quarta-feira, 31 de maio de 2017

Ode à Paz

 




Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza, 
Pelas aves que voam no olhar de uma criança, 
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza, ...
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança, 
Pela branda melodia do rumor dos regatos, 
Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia, 
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos, 
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria, 
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes, 
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos, 
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes, 
Pelos aromas maduros de suaves outonos, 
Pela futura manhã dos grandes transparentes, 
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra, 
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas 
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra, 
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna, 
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz. 
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira, 
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz, 
Abre as portas da História, 
deixa passar a Vida!



Natália Correia 
in, "Inéditos (1985/1990)"






terça-feira, 30 de maio de 2017

Solidão é fundamental para viver

 




Que me desculpem os desesperados, mas solidão é fundamental para viver.
Sem ela não me ouço, não ouso, não me fortaleço.
Sem ela me diluo, me disperso, me espelho nos outros, me esqueço.
Não penso solto, não mato dragões, não acalanto a criança apavorada em
mim, não aquieto meus pavores, meu medo de ser só.

Sem ela sairei por aí, com olhos inquietos, caçando afeto, aceitando
migalhas, confundindo estar cercada por pessoas, com ter amigos.
Sem ela me manterei aturdida, ocupada, agendada só para driblar o
tempo e não ter que me fazer companhia.

Sem ela trairei meus desejos, rirei sem achar graça, endossarei idéias
tolas só para não ter que me recolher e
ouvir meus lamentos, meus sonhos adiados, meus dentes rangendo.
Sem ela, e não por causa dela, trocarei beijos tristes e acordarei
vazia em leitos áridos.

Sem ela sairei de casa todos os dias e me afastarei de mim, me
desconhecerei, me perderei.
Solidão é o lugar onde encontro a mim mesma, de onde observo um jardim
secreto e por onde acesso o templo em mim.
Medo? Sim. Até entender que o monstro mora lá fora e o herói mora aqui
dentro.

Encarar a solidão é coisa do herói em nós, transformá-la em quietude é
coisa do sábio que podemos ser.
Num mundo superlotado, onde tudo é efêmero, voraz e veloz, a solidão
pode ser oásis e não deserto.
Num mundo tão estressado, imediatista, insatisfeito, a solidão pode ser
resgate e não desacerto.

Num mundo tão leviano, vulgar, que julga pelas aparências e endeusa
espertalhões,
turbinados, bossais, a solidão pode ser proteção e não contágio.
Num mundo obcecado por juventude, sucesso, consumo, a solidão pode ser
liberdade e não fracasso.

Solidão é exercício, visitação.
É pausa, contemplação, observação.
É inspiração, conhecimento.
É pouso e também vôo.
É quando a gente inventa um tempo e um lugar para cuidar da alma, da
memória, dos sonhos;

quando a gente se retira da multidão e se faz companhia.
Preciso estar em mim para estar com outros.
Ninguém quer ser solitário, solto, desgarrado.
Desde que o homem é homem, ou ainda macaco, buscamos não ficar sozinhos.

Agrupamo-nos, protegemo-nos, evoluímos porque éramos um bando, uma
comunidade.
Somos sociáveis, gregários.
Queremos amigos, amores.
Queremos laços, trocas, contato.
Queremos encontros, comunhão, companhia.

Queremos abraços, toques, afeto.
Mas, ainda assim, ouso dizer: é preciso aprender a estar só para se
gostar e ser feliz.
O desafio é poder recolher-se para sair expandido.
É fazer luz na alma para conhecer os seus contornos, clarear o caminho
e esquecer o medo da própria sombra.

Ouse a solidão e fique em ótima companhia.



