quinta-feira, 29 de junho de 2017

CANÇÃO EXCÊNTRICA

 




Ando à procura de espaço
para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
projecto-me num abraço
e gero uma despedida.

Se volto sobre o meu passo,
É já distância perdida.

Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.
Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
– saudosa do que não faço,
– do que faço, arrependida.



CECÍLIA MEIRELES 
in, ANTOLOGIA POÉTICA





quarta-feira, 28 de junho de 2017

O Meu Desejo

 




Vejo-te só a ti no azul dos céus,
Olhando a nuvem de oiro que flutua...
Ó minha perfeição que criou Deus
E que num dia lindo me fez sua!

Nos vultos que diviso pela rua,
Que cruzam os seus passos com os meus...
Minha boca tem fome só da tua!
Meus olhos têm sede só dos teus!

Sombra da tua sombra, doce e calma,
Sou a grande quimera da tua alma
E, sem viver, ando a viver contigo...

Deixa-me andar assim no teu caminho
Por toda a vida, Amor, devagarinho,
Até a morte me levar consigo...



Florbela Espanca






terça-feira, 27 de junho de 2017

Não sei com que outras mãos afagas a sombra do desejo

 





Com a idade aprendemos
que o amor existe
na confluência de dois verbos:
o verbo recordar e o verbo ensandecer.

A memória mais antiga que guardo do teu rosto
ainda vem prenhe de uma juventude
que eu próprio ajudei a dispersar
no vento
- enquanto lentamente enlouquecia
entre quadros antigos, livros por ler
e a sombra de gatos que percorriam de noite
os telhados do meu desassossego.

A matura idade aproximou-se dos portões
da loucura, desse limiar que reside
entre o desencanto e a mais pura solidão
- e foi aí que inscrevi o teu nome
como se nele coubesse inteira
a eternidade.

Não sei com quantas letras se escreve
a raiz do teu corpo.
Não sei com que outras mãos afagas
a sombra do desejo.
Não sei onde me escondo se perguntas
pelos ecos do passado.

Sei apenas que perdurará para além da morte
o ser inteiro em ti

imperfeito
ausente
mutilado

mas enlouquecendo devagar nas tuas veias.



MANUEL ALBERTO VALENTE 
in, POESIA REUNIDA





segunda-feira, 26 de junho de 2017

E por vezes

 





E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos  E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos



David Mourão-Ferreira 
in, 'Matura Idade'





domingo, 25 de junho de 2017

Agora que as Palavras Secaram

 




Agora que as palavras secaram 
e se fez noite 
entre nós dois, 
agora que ambos sabemos 
da irreversibilidade 
do tempo perdido, 
resta-nos este poema de amor e solidão.

No mais é o recalcitrar dos dias, 
perseguindo-nos, impiedosos, 
com relógios, 
pessoas, 
paredes demasiado cinzentas, 
todas as coisas inevitavelmente 
lógicas.

Que a nossa nem sequer foi uma história 
diferente. 
A originalidade estava toda na pólvora 
dos obuses, no circunstanciado 
afivelar 
dos sorrisos à nossa volta 
e no arcaísmo da viela onde fazíamos amor.



Eduardo Pitta





sábado, 24 de junho de 2017

A NOITE QUE EU QUERIA

 

Alejandra Baci






eu queria ter uma noite por tecto
uma noite por chão
em que cada gesto, cada beijo
não fosse em vão

eu queria uma noite por tecto
uma noite sem abrigo
bastava que fosse uma noite
e que fosse contigo

eu queria uma noite por tecto
com frio ou com calor
desde que cada momento dessa noite
fosse um momento de amor

eu queria uma noite por tecto
solta e livre, passo a passo
em que a única prisão
fosse a prisão do abraço

eu queria uma noite por tecto
com loucura até ser dia
porque por mais louca que fosse
seria a noite que eu queria!



Carlos Manuel Barão de Campos






sexta-feira, 23 de junho de 2017

Podia

 
Ann Smith
  



Podia dizer-te que não me importo

 Podia fingir que fugi
 Ou que estou morto.
 Podia adiar para outro dia
 Invocar uma qualquer lei
 Dizer-te que não sei
 Ou fiquei sem bateria.

