domingo, 31 de dezembro de 2017

Epifania

 




Me gustaría que el nuevo año me trajera una epifanía,
una manifestación de otra dimensión que trascienda las pérdidas,
los dolores cotidianos, los aburrimientos y obligaciones

O si no puede ser una epifanía,
estaría bien -me conformaría-
con el brote de ese bambú japonés
que lleva años gestándose en tierra oscura y sombría;
el alumbramiento tras la gestación

O el punto de inflexión donde la vida,
como en una función de matemáticas vitales,
cambia de signo y se manifieste ese amor,
que descubrí en un punto oscuro del corazón,
y que surja, por fin, como el manantial
que da nacimiento a un río

Y me gustaría poder navegar por él,
conocer sus corrientes,
saltar sus saltos y beber sus aguas,
antes de llegar al mar del que todos procedemos

Sí, me gustaría conocer aquello oculto a lo cotidiano,
trascender y trascenderme
antes de que la muerte me impida la conciencia



Ana Cortiñas Payeras





sábado, 30 de dezembro de 2017

Polarity

 






Polarity, 
or action and reaction, 
we meet in every part of nature; 
in darkness and light, 
in heat and cold, 
in the ebb and flow of waters, 
in male and female, 
in the inspiration and expiration of plants and animals; 
in the equation of quantity and quality 
in the fluids of the animal body; 
in the systole and diasystole of the human heart; 
in the centrifugal and centripetal gravity; 
in electricity, 
galvanism 
and 
chemical affinity.  


– Ralph Waldo Emerson




quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Ladainha dos Póstumos Natais

 




Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que se veja à mesa o meu lugar vazio 
Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido 
Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que só uma voz me evoque a sós consigo 
Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que não viva já ninguém meu conhecido 

Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que nem vivo esteja um verso deste livro 
Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que terei de novo o Nada a sós comigo 

Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que nem o Natal terá qualquer sentido 
Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que o Nada retome a cor do Infinito 



David Mourão-Ferreira
in, 'Cancioneiro de Natal' 






sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

CALMARIA

 




Um barco atravessa as constelações, 
deixando um sulco de asa na superfície celeste. Viajante 
clandestino, oculto o meu sonho
na mala do porão. Ouço um choro de astros
amarrados ao mastro de fogo, e sinto uma queda 
de cometa no abismo do horizonte.

Desenho o seu rumo no mapa
da alma. Evito naufrágios; rodeio arquipélagos 
e recifes; procuro o centro do céu, onde
se esconde a visão de um último porto, com
o seu cais de cinza e uma erupção de lava
nos bolsos do nada. 

Então, acendo um cigarro na falésia
da memória. Os deuses seguem-me, apanhando 
as beatas que deixo pelo caminho. Correm, 
e ouço o bater dos corações num eco
de cansaço. Mas não me apanham, e
dobro a esquina do ocaso, vendo-os tossir
com o fumo da noite

De volta ao convés, reabro
o diário de bordo. E o barco continua parado
no oceano sem porto.


Nuno Júdice
in, Geometria Variável




quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Escuto

 

Alessandra Favetto





Escuto mas não sei
Se o que ouço é silêncio
Ou Deus

Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
Me decifra e fita

Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco


Sophia de Mello Breyner Andresen






quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Prayer Before Birth

 




I am not yet born; O hear me.
Let not the bloodsucking bat or the rat or the stoat or the
club-footed ghoul come near me.

I am not yet born, console me.
I fear that the human race may with tall walls wall me,
with strong drugs dope me, with wise lies lure me,
on black racks rack me, in blood-baths roll me.

I am not yet born; provide me
With water to dandle me, grass to grow for me, trees to talk
to me, sky to sing to me, birds and a white light
in the back of my mind to guide me.

I am not yet born; forgive me
For the sins that in me the world shall commit, my words
when they speak me, my thoughts when they think me,
my treason engendered by traitors beyond me,
my life when they murder by means of my
hands, my death when they live me.

