sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Saudades não as Quero

 



Bateram fui abrir era a saudade
vinha para falar-me a teu respeito
entrou com um sorriso de maldade
depois sentou-se à beira do meu leito
e quis que eu lhe contasse só a metade
das dores que trago dentro do meu peito
Não mandes mais esta saudade
ouve os meus ais por caridade
ou eu então deixo esfriar esta paixão
amor podes mandar se for sincero
saudades isso não pois não as quero
Bateram novamente era o ciúme
e eu mal me apercebi de que batera
trazia o mesmo ódio do costume
e todas as intrigas que lhe deram
e vinha sem um pranto ou um queixume
saber o que as saudades me fizeram
Não mandes mais esta saudade,
ouve os meus ais por caridade,
ou eu então deixo esfriar esta paixão,
amor podes mandar se for sincero,
saudades isso não pois não as quero. 
 
Afonso Lopes Vieira



 


quarta-feira, 28 de setembro de 2016

O teu corpo

 



Respiro o teu corpo
Sabe a lua-de-água.
Ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite.
Sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.


Eugénio de Andrade






terça-feira, 27 de setembro de 2016

What you have seen in your heart, that will never leave you

 



Don’t try to learn what I'm telling you so much.
Follow the pointings and you will see.
Discover Home first and then grow from Home.
Don’t try and follow and learn with your head.
Whatever you merely learn with your head will not stay with you
—it will collapse under stress. It will run away.
Mere mental or intellectual conviction
will not be available when you feel the pressures of egoic life.
It’s like the friends who promise to stay with you,
but in the moment of need they are gone.
Like this, what you learn with your head won’t stay with you.
But what you have seen in your heart,
that will never leave you.

 

 Mooji



 

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Portugal Sacro-Profano Vila do Conde

 





O lugar onde o coração se esconde
é onde o vento norte corta luas brancas no azul do mar
e o poeta solitário escolhe igreja pra casar
O lugar onde o coração se esconde
é em dezembro o sol cortado pelo frio
e à noite as luzes a alinhar o rio
O lugar onde o coração se esconde
é onde contra a casa soa o sino
e dia a dia o homem soma o seu destino
O lugar onde o coração se esconde
é sobretudo agosto vento música raparigas em cabelo
feira das sextas-feiras gado pó e povo
é onde se consente que nasça de novo
àquele que foi jovem e foi belo
mas o tempo a pouco e pouco arrefeceu
O lugar onde o coração se esconde
é o novo passado a ida pra o liceu
Mas onde fica e como é que se chama
a terra do crepúsculo de algodão em rama
das muitas procissões dos contra-luz no bar
da surpresa violenta desse sempre renovado mar?
O lugar onde o coração se esconde
e a mulher eterna tem a luz na fronte
fica no norte e é Vila do Conde


Ruy Belo






quarta-feira, 21 de setembro de 2016

As Chaves

 




Felizes os homens que têm as chaves
porque só encontram portas abertas...

Como podem tantos homens dormir sossegados e felizes
de portas fechadas,
quando essas portas se fecham para tantos homens
que ficam sempre ao relento
e nunca podem entrar?

Neste mundo de tantas portas,
quando teremos cada um, a sua chave,
e a sua hora de voltar?...


J.G. de Araújo Jorge





terça-feira, 20 de setembro de 2016

Conta comigo. Sempre

 




Tu sabes onde estou. 
Sabes como me chamo. 
Estarei presente
quando já mais ninguém 
estiver contigo, quando chegar a ho-
ra decisiva e não encontrares 
mais esperança, quando a tua
antiga coragem vacilar. 
Caminharei a teu lado. Haverá decerto
algumas flores derrubadas, 
mas haverá igualmente um sol lim-
po que interrogará as tuas mãos e que 
te ajudará a encontrar,
entre as respostas possíveis, 
as mais humildes, quero eu dizer,
as mais sábias e as mais livres.
Conta comigo.
Sempre.


| Joaquim Pessoa |







segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Tu, que apenas me leste

 




Teu bom pensamento longínquo me emociona.
Tu, que apenas me leste,
acreditaste em mim, e me entendeste profundamente.

Isso me consola dos que me viram,
a quem mostrei toda a minha alma,
e continuaram ignorantes de tudo que sou,
como se nunca me tivessem encontrado.



Cecília Meireles
In, Poesia Completa




segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Eu

 



Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho,e desta sorte
Sou a crucificada … a dolorida …

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!…

Sou aquela que passa e ninguém vê…
Sou a que chamam triste sem o ser…
Sou a que chora sem saber porquê…

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!


Florbela Espanca






domingo, 4 de setembro de 2016

Esqueço-me

 





Esqueço-me
de mim, quase sempre. 
Mas ontem foi de ti que me esqueci. 
De pensar em ti. Em nós. 
No que não aconteceu e no que gostaria que tivesse acontecido. 
Em como seria se os nossos lábios se voltassem a tocar, 
ou se eu me pudesse deixar enterrar nos segredos dos teus olhos. 
Ontem esqueci-me de tudo isso. 
O que é muito bom. 
Talvez amanhã te acabe de esquecer. 
Talvez amanhã, olhar para ti deixe de doer. 
Talvez.


| Rute Coelho |






sábado, 3 de setembro de 2016

Other dimension of spaciousness

 





If you don’t identify with your mind, you are the limitless one.
Don’t be afraid of this word, neither feel that it is just an abstraction.
It is very much at the core of the reality of who you are.

We have become so familiar with limitations
as are suggested by and imposed upon us by the mind,
conditioning and so on.
We are familiar with living life in a mind-set kind of context
and having a fixed notion of self.
But it is quite unnatural to the Being.
It does not accept this in the way that the 'person' does.

We are so habituated in transacting through concepts
that we believe in them and feel quite comfortable to interact
on the basis of our false or limited projections.
We don’t understand that they are largely imaginary.

The Self, on the other hand, is unending consciousness.
Why should this be an abstraction?
It is not concerned about any such things.

Don't we know this?

When we look outside, outwardly from the eyes,
we perceive a world of uncountable names and forms.
When you close your eyes and look within, what do you see?
Kidneys and lungs and stuff like that? No.
When you close your eyes, what you see?
It brings you into another space, another dimension
of spaciousness, of spatiality—a limitlessness.

If you don’t accept the mind's interpretations,
then you are immediately in the limitless.
It is not an idea. Ideas appear and disappear in the limitless.
When I speak of this limitlessness, do you feel it as an abstraction
or do you feel it to be totally your highest Truth?


Mooji