segunda-feira, 31 de julho de 2017

Quanto me queres?

 





Quanto, quanto me queres? – perguntaste
Olhando para mim mas distraída; 
E quando nos meus olhos te encontraste, 
Eu vi nos teus a luz da minha vida. 

Nas tuas mãos, as minhas, apertaste. 
Olhando para mim como vencida, 
"...quanto, quanto..." - de novo murmuraste 
E a tua boca deu-se-me rendida! 

Os nossos beijos longos e ansiosos,  
Trocavam-se frementes! - Ah! ninguém 
Sabe beijar melhor que os amorosos! 

Quanto te quero?! - Eu posso lá dizer!... 
- Um grande amor só se avalia bem 
Depois de se perder. 



António Botto
in, "Canções"





domingo, 30 de julho de 2017

Diz Toda a Verdade

 




Diz toda a Verdade mas di-la tendenciosamente - 
O êxito está no Circuito 
É demasiado brilhante para o nosso enfermo Prazer 
A esplêndida surpresa da Verdade 

Como o Relâmpago se torna mais fácil para as Crianças 
Com uma amável explicação 
A Verdade deve ofuscar gradualmente 
Ou cada homem ficará cego 



Emily Dickinson
in, "Poemas e Cartas"




sábado, 29 de julho de 2017

A Great Wagon

 




When I see your face, the stones start spinning!
You appear; all studying wanders.
I lose my place.

Water turns pearly.
Fire dies down and doesn’t destroy.

In your presence I don’t want what I thought
I wanted, those three little hanging lamps.

Inside your face the ancient manuscripts
Seem like rusty mirrors.

You breathe; new shapes appear,
and the music of a desire as widespread
as Spring begins to move
like a great wagon.
Drive slowly.
Some of us walking alongside
are lame!

~

Today, like every other day, we wake up empty
and frightened. Don’t open the door to the study
and begin reading. Take down a musical instrument.

Let the beauty we love be what we do.
There are hundreds of ways to kneel and kiss the ground.

~

Out beyond ideas of wrongdoing and rightdoing,
there is a field. I’ll meet you there.

When the soul lies down in that grass,
the world is too full to talk about.
Ideas, language, even the phrase each other
doesn’t make any sense.

~

The breeze at dawn has secrets to tell you.
Don’t go back to sleep.
You must ask for what you really want.
Don’t go back to sleep.
People are going back and forth across the doorsill
where the two worlds touch.
The door is round and open.
Don’t go back to sleep.

I would love to kiss you.
The price of kissing is your life.

Now my loving is running toward my life shouting,
What a bargain, let’s buy it.

~

Daylight, full of small dancing particles
and the one great turning, our souls
are dancing with you, without feet, they dance.
Can you see them when I whisper in your ear?

~

They try to say what you are, spiritual or sexual?
They wonder about Solomon and all his wives.

In the body of the world, they say, there is a soul
and you are that.

But we have ways within each other
that will never be said by anyone.

~

Come to the orchard in Spring.
There is light and wine, and sweethearts
in the pomegranate flowers.

If you do not come, these do not matter.
If you do come, these do not matter.



RUMI





sexta-feira, 28 de julho de 2017

Ode ao Amor

 





Tão lentamente, como alheio, o excesso de desejo, 
atento o olhar a outros movimentos, 
de contacto a contacto, em sereno anseio, leve toque, 
obscuro sexo á flor da pele sob o entreaberto 
de roupas soerguidas, vibração ligeira, sinal puro 
e vago ainda, e súbito contrai-se, 
mais não é excesso, ondeia em síncopes e golpes 
no interior da carne, as pernas se distendem, 
dobram-se, o nariz se afila, adeja, as mãos, 
dedos esguios escorrendo trémulos 
e um sorriso irónico, violentos gestos, 
amor... 
             ah tu, senhor da sombra e da ilusão sombria, 
vida sem gosto, corpo sem rosto, amor sem fruto, 
imagem sempre morta ao dealbar da aurora 
e do abrir dos olhos, do sentir memória, do pensar na vida, 
fuga perpétua, demorado espasmo, distração no auge, 
cansaço e caridade pelo desejo alheio, 
raiva contida, ódio sem sexo, unhas e dentes, 
despedaçar, rasgar, tocar na dor ignota, 
hesitação, vertigem, pressa arrependida, 
insuportável triturar, deslize amargo, 
tremor, ranger, arcos, soluços, palpitar e queda. 

Distantemente uma alegria foi, 
imensa, já tranquila, apascentando orvalhos, 
de contacto a contacto, ansiosamente serenando, 
obscuro sexo à flor da pele... amor... amor... 
ah tu senhor da sombra e da ilusão sombria... 
rei destronado, deus lembrado, homem cumprido. 

Distantemente, irónico, esquecido. 