Hilda Lucas





segunda-feira, 29 de maio de 2017

O ATOR

 




Pensei em mentir, pensei em fingir,
dizer: eu tenho um tipo raro de,
estou à beira,

embora não aparente. Não aparento?
Providências: outra cor na pele,
a mais pálida; outro fundo para a foto:

nada; os braços caídos, um mel
pungente entre os dentes.
Quanto à tristeza

que a distância de você me faz,
está perfeita, fica como está: fria,
espantosa, sete dedos

em cada mão. Tudo para que seus olhos
vissem, para que seu corpo
se apiedasse do meu e, quem sabe,

sua compaixão, por um instante,
transmutasse em boca, a boca em pele,
a pele abrigando-nos da tempestade lá fora.

Daria a isso o nome de felicidade,
e morreria.
Eu tenho um tipo raro.


Eucanaã Ferraz
in, Cinemateca




domingo, 28 de maio de 2017

O Sexo e a Idade II

 
Picasso



Pus-vos a mão um dia sem saber
que tão robusta e certa artilharia
iria pelos anos fora ser
sinal também de lêveda alegria

amigos meus colhões quanto prazer
veio até mim em vossa companhia
a hora que tiver já de morrer
morra feliz por tanta cortesia

adeus irmãos é tempo de ceder
à dura lei que manda arrefecer
o fogo leviano em que eu ardia

camaradas leais do bem foder
o brio a fleuma cumpre agradecer
sem vós teria sido uma agonia



Fernando Assis Pacheco 
in, Respiração Assistida







sábado, 27 de maio de 2017

MORTE EM VIDA

 




Um dia mais passou e ao passar
Que pensei ou li, que foi criado?
Nada! Outro dia passou desperdiçado!
Cada hora já morta ao despontar!
.
Nada fiz. O tempo me fugiu
E à Beleza nem uma estátua ergui!
Na mente firme nem credo ou sonho vi
E a alma inútil em vão se consumiu.
.
Então me caberá sempre ficar
Qual grão de areia na praia pousado,
Coisa sujeita ao vento, entregue ao mar?
.
Ah, esse algo a sofrer e a desejar,
Inda menos que um ser inanimado
Sempre aquém do que podia alcançar!



ALEXANDER SEARCH
in, Poesia Inglesa





NÃO SEI, AMOR, SE TE CONSINTO

 




Não sei, amor, sequer, se te consinto
ou se te inventas, brilhas, adormeces
nas palavras sem carne em que te minto
a verdade intemida em que me esqueces.

Não sei, amor, se as lavas do vulcão
nos lavam, veras, ou se trocam tintas
dos olhos ao cabelo ou coração
de tudo e de ti mesma. Não que sintas 

outra coisa de mais que nos feneça;
mas só não sei, amor, se tu não sabes
que sei de certo a malha que nos teça,

o vento que nos leves ou nos traves,
a mão que te nos dê ou te nos peça,
o princípio de sol que nos acabes.



PEDRO TAMEN
in, TÁBUA DAS MATÉRIAS






sexta-feira, 26 de maio de 2017

Ode ao Destino

 





Destino: desisti, regresso, aqui me tens. 

Em vão tentei quebrar o círculo mágico 
das tuas coincidências, dos teus sinais, das ameaças, 
do recolher felino das tuas unhas retracteis 
- ah então, no silêncio tranquilo, eu me encolhia ansioso 
esperando já sentir o próximo golpe inesperado. 

Em vão tentei não conhecer-te, não notar 
como tudo se ordenava, como as pessoas e as coisas chegavam  
                            que eu, de soslaio, e disfarçando, observava  [em bandos,                           
pura conter as palavras, as minhas e as dos outros, 
para dominar a tempo um gesto de amizade inoportuna. 

Eu sabia, sabia, e procurei esconder-te, 
afogar-te em sistemas, em esperanças, em audácias; 
descendo à fé só em mim próprio, até busquei 
sentir-te imenso, exacto, magnânimo, 
único mistério de um mundo cujo mistério eras tu. 

Lei universal que a sem-razão constrói, 
de um Deus ínvio caminho, capricho dos Deuses, 
soberana essência do real anterior a tudo, 
Providência, Acaso, falta de vontade minha, 
superstição, metafísica barata, medo infantil, loucura, 
complexos variados mais ou menos freudianos, 
contradição ridícula não superada pelo menino burguês, 
educação falhada, fraqueza de espírito, a solidão da vida, 
existirás ou não, serás tudo isso ou não, só isto ou só aquilo, 
mas desisti, regresso, aqui me tens. 