 Com a verdade mais pura
 A única verdade
 A única que dura
 Faria a minha despedida
 A promessa de mil abraços
 E uma palavra sofrida

 Podia dizer-te que volto
 E seria breve
 Como um poeta escreve
 Livre e solto.

(E tu, minha vida, acreditas
 Nas palavras que não digo?
 Será o silêncio castigo?
 Será em silêncio que gritas?)

 Podia dizer-te que são pequenas
 As saudades do teu sorrir
 Mas seriam palavras apenas
 E seria mentir.


 Carlos Campos
in, "Rio de Doze Águas"





quinta-feira, 22 de junho de 2017

Depoimento

 




De seguro,
Posso apenas dizer que havia um muro
E que foi contra ele que arremeti
A vida inteira.
Não. Nunca o contornei.
Nunca tentei
Ultrapassá-lo de qualquer maneira.

A honra era lutar
Sem esperança de vencer.
E lutei ferozmente noite e dia.
Apesar de saber
Que quanto mais lutava mais perdia
E mais funda sentia
A dor de me perder.


MIGUEL TORGA 
in, DIÁRIO XIII 





quarta-feira, 21 de junho de 2017

Abre-se em mim

 




Abre-se em mim.
Nova consciência
Novo olhar.
E, caminho ao encontro da luz,
devagar…

Atentamente, escuto, olho,
E, há uma voz interior que me chama
E, há um mundo exterior que se agita.

E, há uma promessa divina
de graça…
E, há a natureza interior das coisas,
reflexo e espelho de mim e do todo.

E, é como se eu estivesse em todas as coisas

E, é como se eu fosse luz, vento, brisa, flor ou folha.

E, é como se tudo estivesse em tudo e eu estivesse aí, 
e nada mais fosse do que uma folha ou um raio de sol.



Helena Guerra





terça-feira, 20 de junho de 2017

A vida

 




É vão o amor, o ódio, ou o desdém;
Inútil o desejo e o sentimento...
Lançar um grande amor aos pés de alguém
O mesmo é que lançar flores ao vento!

Todos somos no mundo,
Uma alegria é feita dum tormento,
Um riso é sempre o eco dum lamento,
Sabe-se lá um beijo de onde vem!

A mais nobre ilusão morre... desfaz-se...
Uma saudade morta em nós renasce
Que no mesmo momento é já perdida...

Amar-te a vida inteira eu não podia.
A gente esquece sempre o bem de um dia.
Que queres, meu Amor, se é isto a vida!


Florbela Espanca




segunda-feira, 19 de junho de 2017

Viver não dói

 




Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas
e não se cumpriram.
Por que sofremos tanto por amor?
O certo seria a gente não sofrer,
apenas agradecer por termos conhecido
uma pessoa tão bacana,
que gerou em nós um sentimento intenso
e que nos fez companhia por um tempo razoável,
um tempo feliz.
Sofremos por quê?
Porque automaticamente esquecemos
o que foi desfrutado e passamos a sofrer
pelas nossas projeções irrealizadas,
por todas as cidades que gostaríamos
de ter conhecido ao lado do nosso amor
e não conhecemos,
por todos os filhos que
gostaríamos de ter tido junto e não tivemos,
por todos os shows e livros e silêncios
que gostaríamos de ter compartilhado,
e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados,
pela eternidade.
Sofremos não porque
nosso trabalho é desgastante e paga pouco,
mas por todas as horas livres
que deixamos de ter para ir ao cinema,
para conversar com um amigo,
para nadar, para namorar.
Sofremos não porque nossa mãe
é impaciente conosco,
mas por todos os momentos em que
poderíamos estar confidenciando a ela
nossas mais profundas angústias
se ela estivesse interessada
em nos compreender.
Sofremos não porque nosso time perdeu,
mas pela euforia sufocada.
Sofremos não porque envelhecemos,
mas porque o futuro está sendo
confiscado de nós,
impedindo assim que mil aventuras
nos aconteçam,
todas aquelas com as quais sonhamos e
nunca chegamos a experimentar.
Como aliviar a dor do que não foi vivido?
A resposta é simples como um verso:
Se iludindo menos e vivendo mais!!!
A cada dia que vivo,
mais me convenço de que o
desperdício da vida
está no amor que não damos,
nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca,
e que, esquivando-se do sofrimento,
perdemos também a felicidade.
A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional. 



