quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

O Horror de ser Pobre

 

Jack Savage




Risco c'um traço 
(Um traço fino, sem azedume) 
Todos os que conheço, eu mesmo incluído. 
Para todos estes não me verão 
Nunca mais 
Olhar com azedume. 

O horror de ser pobre! 
Muitos gabavam-se que aguentariam, mas era ver- 
-lhes as caras alguns anos depois! 
Cheiros de latrina e papéis de parede podres 
Atiravam abaixo homens de peitaça larga como toiros. 
As couves aguadas 
Destroem planos que fazem forte um povo. 
Sem água de banho, solidão e tabaco 
Nada há que exigir. 
O desprezo do público 
Arruina o espinhaço. 
O pobre 
Nunca está sozinho. Estão todos sempre 
A espreitar-lhe para o quarto. Abrem-lhe buracos 
No prato da comida. Não sabe para onde há-de ir. 
O céu é o seu tecto, e chove-lhe lá para dentro. 
A Terra enxota-o. O vento 
Não o conhece. A noite faz dele um aleijado. O dia 
Deixa-o nu. Nada é o dinheiro que se tem. Não salva ninguém. 
Mas nada ajuda 
Quem dinheiro não tem. 


Bertold Brecht
in, 'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas'





Sombras

 





A meio desta vida continua a ser 
difícil, tão difícil 
atravessar o medo, olhar de frente 
a cegueira dos rostos debitando 
palavras destinadas a morrer 
no lume impaciente de outras bocas 
anunciando o mel ou o vinho ou 
o fel. 


Calmamente sentado num sofá, 
começas a entender, de vez em quando, 
os condenados a prisão perpétua 
entre as quatro paredes do espírito 
e um esquife negro onde vão desfilando 
imagens, só imagens 
de canal em canal, sintonizadas 
com toda a angústia e estupidez do mundo. 


As pessoas - tu sabes - as pessoas são feitas 
de vento 
e deixam-se arrastar pela mais bela 
respiração das sombras, 
pela morte que repete os mesmos gestos 
quando o crepúsculo fica a sós connosco 
e a noite se redime com uma estrela 
a prometer salvar-nos. 


A meio desta vida os versos abrem 
paisagens virtuais onde se perdem 
as intenções que alguma vez tivemos, 
o recorte obscuro de perfis 
desenhados a fogo há muitos anos 
numa alma forrada de espelhos 
mas sempre tão vazia, sem abrigo 
para corpo nenhum. 




Fernando Pinto do Amaral
in, 'Pena Suspensa'




terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Memórias post-mortem

 




Frio...
Pantominas estáticas de mimo
Em corpo frio e rígido, desprovido
Do sangue que dá vida, agora imóvel
Em livores discretamente dispersos pela matéria
Que enformou o teu Ser.

Longo sono decretado por Morfeu,
Que tentou despojar-me de ti.

Intento, todavia, negado por
Rede intrincada de memórias
Vivas e para sempre presentes na minha mente
Onde percorro a intemporal teia
Longa e diligentemente executada por Aracne
E re-vivo cada um dos momentos
Que te confirmaram como um Homem aos meus olhos,
Anuindo a permanência de quem foste
Na plenitude das conformações que 
Compreendem a dimensão incorpórea do Ser.


Rui Amaral Mendes





segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Murmúrio

 




Ele murmura:
deixemos o sonho para quando os corpos se perderem
no excesso das imagens ou na sua imitação
eles simulam o amor

um olhar rápido pelo lugar abandonado
pressente-se ainda a fuga dos corpos
na aragem que limpa a casa
a memória poderá reconstruir tudo a partir das imagens
e do intenso cheiro a mato
por agora nada mais é visível
azul e mais azul e nenhuma mudança na paisagem
nenhum vestígio

as luzes apagaram-se o material foi guardado
o lugar adormece por baixo do bolor imutável
e no esquecimento
os actores caminham para o fim do filme

um gravador esquecido
regista os passos que se afastam devagar
não sabemos ao certo para onde



Al Berto




sábado, 27 de janeiro de 2018

A Mais Perfeita Imagem

 

