terça-feira, 31 de outubro de 2017

Amor só não basta

 




Casaram, te amo para lá, te amo para cá.
Lindo, mas insustentável.

O sucesso de um casamento exige mais do que 
declarações românticas.
Entre duas pessoas que decidem dividir o mesmo teto tem que 
haver muito mais do que amor, e às vezes nem 
necessita de um amor tão intenso.

É preciso que haja, antes de mais nada respeito.
Agressões zero.
Disposição para ouvir argumentos alheios.
Alguma paciência.
Amor só não basta.

Não pode haver competição. 
Nem comparações.
Tem que ter jogo de cintura para acatar regras que 
não foram previamente combinadas.
Tem que haver bom humor para enfrentar 
imprevistos, acessos de carência, infantilidades.
Tem que saber relevar.
Amar, só, é pouco.



Martha Medeiros




segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Resgates

 




Ergo os dedos que ardem na noite,
e ilumino com eles as florestas aéreas
do esquecimento. De cada ramo nascem
rostos, como frutos, e colho dos seus lábios
as histórias que ouvi numa infância
de pálpebras espantadas. Procuro a obscuridade,
e tiro da sua geografia de segredos o caminho 
para ti: a criança que adormeceu sem saber
que o sonho a habitava.

Agora sei de onde vem o ruído
que assombra a noite. Por vezes, é o vento
que empurra as portas que ninguém fechou;
ou então, é o pássaro perdido que não encontra
a saída por entre telhas, nesta casa há muito
desabitada. E quando atravesso as salas
vazias, corres à minha frente, a sombra que
não puxei para mim numa antiga indecisão
de frases melancólicas.

Um silêncio clama a recompensa
de um calor intenso como a palavra que nele
ficou, até hoje, quando a tiro de dentro das cinzas
e  limpo de inúteis significados, para que
só o amor lhe dê a forma exacta como
a pedra deste canto, e a transforme num som
transparente como a água, abstracto como o ar,
musical como a voz de onde nasceu.


Nuno Júdice





quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Poema à Mãe

 




No mais fundo de ti, 
eu sei que traí, mãe

Tudo porque já não sou 
o retrato adormecido 
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras 
que há leitos onde o frio não se demora 
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo 
são duras, mãe, 

e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas 
que apertava junto ao coração 
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas, 
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa; 
esqueceste que as minhas pernas cresceram, 
que todo o meu corpo cresceu, 
e até o meu coração 
ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? — 
às vezes ainda sou o menino 
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração 
rosas tão brancas 
como as que tens na moldura;
ainda oiço a tua voz: 
Era uma vez uma princesa 
no meio de um laranjal...

Mas — tu sabes — a noite é enorme, 
e todo o meu corpo cresceu. 

Eu saí da moldura, 
dei às aves os meus olhos a beber,

Não me esqueci de nada, mãe. 
Guardo a tua voz dentro de mim. 
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.



Eugénio de Andrade
in, "Os Amantes Sem Dinheiro"





quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Cetim

 




ele não sabe que eu o amo dentro dos armários, nos
dias
mais esquisitos, que eu me enfeito, me serpenteio de
fantasias,
que eu uso pintas, plumas e anáguas, rendas escuras e
visto
cintas e certas meias... ele não sabe que eu me deslizo
dentro
das tramas, baixo da cama, eu me escorrego, nem
desconfia
como eu me apego a essas manias.
ele não sabe como eu me entrego.
como que preparo, com que firulas, uma avidez de
festas
impossíveis, uns gostos, cânhamo, sândalo, essências,
suor
e uma gota de absinto, na pele um cheiro forte de tudo.
E de
marisco.
ele não sabe que eu pinto a boca de vermelho, percorro
todos
os espelhos da casa na maior cumplicidade clandestina,
e
largo o corpo, lasseio as cordas, me estico,
espreguiço, muito frouxa, mansa, transpirada, um vapor
que embaça os vidros, um calor de porta fechada.
que eu vou me encostando nas paredes, tirando
pulseira,
sandálias, me deixando acontecer, improvisando formas,
cedendo às tentações, devagar, os pés, tapete, coxas, a
umidade, pêlos, copos de vinho, olheiras.
ele não sabe que eu o envolvo nessas imagens, o
escondo
nessas figuras, que eu o possuo o quanto quero, o
invento
e deito e rodo, malho, mordo, uivo, rio.
ele não sabe que eu habito com essas danças na cabeça,
com essas ervas na gaveta, essas folias.
ele nem sabe do que estou falando
entende nada dessas alegorias.