A humilhação de confessar-te em público, 
nesta época de numerosos sábios e filósofos, 
não é maior que a de viver sem ti. 
A decadência, a desgraça, a abdicação, 
os risos de ironia dos vizinhos 
nesta rua de má-nota em que todos moramos, 
não são piores, ah não, do que no dia a dia sem ti. 
É nesta mesma rua que eu ouço o amor chamar por mim, 
é nela mesma que eu vejo emprestar nações a juros, 
é nela que eu tenho empenhado os meus haveres e os dos outros, 
nela que se exibem os rostos alegres, serenos, graciosos, 
dos que preparam as catástrofes, dos que as gozam, dos que são  
É nesta mesma rua que eu [as vítimas,
ouço todos os sonhos passar desfeitos. 

Desisti, regresso, aqui me tens, 
coberto de vergonha e de maus versos, 
para continuar lutando, continuar morrendo, 
continuar perdendo-me de tudo e todos, 
mas à tua sombra nenhuma e tutelar. 


Jorge de Sena
in "Pedra Filosofal"





quinta-feira, 25 de maio de 2017

Seiscentos e Sessenta e Seis

 




A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas: há tempo…
Quando se vê, já é sexta-feira…
Quando se vê, passaram 60 anos!
Agora, é tarde demais para ser reprovado.
E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio
seguia sempre, sempre em frente…

E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.



Mário Quintana
in, "Esconderijos do Tempo"





quarta-feira, 24 de maio de 2017

Deixai que a Vida sobre Vós Repouse

 




Deixai que a vida sobre vós repouse 
qual como só de vós é consentida 
enquanto em vós o que não sois não ouse 

erguê-la ao nada a que regressa a vida. 
Que única seja, e uma vez mais aquela 
que nunca veio e nunca foi perdida. 

Deixai-a ser a que se não revela 
senão no ardor de não supor iguais 
seus olhos de pensá-la outra mais bela. 

Deixai-a ser a que não volta mais, 
a ansiosa, inadiável, insegura, 
a que se esquece dos sinais fatais, 

a que é do tempo a ideada formosura, 
a que se encontra se se não procura. 



Jorge de Sena
in, "As Evidências"





terça-feira, 23 de maio de 2017

LUA ADVERSA

 




Tenho fases, como a lua, 
Fases de andar escondida, 
fases de vir para a rua... 
Perdição da minha vida! 
Perdição da vida minha! 
Tenho fases de ser tua, 
tenho outras de ser sozinha.
Fases que vão e que vêm, 
no secreto calendário 
que um astrólogo arbitrário 
inventou para meu uso.
E roda a melancolia 
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém 
(tenho fases, como a lua...). 
No dia de alguém ser meu 
não é dia de eu ser sua... 
E, quando chega esse dia, 
o outro desapareceu...


CECÍLIA MEIRELES
in, VAGA MÚSICA





segunda-feira, 22 de maio de 2017

AMOR

 




Amor, amor, amor, como não amam

os que de amor o amor de amar não sabem

como não amam se de amor não pensam

os que amar o amor de amar não gozam.

Amor, amor, nenhum amor, nenhum

em vez do sempre amar que o gesto prende

o olhar ao corpo que perpassa amante

e não será de amor se outro não for

que novamente passe como amor que é novo.

Não se ama o que se tem nem se deseja

o que não temos nesse amor que amamos

mas só amamos quando amamos ao acto

em que de amor o amor de amar se cumpre.

Amor, amor, nem antes, nem depois,

amor que não possui, amor que não se dá,

amor que dura apenas sem palavras tudo

o que no sexo é o sexo só por si amado.

Amor de amor de amar de amor tranquilamente

o oleoso repetir das carnes que se roçam

até ao instante em que paradas tremem

de ansioso terminar o amor que recomeça.

