domingo, 30 de abril de 2017

Mãe, Eu Quero Ir-me Embora

 



Mãe, eu quero ir-me embora - a vida não é nada 
daquilo que disseste quando os meus seios começaram 
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande, 
murcharam tão depressa as rosas que me deram – 
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu 
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer. 

Mãe, eu quero ir-me embora - os meus sonhos estão 
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos, 
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais 
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos 
os sonhos que tiveste para mim - tenho a casa vazia, 
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei 
e o que amei de verdade nunca acordou comigo. 

Mãe, eu quero ir-me embora - nenhum sorriso abre 
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca. 
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez 
não chames pelo meu nome, não me peças que fique – 
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-m 
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue 
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como 
uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer. 

Mãe, eu vou-me embora - esperei a vida inteira por quem 
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta 
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem. 
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas 
essa voz, tu sabes, não é a tua - a última canção sobre 
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias 
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão 
tão grande, e as rosas que disseste que um dia chegariam 
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar. 



Maria do Rosário Pedreira





sábado, 29 de abril de 2017

Na Hora de Pôr A Mesa

 



na hora de pôr a mesa, éramos cinco: 
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs 
e eu. depois, a minha irmã mais velha 
casou-se. depois, a minha irmã mais nova 
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje, 
na hora de pôr a mesa, somos cinco, 
menos a minha irmã mais velha que está 
na casa dela, menos a minha irmã mais 
nova que está na casa dela, menos o meu 
pai, menos a minha mãe viúva. cada um 
deles é um lugar vazio nesta mesa onde 
como sozinho. mas irão estar sempre aqui. 
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco. 
enquanto um de nós estiver vivo, seremos 
sempre cinco.



José Luís Peixoto
in, A Criança em Ruínas




sexta-feira, 28 de abril de 2017

A Vida

 

Noell Oszvald




A vida, as suas perdas e os seus ganhos, a sua 
mais que perfeita imprecisão, os dias que contam 
quando não se espera, o atraso na preocupação 
dos teus olhos, e as nuvens que caíram 
mais depressa, nessa tarde, o círculo das relações 
a abrir-se para dentro e para fora 
dos sentidos que nada têm a ver com círculos, 
quadrados, rectângulos, nas linhas 
rectas e paralelas que se cruzam com as 
linhas da mão;

a vida que traz consigo as emoções e os acasos, 
a luz inexorável das profecias que nunca se realizaram 
e dos encontros que sempre se soube que 
se iriam dar, mesmo que nunca se soubesse com 
quem e onde, nem quando; essa vida que leva consigo 
o rosto sonhado numa hesitação de madrugada, 
sob a luz indecisa que apenas mostra 
as paredes nuas, de manchas húmidas 
no gesso da memória;

a vida feita dos seus 
corpos obscuros e das suas palavras 
próximas.


Nuno Júdice
in, "Teoria Geral do Sentimento"





quinta-feira, 27 de abril de 2017

Encontramo-nos onde fores feliz

 

The Monster In The Closet 
Luigi Quarta




Não me digas
que queres ter asas
se tens medo de voar

Não me digas 
que queres ter voz
se tens medo que te oiçam

Não me digas
que queres ser diferente
se tens medo da mudança

Não me digas 
que queres chegar
se tens medo de partir

Não me digas
que queres guardar
se tens medo de perder

Diz-me
que apesar do medo
vais voar, vais gritar, vais mudar, vais partir, vais guardar
mesmo que o medo
mesmo com medo
voa, menina
grita, muda, parte, guarda
Não pares.
O tempo não pede licença para avançar
Avança com ele até onde fores feliz.
Diz-me
Tens medo?
Todos temos.

