segunda-feira, 30 de abril de 2018

Estamos Agora em Paz

 




Estamos agora em paz 
sabendo simular o esquecimento

sentados

com os olhos no vento 
lá de fora atirado para antes 
de nós as mãos caídas 
nos joelhos mas nada suplicantes 
só esvaídas

conformados 
com não nos conformarmos

resignados 
a esperando não esperarmos

como se tudo fosse um imenso tanto faz


Mário Dionísio
in, 'Terceira Idade'





quinta-feira, 26 de abril de 2018

Emerging

 




A man says yes without knowing 
how to decide even what the question is, 
and is caught up, and then is carried along 
and never again escapes from his own cocoon; 
and that’s how we are, forever falling 
into the deep well of other beings; 
and one thread wraps itself around our necks, 
another entwines a foot, and then it is impossible, 
impossible to move except in the well -
nobody can rescue us from other people. 

It seems as if we don’t know how to speak; 
it seems as if there are words which escape, 
which are missing, when have gone away and left us 
to ourselves, tangled up in snares and threads. 

And all at once, that’s it; we no longer know 
what it’s all about, but we are deep inside it, 
and now we will never see with the same eyes 
as once we did when we were children playing. 
Now these eyes are closed to us, 
now our hands emerge from different arms. 

And therefore when you sleep, you are alone in your dreaming, 
and running freely through the corridors 
of one dream only, which belongs to you. 
Oh never let them come to steal our dreams, 
never let them entwine us in our bed. 
Let us hold on to the shadows 
to see if, from our own obscurity, 
we emerge and grope along the walls, 
lie in wait for the light, to capture it, 
till, once and for all time, 
it becomes our own, the sun of every day.


Pablo Neruda
in, Weathering: Poems and Translations
Alastair Reid 






terça-feira, 24 de abril de 2018

Se existe uma chave

 




Se existe uma chave,
se existe uma chave que não derreta na boca,
se existe uma boca capaz de se abrir para outra boca,
então eu amo, eu beijo, eu deixo de esperar.

Então tu saltas e arrastas contigo toda a terra.
Convidas-me para o teu corpo
no gesto sem mágoa de um ombro que se expõe.
Tens anos de combustão solar,
e moves-te assim:
tocando simultaneamente o resgate e o perigo.

Ah forte como a loucura é o amor,
o amor como a electricidade dos campos.
O amor-pirâmide,
o amor-trevo-de-quatro-folhas,
o amor-moeda-achada-no-chão.
Não digas sorte, diz privilégio.
Não peças perdão, pede chuva.
Não recues, assombra-te.


Vasco Gato






sexta-feira, 20 de abril de 2018

A HORA

 





Sinto que hoje novamente embarco
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta - por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.

Sonoro e profundo
Aquele mundo
Que eu sonhara e perdera
Espera
O peso dos meus gestos.

E dormem mil gestos nos meus dedos.

Desligadas dos círculos funestos
Das mentiras alheias,
Finalmente solitárias,
As minhas mãos estão cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.

Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.

E de novo caminho para o mar.



SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
in, DIA DO MAR





quinta-feira, 19 de abril de 2018

Pranto pelo Dia de Hoje

 




Nunca choraremos bastante quando vemos 
O gesto criador ser impedido 
Nunca choraremos bastante quando vemos 
Que quem ousa lutar é destruído 
Por troças por insídias por venenos 
E por outras maneiras que sabemos 
Tão sábias tão subtis e tão peritas 
Que nem podem sequer ser bem descritas 


Sophia de Mello Breyner Andresen
in, 'Livro Sexto' 






quarta-feira, 18 de abril de 2018

CHORO!

 





Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro 
as crianças violadas
nos muros da noite
úmidos de carne lívida
onde as rosas se desgrenham
para os cabelos dos charcos. 

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
diante desta mulher que ri
com um sol de soluços na boca
— no exílio dos Rumos Decepados. 