Amor, amor, amor, como não amam

os que de amar o amor de amar não amam.



JORGE DE SENA 
in, Peregrinatio ad loca infecta






domingo, 21 de maio de 2017

As Mulheres No Que Me Diz Respeito

 




Os sentimentos que não tenho não tenho.
Os sentimentos que não tenho, não vou dizer que tenho.
Os sentimentos que vocês dizem que têm, não têm.
Os sentimentos que vocês quereriam que nós e vocês tivéssemos, 
nenhum de nós tem.
Os sentimentos que as pessoas deveriam ter, nunca têm.
Se as pessoas dizem que têm sentimentos, 
pode-se estar certo que não têm nenhuns.
Por isso, se vocês querem que nós ou vós sintamos alguma coisa,
é melhor abandonar por uma vez a ideia de sentir.


D. H. LAWRENCE





sábado, 20 de maio de 2017

Eis-me acordado

 






Eis-me acordado
Com o pouco que me sobejou da juventude nas mãos
Estas fotografias onde cruzei os dias sem me deter
E por detrás de cada máscara desperta
A morte de quem partiu e se mantém vivo...

A luz secou na orla desértica da cidade
Escrevo para sobreviver
Como quem necessita de partilhar um segredo...

Este corpo em que me escondi... gastou-se...

Quantas noites permanecerão intactas no fundo do mar?
O rosto ainda jovem
Foi o tesouro de seivas que me entonteceu
Pelo corpo condeno-me à vida
De susto em susto à inutilidade da escrita...

Mas eis-me acordado
Muito tempo depois de mim
Esperando por alguma fulguração do corpo esquecido
À porta do meu próprio inferno...


Al Berto





sexta-feira, 19 de maio de 2017

Intransitivo

 




A carne anda cada vez mais fraca
e o silencio cada vez mais comprometedor
cómicos somos nós que estamos falando sério
e pobres são todos, de uma pobreza irremediável
de uma doença incurável, apesar de todos os esforços
da medicina, da psicoterapia, da parapsicologia
quando a única solução seria um sortilégio.

Há políticas bastantes para não pensarmos em nada
e condicionamento suficiente para termos a ilusão de que pensamos
de que somos livres e vivemos como queremos.
Temos vontades baratas: um novo par de sapato
um pouquinho mais de espaço para alongar as pernas
e se possível mais tempo para reclamar da vida.

Ah, deveríamos desobedecer secretamente a nós mesmos,
imitar um pouco mais os bichos
inventar qualquer forma mais pura
do que esta selvageria civilizada
do que este progresso cheio de violência
do que esta racionalidade que não deu certo.

Meu irmão, o absurdo somos nós.



BRUNA LOMBARDI





quinta-feira, 18 de maio de 2017

Canção

 

Martin Stranka






Disse a meu peito, a meu pobre peito: 
- Não te contentas com um só amante? 
Pois tu não vês que este mudar constante 
Gasta em desejos o prazer do amor? 

Ele respondeu: - Não! não me contento; 
Não me contento com um só amante. 
Pois tu não vês que este mudar constante 
Empresta aos gozos um melhor sabor? 

Disse a meu peito, a meu pobre peito: 
- Não te contentas desta dor errante? 
Pois tu não vês que este mudar constante 
A cada passo só nos traz a dor? 

Ele respondeu: - Não! não me contento, 
Não me contento desta dor errante... 
Pois tu não vês que este mudar constante 
Empresta às mágoas um melhor sabor?


Alfred de Musset





quarta-feira, 17 de maio de 2017

Lembra-te

 



Lembra-te, quando ao sol, timidamente,
a aurora abrir seu encantado paço;
e quando, sob um véu de prata algente
cismando, a noite devanear no espaço.
Quando o gozo agitar teu seio de mulher,
quando os sonhos da tarde a sombra te trouxer,
escutarás, além, na mata umbrosa,
a voz misteriosa:
Lembra-te!

