quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Soneto

 



Rudes e breves as palavras pesam
mais do que as lajes ou a vida, tanto,
que levantar a torre do meu canto
é recriar o mundo pedra a pedra;
mina obscura e insondável, quis
acender-te o granito das estrelas
e nestes versos repetir com elas
o milagre das velhas pederneiras;
mas as pedras do fogo transformei-as
nas lousas cegas, áridas, da morte,
o dicionário que me coube em sorte
folheei-o ao rumor do sofrimento:
ó palavras de ferro, ainda sonho
dar-vos a leve têmpera do vento. 


Carlos de Oliveira







segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

POEMA DO GATO

 




Quem há-de abrir a porta ao gato 
quando eu morrer?

Sempre que pode 
foge prá rua, 
cheira o passeio 
e volta pra trás, 
mas ao defrontar-se com a porta fechada 
(pobre do gato!) 
mia com raiva 
desesperada. 
Deixo-o sofrer 
que o sofrimento tem sua paga, 
e ele bem sabe.

Quando abro a porta corre pra mim 
como acorre a mulher aos braços do amante. 
Pego-lhe ao colo e acaricio-o 
num gesto lento, 
vagarosamente, 
do alto da cabeça até ao fim da cauda. 
Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos, 
olhos semi-cerrados, em êxtase, 
ronronando.

Repito a festa, 
vagarosamente. 
do alto da cabeça até ao fim da cauda. 
Ele aperta as maxilas, 
cerra os olhos, 
abre as narinas. 
e rosna. 
Rosna, deliquescente, 
abraça-me 
e adormece.

Eu não tenho gato, mas se o tivesse 
quem lhe abriria a porta quando eu morresse?



ANTÓNIO GEDEÃO
in, "NOVOS POEMAS PÓSTUMOS"






sábado, 24 de fevereiro de 2018

Nuvens

 

Nathan Kaso




Ó nuvens pelos céus que eternamente andais!
Longo colar de pérolas na estepe azul,
exiladas como eu, correndo rumo ao sul,
longe do caro norte que, como eu, deixais!

Que vos impele assim? Uma ordem do Destino?
Oculto mal secreto? Ou mal que se conhece?
Acaso carregais o crime que envilece?
Ou só de amigos vis o torpe desatino?

Ah não: fugis cansadas da maninha terra,
e estranhas a paixões e ao sofrimento estranhas
eternas pervagais as frígidas entranhas.
E não sabeis, sem pátria, a dor que o exílio encerra.


Mikhail Lermontov






quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

QUANDO NOS SEPARÁMOS

 




Quando nos separámos
Em silêncio e choro
E quebrados ficámos
Num vazio duradouro
Pálido e frio teu rosto ficou, 
O teu beijo frio como água;
E essa hora prenunciou
Toda esta mágoa.

O orvalho matinal
Que senti nessa hora
Era já um sinal
Do que sinto agora.
O teu voto foi quebrado,
Nova luz te conhece;
Oiço o teu nome falado
E como isso me entristece.

Sempre que oiço o teu nome
Abre-se esta ferida
Um arrepio que me consome
Porque me foste tão querida?
Eles não sabem que te conheci
E que foi um conhecer profundo
Sei que vou desistir de ti
Mas não o direi ao mundo.

Conhecemo-nos sem se saber
Em silêncio sofrerei
Que o teu coração poderia esquecer
E iludir-te, não sei.
Se te encontrar
Num ano vindouro
Como te deverei encarar?
Com silêncio e choro...