I am not yet born; rehearse me
In the parts I must play and the cues I must take when
old men lecture me, bureaucrats hector me, mountains
frown at me, lovers laugh at me, the white
waves call me to folly and the desert calls
me to doom and the beggar refuses
my gift and my children curse me.

I am not yet born; O hear me,
Let not the man who is beast or who thinks he is God
come near me.

I am not yet born; O fill me
With strength against those who would freeze my
humanity, would dragoon me into a lethal automaton,
would make me a cog in a machine, a thing with
one face, a thing, and against all those
who would dissipate my entirety, would
blow me like thistledown hither and
thither or hither and thither
like water held in the
hands would spill me.

Let them not make me a stone and let them not spill me.
Otherwise kill me.



Louis MacNeice
in, The Collected Poems of Louis MacNeice







Eu ainda não nasci; ó, escutai-me.
Não deixeis o vampiro ou a ratazana ou a doninha
ou o espírito de pés aleijados aproximarem-se de mim.

Eu ainda não nasci, consolai-me.
Temo que a raça humana venha a emparedar-me,
ou a drogar-me com drogas fortes, com finas mentiras me tente,
com negros acúleos me torture, em banhos de sangue me enrole.

Eu ainda não nasci; abonai-me
Com água para me embalar, erva que cresça para mim,
árvores que me falem, um céu que me cante, pássaros
e uma luz brilhante a guiar-me por detrás da mente.

Eu ainda não nasci; perdoai-me
Pelos pecados que em mim o mundo cometerá, pelas palavras
quando me disserem, pelos pensamentos quando me pensarem,
pelas minhas traições engendradas por traidores além de mim,
pela minha vida quando matarem através das minhas
mãos, pela morte quando me viverem.

Eu ainda não nasci; recitai-me
Nos actos em que hei-de actuar e nas deixas que direi quando
um velho me ler. Os burocratas intimidam-me, as montanhas
franzem-me o sobrolho, os amantes gozam-me, as ondas
brancas enlouquecem-me e o deserto leva-me
à ruína e o indigente recusa-me
a esmola e os meus filhos amaldiçoam-me.

Eu ainda não nasci; Ó, escutai-me,
Não deixeis que a besta ou aquele que se julga Deus
se aproximem de mim.

Eu ainda não nasci; Ó, alimentai-me
Com força contra aqueles que tentarão congelar a minha
humanidade, forçando-me a ser um autómato letal,
transformando-me num dente de roda na engrenagem, coisa
de uma só face, uma coisa, e contra todos aqueles
que dissiparão a minha integridade,
soprando-me como lanugem de cá
para lá ou de lá para cá
como água levada nas
mãos que me hão-de derramar.

Não deixeis que façam de mim uma pedra e que me arremessem.
Caso contrário, matai-me.


Louis MacNeice







terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Movimento do braço

 




Lenta passagem, evocação de uma cidade:
o que te esclarece é o movimento do braço,
o gesto que nada diz arrasta somente
a memória e o seu peso, e reúne depois
novas ciladas, e faz ecoar a morte da cidade,
a linha que percorre o exterior perímetro
e cujo tema é a destruição do sentido.

Uma descrição do que não teve lugar ocorre aí,
uma descrição dobrada pelo ilegível
que a devora.

Tudo é baldio. As vozes antigas – sim, os antepassados –
já não são esperadas, permanecem tapadas pela aflição escura.

Move o braço,
o voo começará onde não houver sentido.



Luís Quintais
in, Riscava a palavra dor no quadro negro






segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

O que ficou num fundo mar

 




Fico, depois, branco, a teu lado,
sereno, alheio e, para cúmulo,
empedernido de cansado:
estátua jacente sobre o túmulo
do meu próprio passado.

Estaco ante o sono a recear
que por meus lábios alguém diga
o que ficou num fundo mar,
o que pertence à história antiga.

Mas, como um anjo, tu te inclinas
sobre o meu sono de acordado:
e dispersas as cinzas
do passado.