Carlos Drummond de Andrade





domingo, 18 de junho de 2017

O fotógrafo cego

 




Fosse eu o fotógrafo cego

e guardaria a beleza vacilante das coisas,


a rapariga de blusa desabotoada,

o sol do meio-dia, a chave na porta,

o sopro que se imagina na fonte

do pensamento,

a presença dos ciprestes no mundo,

falhas, o assobio da infância,

espelhos do tempo.


Abraçaria o coração rachado de qualquer muro,

um homem fechado em si

como num caixão.


Quando uma sombra se perde

descobre no ar

o próprio trilho,

eu ficaria só entre os vivos,


escutaria no céu o rasto dos motores,

o fôlego dos vermes,

a lei da queda dos graves,

a nota imperfeita,

a veemência da carne.



Fosse eu e espalharia a luz.



Luís Filipe Parrado





sábado, 17 de junho de 2017

Encontro

 




Quisera fosse um suspiro 
que me seduzisse 
inteira. 

Algo sussurrado 
aos ouvidos 
que me fizesse 
prisioneira. 

Quisera mãos 
me afagassem 
a procura do outro 
ser que há em 
mim: 
pele, pêlos, penugem, 
a tua boca 
na minha boca 
a tua língua a deslizar 
como uma serpente 
entre meus dentes. 

Suor, a transpirar 
pelos poros, 
pernas a entrelaçar 
meu corpo, 
olhos entreabertos. 

Narinas aguçadas 
a captar odores 
daqueles seres que 
se abraçam 
daquele monte de carne, 
objeto tridimensional 
esculturas móveis 
sal e beleza 
e a sensualidade, 
geografia obscena. 

Obscenas também 
nossas cabeças 
que vão da fantasia 
transformando 
signos em matérias, 
palavras soltas, 
desejos que irrompem, 
murmúrios, 
lambidos. 

Um grito transborda. 

O infinito...


Angela Schaun





sexta-feira, 16 de junho de 2017

HE LOVED BEAUTY THAT LOOKED KIND OF DESTROYED

 

Albulena Panduri




Gostava dessa espécie de beleza
que podemos surpreender a cada passo,
desvelada pelo acaso numa esquina
de arrebalde; a beleza de uma casa devoluta
que foi toda a infância de alguém,
com visitas ao domingo e tardes no quintal
depois da escola; a beleza crepuscular
de alguns rostos num retrato de família
a preto e branco, ou a de certos hotéis
que conheceram há muito os seus dias de fulgor
e foram perdendo estrelas; a beleza condenada
que nos toma de repente, como um verso
ou o desejo, como um copo que se parte
e dispersa no soalho a frágil luz de um instante.
Gostava de tudo isso que o deixava muito a sós
consigo mesmo, essa espécie de beleza arruinada
onde a vida encontra o espelho mais fiel.


Rui Pires Cabral





quinta-feira, 15 de junho de 2017

COM UNHAS E DENTES

 




Estar vivo
é abrir uma gaveta
na cozinha,
tirar uma faca de cabo preto,
descascar uma laranja.
Viver é outra coisa:
deixas a gaveta fechada
e arrancas tudo
com unhas e dentes,
o sabor amargo da casca,
de tão doce,
não o esqueces.


Luís Filipe Parrado
in, Entre a Carne e o Osso






quarta-feira, 14 de junho de 2017

ABRIGO

 




Abrigo-me de ti
de mim não sei
há dias em que fujo
e que me evado

há horas em que a raiva
não sequei
nem a inveja rasguei
ou a desfaço

Há dias em que nego
e outros onde nasço

há dias só de fogo
e outros tão rasgados

Aqueles onde habito
com tantos dias vagos.



MARIA TERESA HORTA 
in, Minha Senhora de Mim