GEORGE GORDON BYRON
in, THE POETICAL WORKS OF LORD BYRON





quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Soneto à luz de velas

 




Velas iluminavam o ambiente
E nossos olhos brilhavam
Diante nossos corpos nus e incandescentes
Impressão que as chamas davam

Começamos um jogo de exploração
Mãos percorrendo dorso
Causando inebriante sensação
Trazendo à mente um novo universo

Olhos ardendo em desejo
Bocas entre-abertas…
Meu corpo em seus braços despejo

Rolamos pelas cobertas
Pelo mundo temos desprezo,
Pois nossas almas somente para o nosso amor estão abertas…



Simone Barbariz






segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

And This Day It Was Spring

 




and this day it was Spring….us
drew lewdly the murmurous minute clumsy
smelloftheworld.       We intricately
alive,cleaving the luminous stammer of bodies
(eagerly just not each other touch)seeking,some
street which easily tickles a brittle fuss
of fragile huge humanity….
                                        Numb
thoughts,kicking in the rivers of our blood,miss
by how terrible inches speech—it
made you a little dizzy did the world’s smell
(but i was thinking why the girl-and-bird
of you move….moves….and also,i’ll admit—)

till,at the corner of Nothing and Something,we heard
a handorgan in twilight playing like hell



E. E. Cummings 
in, 100 Selected Poems






sábado, 17 de fevereiro de 2018

Não tenho limites

 




Não. Não tenho limites. 
Quero de tudo 
Tudo. 
O ramo que sacudo 
Fica varejado. 
Já nascido em pecado, 
Todos os meus pecados são mortais. 
Todos tão naturais 
À minha condição, 
Que quando, por excepção, 
Os não pratico 
É que me mortifico. 
Alma perdida 
Antes de se perder, 
Sou uma fome incontida 
De viver. 
E o que redime a vida 
É ela não caber 
Em nenhuma medida. 


Miguel Torga





quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

News of the Day

 





Everything not in was out and we were the bride
and groom in the marriage of this ridiculous day
and life is only ever a comic opera. To write lower-
case after decades of elevating the noun, this could
be seen as an arm sweeping the past from the
pedestal into the ashcan. To pull a question out of
that hat, the one with an electric rabbit hidden
inside, can become a critique if the overreaching
world looking in is terribly nervous - like a diva
sitting in a warm-water bath extolling the benefits of
hot running water. How embarrassing, the singing
chorus says above a clatter of cubicles where the
press corps pushes out kitsch and vulgarity. Perhaps
the staged hot bath is an embarrassment but who
doesn't want to forget the tank blocking the main
street as well as every other exit. The news of each
day is that times passes quickly regardless - some
hours, however, are longer than others, with many
more minutes that count.



Mary Jo Bang
in, A Doll for Throwing: Poems





quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Quando Eu não te Tinha

 




Quando eu não te tinha 
Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo. 
Agora amo a Natureza 
Como um monge calmo à Virgem Maria, 
Religiosamente, a meu modo, como dantes, 
Mas de outra maneira mais comovida e próxima ... 
Vejo melhor os rios quando vou contigo 
Pelos campos até à beira dos rios; 
Sentado a teu lado reparando nas nuvens 
Reparo nelas melhor — 
Tu não me tiraste a Natureza ... 
Tu mudaste a Natureza ... 
Trouxeste-me a Natureza para o pé de mim, 
Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma, 
Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais, 
Por tu me escolheres para te ter e te amar, 
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente 
Sobre todas as cousas. 
Não me arrependo do que fui outrora 
Porque ainda o sou. 

Só me arrependo de outrora te não ter amado.


Alberto Caeiro





terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Will Suddenly Trees Leap From Winter And Will

 




will suddenly trees leap from winter and will

the stabbing music of your white youth
wounded by my arms’ bothness
(say a twilight lifting the fragile skill
of new leaves’ voices,and sharp lips of spring
simply joining with the wonderless
city’s sublime cheap distinct mouth)

do the exact human comely thing?

(or will the fleshless moments go and go

across this dirtied pane where softly preys
the grey and perpendicular Always—
or possibly there drift a pulseless blur
of paleness;
                the unswift mouths of snow
insignificantly whisper….


E. E. Cummings  
in, 100 Selected Poems






segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Penélope

 




Mais do que um sonho: comoção!
Sinto-me tonto, enternecido,
quando, de noite, as minhas mãos
são o teu único vestido.

E recompões com essa veste,
que eu, sem saber, tinha tecido,
todo o pudor que desfizeste
como uma teia sem sentido;
todo o pudor que desfizeste
a meu pedido.

