domingo, 31 de julho de 2016

Provavelmente noutro tempo, noutras circunstâncias

 



Provavelmente noutro tempo, noutras circunstâncias
chegaríamos a iguais resultados
pelo que de nada adianta imaginar um almagesto
ou tabelas de paralaxe para isto
a que convencionalmente chamamos amor,
nem calcular o ângulo
entre nós e o centro da terra,
de nada nos aproveitara, tu e eu
centros escorraçados de irregular gravitação.

Porém, isso não me impediu de ver plêiades
cada vez que surgias (só
não te dizia nada) plêiades iluminando
meu Hades
com suas cabrinhas coruscantes
pascendo
o vale da sombra da morte.

E a questão hoje é: who’s gonna drive you home tonight?
quando o melancólico transístor
destila também outras perguntas, mas nenhuma
tão dura quanto essa,
por exemplo: porque é que a água tem mais tendência
a subir em tubos estreitos
ao contrário do mercúrio?
Isto é view-master e são coisas que faço
na tua ausência.


Daniel Jonas
in, Os Fantasmas Inquilinos







quinta-feira, 28 de julho de 2016

spaciousness

 



We believe too quickly in feelings and thought-processes.
You must become more detached from them.
Keep looking without interpreting so quickly.
Once you understand that you are the witness
to what is playing in the mind, if you don't identify so quickly,
you start to become aware of your own presence.
You begin to enjoy your own pure presence.
You will enjoy its spaciousness. It is empty of mind.
The world will lose its grip on your mind.
You will start to experience the state of love again,
deep peace and the joy that does not come from things,
but a joy that emanates and resonates from your own Self.
And all of this will come to life in a short time.
It is your invisibility that matters.
There are some people I don't see very often.
There are some, in one year, I only see them for 2 or 3 hours.
But each time I see them,
I see that they are less and less of a person
and more and more of being.
The absence of them as a person
is perceived more powerfully as presence.
So it is not your presence as a person that matters,
it is only your presence as presence that matters.
In a funny way, it is your absence, personally,
that is spiritually attractive,
because in your absence as ego,
you become Universal.
And it is only your universal spirit
that can bless the world.


Mooji





quarta-feira, 27 de julho de 2016

Paisagem com Grão de Areia

 



Nós o chamamos de grão de areia,
mas ele não se considera nem grão nem areia.
Vive perfeitamente bem sem um nome,
seja genérico, particular,
provisório, permanente,
incorreto ou preciso.
Nosso olhar, nosso toque nada significam para ele.
Ele não se sente observado e tocado.
E o facto de que caiu no parapeito
é uma experiência nossa, não dele.
Poderia cair em qualquer outro lugar,
sem saber se parou de cair
ou se continua a cair.
A janela tem uma bela vista do lago,
mas a vista não se vê a si mesma.
Ela existe nesse mundo
sem cor, sem formato,
sem som, sem cheiro e sem dor.
O fundo do lago existe sem chão
e sua margem, sem beira.
Sua água não se sente nem seca nem molhada
e suas ondas nem uma nem muitas.
Elas quebram surdas a seu próprio barulho
em pedras nem grandes nem pequenas.
E tudo isso sob um céu que por natureza não é céu,
onde o sol se põe sem se pôr
e se esconde sem se esconder por trás de uma nuvem indiferente,
agitada por um vento
que sopra apenas por soprar.
Um segundo passa.
Outro.
Um terceiro.
Mas esses três segundos são apenas nossos.
O tempo passou feito um mensageiro com notícias urgentes.
Mas isso é apenas nossa símile.
O personagem é inventado, sua pressa imaginária,
sua notícia desumana.


Wislawa Szymborska






terça-feira, 26 de julho de 2016

If I am empty of me as a person, how can I live?

 



Nothing does everything better than something.
I say this because we have a fear that
‘If I am empty of me as a person, how can I live?
I have rent to pay. I have children to look after.
If I am empty, how I can do these things?’
But you merely think it is you who is doing all these things.
This is a very difficult thing to convey to the immature mind
because the mind won't accept these words.
The Supreme Being is doing everything.
Through all the bodies it is doing all this as the vital force.
But also the personal mind has an influence.
Now you must judge whether the influence of the mind,
if the involvement or so called help of the personal mind,
is needed by the Absolute.


Mooji





Tratado Geral Das Grandezas Do Ínfimo

 

Jörg Heidenberger



A poesia está guardada nas palavras – é tudo que
eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as
insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.


― Manoel de Barros
in, Tratado Geral Das Grandezas Do Ínfimo







segunda-feira, 25 de julho de 2016

O fim e o início

 

Guerra na Síria
Fotógrafo de Guerra Turco com 21 anos
Furkan Temir




Depois de toda guerra
alguém tem que fazer a faxina.
As coisas não vão
resolver-se sozinhas.
Alguém tem que tirar
o entulho das ruas
para que as carroças possam passar
com os corpos.
Alguém tem que abrir caminho
pelo lamaçal e as cinzas,
as molas dos sofás,
os cacos de vidro,
os trapos ensanguentados.
Alguém tem que arrastar o poste
para levantar a parede,
alguém tem que envidraçar a janela,
pôr as portas no lugar.
Não é fotogénico
e leva anos.
Todas as câmaras já foram
para outra guerra.
Precisamos das pontes
e das estações de combóio de volta.
Mangas de camisas ficarão gastas
de tanto serem arregaçadas.
Alguém de vassoura na mão
ainda se lembra como foi.
Alguém escuta e concorda
assentindo com a cabeça ilesa.
Mas haverá outros por perto
que acharão tudo isso
um pouco chato.
De vez em quando alguém ainda
tem que desenterrar evidências enferrujadas
debaixo de um arbusto
e arrastá-las até ao lixo.
Aqueles que sabiam
o que foi tudo isso,
têm que ceder lugar àqueles
que sabem pouco.
E menos que pouco.
E finalmente aos que não sabem nada.
Alguém tem que deitar ali
na erva que cobriu
as causas e consequências,
com um matinho entre os dentes
e o olhar perdido nas nuvens.



Wislawa Szymborska






sábado, 23 de julho de 2016

a mais feliz ou a mais amarga das tuas horas

 



Algum dia, 
em qualquer parte, 
em qualquer lugar, 
indefectivelmente, 
encontrar-te-ás a ti mesmo 
e essa, 
só essa, 
pode ser a mais feliz 
ou a mais amarga das tuas horas.


 | Pablo Neruda |






quinta-feira, 21 de julho de 2016

A Curva dos Teus Olhos

 



A curva dos teus olhos dá a volta ao meu peito
é uma dança de roda e de doçura.
Berço noturno e auréola do tempo,
Se já não sei tudo o que vivi
É que os teus olhos não me viram sempre.

Folhas do dia e musgos do orvalho,
Hastes de brisas, sorrisos de perfume,
Asas de luz cobrindo o mundo inteiro,
Barcos de céu e barcos do mar,
Caçadores dos sons e nascentes das cores.

Perfume esparso de um manancial de auroras
Abandonado sobre a palha dos astros,
Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos
E todo o meu sangue corre no teu olhar.


Paul Éluard






quarta-feira, 20 de julho de 2016

De Um e de Dois, de Todos

 






Sou o espectador o actor e o autor
Sou a mulher o marido e o filho
E o primeiro amor e o derradeiro amor
E o furtivo transeunte e o amor confundido

E de novo a mulher seu leito e seu vestido
E seus braços partilhados e o trabalho do homem
E seu prazer em flecha e a fêmea ondulação
Simples e dupla a carne nunca se exila

Pois onde começa um corpo ganho eu forma e
                                                                [consciência
E mesmo quando na morte um corpo se desfaz
Eu repouso em seu cadinho desposo o seu
                                                                     [tormento
Sua infâmia me honra o coração e a vida.



Paul Eluard 
in, "Algumas das Palavras" 






terça-feira, 19 de julho de 2016

A de Sempre, Toda Ela

 



Se eu vos disser: «tudo abandonei»
É porque ela não é a do meu corpo,
Eu nunca me gabei,
Não é verdade
E a bruma de fundo em que me movo
Não sabe nunca se eu passei.

O leque da sua boca, o reflexo dos seus olhos
Sou eu o único a falar deles,
O único a ser cingido
Por esse espelho tão nulo em que o ar circula
                                                       [através de mim
E o ar tem um rosto, um rosto amado,
Um rosto amante, o teu rosto,
A ti que não tens nome e que os outros ignoram,
O mar diz-te: sobre mim, o céu diz-te: sobre mim,
Os astros adivinham-te, as nuvens imaginam-te
E o sangue espalhado nos melhores momentos,
O sangue da generosidade
Transporta-te com delícias.

