sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Retrato de Mulher Triste

 





Vestiu-se para um baile que não há. 
Sentou-se com suas últimas jóias. 
E olha para o lado, imóvel.

Está vendo os salões que se acabaram, 
embala-se em valsas que não dançou, 
levemente sorri para um homem. 
O homem que não existiu.

Se alguém lhe disser que sonha, 
levantará com desdém o arco das sobrancelhas, 
Pois jamais se viveu com tanta plenitude.

Mas para falar de sua vida 
tem de abaixar as quase infantis pestanas, 
e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas.


Cecília Meireles
in, "Poemas" 





quinta-feira, 28 de setembro de 2017

tu-nós

 





O MAIS BELO ESPECTÁCULO DE HORROR SOMOS NÓS. 

Este rosto com que amamos, com que morremos, não é 
nosso; nem estas cicatrizes frescas todas as manhãs, nem estas 
palavras que envelhecem no curto espaço de um dia. A noite 
recebe as nossas mãos como se fossem intrusas, como se o 
seu reino não fosse pertença delas, invenção delas. Só a custo, 
perigosamente, os nossos sonhos largam a pele e aparecem 
à luz diurna e implacável. A nossa miséria vive entre as 
quatro paredes, cada vez mais apertadas, do nosso desespero. 
E essa miséria, ela sim verdadeiramente nossa, não encontra 
maneira de estoirar as paredes. Emparedados, sem possibilidade 
de comunicação, limitados no nosso ódio e no nosso amor, 
assim vivemos. Procuramos a saída - a real, a única - 
e damos com a cabeça nas paredes. Há então os que ganham 
a ira, os que perdem o amor. 

Já não há tempo para confusões - a Revolução é um momento, 
o revolucionário todos os momentos. Não se pode 
confundir o amor a uma causa, a uma pátria, com o Amor. 
Não se pode confundir a adesão a tipos étnicos com o amor
ao homem e à liberdade. NÃO SE PODE CONFUNDIR! Quem 
ama a terra natal fica na terra natal; quem gosta do folclore 
não vem para a cidade. Ser pobre não é condição para se 
ganhar o céu ou o inferno. Não estar morto não quer forçosamente 
dizer que se esteja vivo, como não escrever não
equivale sempre a ser analfabeto. Há mortos nas sepulturas 
muito mais presentes na vida do que se julga e gente que
nunca escreveu uma linha que fez mais pela palavra que toda 
uma geração de escritores. 

A acção poética implica: para com o amor uma atitude 
apaixonada, para com a amizade uma atitude intransigente, 
para com a Revolução uma atitude pessimista, para com a 
sociedade uma atitude ameaçadora. As visões poéticas são 
autónomas, a sua comunicação esotérica. 

Os profetas, os reformistas, os reaccionários, os progressistas 
arregalarão os olhos e em seguida hão-de fechá-los de 
vergonha. Fechá-los como têm feito sempre, afinal, e em 
seguida mergulharem nas suas profecias. Olharem para a parte 
inferior da própria cintura e em seguida fecharem os olhos 
de vergonha. Abandonarem-se desenfreadamente à carpintaria 
das suas tábuas de valores, brandirem-nas por cima das 
nossas cabeças como padrões para a vida, para a arte, para o 
amor e em seguida fecharem os olhos de vergonha às 
manifestações mais cruéis da vida, da arte e do amor. 

MAS NÃO IMPORTA, PORQUE EU SEI QUE NÃO ESTOU 
SOZINHO no meu desespero e na minha revolta. Sei pela luz 
que passa de homem para homem quando alguém faz o gesto 
de matar, pela que se extingue em cada homem à vista dos 
massacres, sei pelas palavras que uivam, pelas que sangram, 
pelas que arrancam os lábios, sei pelos jogos selvagens da 
infância, por um estandarte negro sobre o coração, pela luz 
crepuscular como uma navalha nos olhos, pelas cidades que 
chegam durante as tempestades, pelos que se aproximam de 
peito descoberto ao cair da noite - um a um mordem os pulsos 
e cantam - sei pelos animais feridos, pelos que cantam nas 
torturas. 