Lembra-te, quando fomos condenados
à magoa eterna da separação,
e a dor, o exílio, os anos fatigados,
me houverem corroído o coração;
pensa no extremo adeus, nesta triste existência!
Para quem ama, o tempo é nada, e é nada a ausência.
Meu pobre coração, até morrer,
sempre te há de dizer:
Lembra-te!

Lembra-te ainda quando paz sem termo
ele, extinto, gozar na terra fria;
e quando, em meu sepulcro, a flor do ermo
Desabrochar suavemente um dia!
Não mais tu me hás de ver; mas, onde quer que vás,
junto de ti minha alma - irmã fiel - terás!
E, alta noite, hás de ouvir a voz desconhecida,
murmurando sentida:
Lembra-te!



Alfred de Musset





terça-feira, 16 de maio de 2017

MULHER NUA

 




Alma de pomba - corpo de serpente,
enche de adejos e rastejos
teu ambiente,
caiam em torno a ti pedras ou flores
de uma contemplativa multidão:
de lisonjeiros e de malfeitores
cheias as sendas da existência estão.

Toda de risos tua boca enfeita
quando te surja um ser sincero, irmão;
e sejas sempre pura, espelhante e perfeita,
na verdade da tua imperfeição.
Musa satânica e divina
ó minha Musa sobrenatural,
em cujas emoções, igualmente, culmina
à indução do Bem, a tentação do Mal!
Em teus meneios lânguidos ou lestos
expõe ao Mundo que te espia
que assim como há na Dança a poesia dos gestos,
há nos versos a dança da Poesia.

Dança para esse gozo,
o grande gozo maternal da Terra,
que te fez sem igual,
e, envaidecida,
em seu amor te encerra,
amando em ti a sua própria vida,
sua vida carnal e espiritual.
Torce e destorce o ser flexuoso
ó Musa emocional!

Maneja os versos de maneira tal
que eles fiquem pelos séculos dispersos,
com os ritmos da existência universal.
E a dançar, a dançar,
num delicioso sacrifício,
patenteia a nudez desse teu ser ante o sereno altar
do deus que te domina.

Que importa a injúria hostil de quem te não compreenda?
dança, porém, não como a Salomé da lenda,
a lírica assassina: dança de um modo vivificador;
dança de todo nua,
mas que seja a nudez sensual da dança tua
a imortalização do teu glorioso Amor!



Gilka Machado




segunda-feira, 15 de maio de 2017

Eu sem saber o que fazer comigo

 




Havia um tempo em que esperar por ti
era consulta a meteorologia: 
preparar coração, achar ali, 
na coluna do lado, em geografia

de página, ou écran: coisa parecida
o sol bem desenhado, os raios com
a palavra por baixo, indicativa
de que amanhã o tempo ia ser bom.

Mas não era a palavra, era o ruído, 
eu sem saber o que fazer comigo, 
e o sol, caracol longo a demorar-

-se - assim era ele oblíquo de rimar;
porque eu sabia que o que ali rimava 
estava em saber que vinhas. E ficavas.


Ana Luísa Amaral




domingo, 14 de maio de 2017

Se Isto é um Homem

 





Vós que viveis tranquilos
nas vossas casas aquecidas,
vós que encontrais regressando à noite
comida quente e rostos amigos,
considerai se isto é um homem:
quem trabalha na lama,
quem não conhece a paz,
quem luta por meio pão,
quem morre por um sim ou por um não.
Considerai se isto é uma mulher:
sem cabelo e sem nome,
sem mais força para recordar,
vazios os olhos e frio o regaço,
como uma rã no inverno.
Meditai que isto aconteceu.
Recomendo-vos estas palavras,
esculpi-as no vosso coração,
estando em casa, andando pela rua,
ao deitar-vos e ao levantar-vos.
Repeti-as aos vossos filhos.
Ou que desmorone a vossa casa,
que a doença vos entrave,
que os vossos filhos vos virem a cara.



Primo Levi
in, Se Isto É um Homem
Poema que abre o livro, intitulado “Se isto é um homem”