Canto a grande alegria de te cantar,
A grande alegria de te ter ou te não ter,
A candura de te esperar, a inocência de te
                                                   [conhecer,
Ó tu que suprimes o esquecimento, a esperança e
                                                   [a ignorância,
Que suprimes a ausência e que me pões no mundo,
Eu canto por cantar, amo-te para cantar
O mistério em que o amor me cria e se liberta.

Tu és pura, tu és ainda mais pura do que eu
                                                   [próprio.



Paul Eluard 
in, "Algumas das Palavras" 






segunda-feira, 18 de julho de 2016

A BUNDA, QUE ENGRAÇADA

 



A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora — murmura a bunda — esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.

A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.

A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.

A bunda é a bunda,
redunda.


Carlos Drummond de Andrade
in, O Amor Natural





sábado, 16 de julho de 2016

Fanatismo

 



Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver.
Não és sequer razão do meu viver
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida…
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!…

“Tudo no mundo é frágil, tudo passa…
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
“Ah! podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!…”



Florbela Espanca |





quarta-feira, 13 de julho de 2016

E se por acaso te toco a memória

 


pernoitas em mim
e se por acaso te toco a memória... amas
ou finges morrer

pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas

é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves

já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes


Al Berto






segunda-feira, 11 de julho de 2016

Gritar

 






Aqui a acção simplifica-se
Derrubei a paisagem inexplicável da mentira
Derrubei os gestos sem luz e os dias impotentes
Lancei por terra os propósitos lidos e ouvidos
Ponho-me a gritar
Todos falavam demasiado baixo falavam e
                                                             [escreviam
Demasiado baixo

Fiz retroceder os limites do grito

A acção simplifica-se

Porque eu arrebato à morte essa visão da vida
Que lhe destinava um lugar perante mim

Com um grito

Tantas coisas desapareceram
Que nunca mais voltará a desaparecer
Nada do que merece viver

Estou perfeitamente seguro agora que o Verão
Canta debaixo das portas frias
Sob armaduras opostas
Ardem no meu coração as estações
As estações dos homens os seus astros
Trémulos de tão semelhantes serem

E o meu grito nu sobe um degrau
Da escadaria imensa da alegria

E esse fogo nu que me pesa
Torna a minha força suave e dura

Eis aqui a amadurecer um fruto
Ardendo de frio orvalhado de suor
Eis aqui o lugar generoso
Onde só dormem os que sonham
O tempo está bom gritemos com mais força
Para que os sonhadores durmam melhor
Envoltos em palavras
Que põem o bom tempo nos meus olhos

Estou seguro de que a todo o momento
Filha e avó dos meus amores
Da minha esperança
A felicidade jorra do meu grito

Para a mais alta busca
Um grito de que o meu seja o eco.


Paul Eluard 
in, "Algumas das Palavras" 







sábado, 9 de julho de 2016

O Amor é o Homem Inacabado

 




Todas as árvores com todos os ramos com todas
                                                             [as folhas
A erva na base dos rochedos e as casas
                                                          [amontoadas
Ao longe o mar que os teus olhos banham
Estas imagens de um dia e outro dia
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
A transparência dos transeuntes nas ruas do acaso
E as mulheres exaladas pelas tuas pesquisas
                                                             [obstinadas
As tuas ideias fixas no coração de chumbo nos
                                                          [lábios virgens
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
A semelhança dos olhares consentidos com os
                                                   [olhares conquistados
A confusão dos corpos das fadigas dos ardores
A imitação das palavras das atitudes das ideias
Os vícios as virtudes tão imperfeitos

O amor é o homem inacabado.


Paul Eluard
in, "Algumas das Palavras"







sexta-feira, 8 de julho de 2016

A Chegada do Amor

 

Cais das Colunas
Lisboa





O amor chegou, e desembarcou no cais, 
onde ninguém o esperava, fazendo 
a cidade inteira estremecer, como se 
o amor a tocasse.

Mas alguém o viu sair 
do barco, e levou-o para a fila 
da alfândega, onde lhe perguntaram: "Donde 
vem? Que traz consigo? Mostre 
o passaporte." O amor não percebeu 
o que lhe pediam; pôs o arco sobre 
a mesa, e juntou-lhe as flechas.