Dennis Ramos





Se eu varresse todas as manhãs as pequenas 
agulhas que caem deste arbusto e o chão 
que lhes dá casa, teria uma metáfora perfeita para 
o que me levou a desamar-te. Se todas as manhãs 
lavasse esta janela e, no fulgor do vidro, além 
do meu reflexo, sentisse distrair-se a transparência 
que o nada representa, veria que o arbusto não passa 
de um inferno, ausente o decassílabo da chama. 
Se todas as manhãs olhasse a teia a enfeitar-lhe os 
ramos, também a entendia, a essa imperfeição 
de Maio a Agosto que lhe corrompe os fios e lhes 
desarma geometria. E a cor. Mesmo se agora visse 
este poema em tom de conclusão, notaria como o seu 
verso cresce, sem rimar, numa prosódia incerta e 
descontínua que foge ao meu comum. O devagar do 
vento, a erosão. Veria que a saudade pertence a outra 
teia de outro tempo, não é daqui, mas se emprestou 
a um neurónio meu, unia memória que teima ainda 
uma qualquer beleza: o fogo de uma pira funerária. 
A mais perfeita imagem da arte. E do adeus.



Ana Luísa Amaral
in, 'A Arte de Ser Tigre'




sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

De que Serve a Bondade

 

Anton Okicki





1

De que serve a bondade 
Quando os bondosos são logo abatidos, ou são abatidos 
Aqueles para quem foram bondosos? 

De que serve a liberdade 
Quando os livres têm que viver entre os não-livres? 

De que serve a razão 
Quando só a sem-razão arranja a comida de que cada um precisa? 


Em vez de serdes só bondosos, esforçai-vos 
Por criar uma situação que torne possível a bondade, e melhor; 
A faça supérflua! 

Em vez de serdes só livres, esforçai-vos 
Por criar uma situação que a todos liberte 
E também o amor da liberdade 
Faça supérfluo! 

Em vez de serdes só razoáveis, esforçai-vos 
Por criar uma situação que faça da sem-razão dos indivíduos 
Um mau negócio! 



Bertold Brecht 
in, 'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas' 





quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

AMORES PROIBIDOS

 







Onde está quem amamos quando amamos
outro corpo de fogo em movimento?
P'ra que abismo corremos, p'ra que enganos,
quando as promessas são poeira ao vento?
.
De que matéria alheia mal tentamos
fugir quando a verdade mora dentro
de alguém a cujo céu nos entregamos
numa noite de sonho e de tormento?
.
Ainda somos humanos se traímos
por instinto um amor de tantos anos
e só àquele instante obedecemos?
.
Ainda somos humanos? Ou seremos
a febre que há no sangue quando vimos
de súbito morrer num corpo e vamos
em busca do inferno que merecemos?
.
Talvez por um momento então sejamos
sonâmbulos fantasmas do que fomos
reflectidos num espelho que não vemos
.
Ou talvez nesse corpo descubramos
a memória da alma que perdemos
p'ra sempre no momento em que transpomos
a fronteira dos gestos quotidianos
e ao sabor de um desejo destruímos
todas as intenções, todos os planos,
em nome dos prazeres mais supremos
na noite em que deixamos de ser donos
do nosso próprio corpo e abandonamos
angústias e remorsos e partimos
em busca da manhã que não sabemos
.
Onde está quem amamos quando somos
mais do que humanos? Mais? Ou muito menos?



FERNANDO PINTO DO AMARAL 
in, POEMAS ESCOLHIDOS





terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Às vezes perdemos tudo

 





às vezes perdemos tudo
e aquilo que era estreito
e que habitava os dias
torna-se imenso
cresce desmedidamente no ventre das memórias
e quando não cabe lá dentro
rebenta o que cuidadosamente muralhámos
e inunda a planície em que pastam os nossos medos
no rebanho então tresmalhado do nosso passado

nesse momento dói tanto estar vivo

às vezes perdemos tudo
e aquilo que vivemos sem dar conta
e que no fundo éramos nós a respirar
grita-nos aos ouvidos que estamos a morrer
porque não sabemos viver quando perdemos tudo

grita-nos aos ouvidos que há oceanos que não sabemos muralhar
e que o nosso passado não existe realmente
porque perdemos o mapa da terra longínqua
da ilha esquecida
em que um dia o enterrámos

