sexta-feira, 31 de março de 2017

O Viúvo

 




Tem o tempo todo.
Perdeu-o, os dias de desejo, para o trabalho
e para outros assuntos,
e agora que o tem por inteiro caminha muito lento
e quando olha em redor procura olhos
que se lembrem dos seus antigos momentos de pressa.
Tem tempo. Caminha lentamente.
Antes a ambição fazia-o levantar-se,
agora, quase se podia jurar, ser o cachimbo que o mantém de pé,
agarrado ao ar como a nada.
Passa perto e olha para mim; acena a cabeça.
Servem-lhe os dias, pelo menos, para ser educado.
É velho. Atravessa, muito lento, o tempo e a terra,
e vai dizendo adeus às pessoas,
como se exercesse o privilégio de se despedir dos amigos
no seu próprio funeral.


Gonçalo M. Tavares






quinta-feira, 30 de março de 2017

RETICÊNCIAS

 

Dariusz Klimczak





Arrumar a vida, pôr prateleiras na vontade e na acção.
Quero fazer isto agora, como sempre quis, com o mesmo resultado;
Mas que bom ter o propósito claro, firme só na clareza, 
de fazer qualquer coisa!

Vou fazer as malas para o Definitivo,
Organizar Álvaro de Campos,
E amanhã ficar na mesma coisa que antes de 
ontem — um antes de ontem que é sempre...
Sorrio do conhecimento antecipado da coisa-nenhuma que serei.
Sorrio ao menos; sempre é alguma coisa o sorrir...
Produtos românticos, nós todos...
E se não fôssemos produtos românticos, se calhar não seríamos nada.
Assim se faz a literatura...
Santos Deuses, assim até se faz a vida!

Os outros também são românticos,
Os outros também não realizam nada, e são ricos e pobres,
Os outros também levam a vida a olhar para as malas a arrumar,
Os outros também dormem ao lado dos papéis meio compostos,
Os outros também são eu.
Vendedeira da rua cantando o teu pregão como um hino inconsciente, 
Rodinha dentada na relojoaria da economia política,
Mãe, presente ou futura, de mortos no descascar dos Impérios,
A tua voz chega-me como uma chamada a parte nenhuma, 
como o silêncio da vida...
Olho dos papéis que estou pensando em arrumar para a janela 
por onde não vi a vendedeira que ouvi por ela,
E o meu sorriso, que ainda não acabara, inclui uma crítica metafísica.
Descri de todos os deuses diante de uma secretária por arrumar,
Fitei de frente todos os destinos pela distracção de ouvir apregoando,
E o meu cansaço é um barco velho que apodrece na praia deserta,
E com esta imagem de qualquer outro poeta fecho a secretária e o poema...
Como um deus, não arrumei nem uma coisa nem outra...


ÁLVARO DE CAMPOS





quarta-feira, 29 de março de 2017

CONVIDA -ME SÓ PARA JANTAR

 




E não queiras depois fazer amor.
Convida-me só para jantar
num restaurante sossegado
numa mesa de canto
e fala devagar
e fala devagar
eu quero comer uma sopa quente
não quero comer mariscos
os mariscos atravancam-me o prato
e estou cansada para os afastar
fala assim devagar
devagar
não é preciso dizeres que sou bonita
mas não me fales de economia e de política
fala assim devagar
devagar
deita-me o vinho devagar
quando o meu copo estiver vazio.
Estou convalescente
sou convalescente
não é preciso que o percebas
mas por favor não faças força em mim.
Fala, estás-me a dar de jantar
estás-me a pôr recostada à almofada
estás-me a fazer sorrir ao longe
fala assim devagar
devagar
devagar


Ana Goês





terça-feira, 28 de março de 2017

Se eu pudesse

 



Se eu pudesse dar-te aquilo que não tenho
e que fora de mim jamais se encontra
Se eu pudesse dar-te aquilo com que sonhas
e o que só por mim poderá ter sonhado

Se eu pudesse dar-te o sopro que me foge
e que fora de mim jamais se encontra
Se eu pudesse dar-te aquilo que descubro
e descobrir-te o que de mim se esconde

Então serias aquele que existe
e o que só por mim poderá ter sonhado.