“Tudo apreendido: não queremos agressões 
nesta cidade; proibidas as armas brancas.” E 
o amor, sem passaporte, ficou no cais, 
por entre sacos de lixo e vagabundos 
sem nada para fazer.

E à noite, quando a cidade 
adormece, todos perguntam 
quando chega o amor.


Nuno Júdice 
in “A Chegada do Amor”




quinta-feira, 7 de julho de 2016

Ronda

 



A alma dele é revestida de um feminino invisível. 
Transparente. Tem quebras, rasgos, impulsos, 
momentos de 
uma grande carência, de uma loucura clandestina. 
Eu o construo diariamente no meu quarto, lhe dou 
coloridos, 
lhe deixo a barba malfeita, o mando pra rua sozinho, 
inseguro, 
com medo dos outros. 
Ele atravessa a avenida São João, se escora nas sombras 
dos 
desconhecidos, nas memórias, toma um café amargo 
e se sente espião dos seus próprios actos, acende um 
cigarro, 
tenta espantar uma ideia de solidão. 
Esbarro nele, mas às vezes chego tão perto, tão dentro,
quase no avesso. Depois ele se mistura, se perde no 
trânsito, 
me despista e eu de repente o localizo enfrentando 
anónimo 
a noite, o centro da cidade, o descubro escrevendo 
palavrões 
na porta de um banheiro. 
Meio desertor da vida, inutilmente refugiado na 
multidão, 
no escuro das esquinas, nas olheiras. 
Delator silencioso de não ter lugar, nem importância, 
percorrendo os túneis da própria marginalidade, 
Insónia. 
Ele anda, pára em balcões de bar, em bancas de jornais, 
olha 
nos olhos dos outros, os outros, todos os possíveis 
outros 
que passam. Tem a alma multipartida, multifacetada. 
Eu o deixo de madrugada na Avenida Ipiranga com um 
pouco 
de frio nas mãos e na cabeça a banda sonora dos 
super-heróis. 


Bruna Lombardi
in, O Perigo do Dragão






quarta-feira, 6 de julho de 2016

When You Are Old

 
Miika Järvinen




When you are old and gray and full of sleep,
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep;

How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true,
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face;

And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how Love fled
And paced upon the mountains overhead
And hid his face among a crowd of stars.



William Butler Yeats
in, The Rose







terça-feira, 5 de julho de 2016

Hino

 





Tenho lutado todos os dias pra ser uma mulher
no entanto onde nasci os homens têm sempre razão
e eu que não me interesso pela razão mas por outros sentimentos
teço silenciosamente à porta da minha casa
junto às outras mulheres da minha rua
a trama dos nossos instintos
e minha rua passa por outras cidades
atravessa países
não há fronteiras
tecemos todas nós o mesmo fio
matéria viva da nossa bandeira.


Bruna Lombardi
in, O Perigo do Dragão






domingo, 3 de julho de 2016

A MOÇA MOSTRAVA A COXA

 