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
este seqüestro de ir buscar cadáveres
ao peso dos poços
— onde já nem sequer há lodo
para as estrelas descerem
arrependidas de céu. 

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
a coragem do último sorriso
para o rosto bem-amado
naquela Noite dos Muros a erguerem-se nos olhos
com as mãos ainda à procura do eterno
na carne de despir,
suada de ilusão. 

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
todas as humilhações das mulheres de joelhos nos tapetes da súplica
todos os vagabundos caídos ao luar onde o sol para atirar camélias
todas as prostitutas esbofeteadas pelos esqueleto de repente dos espelhos
todas as horas-da-morte nos casebres em que as aranhas tecem vestidos para o sopro do
silêncio
todas as crianças com cães batidos no crispar das bocas sujas
de miséria... 

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro... 

Mas não por mim, ouviram?
Eu não preciso de lágrimas!
Eu não quero lágrimas! 

Levanto-me e proíbo as estrelas de fingir que choram por mim! 

Deixem-me para aqui, seco,
senhor de insônias e de cardos,
neste òdio enternecido
de chorar em segredo pelos outros
à espera daquele Dia
em que o meu coração
estoire de amor a Terra
com as lágrimas públicas de pedra incendiada
a correrem-me nas faces
— num arrepio de Primavera
e de Catástrofe!



José Gomes Ferreira





terça-feira, 17 de abril de 2018

Verso e Anverso

 

Phil McKay




Diria palavras altas como amor,
palavras lentas como ternura,
ou duráveis como amizade

Desceu um véu de luto sobre o amarelo
esmaecido da savana, lá onde dormem
os corpos mutilados e onde cresta,
rente a terra, o sangue derramado.

Baixou sobre a serenidade das coisas
um sono obscuro e terrível.
Poluiu o teu sorriso, o meu desejo;
intercala os gestos e as vozes ciciadas.

Cerramos os olhos para a penumbra
donde brotam, nítidas, as imagens:
Há uma criança no fogo,
o pavor de um soluço estrangulado,
fulgurantes, rápidas chamas.

Direi palavras insuportáveis como morte.



RUI KNOPFLI
in, Mangas Verdes com Sal






domingo, 15 de abril de 2018

O Novo Homem

 




O homem será feito 
em laboratório. 
Será tão perfeito como no antigório. 
Rirá como gente, 
beberá cerveja 
deliciadamente. 
Caçará narceja 
e bicho do mato. 
Jogará no bicho, 
tirará retrato 
com o maior capricho. 
Usará bermuda 
e gola roulée. 
Queimará arruda 
indo ao canjerê, 
e do não-objecto 
fará escultura. 
Será neoconcreto 
se houver censura. 
Ganhará dinheiro 
e muitos diplomas, 
fino cavalheiro 
em noventa idiomas. 
Chegará a Marte 
em seu cavalinho 
de ir a toda parte 
mesmo sem caminho. 
O homem será feito 
em laboratório 
muito mais perfeito 
do que no antigório. 
Dispensa-se amor, 
ternura ou desejo. 
Seja como for 
(até num bocejo) 
salta da retorta 
um senhor garoto. 
Vai abrindo a porta 
com riso maroto: 
«Nove meses, eu? 
Nem nove minutos.» 
Quem já concebeu 
melhores produtos? 
A dor não preside 
sua gestação. 
Seu nascer elide 
o sonho e a aflição. 
Nascerá bonito? 
Corpo bem talhado? 
Claro: não é mito, 
é planificado. 
Nele, tudo exacto, 
medido, bem posto: 
o justo formato, 
o standard do rosto. 
Duzentos modelos, 
todos atraentes. 
(Escolher, ao vê-los, 
nossos descendentes.) 
Quer um sábio? Peça. 
Ministro? Encomende. 
Uma ficha impressa 
a todos atende. 
Perdão: acabou-se 
a época dos pais. 
Quem comia doce 
já não come mais. 
Não chame de filho 
este ser diverso 
que pisa o ladrilho 
de outro universo. 
Sua independência 
é total: sem marca 
de família, vence 
a lei do patriarca. 
Liberto da herança 
de sangue ou de afecto, 
desconhece a aliança 
de avô com seu neto. 
Pai: macromolécula; 
mãe: tubo de ensaio, 
e, per omnia secula, 
livre, papagaio, sem memória e sexo, 
feliz, por que não? 
pois rompeu o nexo 
da velha Criação, 
eis que o homem feito 
em laboratório 
sem qualquer defeito 
como no antigório, 
acabou com o Homem. 
Bem feito.