ANA HATHERLY 
in, A IDADE DA ESCRITA






segunda-feira, 27 de março de 2017

Masturbação

 




Eis o centro do corpo
o nosso centro
onde os dedos escorregam devagar
e logo tornam onde nesse
centro
os dedos esfregam - correm
e voltam sem cessar

e então são os meus
já os teus dedos

e são meus dedos
já a tua boca

que vai sorvendo os lábios
dessa boca
que manipulo - conduzo
pensando em tua boca

Ardência funda
planta em movimento
que trepa e fende fundidas
já no tempo
calando o grito nos pulmões da tarde

E todo o corpo
é esse movimento
que trepa e fende fundidas
já no tempo
calando o grito nos pulmões da tarde

E todo o corpo
é esse movimento
em torno
em volta
no centro desses lábios

que a febre toma
engrossa
e vai cedendo a pouco e pouco
nos dedos e na palma



Maria Tereza Horta





domingo, 26 de março de 2017

Mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer

 






o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua
a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.
era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.


José Luís Peixoto
in, A Criança em Ruínas




sábado, 25 de março de 2017

MULHER

 




A mulher não é só casa
mulher-loiça, mulher-cama
ela é também mulher-asa,
mulher-força, mulher-chama

E é preciso dizer
dessa antiga condição
a mulher soube trazer
a cabeça e o coração

Trouxe a fábrica ao seu lar
e ordenado à cozinha
e impôs a trabalhar
a razão que sempre tinha

Trabalho não só de parto
mas também de construção
para um filho crescer farto
para um filho crescer são

A posse vai-se acabar
no tempo da liberdade
o que importa é saber estar
juntos em pé de igualdade

Desde que as coisas se tornem
naquilo que a gente quer
é igual dizer meu homem
ou dizer minha mulher


ARY DOS SANTOS




sexta-feira, 24 de março de 2017

Livre mas triste

 




Sinto-me livre mas triste. 
Vou livre para onde vou, 
Mas onde vou nada existe.
Creio contudo que a vida 
Devidamente entendida ...
É toda assim, toda assim. 
Por isso passo por mim 
Como por coisa esquecida.


| Fernando Pessoa |




quinta-feira, 23 de março de 2017

Depois das tempestades

 

Mitch  Dobrowner





depois das tempestades
tudo é belo, sobretudo
as coisas quietas:
o caderno, o sítio da roupa
a cortina, a rua e as portas brancas
o café, os jornais e o quiosque

a fala das mulheres na praça
é diferente das outras tardes:
hoje não falam dos outros
não fedem ao lixo da boca

talvez tenha enganado a peste
mais uma vez


João Ricardo Lopes 
in, Além do dia hoje 





quarta-feira, 22 de março de 2017

Adeus

 





Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, 
e o que nos ficou não chega 
para afastar o frio de quatro paredes. 
Gastámos tudo menos o silêncio. 
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, 
gastámos as mãos à força de as apertarmos, 
gastámos o relógio e as pedras das esquinas 
em esperas inúteis. 

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada. 
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro; 
era como se todas as coisas fossem minhas: 
quanto mais te dava mais tinha para te dar. 

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes. 
E eu acreditava. 
Acreditava, 
porque ao teu lado 
todas as coisas eram possíveis. 

Mas isso era no tempo dos segredos, 
era no tempo em que o teu corpo era um aquário, 
era no tempo em que os meus olhos 
eram realmente peixes verdes. 
Hoje são apenas os meus olhos. 
É pouco, mas é verdade, 
uns olhos como todos os outros. 

Já gastámos as palavras. 
Quando agora digo: meu amor, 
já se não passa absolutamente nada. 
E no entanto, antes das palavras gastas, 
tenho a certeza 
que todas as coisas estremeciam 
só de murmurar o teu nome 
no silêncio do meu coração. 

Não temos já nada para dar. 
Dentro de ti 
não há nada que me peça água. 
O passado é inútil como um trapo. 
E já te disse: as palavras estão gastas. 

Adeus. 