Mas nesse manto que desfias,
e que depois voltas a pôr,
eu reconheço os melhores dias
do nosso amor. 



David Mourão-Ferreira
in, Obra Poética






sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Século XXI

 




Falam de tudo como se a razão 
lhes ensinasse desesperadamente 
a mentir, a lançar 
sem remorso nem asco um novo isco 
à espera que alguém morda 
e acredite nessa liturgia 
cujos deuses são fáceis de adorar 
e obedecem às leis do mercado. 

Falam desse ludíbrio a que chamam 
o futuro 
como se ele existisse 
e as suas palavras ecoam 
em flatulentas frases 
sempre a favor do vento que as agita 
ao ritmo dos sorrisos ou das entrevistas 
em que tudo se vende 
por um preço acessível: emoções 
& sexo & fama & outros prometidos 
paraísos terrestres em horário nobre 
- matéria reciclável 
alimentando o altar do esquecimento. 

O poder não existe, como sabes 
demasiado bem - apenas uma 
inútil recidiva biológica 
de hormonas apressadas que procuram 
ser fiéis aos comércio 
dos sonhos sempre iguais, reproduzindo 
sedutoras metástases do nada 
nos códigos de barras ou nos cromossomas 
de quem já pouco espera dos seus genes. 


Fernando Pinto do Amaral
in, 'A Luz da Madrugada' 





quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Quando romper a manhã

 




Não,
nada de estandartes desfraldados,
bandeiras a baloiçar-se ao vento.
Nem gritos, nem manifestações,
nem meetings no bulício da praça.
Tão-pouco a embriaguez desvairada,
a louca conquista da rua.

Quando romper a manhã,
saibamos erguer a fronte
ao sol puro.
Em silêncio olhar de frente,
na curva do horizonte,
o novo sol-nascente
Saibamos recolher-nos
e, por um longo momento,
pesar,
respirar,
captar as múltiplas vivências
da tranquila alegria
que irá brotar ininterrupta,

quando romper a manhã.


Rui Knopfli






segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Louvor do Revolucionário

 
Adrian Limani




Quando a opressão aumenta 
Muitos se desencorajam 
Mas a coragem dele cresce. 
Ele organiza a luta 
Pelo tostão do salário, pela água do chá 
E pelo poder no Estado. 
Pergunta à propriedade: 
Donde vens tu? 
Pergunta às opiniões: 
A quem aproveitais? 

Onde quer que todos calem 
Ali falará ele 
E onde reina a opressão e se fala do Destino 
Ele nomeará os nomes. 

Onde se senta à mesa 
Senta-se a insatisfação à mesa 
A comida estraga-se 
E reconhece-se que o quarto é acanhado. 

Para onde quer que o expulsem, para lá 
Vai a revolta, e donde é escorraçado 
Fica ainda lá o desassossego. 


Bertold Brecht
in, 'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas' 







sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Louvor do Aprender

 

Joel Robison




Aprende o mais simples! Pra aqueles 
Cujo tempo chegou 
Nunca é tarde de mais! 
Aprende o abc, não chega, mas 
Aprende-o!   E não te enfades! 
Começa! Tens de saber tudo! 
Tens de tomar a chefia! 

Aprende, homem do asilo! 
Aprende, homem na prisão! 
Aprende, mulher na cozinha! 
Aprende, sexagenária! 
Tens de tomar a chefia! 

Frequenta a escola, homem sem casa! 
Arranja saber, homem com frio! 
Faminto, pega no livro: é uma arma. 
Tens de tomar a chefia. 

Não te acanhes de perguntar, companheiro! 
Não deixes que te metam patranhas na cabeça: 
Vê c'os teus próprios olhos! 
O que tu mesmo não sabes 
Não o sabes. 
Verifica a conta: 
És tu que a pagas. 
Põe o dedo em cada parcela, 
Pergunta: Como aparece isto aqui? 
Tens de tomar a chefia. 



Bertold Brecht
in, 'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas'