quinta-feira, 29 de março de 2018

Teoria das Cordas

 




Não era isso que eu queria dizer,
queria dizer que na alma
(tu é que falaste na alma),
no fundo da alma, e no fundo
da ideia de alma, há talvez
alguma vibrante música física
que só a Matemática ouve,
a mesma música simétrica que dançam
o quarto, o silêncio,
a memória, a minha voz acordada,
a tua mão que deixou tombar o livro
sobre a cama, o teu sonho, a coisa sonhada;
e que o sentido que tudo isto possa ter
é ser assim e não diferentemente,
um vazio no vazio, vagamente ciente
de si, não haver resposta
nem segredo.



Manuel António Pina
in, Atropelamento e Fuga




quarta-feira, 28 de março de 2018

Infectas as feridas são vivas

 




Faz muitos anos que me oculto,
quedo, estendido ao longo desta muralha.
Infectas as feridas são vivas
e secam em falso oblongas crostas
Estendido em silêncio e torpor:
Vinte e tantos anos de idade
e outros tantos de medo

O medo da palavra e do gesto,
medo na aba do chapéu e na gabardina,
medo de ti que me olhas na avenida,
medo escorrido ao longo da fachada,
mergulhado nas poças brilhantes do asfalto.

Não tenho culpa de ter medo,
nasci no tempo impreciso do medo.
Não temo o rosto diverso da morte,
não temo a ameaça da nuvem atómica,
não temo o susceptível de ser temido
há dois mil e tantos anos.
Temo a disfarçada ameaça indisfarçada,
temo o honor da angústia a todo a hora,
temo o temor do tempo do medo.

O medo infla, cresce e aboluma-se.
Impregna-se na carne, no cerne das unhas,
veste a tepidez da epiderme e o frio dos ossos.
Total, domina, obstrui, materializa-se em suor.
Pela calada sombria vireis na hora próxima.
Prevenido de medo, farto de medo,
tremo, e este modo é uma ameaça

que se oblitera e volta contra vós.


RUI KNOPFLI
in, O País dos Outros






terça-feira, 27 de março de 2018

Como a vida sem caderneta

 

Ian Webb





Como a vida sem caderneta 
como a folha lisa da janela 
como a cadela violeta
- ou a violenta cadela? 

Como o estar egípcio emudado 
no salão do navio de espelhos 
como o nunca ter embarcado 
ou só ter embarcado com velhos 

Como ter-te procurado tanto 
que haja qualquer coisa quebrada 
como percorrer uma estrada 
com memórias a cada canto 

Como os lábios prendem o copo 
como o copo prende a tua mão 
como se o nosso louco amor louco 
estivesse cheio de razão 

E como se a vida fosse o foco 
de um baço, lento projector 
e nós dois ainda fôssemos pouco 
para uma tempestade de cor 

Um ao outro nos fôssemos pouco 
meu amor meu amor meu amor 



Mário Cesariny



segunda-feira, 26 de março de 2018

A PERFEIÇÃO DAS COISAS

 




O vento - finalmente no fogo do dia - o vento do mundo
neste lugar aberto 
escreve a inclinação dos jovens álamos na última colina
contra o céu para sempre novo e antigo. 
As mãos do vento escrevem em verso ramos e folhas, pontos e traços,
a sombra da luz; encurvam para a esquerda e em cima 
as hastes longas e breves: as vogais aéreas
da paisagem terrestre que teríamos esquecido.
É subitamente que o vês claramente visto
repetindo a imagem do tempo:
é uma caligrafia de acaso.
Mas é uma caligrafia minuciosa nítida;
inquieta e exacta;
ofuscante como a incriada perfeição das coisas.

Numa outra folha ou margem ou luz ou lugar do mundo
és tu agora. Levantas o vestido leve; os teus dedos
enrodilham-no, subindo-o numa onda irrepetível e
contudo, repetidas vezes sem conta.
As tuas mãos enquanto quase quase danças - embora
apenas andes sobre o imortal chão da casa -
sobem o pano
de algodão, apanham a bainha, colhem as asas do escasso 
mar
que te cobria e
levam-nas até à linha irrevogável das ancas
como se fossem prender o vestido à levíssima ondulação
do mundo andante.

É como se uma onda no corpo abrisse lenta e fulminante
a incalculável praia ao esplendor em que cada coisa se diz
como se cantasse o nome do sem nome.

