segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Open All Night

 



In the company of fools
we relax upon
ordinary embankments,
enjoy bad food, cheap
drink,
mingle with the men and
ladies from
hell.
in the company of fools
we throw days away like
paper napkins.

in this company
our music is loud and our
laughter
untrue.

we have nothing to loose
but our selves.

join us.
we are now
almost
the entire
world.

God bless 
us.



Charles Bukowski
in, Open All Night







domingo, 30 de outubro de 2016

HIMNO

 






Después de todo, amigos,
esta vida no puede llamarse desdichada.
En lo que a mí concierne, por ejemplo,
recibí en proporción justa, en la hora exacta
y en el lugar preciso y por la mano
que debe dar, las dádivas.

Así tuve los muertos en la tumba,
el amor en la entraña,
el trabajo en las manos y lo demás, los otros,
a prudente distancia
para charlar con ellos, como vecina afable
acomodada en la barda.

Y recreos. Domingos enteros en la playa,
arboledas anónimas y amigas,
manantiales ocultos que cantaban,
libros que se me abrieron de par en par y bóvedas
maravillosamente despobladas.

Dioses a quienes venerar, demonios
tan hermosos que herían la mirada,
sueños para dormir asido al cuerpo ajeno
como hiedra de tactos y palabras
... y algún relámpago de medianoche
para alumbrar el orden de mi casa.



Rosario Castellanos
in, Poesía no Eres Tú





sexta-feira, 28 de outubro de 2016

RECORDATORIO

 



Obedecí, señores, las consignas.

Hice la reverencia de la entrada,
bailé los bailes de la adolescente
y me senté a aguardar el arribo del príncipe.

Se me acercaron unos con ese gesto astuto
y suficiente, del chalán de feria;
otros me sopesaron
para fijar el monto de mi dote
y alguien se fió del tacto de sus dedos
y así saber la urdimbre de mi entraña.

Hubo un intermediario entre mi cuerpo y yo,
un intérprete -Adán, que me dio el nombre
de mujer, que hoy ostento-
trazando en el espacio la figura
de un delta bifurcándose.

Ah, destino, destino.

He pagado el tributo de mi especie
pues di a la tierra, al mundo, esa criatura
en que se glorifica y se sustenta.

Es tiempo de acercarse a las orillas,
de volver a los patios interiores,
de apagar las antorchas
porque ya la tarea ha sido terminada.

Sin embargo, yo aún permanezco en mi sitio.

Señores, ¿no olvidasteis
dictar la orden de que me retire?



Rosario Castellanos
in, Poesía no Eres Tú






quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Subida aos Céus

 



Quero ser amada só por mim
E não por andar enfeitada
Ser adorada mesmo assim,
Careca, nua, descarnada

Engano de alma ledo e cego
Ó linda Inês posta em sossego,
Imortal, diz adeus

Com perfumes a presa é fácil
Com jóias, casacos de peles,
Gosto do amor quando é difícil
E cheira ao meu hálito reles

Quero ser amada à flor da pele
Não quero peles de vison
Amada pelo sabor a mel
E não pela côr do baton

Engano de alma ledo e cego
Ó linda Inês posta em sossego
Imortal, diz adeus

Com cabeleira a presa é fácil
Há quem se esconda atrás dos pelos
Gosto do amor quando é difícil
De ser amada sem cabelos.

Quero que me beijem a caveira
E o meu ossinho parietal
Que se afoguem na banheira
Pelo meu belo oxipital

Engano de alma ledo e cego
Ó linda Inês posta em sossego
Imortal, diz adeus

Com carne viva a presa é fácil
É ordinário e obsoleto
Gosto do amor quando é difícil
Quando me aquecem o esqueleto

Quero ser amada pela morte
Pelos meus ossos de luar
Quero que os cães da minha corte
Passem as noites a ladrar

Engano de alma ledo e cego,
Ó linda Inês posta em sossego,
Imortal, diz adeus, sobe aos céus.