Encontramo-nos lá.



| Pedro Rodrigues |





quarta-feira, 26 de abril de 2017

Eu sou um cemitério que a lua abomina

 

Jörg Heidenberger





Mesmo uma cómoda entulhada com lembranças,
Notas velhas, cartas de amor, fotografias, recibos,
Deposições judiciais, cachos de cabelo em tranças,
Esconde menos segredos do que o meu cérebro
[poderia produzir.
É como uma tumba, um cemitério de indigentes
[cheio de corpos,
Uma pirâmide onde os mortos se deitam às
dezenas.
Eu sou um cemitério que a lua abomina.


Charles Baudelaire




terça-feira, 25 de abril de 2017

A Esperança

 




Injeta sangue no meu coração,
enche-me até ao bordo das veias!
Mete-me no crânio pensamentos!
Não vivi até ao fim o meu bocado terrestre,
sobre a terra
não vivi o meu bocado de amor. 
Eu era gigante de porte, mas para quê este tamanho?
Para tal trabalho basta uma polegada.
Com um toco de pena, eu rabiscava papel,
num canto do quarto, encolhido,
como um par de óculos dobrado dentro do estojo.
Mas tudo que quiserdes eu farei de graça:
esfregar,
lavar,
escovar,
flanar,
montar guarda.
Posso, se vos agradar, servir-vos de porteiro.
Há, entre vós, bastantes porteiros?
Eu era um tipo alegre,
mas que fazer da alegria,
quando a dor é um rio sem vau?
Em nossos dias,
se os dentes vos mostrarem 
não é senão para vos morder ou dilacerar. 
O que quer que aconteça,
nas aflições,
pesar...
Chamai-me! 
Um sujeito engraçado pode ser útil. 
Eu vos proporei charadas, hipérboles e alegorias, malabares 
dar-vos-ei em versos. 
Eu amei... mas é melhor não mexer nisso. 
Sentes-te mal?




Vladimir Maiakovski





segunda-feira, 24 de abril de 2017

A flauta vertebrada

 




A todos vocês,
que eu amei e que eu amo,
ícones guardados num coração-caverna,
como quem num banquete ergue a taça e celebra,
repleto de versos levanto meu crânio.
Penso, mais de uma vez:
seria melhor talvez
pôr-me o ponto final de um balaço.
Em todo caso
eu
hoje vou dar meu concerto de adeus.
Memória!
Convoca aos salões do cérebro
um renque inumerável de amadas.
Verte o riso de pupila em pupila,
veste a noite de núpcias passadas.
De corpo a corpo verta a alegria.
esta noite ficará na História.
Hoje executarei meus versos
na flauta de minhas próprias vértebras.



VLADIMIR MAIAKOVSKI





domingo, 23 de abril de 2017

O Poeta Operário

 





Grita-se ao poeta:
“Queria te ver numa fábrica!
O quê? Versos? pura tolice!
Para trabalhar não tens coragem.”
Talvez
ninguém como nós
ponha tanto coração
no trabalho.
Eu sou uma fábrica.
E se chaminés 
me faltam
talvez
sem chaminés
seja preciso
ainda mais coragem.
Sei.
Frases vazias não agradam.
Quando serrais madeira
é para fazer lenha.
E nós que somos
senão entalhadores a esculpir
a tora da cabeça humana?
Certamente que a pesca
é coisa respeitável.
Atira-se a rêde e quem sabe?
Pega-se o esturjão!
Mas o trabalho do poeta
é muito mais difícil.
Pescamos gente viva e não peixes.
Penoso é trabalhar nos altos-fornos
onde se tempera o ferro em brasa.
Mas pode alguém
acusar-nos de ociosos?
Nós polimos as almas
com a lixa do verso.
Quem vale mais:
o poeta ou o técnico
que produz comodidades?
Ambos!
Os corações também são motores.
A alma é poderosa força motriz.
Somos iguais.
Camaradas dentro da massa operário.
Proletários do corpo e do espírito.
Somente unidos,
somente juntos remoçaremos o mundo,
fa-lo-emos marchar num ritmo célere. 
Diante da vaga de palavras
levantemos um dique!
Mãos à obra!
O trabalho é vivo e novo!
Com os oradores vazios, fora!
Moinho com eles!
Com a água de seus discursos
que façam mover-se a mó!