BRUNA LOMBARDI
in, Gaia




terça-feira, 24 de outubro de 2017

Independência

 




Recuso-me a aceitar o que me derem. 
Recuso-me às verdades acabadas; 
recuso-me, também, às que tiverem 
pousadas no sem-fim as sete espadas. 

Recuso-me às espadas que não ferem 
e às que ferem por não serem dadas. 
Recuso-me aos eus-próprios que vierem 
e às almas que já foram conquistadas. 

Recuso-me a estar lúcido ou comprado 
e a estar sozinho ou estar acompanhado. 
Recuso-me a morrer. Recuso a vida. 

Recuso-me à inocência e ao pecado 
como a ser livre ou ser predestinado. 
Recuso tudo, ó Terra dividida! 



Jorge de Sena
in, "Coroa da Terra"



quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Amo-te e não é a brincar

 




Não há nada mais transparente do que o amor
Deitado como morto na sua ilusão
Tenso e erecto na sua verdade.

Nascer estando a olhar cada entardecer
Dormir surdo encostado ao mal
Sonhar sem se colocar em causa.

O caminhar plúmbeo das lágrimas
Sobre as grandes pedras e o nosso júbilo
Pelas folhas verdes que vemos no bosque.

Eu sou um animal estranho
Falo-te com as orelhas que tenho
Com a voz que falo escuto e te entendo.

Corredor do evidente-opaco
Ser ou sonhar que se é
Sobreviver a si mesmo ou voltar a nascer.

Na primeira vez que te vejo dou-te um beijo
Na vez seguinte tratas-me por tu
E para sempre dou-te a minha fé.

Nada tenho a ganhar
Amo-te demasiado para te perder
Amo-te e não é a brincar.


Paul Éluard




quarta-feira, 18 de outubro de 2017

A Altares não Prendas aqueles que são Deuses

 




Os deuses não nos querem de joelhos.
Se inábeis lhes erguemos um altar,
Afastam-se de nós. Ficam enfermos
E tomam a decisão de se calar.

Não pode Vénus sem movimentos livres
ir ao inferno buscar o seu amante.
Por isso elege, em deleitosos perigos,
Prazeres e sonhos, seu santuário errante.

Em cada deus exprime a eternidade
O empenho de ser ave e a ninfa é boa
Porque fluindo na fonte em liberdade
Na mão em concha nos leva a água à boca.

A altares não prendas aqueles que são deuses
Porque são soltos como gargalhadas
Qual das crisálidas os impulsos presos,
Para voar, rebentam as suas cascas.

Reprova o oráculo os que por crenças fátuas,
Matando o riso, vão do tempo à tumba.
A alegria é divina. As suas asas
Murcham se atadas a aras de renúncia.


Natália Correia
in, O Armistício




terça-feira, 17 de outubro de 2017

Beijos

 




Monólogo


«Beijar!» linda palavra!… Um verbo regular
Que é muito irregular
Nos tempos e nos modos…

Conheço tanto beijo e tão dif’rentes todos!…

Um beijo pode ser amor ou amizade
Ou mera cortesia,
E muita vez até, dizê-lo é crueldade
É só hipocrisia.

O doce beijo de mãe
É o mais nobre dos beijos,
Não é beijo de desejos,
Valor maior ele tem:
É o beijo cuja fragrância
Nos faz secar na infância
Muita lágrima… feliz;
Na vida esse beijo puro
É o refúgio seguro
Onde é feliz o infeliz.

Entre as damas o beijo é praxe estab’lecida,
Cumprimento banal – ridículos da vida! 
–:(Imitando o encontro de 2 senhoras na rua)
– Como passou, está bem? (Um beijo.) O seu marido?
(Mais beijos.) – De saúde. E o seu, Dona Mafalda?
– Agora menos mal. Faz um calor que escalda,
Não acha? – Ai Jesus! que tempo aborrecido!…

Beijos dados assim, já um poeta o disse,
Beijos perdidos são.
(Perder beijos! que tolice!
Porque é que a mim os não dão?)

O osculum pacis dos cardeais
É outro beijo de civ’lidade;
Beijos paternos ou fraternais
São castos beijos, só amizade.

As flores também se beijam
Em beijos incandescidos,
Muito embora se não vejam
Os ternos beijos das flores.

Há outros beijos perdidos:
Aqui mesmo,
Há aqueles que os atores
Dão a esmo,
Dão a esmo e a granel…
Porque lhes marca o papel.

– Mas o beijo d’amor?
Sossegue o espectador,
Não fica no tinteiro;
Guardei-o para o fim por ser o «verdadeiro».

