas nomes entre tantos desastres?
eu não sei, eu tremo de dor apenas
perante os nomes não vistos e aspirados tanto que apeteça
morrer por um nome ou dois ou três
juntos, exactos, repetidos,
como exactamente em pleno transe louco
entre as flores dos nomes como:
dicionário folha atrás de folha,
e mesmo assim é como uma espécie de medo,
com um tremor no fundo da nossa idade
que vamos ver onde estão as pessoas que fugiram
da nossa vida, e quando foi que lhes tocámos,
ou na camisa ou no cabelo ou ao acaso nos dedos,
e que nomes eram os nomes deles entre
todos os nomes da terra,
e quando foi: se foi na descoberta
ou nos fins dos meses ou
a meio de uma tarefa leve como pentear-se,
ou ressuscitar em plena luz pela
primeira vez
ou pela última vez, logo antes de sair das trevas
para as grandes danças entre o ar e a água,
sai agora: e corta o cordão,
e entre sangue, olhos fechados, abre a boca toda,
e respira muito quase até cair bêbedo ou louco
pela voz: o nome e sobretudo nome a nome
cada coisa em torno até que o alcance
a ciência dos nomes todos,
coisa a coisa da terra afinal tão pequena
que mesmo ele a domina,
no domínio dos nomes,
e então suspende tudo com medo que ali acabe com um só nome
o múltiplo mundo matricial,
o mundo das mães loucas


Herberto Helder






terça-feira, 17 de maio de 2016

Ainda te necessito






Ainda não estou preparado para perder-te
Não estou preparado para que me deixes só.
Ainda não estou preparado para crescer
e aceitar que é natural,
para reconhecer que tudo
tem um princípio e tem um final.
Ainda não estou preparado para não te ter

e apenas te recordar
Ainda não estou preparado para não poder te olhar
ou não poder te falar.
Não estou preparado para que não me abraces
e para não poder te abraçar.
Ainda te necessito.
E ainda não estou preparado para caminhar
por este mundo perguntando-me: Porquê?
Não estou preparado hoje nem nunca o estarei.
Ainda te necessito.


Pablo Neruda




domingo, 15 de maio de 2016

Esta Gente / Essa Gente





O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente

Gente que não seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente

Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente

Gente que enterre o dente
que fira de unha e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente

O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente

Essa gente dominada por essa gente
não sente como a gente
não quer
ser dominada por gente

NENHUMA!

A gente
só é dominada por essa gente
quando não sabe que é gente



Ana Hatherly
in, "Um Calculador de Improbabilidades"






sábado, 14 de maio de 2016

Já gastamos as palavras







Às vezes tu dizias:os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava.
Acreditava,
porque a teu lado
todas as coisas eram possíveis.


Mas isso era no tempo dos segredos.
Era no tempo em que o teu corpo era um aquário.
Era no tempo em que os meus olhos
eram os tais peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade.
Uns olhos como todos os outros.


Já gastamos as palavras.
Quando agora digo, meu amor...
já não se passa absolutamente nada.
E, no entanto, antes das palavras gastas, 
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse as palavras estão gastas.


Eugénio de Andrade






terça-feira, 10 de maio de 2016

Ausência







Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, 
aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.



Carlos Drummond de Andrade






domingo, 8 de maio de 2016

Sente-se!




Não se vê, sente-se. 
Não se mede, não se pesa, 
não se toca, não se cheira. 
Sente-se! 
Aquilo que é realmente importante 
acontece num plano não palpável. 
Não visível. É de dentro. 
É o que transborda sem se ver. 
É o que nos move. 
Ou deveria mover. 


Antoine de Saint-Exupéry







quarta-feira, 4 de maio de 2016

The Passing of the Bear







Like a ghostly wraith he drifted through the heavy snow and sleet,
Powerful muscles rippling, eyes taking in every dropping snowflake
Upon the ice he trod quietly on massive padded giant feet,
He lowered his head to lick the ice, his mighty thirst to slake.

Monarch of a whitish kingdom, unblemished and remote
Whiter than the Arctic snow at forty-eight below,
There is no garment on this Earth as warm as his white coat
With razor sharp ebony claws manicured into every toe.

He is living, walking, gleaming, iron, smiling, stoic and enduring,
There is no danger that he dreads, his dire anger strikes deadly fear,
He hides within the powdered snow, unwary seals he’s luring.
And men who try to track him often turn to find him to their rear.

He is Nanook, Lord of the frozen North.
His strength doth spread across the top of the entire world,
And all life trembles to see his silhouette as he strides boldly forth
Stalking through flickering darkness with the Northern Lights unfurled.

Those lights that define both polar space and time,
Lights dancing with greenish hues and silvered all ablaze
The Aurora and the bears movements both with nature rhyme.
As the one moves through the shadow of the other in a blinding haze.

And so it has been for thousands of years but not for a hundred more,
For now the ice melts underfoot and the wary seals grow rare,
The ice no longer extends from rocky shore to rocky shore,
And no longer can Nanook stride forth barely without a care.

His days are numbered as the ice retreats and the seals move far away,
Once he moved without fear, a life both noble and free,
But now his fate lies on the scales and there is nothing he can do or say,
For in a hundred years, no more will he walk upon the frozen sea.

There are few animals with such majestic flowing grace,
There are few whose babies are so deceptively cute,
A savage merciless temper masked by an innocent face,
Victim of pathetic men with little dicks that shoot.

In a fair fight, he would win, yes he would win for sure every time,
But little in this time and space is fair for plant or beast,
As mighty rivers grow sick and die and turn to putrid slime,
As species after species fade with the never-ending feast.

I watched him walk and his trail broke through the crusted snow,
His footfalls grew heavy as he searched for ice holes now long gone,
His body was growing lean and still the seals did not show,
In his mind he knew not why, but he knew something was very wrong.

I followed his tracks over the chalky waste, seeing sadness in every step
He was clinging to life as best he could in that vast white domain,
And at nightfall up to his silent unmoving form I cautiously crept,
And saw at once that his breath had ceased and so also had his pain.

I placed my hand upon his broad savage brow and felt that it was still warm,
I saw his eye, blue, and deep open wide in a vacant stare,
And in that eye I saw reflected the face of death upon my human form,
For life goes on each day down south and the fate of bears stirs not a care.

The wind blows harsh and silently across the frozen splendour of the North,
The Northern Lights still blaze in a spectacular symphony so rare,
But Nanook no longer prowls the ice or across the tundra sallies forth,
The Northern winds will mourn forever the passing of the bear.



Captain Paul Watson







We Once Knew People We Could Have Been






and here we are... 

two people pretending to be 
people we are not, 
two people wanting to be more. 

so when we tell other people 
we used to know each other, 
it is just us saying: 

we once knew people 
we could have been 

and 

maybe when all of this 
suffering is over I will see 
you on the other side 
and we will build something 
real, and we will be 
happy there



R.M. Drake