Eugénio de Andrade 
in, “Poesia e Prosa”





terça-feira, 21 de março de 2017

Murmúrios do mar

 



"Paga-me um café e conto-te 
a minha vida"

o inverno avançava
nessa tarde em que te ouvi
assaltado por dores
o céu quebrava-se aos disparos
e uma criança muito assustada
que corria
o vento batia-lhe no rosto com violência
a infância inteira
disso me lembro

outra noite cortaste o sono da casa
com frio e medo
apagavas cigarros nas palmas das mãos
e os que te viam choravam
mas tu, não, nunca choraste
por amores que se perdem

os naufrágios são belos
sentimo-nos tão vivos entre as ilhas, acreditas?
E temos saudades desse mar
Que derruba primeiro no nosso corpo
Tudo o que seremos depois

"pago-te um café se me contares
o teu amor"


José Tolentino Mendonça
in, Baldios





segunda-feira, 20 de março de 2017

PRESÍDIO





Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo 
Que dizer do pescoço, às vezes mármore, 
às vezes linho, lago, tronco de árvore, 
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...?

E o ventre, inconsistente como o lodo?... 
E o morno gradeamento dos teus braços? 
Não, meu amor... Nem todo o corpo é carne: 
é também água, terra, vento, fogo...

É sobretudo sombra à despedida; 
onda de pedra em cada reencontro; 
no parque da memória o fugidio

vulto da Primavera em pleno Outono... 
Nem só de carne é feito este presídio, 
pois no teu corpo existe o mundo todo!


DAVID MOURÃO-FERREIRA 
in, OBRA POÉTICA





sábado, 18 de março de 2017

COMPLETAS

 




A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.

E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em fundos sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.

Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.



MANUEL ANTÓNIO PINA 
in, "ALGO PARECIDO COM ISTO, DA MESMA SUBSTÂNCIA"





sexta-feira, 17 de março de 2017

Gaia

 
Kirsty Mitchell




Você sabe como eu sou desocupada
que me encerro neste quarto e me permito
todas as divagações, as fantasias
obsessões, perseguições, todos os dias
você sabe que eu me viro de inventos
que eu me reparto e dou crias
que eu mal me resolvo e me aquento
carrego pedras no bolso
e enfrento ventanias.

Você sabe como eu sou desorientada
raciocínio pelo instinto e cometo
fugas de túnel de ladra de galeria
uso malhas e madres manhas e lanhas
e percorro superfícies
em que você escorregaria

mas você sabe como eu sou de subsolos
de subterfúgios, de subversos subliminares
como eu sou de submundos
subterrâneos, de sub-reptícias folias
meio de circo, meio de farsa
ervas, panfletos, fluidos, presságios
quebrantos, jeitos, giras, reviras
de sensações e cismas, filosofias

de como eu sou de estradas, andanças, pressentimentos
atmosférica e vadia
gato da noite, de crises, guitarras
ouros e danças e circunstâncias
de vinho azedo e companhia.

Que eu sou de toda as misturas
todas as formas e sintonias
e enfrento esse aperto, essas normas
forças, pressões, imposições, o poderio
os intervalos, o silêncio da maioria.

Você sabe de toda minha luta
mesmo quando a intenção silencia
que eu não cedo, não desisto
a todo custo, a toda faca, a todo risco
eu sobrevivo de paixão e de anarquia.

Você sabe bem da minha fraude
Você conhece as minhas alquimias.



BRUNA LOMBARDI
in, Gaia




quinta-feira, 16 de março de 2017

QUASE

 




Quase que te amei
Quem me dera ter-te amado
Envelhecemos tão depressa mais rápido do que a luz que nos cega
Saltamos vidas por sobre os inexoráveis ponteiros que rodam
estonteantes aterrando após anos longe de nós próprios

Quase que nos amamos
Mas corremos tanto que atropelamos sem sentir os sentidos que
apelavam ao mar à terra e aos pequenos momentos de conforto

Puxo a manta comida por gerações de traças e dou-te
meio aconchego
Não posso mais
Dás-me meio sorriso como quem acena pela milésima vez
ao pássaro que lhe calhou em sorte na ilha deserta da reforma

Eu meio-amo-te
Tanto quanto estas pernas rombas vergadas por ocasos sem fim
permitem
Já fui solidamente edificado mas passaste-me ao lado como
as estações que o esquecimento levou

Quem me dera ter-te amado quando podia
Mas vi-me repentinamente caído num mundo feito apenas
de descrença e olvido e sinto-me cada vez mais encalhado
Náufrago de um tempo irrecuperável