A curvatura daquelas hastes e a onda vertical que o teu gesto inventa
escrevem então a infindável passagem entre os separados mundos
e a isso só podemos chamar a alegria.



Manuel Gusmão
in,"Teatros do Tempo"



sábado, 24 de março de 2018

Chuva

 





a princípio a chuva
é como uma árvore delicada e mansa

para a terra que esperou meses que viesse
para a terra que gemeu estalidos de trigal
para a terra que sentiu dentro de si
a voz oculta, persuasiva das sementes
implorando
para a terra fendida e submissa
a chuva é também um macho rude
urgente e cumpridor

a chuva veio     
tímida árvore de outono
começou por espalhar algumas gotas
grossas e dispersas pelo chão
que mal molhou

mas logo
repetido ao infinito o testemunho
já líquida navalha
rasga no solo marcas de saciedade


A. M. Pires Cabral







quarta-feira, 21 de março de 2018

Os amantes sem dinheiro

 




Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.


Eugénio de Andrade





segunda-feira, 19 de março de 2018

Green God

 




Trazia consigo a graça 
das fontes quando anoitece. 
Era um corpo como um rio 
em sereno desafio 
com as margens quando desce. 

Andava como quem passa 
sem ter tempo de parar. 
Ervas nasciam dos passos, 
cresciam troncos dos braços 
quando os erguia no ar. 

Sorria como quem dança. 
E desfolhava ao dançar 
o corpo, que lhe tremia 
num ritmo que ele sabia 
que os deuses devem usar. 

E seguia o seu caminho, 
porque era um deus que passava. 
Alheio a tudo o que via, 
enleado na melodia 
duma flauta que tocava. 


Eugénio de Andrade 
in, "Poesia" 




sábado, 17 de março de 2018

O fio da vida

 

Bill Smith





Há homens que rezam na penumbra
das catedrais dolentes e há outros
que do alto das pontes olham
a escuridão rumorejante das águas.
Há homens que esperam na orla
marítima e outros arrastando-se
no viscoso esterco dos subterrâneos.
Há homens debruçados em pleno azul
e outros que deslizam sobre densos verdes;
há os desatentos na atenção e os que
espreitam atentamente a ocasião.
Há homens por fora e por dentro
do cimento armado, suspensos
das mil ciladas do quotidiano voraz;
de encontro aos muros, às paredes,
ao sol do meio-dia, ao visco da noite,
às sediças solicitações de cada instante.
Há a impotência poderosa da oração
e a obcessão amarga dos suicidas
e, de permeio, os que, porque hesitam,
porque ignoram, porque não creem,
não oram, nem se suicidam
e se quedam ante a impossibilidade de destrinça
entre o fio da vida e a vida por um fio.



Rui Knopfli
in, Mangas Verdes Com Sal





quinta-feira, 15 de março de 2018

Circe

 




It was easy enough
to bend them to my wish,
it was easy enough
to alter them with a touch,
but you
adrift on the great sea,
how shall I call you back?

Cedar and white ash,
rock-cedar and sand plants
and tamarisk
red cedar and white cedar
and black cedar from the inmost forest,
fragrance upon fragrance
and all of my sea-magic is for nought.

It was easy enough -
a thought called them
from the sharp edges of the earth;
they prayed for a touch,
they cried for the sight of my face,
they entreated me
till in pity
I turned each to his own self.

Panther and panther,
then a black leopard
follows close -
black panther and red
and a great hound,
a god-like beast,
cut the sand in a clear ring
and shut me from the earth,
and cover the sea-sound
with their throats,
and the sea-roar with their own barks
and bellowing and snarls,
and the sea-stars
and the swirl of the sand,
and the rock-tamarisk
and the wind resonance -
but not your voice.

It is easy enough to call men
from the edges of the earth.
It is easy enough to summon them to my feet
with a thought -
it is beautiful to see the tall panther
and the sleek deer-hounds
circle in the dark.

It is easy enough
to make cedar and white ash fumes
into palaces
and to cover the sea-caves
with ivory and onyx.

But I would give up
rock-fringes of coral
and the inmost chamber
of my island palace
and my own gifts
and the whole region
of my power and magic
for your glance. 



Hilda Doolittle





quarta-feira, 14 de março de 2018

Pedra no caminho

 

Tommy Ingberg





Toma essa pedra em tua mão,
toma esse poliedro imperfeito,
duro e poeirento. Aperta em
tua mão esse objecto frio,
redondo aqui, acolá acerado.