às vezes perdemos tudo
e aqueles que amámos à volta da mesa
a quem amarrámos as nossas mãos e jurámos amar para sempre
ficam tão longe
tão longe

e nessa altura desenterramos mesmo o que nunca chegámos a enterrar
mergulhamos sofregamente as mãos numa terra em ruínas
que outrora eram muralhas inabaláveis

sempre que perdemos tudo
percebemos que há minutos que são milénios imensos
e descobrimos que a vida que vivíamos sem dar conta
e que no fundo éramos nós a respirar
é um milagre cheio de elementos
que reconhecemos e em quem nos identificamos
um milagre onde habitam as pessoas a quem amarrámos as nossas mãos

e jurámos amar para sempre
um milagre que existe para lá das memórias que quisemos muralhar
e que no fundo nunca soubemos compreender



José Rui Teixeira
in, "Quando o Verão Acabar, Quasi"





sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Noite de Estio

 




Notas suaves ecoam pelo quarto
Numa calma noite de Estio.
A natureza ascética da música envolve-me,
Transportando-me para fora da loucura humana.

Conduz-me à profundidade
De um sentimento devolvido,
Enlevando-me em imagens metafóricas
Que me revelam o significado
De tudo o que é etéreo.

Silêncios cortados
Pelo ambiente orfeico,
Onde, te olhando,
Me deleito no brilho de uma alma
Que me concede o donaire de um sentimento dúctil.

Sensações auditivas
Acalentam a visualização de um corpo nu, arqueado
Que contém a lubricidade que quero tangível.
Tronco descaído,
Os cabelos livres, em queda
Realçando a sensualidade de cumes cor de terra
E vales de alabastro cujas torrentes
Anseio percorrer

A beleza aflorada
Nas projecções vertidas nas paredes,
Quais sombras chinesas,
Ao som das notas que discorrem novos firmamentos.

Eis que realizo que o engenho do amor
Se revela no mais ínfimo grão das percepções sensorais,
E no domínio do supremo dom de ousar ouvir
O apurar do Universo rumo ao esperado parto
Em que te direi, amena, mansa e simplesmente:
“Amo-te!” 


Rui Amaral Mendes





quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Pretextos para fugir do real

 




A uma luz perigosa como água
De sonho e assalto
Subindo ao teu corpo real
Recordo-te
E és a mesma
Ternura quase impossível
De suportar
Por isso fecho os olhos
(O amor faz-me recuperar incessantemente o poder da
provocação. É assim que te faço arder triunfalmente
onde e quando quero. Basta-me fechar os olhos)
Por isso fecho os olhos
E convido a noite para a minha cama
Convido-a a tornar-se tocante
Familiar concreta
Como um corpo decifrado de mulher
E sob a forma desejada
A noite deita-se comigo
E é a tua ausência 
Nua nos meus braços

Experimento um grito
Contra o teu silêncio
Experimento um silêncio
Entro e saio
De mãos pálidas nos bolsos


Alexandre O´Neill






quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

MENOS PARA TI

 




O que se diz do inverno pode dizer-se da juventude 
é uma estação abstracta 
numa hora qualquer acabamos com frio 
o desprovido transporte que por vezes 
demasiadas vezes é o daquela verdade 

Mas o jogo de alguma coisa 
está mais longe ou mais perto 

Nem tu sabes por quantos anos ainda 
voltarás aos bosques 
aos detalhes que ignoravas 
ao que resta do primeiro amor 
a que todos pensam ter sobrevivido 



José Tolentino Mendonça
in, A Noite Abre Meus Olhos





terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Um no Outro

 




Desejo
A visão do teu corpo lânguido
Deitado sobre o leito do quarto

Vislumbro nas sombras
Que se projectam na penumbra
O erotismo de dois corpos
Que se compreendem,
Ansiando o momento do abandono
Ás linguagens idiossincráticas
Da natureza metafísica e intemporal
Do desejo.

Lábios tumescidos e ardentes
Aspiram a tez láctea que reveste
Quem és.

Cabelo seríceo cai
Sobre os teus ombros
Afagando docemente
O rosto de menina carente
Onde se ante-vê a malícia da
Feminilidade felina de um olhar.

O contorno delicadadamente decalcado
Dos teus seios
Onde me perco
Rumo à Origem do Mundo,
Onde experiencias a plétora sensorial.

E no fim,
O cheiro do teu corpo depois do amor
Enfim, eu em ti, tu em mim,
Um no outro.


Rui Amaral Mendes 





segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Caso

 




Pode ser mais um capricho
pode ser uma paixão
pode ser coisa de bicho
pode não.

Pode ser já por destino
pelos astros, pelos signos
por uma marca, uma estrela
talvez já estivesse escrito
na palma da minha mão.