Carlos Drummond de Andrade
in, 'Versiprosa'





quinta-feira, 12 de abril de 2018

Há Dias

 




Há dias em que julgamos
que todo o lixo do mundo nos cai
em cima. Depois
ao chegarmos à varanda avistamos
as crianças correndo no molhe
enquanto cantam.
Não lhes sei o nome. Uma
ou outra parece-se comigo.
Quero eu dizer: com o que fui
quando cheguei a ser
luminosa presença da graça,
ou da alegria.
Um sorriso abre-se então
num verão antigo.
E dura, dura ainda.


Eugénio de Andrade 
in, Os Lugares do Lume






quarta-feira, 11 de abril de 2018

Sei que a ternura

 




Sei que a ternura
Não é coisa que se peça,
E dar-se não significa
Que alguém a queira ou mereça.
Estas verdades,
Que são do senso comum,
Não me dão conformação
Nem sentimento nenhum
De haver força e dignidade
Na minha sabedoria...
Eu preferia
- Sinceramente, preferia! -
Que, contra as leis recolhidas
No que ficou dos destroços
De outras vidas,
Tu me desses a ternura que te peço;
Ou que, por fim, reparasses
Que a mereço.


Reinaldo Ferreira
in, "Dispersos"






terça-feira, 10 de abril de 2018

Estou Cansado

 




Estou cansado, é claro, 
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado. 
De que estou cansado, não sei: 
De nada me serviria sabê-lo, 
Pois o cansaço fica na mesma. 
A ferida dói como dói 
E não em função da causa que a produziu. 
Sim, estou cansado, 
E um pouco sorridente 
De o cansaço ser só isto — 
Uma vontade de sono no corpo, 
Um desejo de não pensar na alma, 
E por cima de tudo uma transparência lúcida 
Do entendimento retrospectivo... 
E a luxúria única de não ter já esperanças? 
Sou inteligente; eis tudo. 
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto, 
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá, 
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.


Álvaro de Campos
in, "Poemas"





segunda-feira, 9 de abril de 2018

Cântico

 




Belo é ver florir os galhos
das velhas árvores.
E ver chegar as aves
que voltam do Sul.
Belo é o sangue rubro
dum lanho fresco,
e o riso que nasce
das nossas palavras.
Belo é o vir da manhã
sobre os telhados nus
das cidades brancas.
E mais belo ainda
que este sol visível
enflorando, amor,
teus longos cabelos
de guizos dourados:
mais belos que os ventos
cavalgando as nuvens
e dizendo-nos: vinde!,
e que o meu génio abrindo
suas asas nos céus:

Mais belo que o fluir
silente desta célula
fluindo no cosmos:
Mais belo, amor,
que a tua própria beleza

é este sol inviolável,
rútilo, no fundo de nós.