Com ele agora arremeto
E como é o principal,
Vai apanhar um soneto
Magistral:

Um beijo d’amor é delicioso instante
Que vale muito mais do que um milhão de vidas,
É bálsamo que sara as mais cruéis feridas,
É turbilhão de fogo, é espasmo delirante!

Não é um beijo puro. É beijo estonteante,
Pecado que abre o céu às almas doloridas.
Ah! Como é bom pecar co’as bocas confundidas
Num desejo brutal da carne palpitante!

Os lábios sensuais duma mulher amada
Dão vida e dão calor. É vida desgraçada
A do feliz que nunca um beijo neles deu;

É vida venturosa a vida de tortura
Daquele que co’a boca unida à boca impura
Da sua amante qu’rida, amou, penou, morreu.

(Pausa – Mudando de tom)

Desejava terminar
A beijar a minha amada,
Mas como não tenho amada,

(A uma espectadora)

Vossência é que vai pagar…
Não se zangue. A sua face
Consinta que eu vá beijar…
……………………. (atira-lhe um beijo)
Um beijo pede-se e dá-se,
Não vale a pena corar…



Mário de Sá-Carneiro
in, Obra Poética de Mário de Sá-Carneiro






sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Abandono

 




Na cama, onde o teu corpo, de costas, se abandona
aos meus olhos, e os cabelos se espalham pela almofada
és a mais bela das mulheres nuas. Os pés, sobre
os lençóis que o amor amarrotou, cruzam-se,
num breve descanso; e o rosto, de olhos 
fechados, esconde o desejo que a tua brancura
me oferece, contra a parede que inscreve
o único limite do nosso amor. O braço direito
caído para o chão, agarra um vazio que encho
de palavras; e o braço esquerdo, sob os seios,
indica-me o caminho em que cada repetição
é uma descoberta. Se te voltares, abrindo os braços,
e mostrando o peito, saberei o rumo seguir,
nesta viagem em que és a proa e o vento; mas
se ficares assim, secreto retrato no atelier
do coração, apenas te peço que entreabras
os lábios, para que um murmúrio nasça
de dentro da tela. Então, cobrir-te-ei as pernas
com o lençol, espalhar-te-ei pela almofada
os cabelos, escondendo a nuca e o ombro; e
deixarei que este poema se derrame sobre ti,
ateando este fogo com que a tua nudez
me incendeia.


Nuno Júdice





quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Rosto Afogado

 




Para sempre um luar de naufrágio 
anunciará a aurora fria. 
Para sempre o teu rosto afogado, 
entre retratos e vendedores ambulantes, 
entre cigarros e gente sem destino, 
flutuará rodeado de escamas cintilantes. 

Se me pudesse matar, 
seria pela curva doce dos teus olhos, 
pela tua fronte de bosque adormecido, 
pela tua voz onde sempre amanhecia, 
pelos teus cabelos onde o rumor da sombra 
era um rumor de festa, 
pela tua boca onde os peixes se esqueciam 
de continuar a viagem nupcial. 
Mas a minha morte é este vaguear contigo
na parte mais débil do meu corpo, 
com uma espinha de silêncio 
atravessada na garganta. 

Não sei se te procuro ou se me esqueço 
de ti quando acaso me debruço 
nuns olhos subitamente acesos 
ao dobrar duma esquina, 
na boca dos anjos embriagados
de tanta solidão bebida pelos bares, 
nas mãos levemente adolescentes 
pousadas na indolência dos joelhos. 
Quem me dirá que não é verdade 
o teu rosto afogado, o teu rosto perdido, 
de sombra em sombra, nas ruas da cidade? 

Ninguém te conheceu, 
ninguém viu romper a luz na tua cama, 
ninguém sabe, ninguém, 
que o teu corpo, continente selvagem, 
se desvelava por uma pedra branca
atirada contra o nevoeiro. 

Por isso escrevo esta elegia 
como quem oferece a luz dos olhos; 
por isso canto o teu rosto afogado 
como quem canta um funeral de espigas. 


Eugénio de Andrade





terça-feira, 10 de outubro de 2017

Desencontro

 




Só quem procura sabe como há dias 
de imensa paz deserta; pelas ruas 
a luz perpassa dividida em duas: 
a luz que pousa nas paredes frias, 
outra que oscila desenhando estrias 
nos corpos ascendentes como luas 
suspensas, vagas, deslizantes, nuas, 
alheias, recortadas e sombrias. 

E nada coexiste. Nenhum gesto 
a um gesto corresponde; olhar nenhum 
perfura a placidez, como de incesto, 

de procurar em vão; em vão desponta 
a solidão sem fim, sem nome algum - 
- que mesmo o que se encontra não se encontra. 