Por isso, para que não me confundam nem agora nem 
nunca, declaro a minha revolta, o meu desespero, a minha 
liberdade, declaro tudo isto de faca nos dentes e de chicote em 
punho e que ninguém se aproxime para aquém dos mil passos 

EXCEPTO TU MEU AMOR EXCEPTO TU 
MEU AMOR 

minha aranha mágica agarrada ao meu peito 
cravando as patas aceradas no meu sexo 
e a boca na minha boca 
conto pelos teus cabelos os anos em que fui criança 
marco-os com alfinetes de ouro numa almofada branca 
um ano       dois anos       um século 
agora um alfinete na garganta deste pássaro 
tão próximo e tão vivo 
outro alfinete       o último       o maior 
no meu próprio plexo 

MEU AMOR 
conto pelos teus cabelos os dias e as noites
e a distância que vai da terra à minha infância 
e nenhum avião ainda percorreu 
conto as cidades e os povos os vivos e os mortos 
e ainda ficam cabelos por contar 
anos e anos ficarão por contar  

DEFENDE-ME ATÉ QUE EU CONTE 
O TEU ÚLTIMO CABELO 


António José Forte





quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Solitude

 




the flesh covers the bone 
and they put a mind 
in there and 
sometimes a soul, 
and the women break 
vases against the walls 
and the men drink too 
much 
and nobody finds the 
one 
but keep 
looking 
crawling in and out 
of beds. 
flesh covers 
the bone and the 
flesh searches 
for more than 
flesh. 

there's no chance 
at all: 
we are all trapped 
by a singular fate. 

nobody ever finds 
the one. 

the city dumps fill 
the junkyards fill
the madhouses fill
the hospitals fill
the graveyards fill 

nothing else 
fills. 


Charles Bukowski





terça-feira, 26 de setembro de 2017

Visões

 





Perante os que olham a realidade como se fosse
o único absoluto, sinto-me como se estivesse perante
aqueles marinheiros loucos que, ao verem
aproximar-se o temporal, se lançam à água,
deixando para trás os mapas e a bússola. Na verdade,
entendo essa mesma realidade, que os outros
veneram, como algo tão impuro como o chão que 
pisamos, com a diferença de que os pés não sabem
distinguir o caminho certo se o rumo de quem anda
não os dirigir de acordo com uma ideia, um destino, o
que quer que seja que possa eliminar o acaso. E
é aqui que os crentes no real me contradizem: "Não vês
que o ideal se esfuma por entre dedos, e que
tudo o que pensas que faz parte da tua vida não passa
de sonho que logo se dissipa quando acordas 
da noite"? Porém, digo-lhes, se à noite fico 
acordado é precisamente porque o escuro, a sombra, 
a própria treva, me confirmam na convicção de 
que esta realidade em que vivemos não passa de aparência,
de simples ilusão nascida do nosso desejo de viver
num quotidiano fabricado pelo pensamento. E 
neste preciso momento verifico que estou perante
seres abstractos, fantasmas de um arquétipo inútil, 
astros que se apagam no céu da consciência que,
para mim, não tem mais realidade do que este papel
em que escrevo, e só é real quando o leio.


Nuno Júdice



sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Eu Quero Ser Feliz Agora

 





Se alguém disser pra você não cantar
Deixar teu sonho ali pr'uma outra hora
Que a segurança exige medo
Que quem tem medo Deus adora

Se alguém disser pra você não dançar
Que nessa festa você tá de fora
Que você volte pro rebanho.
Não acredite, grite, sem demora...
Eu quero ser feliz Agora

Se alguém vier com papo perigoso 
de dizer que é preciso paciência pra viver.
Que andando ali quieto
Comportado, limitado
Só coitado, você não vai se perder
Que manso imitando uma boiada, 
você vai boca fechada pro curral sem merecer
Que Deus só manda ajuda a quem se ferra, 
e quando o guarda-chuva emperra certamente vai chover.
Se joga na primeira ousadia, 
que tá pra nascer o dia do futuro que te adora.
E bota o microfone na lapela, 
olha pra vida e diz pra ela...
Eu quero ser feliz agora



Oswaldo Montenegro





quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Quando fores velha

 





Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono,
Dormitando junto à lareira, toma este livro,
Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar
Que outrora tiveram teus olhos, e com as suas sombras profundas;

Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,
Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,
Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,
E amou as mágoas do teu rosto que mudava;

Inclinada sobre o ferro incandescente,
Murmura, com alguma tristeza, como o Amor te abandonou

E em largos passos galgou as montanhas
Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas.