Papiniano Carlos





sábado, 7 de abril de 2018

Sonnet V

 




I touch you as a lonely violin touches the suburbs of the faraway place
patiently the river asks for its share of the drizzle
and, bit by bit, a tomorrow passing in poems approaches
so I carry faraway’s land and it carries me on travel’s road

On a mare made of your virtues, my soul weaves
a natural sky made of your shadows, one chrysalis at a time.
I am the son of what you do in the earth, son of my wounds
that have lit up the pomegranate blossoms in your closed-up gardens

Out of jasmine the night’s blood streams white. Your perfume,
my weakness and your secret, follows me like a snakebite. And your hair
is a tent of wind autumn in color. I walk along with speech
to the last of the words a bedouin told a pair of doves

I palpate you as a violin palpates the silk of the faraway time
and around me and you sprouts the grass of an ancient place - 
anew



Mahmoud Darwish
in, The Butterfly’s Burden






quinta-feira, 5 de abril de 2018

Echo

 




Come to me in the silence of the night;
   Come in the speaking silence of a dream;
Come with soft rounded cheeks and eyes as bright
   As sunlight on a stream;
      Come back in tears,
O memory, hope, love of finished years.

Oh dream how sweet, too sweet, too bitter sweet,
   Whose wakening should have been in Paradise,
Where souls brimfull of love abide and meet;
   Where thirsting longing eyes
      Watch the slow door
That opening, letting in, lets out no more.

Yet come to me in dreams, that I may live
   My very life again tho’ cold in death:
Come back to me in dreams, that I may give
   Pulse for pulse, breath for breath:
      Speak low, lean low,
As long ago, my love, how long ago.




CHRISTINA ROSSETTI






quarta-feira, 4 de abril de 2018

Aviso à Navegação

 




Alto lá! 
Aviso à navegação! 
Eu não morri: 
Estou aqui 
na ilha sem nome, 
sem latitude nem longitude, 
perdida nos mapas, 
perdida no mar Tenebroso!

Sim, eu, 
o perigo para a navegação! 
o dos saques e das abordagens, 
o capitão da fragata 
cem vezes torpedeada, 
cem vezes afundada, 
mas sempre ressuscitada!

Eu que aportei 
com os porões inundados, 
as torres desmoronadas, 
os mastros e os lemes quebrados 
- mas aportei!

Aviso à navegação: 
Não espereis de mim a paz!

Que quanto mais me afundo 
maior é a minha ânsia de salvar-me! 
Que quanto mais um golpe me decepa 
maior é a minha força de lutar!

Não espereis de mim a paz!

Que na guerra 
só conheço dois destinos: 
ou vencer – ai dos vencidos! – 
ou morrer sob os escombros 
da luta que alevantei!

- (Foi jeito que me ficou 
não me sei desinteressar 
do jogo que me jogar.)

Não espereis de mim a paz, 
aviso à navegação!

Não espereis de mim a paz 
que vos não sei perdoar!


Joaquim Namorado
in, 'Antologia Poética'






terça-feira, 3 de abril de 2018

Soneto 30

 




Quando à corte silente do pensar
Eu convoco as lembranças do passado,
Suspiro pelo que ontem fui buscar,
Chorando o tempo já desperdiçado,

Afogo olhar em lágrima, tão rara,
Por amigos que a morte anoiteceu;
Pranteio dor que o amor já superara,
Deplorando o que desapareceu.

Posso então lastimar o erro esquecido,
E de tais penas recontar as sagas,
Chorando o já chorado e já sofrido,

Tornando a pagar contas todas pagas.
Mas, amigo, se em ti penso um momento,
Vão-se as perdas e acaba o sofrimento


William Shakespeare






segunda-feira, 2 de abril de 2018

Medo

 




Quem dorme à noite comigo?
É meu segredo, é meu segredo!
Mas se insistirem lhes digo.
O medo mora comigo,
Mas só o medo, mas só o medo!

E cedo, porque me embala
Num vaivém de solidão,
É com silêncio que fala,
Com voz de móvel que estala
E nos perturba a razão.

Que farei quando, deitado,
Fitando o espaço vazio,
Grita no espaço fitado
Que está dormindo a meu lado,
Lázaro e frio?

Gritar? Quem pode salvar-me
Do que está dentro de mim?
Gostava até de matar-me.
Mas eu sei que ele há-de esperar-me 
Ao pé da ponte do fim. 


Reinaldo Ferreira