David Mourão-Ferreira






domingo, 17 de dezembro de 2017

Amigo, a que Vieste?

 




Onde foste ao bater das quatro horas 
e, antes, quem eras tu, se eras? 
Amigo ou inimigo, posso falar-te agora 
sentado à minha frente e com os ombros 
vergados ao peso da caneta? 
Falo-te sobre a cabeça baixa 
e vejo para além de ti, no horizonte, 
teus riscos e passadas; 
mas não sei onde foste, nem se eras. 
Olho-te ao fundo, sob o sol e a chuva, 
fazendo gestos largos ou só um leve aceno; 
dizes palavras antigas, 
de antes das quatro horas, 
e nada sei de ti que tu me digas 
dessa cabeça surda. 
Não te pergunto pela verdade, 
que pensas de amanhã ou se já leste Goethe; 
sequer se amaste ou amas 
misteriosamente 
uma mulher, um peixe, uma papoila. 
Não quero essa mudez de condolências 
a mim, a ti, ou só à terra 
que tu e eu pisamos — e comemos. 
Pergunto simplesmente se tu eras, 
quem eras, e onde foste 
depois que se fizeram quatro horas. 

Será que não tens olhos? Não tos vejo. 
De longe em longe 
agitas a cabeça, mas talvez seja engano. 
Palavra, não te entendo. 
Amigo, a que vieste? 



Pedro Tamen 
in, "Horácio e Coriáceo" 






sábado, 16 de dezembro de 2017

A Luz que vem das Pedras

 

Roman-Tika Kruglinski




A luz que vem das pedras, do íntimo da pedra, 
tu a colhes, mulher, a distribuis 
tão generosa e à janela do mundo. 
O sal do mar percorre a tua língua; 
não são de mais em ti as coisas mais. 
Melhor que tudo, o voo dos insectos, 
o ritmo nocturno do girar dos bichos, 
a chave do momento em que começa o canto 
da ave ou da cigarra 
— a mão que tal comanda no mesmo gesto fere 
a corda do que em ti faz acordar 
os olhos densos de cada dia um só. 
Quem está salvando nesta respiração 
boca a boca real com o universo? 


Pedro Tamen 
in "Agora, Estar"





sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Oversoul

 






The corporations' jaws
Are spreading all around
Invading like a plague, you can't ignore
You're led into a trap
They even seem to care
About your life, your health - your misery!

They need you to say
They want you to play
They will find the way into your needs
You're scanned high and low
Cause they want to know:
- Are you plain enough to serve us?

Every time they reach their goals
You're stabbed, but you don't know
Can't you sense the Oversoul?
The meaning of it all...

The blooming of a life
You're innocent and wild
You guess you know the truth but you just don't

That's right when it begins:
You've gotta join that game!
You're looking for respect - to be someone!

They force you to play
They lead you to crave
From now on they'll be behind your needs
You'll do what they say
Can't choose your own way
Right when it's too late to turn back

Every time they reach their goals
You're stabbed, but you don't know
Can't you sense the Oversoul?
The spirit of it all...

Look around and see:
Have you lost all will to live?
Why don't you stand and fight for your soul?



Andre Matos




Superalma

As mandíbulas das corporações
Estão a espalhar-se por todo o lado
Invadindo como uma praga, tu não podes ignorar
És levado para uma armadilha
Eles nem parecem se importar
Sobre a tua vida, a tua saúde - a tua miséria!

Eles precisam que tu digas
Eles querem que tu jogues
Eles vão encontrar o caminho para as tuas necessidades
Estás digitalizado de cima a baixo
Porque eles querem saber:
- Está claro o suficiente para nos servires?

Sempre que eles atingem os seus objetivos
Tu és esfaqueado, mas não sabes
Não podes sentir a Superalma?
O significado de tudo ...

A floração de uma vida
És inocente e selvagem
Achas que sabes a verdade, mas simplesmente não sabes

É isso mesmo, quando se inicia:
Tens que te juntar ao jogo!
Procuras respeito - para ser alguém!