Vladimir Maiakovski





sábado, 22 de abril de 2017

Spleen

 

Mika Suutari





Quando o cinzento céu, como pesada tampa, 
Carrega sobre nós, e nossa alma atormenta, 
E a sua fria cor sobre a terra se estampa, 
O dia transformado em noite pardacenta;

Quando se muda a terra em húmida enxovia 
D'onde a Esperança, qual morcego espavorido, 
Foge, roçando ao muro a sua asa sombria, 
Com a cabeça a dar no tecto apodrecido;

Quando a chuva, caindo a cântaros, parece 
D'uma prisão enorme os sinistros varões, 
E em nossa mente em febre a aranha fia e tece, 
Com paciente labor, fantásticas visões,

- Ouve-se o bimbalhar dos sinos retumbantes, 
Lançando para os céus um brado furibundo, 
Como os doridos ais de espíritos errantes 
Que a chorrar e a carpir se arrastam pelo mundo;

Soturnos funerais deslizam tristemente 
Em minh'alma sombria. A sucumbida Esp'rança, 
Lamenta-se, chorando; e a Angústia, cruelmente, 
Seu negro pavilhão sobre os meus ombros lança!



Charles Baudelaire
in, "As Flores do Mal"







sexta-feira, 21 de abril de 2017

Tantos querem a projeção

 




Tantos querem a projeção.
Sem saber como esta limita a vida.
Minha pequena projeção fere o meu pudor.
Inclusive o que eu queria dizer já não posso mais.
O anonimato é suave como um sonho.
Eu estou precisando desse sonho.
Aliás eu não queria mais escrever.
Escrevo agora porque estou precisando de dinheiro.

Eu queria ficar calada.
Há coisas que nunca escrevi, e morrerei sem tê-las escrito.
Essas por dinheiro nenhum.

Há um grande silêncio dentro de mim. ...
E esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras.
E do silêncio tem vindo o que é mais precioso que tudo: o próprio silêncio.


Clarice Lispector



Os Amigos

 

Fandi Lalank



Os amigos amei 
despido de ternura 
fatigada; 
uns iam, outros vinham, 
a nenhum perguntava 
porque partia, 
porque ficava; 
era pouco o que tinha, 
pouco o que dava, 
mas também só queria 
partilhar 
a sede de alegria — 
por mais amarga.



Eugénio de Andrade
in, "Coração do Dia"






terça-feira, 18 de abril de 2017

VAMPIRO

 



Tu que, como uma punhalada
Invadiste meu coração triste,
Tu que, forte como manada
De demónios, louca surgiste,

Para no espírito humilhado
Encontrar o leito ao ascendente,
- Infame a que eu estou atado
Tal como o forçado à corrente,

Como a seu jogo o jogador,
Como à garrafa o beberrão,
Como aos vermes a podridão
- Maldita sejas, como for!

Implorei ao punhal veloz
Dar-me a liberdade, um dia,
Disse após ao veneno atroz
Que me amparasse a covardia.

Mas não! O veneno e o punhal
Disseram-me de ar zombeiro
"Ninguem te livrará afinal
De teu maldito cativeiro

Ah! imbecil-de teu retiro
Se te livrássemos um dia,
Teu beijo ressuscitaria
O cadaver de teu vampiro!