W. B. YEATS
in, Poemas






When You Are Old


When you are old and grey and full of sleep,
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep;

How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true,
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face;

And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how Love fled
And paced upon the mountains overhead
And hid his face amid a crowd of stars


WILLIAM BUTLER YEATS




quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Para um amigo cujo trabalho deu em nada

 





Agora sabe-se toda a verdade,
Sê reservado e aceita a derrota
De qualquer garganta sem vergonha,
Pois como podes tu competir,
Sendo educado na honra, com alguém
Que, se se provasse que mente,
Não se sentiria envergonhado nem aos seus
Olhos nem aos dos vizinhos?
Educado para uma tarefa mais dura
Do que o Triunfo, afasta-te
E como uma corda sorridente
Tocada por dedos loucos
No meio de um lugar de pedra,
Sê misterioso e exulta,
Porque acima de tudo
Isso é o mais difícil.



in, De Os pássaros e outros poemas
W. B. Yeats





terça-feira, 19 de setembro de 2017

A Rosa de Yeats





A rosa do mundo


Quem sonhou que a beleza passa como um sonho?

Por estes lábios vermelhos, com todo o seu magoado orgulho,

Tão magoados que nem o prodígio os pode alcançar,

Tróia desvaneceu-se em alta chama fúnebre,

E morreram os filhos de Usna.


Nós passamos e passa o trabalho do mundo:

Entre humanas almas, que se agitam e quebram

Como as pálidas águas em seu fluxo invernal,

Sob as estrelas que passam, sob a espuma do céu,

Vive este solitário rosto.


Inclinai-vos, arcanjos, em vossa incerta morada:

Antes de vós, ou de qualquer palpitante coração,

Fatigado e gentil alguém esperava junto ao seu trono;

Ele fez do mundo um caminho de erva

Para os seus errantes pés.






A rosa na cruz do tempo



Rosa vermelha, Rosa altiva, triste Rosa dos meus dias!

Aproxima-te, vem até mim, enquanto de outrora os tempos canto:

O de Cuchulain, em luta com a maré inclemente;

O do Druida sombrio, filho dos bosques, de olhos calmos,

Esse que alimentou os sonhos de Fergus e a indizível ruína;

É a tua tristeza o que antiquíssimas estrelas

Dançando com sandálias de prata sobre o mar,

Cantam em sua alta e solitária melodia.

Aproxima-te pois, agora que já não me cega o destino do homem,

E posso encontrar sob os ramos do amor e do ódio,

E nas mais simples coisas que vivem apenas um dia,

A eterna beleza errante, errando ainda.


Aproxima-te, vem até mim, vem — Ah, deixa-me algum espaço

Que de seu hálito a rosa encha!

Que não seja eu quem não ouve o que implora;

O verme indefeso e oculto em seu pequeno esconderijo,

A ratazana que entre as ervas de mim foge,

E a terrível esperança mortal que labuta e morre;

Que seja eu quem ouve as estranhas coisas ditas

Por Deus aos luminosos corações dos mortos antigos,

E aprende essa língua que os homens ignoram.

Vem até mim; antes de partir queria o

Velho Eire cantar e cantar de outrora os tempos:

Rosa vermelha, Rosa altiva, triste Rosa dos meus dias.






O amante diz da rosa no seu coração



Tudo quanto é feio, destruído, todas as coisas gastas, velhas,

O grito de uma criança à beira do caminho, o rangido de uma carroça que se arrasta,

O pesado andar do lavrador, passo a passo sobre o limo invernal,

Maculam a tua imagem que engendra uma rosa no fundo do meu coração.