Regina Guimarães






quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Dos sonhos e das coragens

 

 Amelie Satzger




Dos nossos medos 
nascem as nossas coragens,
e nas nossas dúvidas
vivem as nossas certezas. 
Os sonhos anunciam 
outra realidade possível, 
e os delírios outra razão. 
Nos desvios
esperam-nos surpresas,
porque é preciso perder-se
para voltar a encontrar-se.


Eduardo Galeano |





terça-feira, 25 de outubro de 2016

Poema do silêncio

 




Sim, foi por mim que gritei.
Declamei,
Atirei frases em volta.
Cego de angústia e de revolta.

Foi em meu nome que fiz,
A carvão, a sangue, a giz,
Sátiras e epigramas nas paredes
Que não vi serem necessárias e vós vedes.

Foi quando compreendi
Que nada me dariam do infinito que pedi,
-Que ergui mais alto o meu grito
E pedi mais infinito!

Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas,
Eis a razão das épi trági-cómicas empresas
Que, sem rumo,
Levantei com sarcasmo, sonho, fumo...

O que buscava
Era, como qualquer, ter o que desejava.
Febres de Mais. Ânsias de Altura e Abismo,
Tinham raízes banalíssimas de egoísmo.

Que só por me ser vedado
Sair deste meu ser formal e condenado,
Erigi contra os céus o meu imenso Engano
De tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano!

Senhor meu Deus em que não creio!
Nu a teus pés, abro o meu seio
Procurei fugir de mim,
Mas sei que sou meu exclusivo fim.

Sofro, assim, pelo que sou,
Sofro por este chão que aos pés se me pegou,
Sofro por não poder fugir.
Sofro por ter prazer em me acusar e me exibir!

Senhor meu Deus em que não creio, porque és minha criação!
(Deus, para mim, sou eu chegado à perfeição...)
Senhor dá-me o poder de estar calado,
Quieto, maniatado, iluminado.

Se os gestos e as palavras que sonhei,
Nunca os usei nem usarei,
Se nada do que levo a efeito vale,
Que eu me não mova! que eu não fale!

Ah! também sei que, trabalhando só por mim,
Era por um de nós. E assim,
Neste meu vão assalto a nem sei que felicidade,
Lutava um homem pela humanidade.

Mas o meu sonho megalómano é maior
Do que a própria imensa dor
De compreender como é egoísta
A minha máxima conquista...

Senhor! que nunca mais meus versos ávidos e impuros
Me rasguem! e meus lábios cerrarão como dois muros,
E o meu Silêncio, como incenso, atingir-te-á,
E sobre mim de novo descerá...

Sim, descerá da tua mão compadecida,
Meu Deus em que não creio! e porá fim à minha vida.
E uma terra sem flor e uma pedra sem nome
Saciarão a minha fome.



José Régio





segunda-feira, 24 de outubro de 2016

A IMAGEM ROMÂNTICA

 




Há outras coisas, Horácio,
e a tua filosofia é barata,
na verdade não custa fixar
as coisas ideais à distância:
terás vista panorâmica
mas sempre a visão é polémica.

Gostava que alguém me mostrasse,
mas não terei nunca garantia
de que envelhecer faça sentido.

As pessoas prostram-se, queremos que nos digam
porquê não haver luz nos seus rostos. Crestam
os cravos, antes rubros. Não há modo
de saber se as monarcas
têm memórias arenosas de lagarta.
Tudo sucede dentro de estanques
casulos, a seda é densa,
não se faz ideia
se isto acaba. Estrelas foscas
correm, pessoas morrem, a vida
é breve, impávido o
real se esquiva a designar.
Comparar é colidir: o verbo
talvez nos leve
a mais nenhum sinal.



in, Mulher ao Mar
Margarida Vale de Gato






domingo, 23 de outubro de 2016

Sabedoria

 





Desde que tudo me cansa,
Comecei eu a viver.
Comecei a viver sem esperança...
E venha a morte quando
Deus quiser.