Jorge de Sena
in, "Post-Scriptum"




segunda-feira, 9 de outubro de 2017

A Mulher Mais Bonita do Mundo

 




estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram 
flores novas na terra do jardim, quero dizer 
que estás bonita.

entro na casa, entro no quarto, abro o armário, 
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio 
de ouro.

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como 
se tocasse a pele do teu pescoço.

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.
estás tão bonita hoje.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

estás dentro de algo que está dentro de todas as 
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever 
a beleza.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

de encontro ao silêncio, dentro do mundo, 
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.


José Luís Peixoto
in, "A Casa, a Escuridão"





sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Hands

 




From the sea came a hand,
ignorant as a penny,
troubled with the salt of its mother,
mute with the silence of the fishes,
quick with the altars of the tides,
and God reached out of His mouth
and called it man.
Up came the other hand
and God called it woman.
The hands applauded.
And this was no sin.
It was as it was meant to be.

I see them roaming the streets:
Levi complaining about his mattress,
Sarah studying a beetle,
Mandrake holding his coffee mug,
Sally playing the drum at a football game,
John closing the eyes of the dying woman,
and some who are in prison,
even the prison of their bodies,
as Christ was prisoned in His body
until the triumph came.

Unwind hands,
you angel webs,
unwind like the coil of a jumping jack,
cup together and let yourselves fill up with sun
and applaud, world,
applaud.


Anne Sexton





quinta-feira, 5 de outubro de 2017

vou

 



E é-me indiferente estar aqui. 
Sempre que posso fujo, fujo no olhar que cegou o meu. 
Porque eu fujo e vou com tudo aquilo que me chama e me toca. 
Vou com o azul dos olhos do marçano ali da esquina, 
vou com as folhas das árvores no Outono da minha rua, 
vou com a noite à procura da manhã sobre o rio. 
Vou pelos arranha-céus acima e contemplo dos altos terraços o sono esbranquiçado dos mortos. 
Vou com o teu corpo que me desgasta a memória doutros corpos 
e me transforma em esquecimento… 
vou, vou sempre, pela humidade dos cardos presos em tua boca. 


 Al Berto




quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Exactidão

 




Levam as frases sentido 
que uma cadência lhes dá: 
sentido do não-vivido 
a que fica reduzido 
o que, escolhido, não há. 

Do imo do poder ser, 
onde o não-sido se arrasta, 
ouvi cadências crescer: 
vaga música de ter, 
na vida, quanto não basta - 

quanto um sentido se entenda, 
que nem verdade ou mentira. 
(Que o que dele se aprenda 
é como cobarde venda 
para que a luz nos não fira. 

Luz sem luz, brilho da treva 
que tudo no fundo é; 
e a certeza que se eleva 
do fundo da própria treva, 
de exacta que seja, é.) 

Levam justiça consigo 
as palavras que dissermos. 
Por quanto sentido antigo, 
nelas ficou por castigo 
o futuro que tivermos. 

Levam as frases sentido 
que uma cadência lhes dá. 
É justo, injusto - o escolhido? 
Como quereis que, vivido, 
ele não seja o que será? 



Jorge de Sena
in, "Post-Scriptum"






terça-feira, 3 de outubro de 2017

Tudo que eu cantaria

 




Pela marca que nos deixa 
A ausência de som que emana das estrelas 
Pela falta que nos faz 
A nossa própria luz a nos orientar 
Doido corpo que se move 
É a solidão nos bares que a gente frequenta 
Pela mágica do dia 
Que independeria da gente pensar 
Não me fale do seu medo 
Eu conheço inteira sua fantasia 
E é como se fosse pouca 
E a tua alegria não fosse bastar 
Quando eu não estiver por perto 
Canta aquela música que a gente ria 
É tudo que eu cantaria 
E quando eu for embora você cantará.



Oswaldo Montenegro





segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Fogo

 





A tua beleza é o cano de uma espingarda encostado à minha têmpora.
Como as tuas mãos folha-de-estanho me cegam, por isso te
toco - procurando saber onde estou.

Porém o teu corpo se dispara, e então eu sou a paisagem posta a um
canto para entrar a música. Sou um braço solto com a pulseira
em rotação, fita amarela nos cabelos da morte, madeira para o 
lume da tua boca. 

Debaixo dos holofotes da loucura, os anjos caem aturdidos. Assim
nós, carnais pelo excesso de luz , veia de pólvora que rebenta na
cabeça da solidão.

Beija-me, beija-me com o fogo das noites em branco.


Vasco Gato