Tão grande é a mácula das coisas torpes que não pode ser descrita;

A minha ânsia é tudo reconstruir e sentar-me num verde outeiro solitário,

Com a terra, o céu, a água renovados, como um cofre de ouro

Para os meus sonhos da tua imagem que floresce numa rosa tão profundamente no meu coração.





W.B.Yeats
in, Poemas






segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Quando vocês estiverem tristes

 





Quando vocês estiverem tristes, pensem em coisas lindas:
Balas, travessuras, carinho, carrinho, beijo de mãe,
Brincadeira de queimado, árvore de natal,
Árvore de jabuticaba, céu amarelo, bolas azuis,
Risadas, colo de pai, história de avó...
Quando vocês forem grandes e acharem que a vida não é linda,
Pensem em coisas lindas.
Mas pensem com força, com muita força,
Porque aí o céu vai ficar cheio de vacas gordas amarelas,
Cachorro bonzinho, bruxa simpática,
Sorvete de chocolate, caramelos e amigos
Vamos, vamos lá! vamos pensar só em coisas lindas!
Brincar na chuva, boneca nova, boneca velha, bola grande,
Mar verde, submarino amarelo, fruta molhada, banho de rio,
Guerra de travesseiro, boneco de areia, princesas,
Heróis, cavalos voadores...



Oswaldo Montenegro





domingo, 17 de setembro de 2017

As coisas que eu gosto

 





Eu gosto de andar pela rua, 
bater papo, de lua e de amigo engraçado. 
Eu gosto do volume, do perfume, do ciúme, 
do desvelo e de abraço apertado. 

Eu gosto de artistas diversos 
de crianças de berço e do som do atchim. 
Tem gente, muita gente que eu gosto, 
que eu quase aposto que não gosta de mim. 

Eu gosto de quem sempre acredita 
a violência é maldita e já foi longe demais. 
Eu gosto de inventar melodia, 
da palavra poesia e de palavra com til. 

Eu gosto é de beijo na boca 
de cantora bem rouca e de morar no Brasil. 
Eu gosto assim de quem é eterno 
de quem é moderno e de quem não quer ser. 

Eu gosto de varar madrugada, 
de quem conta piada e não consegue entender. 
Eu gosto de quem quer dar ajuda 
e acredita que muda o que não anda legal. 

Eu gosto é de ver coisa rara. 
A verdade na cara é do que gosto mais. 
Eu gosto porque assim vale a pena, 
a nossa vida é pequena e tá guardada em cristais. 

Eu gosto é que Deus cante em tudo 
e que não fique mudo morto em mil catedrais. 


Oswaldo Montenegro





quarta-feira, 13 de setembro de 2017

A Lista

 





Faça uma lista de grandes amigos,
quem você mais via há dez anos atrás...
Quantos você ainda vê todo dia ?
Quantos você já não encontra mais?

Faça uma lista dos sonhos que tinha...
Quantos você desistiu de sonhar?
Quantos amores jurados pra sempre...
Quantos você conseguiu preservar?

Onde você ainda se reconhece,
na foto passada ou no espelho de agora?
Hoje é do jeito que achou que seria?
Quantos amigos você jogou fora...

Quantos mistérios que você sondava,
quantos você conseguiu entender?
Quantos defeitos sanados com o tempo,
era o melhor que havia em você?

Quantas mentiras você condenava,
quantas você teve que cometer ?
Quantas canções que você não cantava,
hoje assobia pra sobreviver ...

Quantos segredos que você guardava,
hoje são bobos ninguém quer saber ...
Quantas pessoas que você amava,
hoje acredita que amam você?