Dantes, ou muito ou pouco,
Sempre esperara:
Às vezes, tanto, que o meu sonho louco
Voava das estrelas à mais rara;
Outras, tão pouco,
Que ninguém mais com tal se conformara.

Hoje, é que nada espero.
Para quê, esperar?
Sei que já nada é meu senão se o não tiver;
Se quero, é só enquanto apenas quero;
Só de longe, e secreto, é que inda posso amar...
E venha a morte quando Deus quiser.

Mas, com isto, que têm as estrelas?
Continuam brilhando, altas e belas.



José Régio 
in, Poemas de Deus e do Diabo





sábado, 22 de outubro de 2016

Eles Sempre Morrerão

 





Todas as lágrimas, contidas durante anos,
O seu pesar está confinado
E destrói-me a mente

Uma ode à sua condição é esta endecha
Alguns anseiam por um lúgubre silêncio,
Serenidade na imagem de caixões

Irá a vida renovar estes corpos da verdade?
Toda a morte se anulará, as lágrimas amainarão?
Encher-se-ão as veias vazias de vida de novo com juventude
E lavar-se-ão com uma água imortal, a idade.
Eles morrem,
Eles sempre morrerão.


Darren White






sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Tarde Longa

 





Se eu for à casa do amor
Hei-de encontrar-te sentado
À espera que eu me dispa
Conforme foi combinado

E se a tarde for inteira
Nessa pátria a que pertenço
Ficaremos abraçados
Estendidos como num lenço

Ah, quem me dera que os céus
Fossem mais largos, mais fundos,
Despidos somos de deus,
Vestidos somos do mundo

Mas de nós mesmos seremos
Se a tarde for tão comprida
Que o mesmo lenço se estenda
Ao longo de toda a vida


Lídia Jorge





quarta-feira, 19 de outubro de 2016

There is never a time when the presence is not there

 





You say, ‘Even if the person comes strongly,
there is never a time when the presence is not there.’
You are saying perhaps the most profound thing,
but you are not aware how profound it is.
You say the presence is never not here.
What notices this?
Even presence is perceived.
Whatever you can say, whatever you can perceive,
whatever you can conceive—that stands in front of presence,
but there is something beyond presence itself.
That you are.
It has no duties.
It has never changed.
It is not an evolutionary process or state.
It does not come or go.
It does not grow up.
It never gets old.
It has no age.
It is ever perfect.
This is the greatness of the human expression of consciousness;
that in this human mode you can awaken to this pure understanding.
The highest discovery in the human kingdom
is to wake up into consciousness of the infinite Self.
And what have you done to find this?
I am met with silence, why?
Because it all happened by Grace, you may admit.
Grace is the mirror in which the Infinite perceives,
recognizes or experiences its formless reflection.


Mooji





The Laughing Heart

 



your life is your life
don’t let it be clubbed into dank submission.
be on the watch.
there are ways out.
there is a light somewhere.
it may not be much light but
it beats the darkness.
be on the watch.
the gods will offer you chances.
know them.
take them.
you can’t beat death but
you can beat death in life, sometimes.
and the more often you learn to do it,
the more light there will be.
your life is your life.
know it while you have it.
you are marvelous
the gods wait to delight
in you.



Charles Bukowski






segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Trabalho e trabalho

 





Trabalho e trabalho
para dar à luz um pai
na minha solidão de depauperado
arado que nada sulca
porque como um comboio a que faltaram carris
prévios ao meu arado são seus sulcos.

Sou um filho circular. Como um signo
zodiacal sou um filho circular, requer o que faço
aquilo em que me movo
que é aquilo em que me movo
o que faço e como fazê-lo
se não tenho já em que me mova? O que faço
é o que me fez.