A moça mostrava a coxa,
a moça mostrava a nádega,
só não me mostrava aquilo
— concha, berilo, esmeralda —
que se entreabre, quatrifólio,
e encerra o gozo mais lauto,
aquela zona hiperbórea,
misto de mel e de asfalto,
porta hermética nos gonzos
de zonzos sentidos presos,
ara sem sangue de ofícios,
a moça não me mostrava.
E torturando-me, e virgem
no desvairado recato
que sucedia de chofre
à visão dos seios claros,
sua pulcra rosa preta
como que se enovelava,
crespa, intata, inacessível,
abre-que-fecha-que-foge,
e a fêmea, rindo, negava
o que eu tanto lhe pedia,
o que devia ser dado
e mais que dado, comido.
Ai, que a moça me matava
tornando-me assim a vida
esperança consumida
no que, sombrio, faiscava.
Roçava-lhe a perna. Os dedos
descobriam-lhe segredos
lentos, curvos, animais,
porém o máximo arcano,
o todo esquivo, noturno,
a tríplice chave de urna,
essa a louca sonegava,
não me daria nem nada.
Antes nunca me acenasse.
Viver não tinha propósito,
andar perdera o sentido,
o tempo não desatava
nem vinha a morte render-me
ao luzir da estrela-d’alva,
que nessa hora já primeira,
violento, subia o enjôo
de fera presa no Zôo.
Como lhe sabia a pele,
em seu côncavo e convexo,
em seu poro, em seu dourado
pêlo de ventre! mas sexo
era segredo de Estado.
Como a carne lhe sabia
a campo frio, orvalhado,
onde uma cobra desperta
vai traçando seu desenho
num frêmito, lado a lado!
Mas que perfume teria
a gruta invisa? que visgo,
que estreitura, que doçume,
que linha prístina, pura,
me chamava, me fugia?
Tudo a bela me ofertava,
e que eu beijasse ou mordesse,
fizesse sangue: fazia.
Mas seu púbis recusava.
Na noite acesa, no dia,
sua coxa se cerrava.
Na praia, na ventania,
quanto mais eu insistia,
sua coxa se apertava.
Na mais erma hospedaria
fechada por dentro a aldrava,
sua coxa se selava,
se encerrava, se salvava,
e quem disse que eu podia
fazer dela minha escrava?
De tanto esperar, porfia
sem vislumbre de vitória,
já seu corpo se delia,
já se empana sua glória,
já sou diverso daquele
que por dentro se rasgava,
e não sei agora ao certo
se minha sede mais brava
era nela que pousava.
Outras fontes, outras fomes,
outros flancos: vasto mundo,
e o esquecimento no fundo.
Talvez que a moça hoje em dia…
Talvez. O certo é que nunca.
E se tanto se furtara
com tais fugas e arabescos
e tão surda teimosia,
por que hoje se abriria?
Por que viria ofertar-me
quando a noite já vai fria,
sua nívea rosa preta
nunca por mim visitada,
inacessível naveta?
Ou nem teria naveta…


Carlos Drummond de Andrade
in, O Amor Natural






sexta-feira, 1 de julho de 2016

O Amor Natural

 



O CHÃO É CAMA

O chão é cama para o amor urgente,
amor que não espera ir para a cama.
Sobre tapete ou duro piso, a gente
compõe de corpo e corpo a úmida trama.

E para repousar do amor, vamos à cama.




MIMOSA BOCA ERRANTE

Mimosa boca errante
à superfície até achar o ponto
em que te apraz colher o fruto em fogo
que não será comido mas fruído
até se lhe esgotar o sumo cálido
e ele deixar-te, ou o deixares, flácido,
mas rorejando a baba de delícias
que fruto e boca se permitem, dádiva.

Boca mimosa e sábia,
impaciente de sugar e clausurar
inteiro, em ti, o talo rígido
mas varado de gozo ao confinar-se
no limitado espaço que ofereces
a seu volume e jato apaixonados,
como podes tornar-te, assim aberta,
recurvo céu infindo e sepultura?

Mimosa boca e santa,
que devagar vais desfolhando a líquida
espuma do prazer em rito mudo,
lenta-lambente-lambilusamente
ligada à forma ereta qual se fossem
a boca o próprio fruto, e o fruto a boca,
oh chega, chega, chega de beber-me,
de matar-me, e, na morte, de viver-me.

Já sei a eternidade: é puro orgasmo.




A CARNE É TRISTE DEPOIS DA FELAÇÃO

A carne é triste depois da felação.
Depois do sessenta-e-nove a carne é triste.
É areia, o prazer? Não há mais nada
após esse tremor? Só esperar
outra convulsão, outro prazer
tão fundo na aparência mas tão raso
na eletricidade do minuto?
Já se dilui o orgasmo na lembrança
e gosma
escorre lentamente de tua vida.





PARA O SEXO A EXPIRAR

Para o sexo a expirar, eu me volto, expirante.
Raiz de minha vida, em ti me enredo e afundo.
Amor, amor, amor — o braseiro radiante
que me dá, pelo orgasmo, a explicação do mundo.

Pobre carne senil, vibrando insatisfeita,
a minha se rebela ante a morte anunciada.
Quero sempre invadir essa vereda estreita
onde o gozo maior me propicia a amada.

Amanhã, nunca mais. Hoje mesmo, quem sabe?
enregela-se o nervo, eisvai-se-me o prazer
antes que, deliciosa, a exploração acabe.

Pois que o espasmo coroe o instante do meu termo,
e assim possa eu partir, em plenitude o ser,
de sêmen aljofrando o irreparável ermo.



Carlos Drummond de Andrade
in, O Amor Natural