Eles forçam-te a jogar
Eles levam-te a desejar
A partir de agora eles vão estar por trás das tuas necessidades
Vais fazer o que eles dizem
Não podes escolher o teu próprio caminho
Quando for tarde demais para voltar atrás

Sempre que eles atingem os seus objetivos
Tu és esfaqueado, mas não sabes
Não podes sentir a Superalma?
O espírito de tudo ...

Olha ao redor e vê:
Perdeste toda a vontade de viver?
Por que não te levantas e lutas pela tua alma?


Andre Matos





Chegam cedo demais

 




Chegam cedo demais, quando ainda não podem escolher 
nem decidir. Vêm carregados de espectros, de memórias
e de feridas que não souberam sarar; mas trazem a confiança
da cura nas palavras. Convencem-se de que amam outra vez

quando nos tocam os pequenos lugares, esquecendo-se do rumo
incerto dos seus passos nas estradas tortuosas que os 
trouxeram. Abafam-se num cobertor de mentiras sem saber e 
falam de injustiça quando tentamos chamá-los à verdade. 

Dormem de vez em quando nas nossas camas e protegemo-los 
da dor como aos filhos que não iremos ter nunca
porque não nos resignamos a perdê-los. E, um dia, partem, vão 

culpados, não chegam a explicar o que os arrasta. Escrevem
cartas mais tarde - uma ou duas para se aliviarem dessa espada.
E nós ficamos, eternamente, sem vergonha, à espera que regressem. 



Maria do Rosário Pedreira
in, Poesia Reunida




quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

e era noite

 




e era noite 
o espaço por mim habitado 
lugar onde imaginava 
os encontros do apóstolo com 
“os que jaziam 
na região sombria da morte” 

e era noite 
o tempo que me cobria quando 
na mente ecoavam as palavras 
que me tinham dito um dia: 
“entra apenas. permanece até ao fim. 
e sai mudado.” 

e era noite 
e eu buscava uma porta 
passagem 
para esse outro lugar 
onde aprenderia a pegar no fogo 
sem me queimar 

e era noite 
quando em meu peito repousaste a cabeça 
teus longos cabelos 
se espraiando em meu colo 
caindo por trás do pescoço que 
abandonaras nos meus braços 

e era noite 
quando mergulhei na luz do teu olhar 
e cometendo uma heresia 
disse: “eu sei que não sou digno 
que entres na minha morada 
mas diz uma palavra e serei salvo” 

e era noite 
quando dois rubros lábios  
me revelaram com três sílabas 
a porta nimbada de ternura que buscava 
e resgatado ao deserto 
assim me entregaste de novo à vida. 


Rui Amaral Mendes 
in, "A Noite o Sangue"




quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Foi sempre tão incerto o caminho até ti

 




Foi sempre tão incerto o caminho até ti:
tantos meses de pedras e de espinhos, de
maus presságios, de ramos que rasgavam a
carne como forquilhas, de vozes que me
diziam que não valia a pena continuar, que
o teu olhar era já uma mentira; e o meu

coração sempre tão surdo para tudo isso,
sempre a gritar outra coisa mais alto para
que as pernas não pudessem recordar as
suas feridas, para que os pés ignorassem
as penas da viagem e avançassem todos
os dias mais um pouco, esse pouco que
era tudo para te alcançar. Foi por isso que,

ao contrário de ti, não quis dormir nessa
noite: os teus beijos ainda estavam todos
na minha boca e o desenho das tuas mãos
na minha pele. Eu sabia que adormecer
era deixar de sentir, e não queria perder os
teus gestos no meu corpo um segundo que
fosse. Então sentei-me na cama a ver-te
dormir, e sorri como nunca sorrira antes
dessa noite, sorri tanto. Mas tu falaste de
repente do meio do teu sono, estendeste o
braço na minha direcção e chamaste baixinho.
Chamaste duas vezes. Ou três. E sempre tão
baixinho. Mas nenhuma foi pelo meu nome.