Sou comboio e arado e um rodado
sem discos. Sem paralelo em círculos
rotunda tristeza propago
de vertiginosa incubação de vórtices
que ajudo a solidificar: outra vez a sólida
solidão: é fácil a primeira imagem do comboio:

insta à compaixão. E são pesados os bois
circulares que o meu arado
entontece, em vão o rodado
sem discos. Quanto pesarão
bois entontecidos? Como ser pai
quando se é filho?



in, Os Fantasmas Inquilinos
Daniel Jonas





quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Fazer amor

 





Fazer amor requer arte inconsciente
fazer amor transcende o feio e o bonito
fazer amor requer a alma despida
fazer amor transcende a sexualidade

Fazer amor é ignorar todos os conceitos formais da humanidade
e se entregar como quem se doa a si mesmo
fazer amor não tem vínculo algum
com o lado físico dos seres
fazer amor é divindade.
divindade que advém do mais nobre dom da vida: a própria vida.

Fazer amor é enlouquecer a anatomia.
não importa a forma.
o que importa é não importar com coisa nenhuma.

Fazer amor é fazer de inconcebíveis palavrões um lindo poema.
fazer amor é fazer do corpo um banquete de sonhos
e fazer da alma o berço do gozo...



José Eustáquio da Silva






o amor é a grande desilusão de tudo o mais

 




Amor é quando é concedido participar um pouco mais.
Poucos querem o amor, porque o amor é a grande 
desilusão de tudo o mais.
E poucos suportam perder todas as outras ilusões.
Há os que voluntariam para o amor, pensando que 
o amor enriquecerá a vida pessoal.
É o contrário: amor é finalmente a pobreza. 
Amor é não ter.
Inclusive amor é a desilusão do que se pensava que era amor.
E não é prémio, 
por isso não envaidece, 
amor não é prémio, é uma condição concedida 
exclusivamente para aqueles que, sem ele, corromperiam 
o ovo com a dor pessoal.
Isso não faz do amor uma exceção honrosa; 
ele é exatamente concedido aos maus agentes, 
àqueles que atrapalhariam tudo se não lhes fosse permitido 
adivinhar vagamente.


Clarice Lispector
in, A Legião Estrangeira






segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Convite

 





Nesta fase em que só o amor me interessa
o amor de quem quer que seja
do que quer que seja
o amor de um pequeno objecto
o amor dos teus olhos
o amor da liberdade

o estar à janela amando o trajecto voado
das pombas na tarde calma

nesta fase em que o amor é a música de rádio
que atravessa os quintais
e a criança que corre para casa
com um pão debaixo do braço

nesta fase em que o amor é não ler os jornais

podes vir podes vir em qualquer caravela
ou numa nuvem ou a pé pelas ruas
- aqui está uma janela acolá voam as pombas -

podes vir e sentar-te a falar com as pálpebras
pôr a mão sob o rosto e encher-te de luz

porque o amor meu amor é este equilíbrio
esta serenidade de coração e árvores



Egito Gonçalves








domingo, 9 de outubro de 2016

Ódio?

 





Ódio por Ele? Não... Se o amei tanto, 
Se tanto bem lhe quis no meu passado, 
Se o encontrei depois de o ter sonhado, 
Se à vida assim roubei todo o encanto, 

Que importa se mentiu? E se hoje o pranto 
Turva o meu triste olhar, marmorizado, 
Olhar de monja, trágico, gelado 
Com um soturno e enorme Campo Santo! 

Nunca mais o amar já é bastante! 
Quero senti-lo doutra, bem distante, 
Como se fora meu, calma e serena! 

Ódio seria em mim saudade infinda, 
Mágoa de o ter perdido, amor ainda! 
Ódio por Ele? Não... não vale a pena... 



Florbela Espanca
in, "Livro de Sóror Saudade"




sábado, 8 de outubro de 2016

Incerto

 



À volta de incerto fogo
Brincaram as minhas mãos.
E foi a vida o seu jogo!

Julguei possuir estrelas
Só por vê-las.
Ai! Como estrelas andaram
Misteriosas e distantes
As almas que me encantaram
Por instantes!

Em ritmo discreto, brando,
Fui brincando, fui brincando
Com o amor, com a vaidade…

— E a que sentimentos vãos
Fiquei devendo talvez
A minha felicidade!



Pedro Homem de Melo
in “Jardins Suspensos”