Talvez não…

Talvez até nem fique
nem signifique nada
nem me arranhe o coração
pode ser só uma cisma
pode estar só de passagem

Ou não.


Bruna Lombardi
in, O Perigo do Dragão




domingo, 14 de janeiro de 2018

Tecendo a Manhã

 





1

Um galo sozinho não tece uma manhã: 
ele precisará sempre de outros galos. 
De um que apanhe esse grito que ele 
e o lance a outro; de um outro galo 
que apanhe o grito de um galo antes 
e o lance a outro; e de outros galos 
que com muitos outros galos se cruzem 
os fios de sol de seus gritos de galo, 
para que a manhã, desde uma teia tênue, 
se vá tecendo, entre todos os galos.


2

E se encorpando em tela, entre todos, 
se erguendo tenda, onde entrem todos, 
se entretendendo para todos, no toldo 
(a manhã) que plana livre de armação. 
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo 
que, tecido, se eleva por si: luz balão. 



João Cabral de Melo Neto
in, “João Cabral de Melo Neto, Obra Completa”






sábado, 13 de janeiro de 2018

O Relógio

 




1. 
Ao redor da vida do homem 
há certas caixas de vidro, 
dentro das quais, como em jaula, 
se ouve palpitar um bicho. 

Se são jaulas não é certo; 
mais perto estão das gaiolas 
ao menos, pelo tamanho 
e quadradiço de forma. 

Umas vezes, tais gaiolas 
vão penduradas nos muros; 
outras vezes, mais privadas, 
vão num bolso, num dos pulsos. 

Mas onde esteja: a gaiola 
será de pássaro ou pássara: 
é alada a palpitação, 
a saltação que ela guarda; 

e de pássaro cantor, 
não pássaro de plumagem: 
pois delas se emite um canto 
de uma tal continuidade 

que continua cantando 
se deixa de ouvi-lo a gente: 
como a gente às vezes canta 
para sentir-se existente. 


2. 
O que eles cantam, se pássaros, 
é diferente de todos: 
cantam numa linha baixa, 
com voz de pássaro rouco; 

desconhecem as variantes 
e o estilo numeroso 
dos pássaros que sabemos, 
estejam presos ou soltos; 

têm sempre o mesmo compasso 
horizontal e monótono, 
e nunca, em nenhum momento, 
variam de repertório: 

dir-se-ia que não importa 
a nenhum ser escutado. 
Assim, que não são artistas 
nem artesãos, mas operários 

para quem tudo o que cantam 
é simplesmente trabalho, 
trabalho rotina, em série, 
impessoal, não assinado, 

de operário que executa 
seu martelo regular 
proibido (ou sem querer) 
do mínimo variar. 


3. 
A mão daquele martelo 
nunca muda de compasso. 
Mas tão igual sem fadiga, 
mal deve ser de operário; 

ela é por demais precisa 
para não ser mão de máquina, 
a máquina independente 
de operação operária. 

De máquina, mas movida 
por uma força qualquer 
que a move passando nela, 
regular, sem decrescer: 

quem sabe se algum monjolo 
ou antiga roda de água 
que vai rodando, passiva, 
graçar a um fluido que a passa; 

que fluido é ninguém vê: 
da água não mostra os senões: 
além de igual, é contínuo, 
sem marés, sem estações. 

E porque tampouco cabe, 
por isso, pensar que é o vento, 
há de ser um outro fluido 
que a move: quem sabe, o tempo. 


4. 
Quando por algum motivo 
a roda de água se rompe, 
outra máquina se escuta: 
agora, de dentro do homem; 

outra máquina de dentro, 
imediata, a reveza, 
soando nas veias, no fundo 
de poça no corpo, imersa. 

Então se sente que o som 
da máquina, ora interior, 
nada possui de passivo, 
de roda de água: é motor; 

se descobre nele o afogo 
de quem, ao fazer, se esforça, 
e que ele, dentro, afinal, 
revela vontade própria, 

incapaz, agora, dentro, 
de ainda disfarçar que nasce 
daquela bomba motor 
(coração, noutra linguagem) 

que, sem nenhum coração, 
vive a esgotar, gota a gota, 
o que o homem, de reserva, 
possa ter na íntima poça.



João Cabral de Melo Neto
in, “João Cabral de Melo Neto, Obra Completa”