Oswaldo Montenegro





terça-feira, 12 de setembro de 2017

O Mesmo Assunto

 





Olha nego
Desculpe mas me cansa repetir a mesma coisa
Todo dia insistindo em fazer saltar os olhos
O que os olhos não conseguem enxergar

Olha nego
Desculpe mas me cansa repetir o mesmo assunto
Ou pior, perdê-la no turbilhão de frases feitas
E a mim falta saúde pra agüentar
Olha nego em mim não sobrou ilusão

Mas de sã consciência
Lhe afirmo meu nego
Farei o possível se for pra ajudar
Mas se não
Não quero esse papo doente
E sem consequência palpável meu nego
Não conte comigo pra filosofar

Eu quero é na sombra da velha mangueira
Amar a morena e sentar num papo sem pressa mexendo o canudo
Num copo de maracujá
Você apareça que a gente aprecia
Por deus nem precisa avisar
Mas usa essa mente sem acrobacia nego
Clareza é preciso tentar

Olha nego
No fundo eu compreendo a tua cuca
E a tua culpa eu também sinto
Mas não acho justo a gente se iludir
Que adianta a luta na mesa do bar

Olha nego
Enquanto não for pra valer
Apareça lá em casa sem medo ou remorso
Pra com alegria ajudar quem não tem.



Oswaldo Montenegro





sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Da Vida... não Fales Nela

 





Da vida... não fales nela, 
quando o ritmo pressentes. 
Não fales nela que a mentes. 

Se os teus olhos se demoram 
em coisas que nada são, 
se os pensamentos se enfloram 
em torno delas e não 
em torno de não saber 
da vida... Não fales nela. 

Quanto saibas de viver 
nesse olhar se te congela. 
E só a dança é que dança, 
quando o ritmo pressentes. 

Se, firme, o ritmo avança, 
é dócil a vida, e mansa... 
Não fales nela, que a mentes. 



Jorge de Sena
in, "Pedra Filosofal"






Arremesso

 





Porque despertar em mim esse animal
alucinado. Animal de olhos de fogo.
Selvagem e louco. Esse animal acuado
que perde sangue no jogo. Essa fera
que te ataca e te resiste. Que por pouco
não te mata. Ah, essa desenfreada que me existe
e me devora. Porque despertá-la agora
já que há tanto vinha adormecida.
Porque assustá-la assim em meio ao sono.
Porque arrancá-la bruscamente de seu sonho
e transportá-la de repente para a vida.
Porque despertar em mim essa cavala doida
que vai te galopar de corpo inteiro. Enlouquecida
que vai se ferir em meio ao trote. Porque atiçar esse
bicho
que nessa luta vai morrer primeiro.
Que vai morrer de fome, de grito, de garganta enxuta,
de tanta entrega. Dilacerado de tanta força bruta.
Porque despertar essa besta que me habita
que se torna cruel e desumana quando aflita.
Porque gritar com ela no silêncio de um sono branco
em que já vinha há tanto. Porque provocá-la em meio
ao espanto
quando ainda não era o seu tempo.



BRUNA LOMBARDI
in, No Ritmo dessa Festa




quarta-feira, 6 de setembro de 2017

QUANDO EU MORRER

 




Pai, quando eu morrer,
ficarei rosa como uma menina
(você não deve ralhar ou querer que eu minta
porque tudo será exato, sem mesmo carecer de ensaio).

Quando eu morrer sou tranquilo
como um príncipe que beijasse
a boca do nada (você vai achar bonito
esse quadro de tintas longínquas).

Pensarão que sou uma menina, um barco,
um pombo. Todo o meu doce virá à tona.
Veja pai, sou um mineral,
intacto e sem passado.



Eucanaã Ferraz 
in, Livro Primeiro




terça-feira, 5 de setembro de 2017

Doces Delírios

 




E o deus que entrou em nosso quarto
era vermelho e feminino e eu tive
um medo de excitação
desses que a gente prende a respiração
deseja e teme e os opostos se tocam
sempre
e sempre
há de vencer nosso pior.
Somos assim, pequenos magos
pequenos truques, pequeninas plumas sulferinas
coisinhas que cintilam
esferas, estrelas, espelhinhos
cartas dentro da manga, lenços coloridos
tudo em nós flutua
é sonho, abstração.
A tua fé e o meu desejo de pecado
caminham lado a lado e são
tudo que nos escraviza
nosso futuro, nosso passado
a nossa libertação.



BRUNA LOMBARDI
in, O Perigo do Dragão