Jorge de Sena
in, "Pedra Filosofal"





Searching for freedom

 

Michal Karcz



You say you are searching for freedom
and something is becoming worse inside you. Why?
Because a power, a force that has not been serving you
is being exposed. And it is as though there is another entity
inside your being that is pretending it is you, or with you.
But now you are discovering it is not in service to Truth,
and being exposed, it begins to retaliate against you.
Are you aware of this or not?
Everyone who searches for the Truth or freedom
experiences what you are experiencing now.
So I am asking you all these questions, what will you do?
Will you say, ‘Okay, Mr. Mind, I will be nice and obey you.
I will be a good person. I will stay with you, just don't beat me.’
Or will you say, ‘Whatever it takes, I will be free of this’?
Then, you turn yourself over to the Supreme and the divine energies.
You surrender to them, or you follow this process
and guidance of self-inquiry which I am showing you.
Trust it. Work with it until you are free of this molestation.
Because in this life, you must transcend the voice of the serpent.
And you have all the advantage
because what you are searching for is already inside you—complete.
It cannot be destroyed. It cannot be lost.
It can only be hidden and it has been hidden for a very long time,
and replaced by the devious play of the psychological mind.
Is it time for a change?
Yes. And so change has come.
Grace has come. Also fire has come.
Don't be in despair. Don't be discouraged. Don't be afraid.
Greater is the power that has come for you
than the power that fights against you.
Trust and apply what I say.


~ Mooji





quinta-feira, 27 de julho de 2017

POR VEZES, NÃO RARO

 




Por vezes, não raro,
basta um gesto, sua borracha,
um quase nada de alvaiade,
um rasgo e só.

No entanto, o carvão
de certas palavras,
de alguns nomes,
não se apaga fácil.

Afogá-lo, inútil:
o maralto traz
de volta cada sílaba
em sal fortalecida.

Enterrá-lo? Logo renascerá:
árvore alta, trigo, praga.
No fogo, irrompe a letra,
inda mais sólida liga.

Há que esperar do esquecimento
o dente miúdo
e lento roer a nódoa na língua,
o travo no peito.



Eucanaã Ferraz 
in, Dessassombro






terça-feira, 25 de julho de 2017

Quem não Ama não Vive

 




Já na minha alma se apagam 
As alegrias que eu tive; 
Só quem ama tem tristezas, 
Mas quem não ama não vive. 

Andam pétalas e folhas 
Bailando no ar sombrio; 
E as lágrimas, dos meus olhos, 
Vão correndo ao desafio. 

Em tudo vejo Saudades! 
A terra parece morta. 
- Ó vento que tudo levas, 
Não venhas à minha porta! 

E as minhas rosas vermelhas, 
As rosas, no meu jardim, 
Parecem, assim caídas, 
Restos de um grande festim! 

Meu coração desgraçado, 
Bebe ainda mais licor! 
- Que importa morrer amando, 
Que importa morrer d'amor! 

E vem ouvir bem-amado 
Senhor que eu nunca mais vi: 
- Morro mas levo comigo 
Alguma coisa de ti. 



António Botto
in, "Canções"





segunda-feira, 24 de julho de 2017

Bendito Sejas

 




Bendito sejas, 
Meu verdadeiro conforto 
E meu verdadeiro amigo! 

Quando a sombra, quando a noite 
Dos altos céus vem descendo, 
A minha dor, 
Estremecendo, acorda... 

A minha dor é um leão 
Que lentamente mordendo 
Me devora o coração. 

Canto e choro amargamente; 
Mas a dor, indiferente, 
Continua... 

Então, 
Febril, quase louco, 
Corro a ti, vinho louvado! 
- E a minha dor adormece, 
E o leão é sossegado. 

Quanto mais bebo mais dorme: 
Vinho adorado, 
O teu poder é enorme! 

E eu vos digo, almas em chaga, 
Ó almas tristes sangrando: 
Andarei sempre 
Em constante bebedeira! 

Grande vida! 

- Ter o vinho por amante 
E a morte por companheira! 



António Botto 
in, "Canções"





domingo, 23 de julho de 2017

Vão orgulho

 




Neste mundo vaidoso o amor é nada, 
É um orgulho a mais outra vaidade 
A coroa de louros desfolhada 
Com que se espera a eternidade. 

Ser Beatriz, Natércia. Irrealidade! 
Mentira...Engano de alma desvairada... 
Onde está desses braços a verdade, 
Essa fogueira em cinzas apagada?... 

Mentira! Não te quis..não me quiseste... 
Efluvios subtis de um bem celeste? 
Gestos, palavras sem nenhum condão... 

Mentira, não fui tua não...Somente 
Quis ser mais do que sou, mais do que gente, 
No alto do orgulho de o ter sido em vão. 