Segura com força esse granito
bruto. Uma pedra, uma arma
em tua mão. Uma coisa inócua,
todavia poderosa, tensa,
em sua coesão molecular,
em suas linhas irregulares.

Ao meio-dia em ponto, na avenida
ensolarada, tu és um homem
um pouco diferente. Ao meio-dia
segurando uma pedra. Segurando-a
com amor e raiva.


RUI KNOPFLI
in, Reino Submarino





segunda-feira, 12 de março de 2018

Mulher Amor

 





Diz-me mulher de asas redondas quais os segredos do teu corpo. 
Fala-me dos teus mais íntimos desejos, 
da vertigem da busca, 
dos socalcos da vida. 

Conta-me do que te falta no teu sentir. 
As minhas mãos serão tuas sempre que o desejares. 
As tuas mãos guiarão as minhas pela tua pele até ao fim de tudo. 

Amante, mulher, heroína das noites encontradas. 
Também mãe, colo meu, meu suor, minha luz, meu cordão. 
Assim te percorro, assim me percorres. 
Um diálogo silencioso. 
Um reaprender a viver. 
Um sonho escrito numa lousa. 
As teclas de um piano sem som. 
O adormecer num fetal aconchego. 

Amar uma mulher sem nome e chamar-lhe: Amor. 
Gritar a toda gente que aquela é a mulher que amamos. 
Ter uma cama. 
Incensar com o perfume das deusas o nosso caminho. 
Sentir o calor de todos os sentimentos. 
Amar.


JORGE C. FERREIRA
in, À SOMBRA DO SILÊNCIO






quarta-feira, 7 de março de 2018

A DEFESA DO POETA

 



Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei

Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em criança que salvo
do incêndio da vossa lição

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além

Senhores três quatro cinco e Sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.



Natália Correia
in, Poesia Completa







segunda-feira, 5 de março de 2018

Adão e Eva

 

Mariya Andriichuk




1

Feliz era a nudez. Vinha diurna
de dentro de si mesma. Porque o dia
ressumbrava recente desde a sua
novidade de pasmo. E de pupila
apta à evidência. E, por isso, arguta,
sem deduzir-se duma argúcia activa.
Onde fossem seus passos a espessura
entregava o seu fervor de enigma
para, depois, se recolher. Ter junta
e pronta a ordem de nova epifania.
Era a nudez da inteligência. Abrupta
e, ao mesmo tempo, de precisão tão íntima
que até os recantos justos da penumbra
recrutavam a luz da perspectiva.

2

E, além de feliz, era a nudez
encontro de surpresa e de substracto
- dentro palpites de sinais, e até
intento a consumar o corpo, em estado
de o espírito iluminar a tez
que também se enriquece à luz do tacto.
Ou a surpresa é dar-se o estar a ser
com o dentro a difundir o seu espaço
num paraíso de animais que vêm
ao encontro de serem nomeados.

3

E tudo encontra na evidência o nome.
A recente nudez da novidade
traz o enigma do que vem de longe
sem reserva qualquer nele entregar-se.
Ou cada coisa do seu dentro rompe
perpetuamente àquele feliz instante
em que estarem a vê-lo lhe recolhe
estar a ser. Com todo o ser em fase.


E, enfim, era a nudez, corpo visível
onde, invisível, se ajustava o acto
de olhar. Não para enclausurar limites,
ou reduzir o que se estava dando.
A nudez recrudescia. A abrir-se
com a frequência a exceder o impacto
da visibilidade. E assim o timbre
da sua luz estimulava o ângulo
que a sagrava num espaço inextinguível.
E tinha o pulso de animal sagrado.



Fernando Echevarría





quinta-feira, 1 de março de 2018

Photograph Printed With Hatch-Marks Or Lines Across The Portrait

 





Some photographs invent a method of fiction, a illogical trying
to think differently history. The true aim of archives is:

a complex, relating, narrating voice and rare versions of what
happened, actuality of actuality. This requires a plastic mind.
Archives of photographs create a direct category linked to the
culture of written history, along with the premise of what may
have happened, spread over the course of images that exist in
two different temporal dimensions, i.e. when the photo was
made and when we see it.

These opposed logics disfigure the true act - the incidental fact
that this did exist - morphing the two times into one
simultaneous reality where temporality remains to say this:
what did exist may still exist. I think the living know this or else
will come to know it when they look at this photograph.


Mary Jo Bang
in, A Doll for Throwing: Poems