Charles Baudelaire





segunda-feira, 17 de abril de 2017

Não Posso Adiar o Amor

 

Ioannis Nikiforakis



Não posso adiar o amor para outro século 
não posso 
ainda que o grito sufoque na garganta 
ainda que o ódio estale e crepite e arda 
sob montanhas cinzentas 
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço 
que é uma arma de dois gumes 
amor e ódio

Não posso adiar 
ainda que a noite pese séculos sobre as costas 
e a aurora indecisa demore 
não posso adiar para outro século a minha vida 
nem o meu amor 
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração


António Ramos Rosa
in, "Viagem Através de uma Nebulosa"




domingo, 16 de abril de 2017

O Amor

 




Se chovesse (sempre) trezentos e sessenta e cinco dias 
por ano,
e as nuvens no céu se repetissem na cor,
na forma, na velocidade, e na lentidão;
e se o sol permanecesse robusto e alto, constante
como o último andar de um edifício (bem construído),
de calor assim assim mas repetindo assim assim
de calor da véspera;
se o mau e o bom tempo fossem uma linha única,
paralela aos dias; se o verão e o inverno
em vez de dois fossem um,
como uma pedra é um, e uma árvore é um,
se, enfim, quem amas permanecesse amado por ti,
hoje exactamente como ontem,
e daqui a trinta anos exactamente como hoje;
então não existiria o tempo,
e os relógios de pulso seriam pulseiras ruidosas,
mecânicas de mais para estarem tão próximas da mão
capaz de tocar com leveza.
E se não há tempo
 não podemos trair.



Gonçalo M. Tavares





sábado, 15 de abril de 2017

Vieste como um Barco Carregado de Vento

 

Marcel Van Oosten





Vieste como um barco carregado de vento, abrindo 
feridas de espuma pelas ondas. Chegaste tão depressa 
que nem pude aguardar-te ou prevenir-me; e só ficaste 
o tempo de iludires a arquitectura fria do estaleiro 

onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste, 
se partiste, 
que dentro de mim se acanham as certezas e 
tu vais sempre ardendo, embora como um lume 
de cera, lento e brando, que já não derrama calor. 

Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar 
o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes; 
e não existe no mundo cegueira pior do que a minha: 
o fio do horizonte começou ainda agora a oscilar, 
exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam 
no cais como se transportassem no corpo o vaivém 
dos barcos. Dizem-me os seus passos 

que vale a pena esperar, porque as ondas acabam 
sempre por quebrar-se junto das margens. Mas eu sei 
que o meu mar está cercado de litorais, que é tarde 
para quase tudo. Por isso, vou para casa 

e aguardo os sonhos, pontuais como a noite. 


Maria do Rosário Pedreira






sexta-feira, 14 de abril de 2017

O Mal e o Sofrimento

 

Andre du Plessis




Se eu conversasse com Deus
Iria lhe perguntar:
Por que é que sofremos tanto
Quando viemos pra cá?
Que dívida é essa
Que a gente tem que morrer pra pagar?
Perguntaria também
Como é que ele é feito
Que não dorme, que não come
E assim vive satisfeito.
Por que foi que ele não fez
A gente do mesmo jeito?
Por que existem uns felizes
E outros que sofrem tanto?
Nascemos do mesmo jeito,
Moramos no mesmo canto.
Quem foi temperar o choro
E acabou salgando o pranto?


Leandro Gomes de Barros






quarta-feira, 12 de abril de 2017

Por todos aqueles que se dirigiam à vida

 



Por todos aqueles que se dirigiam à vida, que só esperavam vida
e que, sem saber, caíram desamparados no abismo opaco da morte;
por todos aqueles que acordavam de manhã, que se alimentavam
de ilusão, invencíveis perante a sua teimosia inocente, e que, na
dobra de um instante, desprotegidos da solidão, acordados a meio
de um sonho, caíram desamparados no abismo opaco da morte;
por todos aqueles olhares que refletiam a luz do dia, montras de
segredos, rostos que lembraremos com um sorriso brando e que,
sem motivo, caíram desamparados no abismo opaco da morte;
estas palavras frágeis e inúteis, este tempo breve e insuficiente.
Existiram como nós, foram gente como nós, sentiram como nós.
Por todas as palavras que disseram, pela forma humana como as
pronunciaram, pela memória incandescente da sua voz, pelo seu
tempo de pessoas, estas palavras incapazes, este tempo incapaz
e o caminho x ou y que escolhemos para segui-los.


José Luís Peixoto