Maria do Rosário Pedreira





terça-feira, 12 de dezembro de 2017

POEMA DE AMOR

 




Os segredos de amor têm profundezas difíceis de alcançar, 
tal como a chuva que hoje cai e nos molha na calçada a face,
nós olhando triste uma saudade imensa
num corpo de mulher metamorfoseada. 

Sou demasiado são para me esquecer
do tempo apaixonado que vivi nos teus braços
e bebo no teu um coração meu
adormecido no mar do meu cansaço
ou no rio das minhas secas lágrimas. 

Tardará muito, se é que as horas contam, 
ver-te, de novo, perto de mim, longe, 
mas eu espero, sou paciente e, no meu canhenho, aponto, 
um dia a menos, o da tua chegada. 
E assim me fico, rente ao horizonte,
abrigado da chuva numa cabine telefónica,
e ligo para ti - que número? - ninguém responde
do oceano que avança e retrai colinas,
o vulto de um navio, tu na amurada
acenando um lenço, ó minha pomba branca!...

Como se tempestade houvesse e um naufrágio de chuva
- as vidraças escorrem, as árvores liquefazem-se... - 
escurecendo os teus cabelos,
ou, se preferes, a minha boca neles 
carregada de ilhas, de nocturnos perfumes
que ateiam lumes, ó minha idolatrada, 
na minh' alma inquieta um outro bater d' asas
ou num jardim um leito de flores!...



Ruy Cinatti
in, Obra Poética






segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

SEM QUE SOUBESSES

 




Falei de ti com as palavras mais limpas,
viajei, sem que soubesses, no teu interior. 
Fiz-me degrau para pisares, mesa para comeres,
tropeçavas em mim e eu era uma sombra 
ali posta para não reparares em mim. 

Andei pelas praças anunciando o teu nome,
chamei-te barco, flor, incêncio, madrugada. 
Em tudo o mais usei da parcimónia
a que me forçava aquele ardor exclusivo. 

Hoje os versos são para entenderes. 
Reparto contigo um óleo inesgotável
que trouxe escondido aceso na minha lâmpada 
brilhando, sem que soubesses, por tudo o que fazias. 



Fernando Assis Pacheco 
in, A Musa Irregular





domingo, 10 de dezembro de 2017

MÁQUINA

 




Nem sombra de fantasma dentro da máquina.
Ser apenas máquina. 
Uma máquina de ler. 
Uma máquina de dar de comer aos filhos.
Uma máquina de escrever sem qwerty ou azerty,
irreconhecível, mas uma máquina em todo o caso. 
Uma máquina de foder.
Uma máquina de beber. 
Uma máquina ser erro maquínico.
Uma máquina sem improvável intenção,
melancolia, elegia, meta-representação mortal
e desabrida.
Uma máquina que se finasse depois, sem dor,
de pura obsolescência.
Uma máquina sem dor nem tédio.
Uma máquina sem estados de alma.
Uma máquina sem alma.


Luís Quintais 
in, "A Noite Imóvel"




sábado, 9 de dezembro de 2017

Denúncia

 




Sonharei, no teu seio calmo,

O sonho invisível do cego de nascença.

Dormirei, no teu cerrar de pálpebras,

Como um peixe desliza entre os ramos de árvore

Reflectidos na água.

Dormirei, nas tuas mãos pousadas no meu corpo,

O desejo de te acariciar sem perigo

– não vá tirar-te escamas, borboleta presa.

Dormirei, no teu sexo, a solidão do meu

Ao existir para que eu pense em ti.

Dormirei, na tua vida, a teimosia humana

De um sentido universal para as coisas connosco.

E se, depois, meu amor, formos estéreis,

Se a demora do tempo tiver tido um gesto abandonado,

E a morte, à nossa volta, um moleiro sem trigo,

O mundo que vier inveja-nos

E o nosso espírito há-de perdoar-nos.




Jorge de Sena