Florbela Espanca 
in, Reliquiae 





sábado, 22 de julho de 2017

Se duvidas

 





Se duvidas que teu corpo

Possa estremecer comigo –

E sentir

O mesmo amplexo carnal,

– desnuda-o inteiramente,

Deixa-o cair nos meus braços,

E não me fales,

Não digas seja o que for,

Porque o silêncio das almas

Dá mais liberdade

às coisas do amor.


Se o que vês no meu olhar

Ainda é pouco

Para te dar a certeza

Deste desejo sentido,

Pede-me a vida,

Leva-me tudo que eu tenha

Se tanto for necessário

Para ser compreendido.



António Botto
in, Canções"





sexta-feira, 21 de julho de 2017

Sombras

 




A meio desta vida continua a ser 
difícil, tão difícil 
atravessar o medo, olhar de frente 
a cegueira dos rostos debitando 
palavras destinadas a morrer 
no lume impaciente de outras bocas 
anunciando o mel ou o vinho ou 
o fel.

Calmamente sentado num sofá, 
começas a entender, de vez em quando, 
os condenados a prisão perpétua 
entre as quatro paredes do espírito 
e um esquife negro onde vão desfilando 
imagens, só imagens 
de canal em canal, sintonizadas 
com toda a angústia e estupidez do mundo.

As pessoas - tu sabes - as pessoas são feitas 
de vento 
e deixam-se arrastar pela mais bela 
respiração das sombras, 
pela morte que repete os mesmos gestos 
quando o crepúsculo fica a sós connosco 
e a noite se redime com uma estrela 
a prometer salvar-nos.

A meio desta vida os versos abrem 
paisagens virtuais onde se perdem 
as intenções que alguma vez tivemos, 
o recorte obscuro de perfis 
desenhados a fogo há muitos anos 
numa alma forrada de espelhos 
mas sempre tão vazia, sem abrigo 
para corpo nenhum.



Fernando Pinto do Amaral
in, 'Pena Suspensa'





quinta-feira, 20 de julho de 2017

Morri pela Beleza

 




Morri pela Beleza - mas mal me tinha 
Acomodado à Campa 
Quando Alguém que morreu pela Verdade, 
Da Casa do lado -

Perguntou baixinho "Por que morreste?" 
"Pela Beleza", respondi - 
"E eu - pela Verdade - Ambas são iguais - 
E nós também, somos Irmãos", disse Ele -

E assim, como parentes próximos, uma Noite - 
Falámos de uma Casa para outra - 
Até que o Musgo nos chegou aos lábios - 
E cobriu - os nossos nomes.


Emily Dickinson
in, "Poemas e Cartas"




quarta-feira, 19 de julho de 2017

Os Instantes Superiores da Alma

 




Os instantes Superiores da Alma 
Acontecem-lhe - na solidão - 
Quando o amigo - e a ocasião Terrena 
Se retiram para muito longe - 

Ou quando - Ela Própria - subiu 
A um plano tão alto 
Para Reconhecer menos 
Do que a sua Omnipotência - 

Essa Abolição Mortal 
É rara - mas tão bela 
Como Aparição - sujeita 
A um Ar Absoluto - 

Revelação da Eternidade 
Aos seus favoritos - bem poucos - 
A Gigantesca substância 
Da Imortalidade 



Emily Dickinson
in, "Poemas e Cartas"




terça-feira, 18 de julho de 2017

Demasiada Loucura é o Mais Divino Juízo

 




Demasiada Loucura é o mais divino Juízo - 
Para um Olhar criterioso - 
Demasiado Juízo - a mais severa Loucura - 
É a Maioria que 
Nisto, como em Tudo, prevalece - 
Consente - e és são - 
Objecta - és perigoso de imediato - 
E acorrentado 



Emily Dickinson
in, "Poemas e Cartas" 





segunda-feira, 17 de julho de 2017

A Dor Tem um Elemento de Vazio

 




A Dor - tem um Elemento de Vazio - 
Não se consegue lembrar 
De quando começou - ou se houve 
Um tempo em que não existiu - 

Não tem Futuro - para lá de si própria - 
O seu Infinito contém 
O seu Passado - iluminado para aperceber 
Novas Épocas - de Dor. 



Emily Dickinson 
in, "Poemas e Cartas"





domingo, 16 de julho de 2017

Se Me Deixares, Eu Digo

 




Se me deixares, eu digo 
O contrario a toda a gente; 
E, n'este mundo de enganos, 
Fala verdade quem mente. 
Tu dizes que a minha boca 
Já não acorda desejos, 
Já não aquece outra boca, 
Já não merece os teus beijos; 
Mas, tem cuidado comigo, 
Não procures ser ausente: 
- Se me deixares, eu digo 
O contrario a toda a gente. 



António Botto
in, "Canções"