Puxo um pouco mais a manta
Mudamos os canais mais depressa do que os nossos olhos
podem atingir
Assim passamos os últimos fôlegos a tentar recordar
o quase amor que nos escapou
mas torra-se-me a memória num deserto de palavras gastas

Quase que te amei mas já me esqueci como se faz
e não tenho mais manta para puxar


JOSÉ BERNARDES
in, PALAVRAS IMÓVEIS





quarta-feira, 15 de março de 2017

HORA QUE NÃO PASSA

 




Dizer adeus, perder as forças,
fazer-se ao mar, soltar amarras,
cravar garras no passado ainda presente, 
no olhar ausente
de quem sofre e sente, 
no coração apertado
de quem esconde e consente
ser e já não estar. 
No instante de ir embora,
a hora não passa. Estaca.
Alarga, na esperança oprimida e baça,
uma mágoa que, disfarçada, traça
a suspeita de não voltar,
a dúvida de permanecer.


MARGARIDA FARO




terça-feira, 14 de março de 2017

MURIEL (excerto I)

 




Às vezes se te lembras procurava-te
retinha-te esgotava-te e se te não perdia
era só por haver-te já perdido ao encontrar-te
Nada no fundo tinha que dizer-te
e para ver-te verdadeiramente
e na tua visão me comprazer
indispensável era evitar ter-te
Era tudo tão simples quando te esperava
tão disponível como então eu estava
Mas hoje há os papéis há as voltas dar
há gente à minha volta há a gravata
Misturei muitas coisas com a tua imagem
Tu és a mesma mas nem imaginas
como mudou aquele que te esperava
Tu sabes como era se soubesses como é
Numa vida tão curta mudei tanto
que é com certo espanto que no espelho da manhã
distraído diviso a cara que me resta
depois de tudo quanto o tempo me levou


RUY BELO
in, O TEMPO DAS SUAVES RAPARIGAS E OUTROS POEMAS DE AMOR
Muriel 1/6





segunda-feira, 13 de março de 2017

BRANCO AMOR

 




Mancha o meu nome branco
Tom a tom
Com suas cores fortes
Ressoa no meu pensamento seu som:
Quando te vi, te toquei e te acolhi
Para os meus braços veio o imenso
Tom de branco amor.

Tão branco que mudou a feição de toda a tarde
Teu beijo alegre, teu toque suave
Teus lábios a me repetir:
Te quero e sei que é para partir
Te quero e sei que tudo tem fim
Te quero e sei que quero, só assim

Mármore teu, esculpido
Meu corpo ainda quente do bater frenético do teu amor
É agora a estátua morta, musa imortalizada
Sem cor, estática.

Nossa história viveu e morreu
Terna e feliz em um tempo
Que de guerra em guerra, os gigantes da dor
Eu derrotei.

(você me fez feliz e sentir feliz, forte me fiz)

E adeus.
Te incluo nos meus tons mais negros.
Te lanço ao túnel dos tempos...
De tempo em tempo vou me recordar dos beijos,
do longo abraço e do meu gentil apelo:
te deixo com lágrimas e olhos cheios de tons, refletidos da minha alma, 
branco amor...

Olha por mim de longe
De lembrança morta te ressurjo em saudade
Mesmo de longe continua a me despir em memória
E, sobretudo, continua a me vestir de ternura
Para que valente e sozinha
Eu possa enfrentar, no frio, aquela gente
E o mundo seco, todos os dias.


MAÍRA FRANCO




sábado, 11 de março de 2017

AO ESPELHO

 




aos quarenta anos não sei quem és.
reages a Bach e à poesia e a pouco mais.
mulheres? muitas. nenhuma.
memórias? duas ou mesmo três mil,
memórias rutilantes e sombrias, como a mica.
quase nada a obra, não mais do que um barro seco e intratável.
todos os teus amigos, quer dizer os que ficaram, são nomes
a quem às vezes trocas o rosto,
cinza sobre cinza, poalha obscura, amorfa e fria.
como a peste, os teus dedos tocam e encarquilham
e porquê?
os grandes sonhos de outrora, as grandes palavras líricas?
chocalhos calados, isso sim!
aos quarenta anos não sei quem és.
não digas que vens da minha parte:
nem eu sei quem sou!


JOÃO RICARDO LOPES