quinta-feira, 31 de maio de 2018

Pior que não Cantar

 

Misha Gordin




Pior que não cantar 
é cantar sem saber o que se canta 

Pior que não gritar 
é gritar só porque um grito algures se levanta 

Pior que não andar 
é ir andando atrás de alguém que manda 

Sem amor e sem raiva as bandeiras são pano 
que só vento electriza 
em ruidosa confusão 
de engano 

A Revolução 
não se burocratiza 



Mário Dionísio
in, 'Terceira Idade'





quarta-feira, 30 de maio de 2018

CORAÇÃO

 




Deixa ver se lembro
o coração
se é poema ainda no meu corpo

se ao encostar nele
a minha mão
e com ela escrever ainda o ouço

Deixa ver se entendo
a cor das lágrimas
correndo devagar pelo meu rosto

se as entorno dentro do olhar
e ao torná-las suspensas
logo as pouso

Deixa ver se encontro
entreaberta
a branda açucena do meu gosto

e ao entregá-la ao fogo
dos teus lábios
a desfolho devagar a contragosto


Maria Teresa Horta
in, Poesis




segunda-feira, 28 de maio de 2018

Para Ser Lido Mais Tarde

 

REEDEXTER





Um dia 
quando já não vieres dizer-me Vem 
jantar 

quando já não tiveres dificuldade 
em chegar ao puxador 
da porta quando 

já não vieres dizer-me Pai 
vem ver os meus deveres 

quando esta luz que trazes nos cabelos 
já não escorrer nos papéis em que trabalho 

para ti será o começo de tudo 

Uma outra vida haverá talvez para os teus sonhos 
um outro mundo acolherá talvez enfim a tua oferenda 

Hás-de ter alguma impaciência enquanto falo 
Ouvirás com encanto alguém que não conheço 
nem talvez ainda exista neste instante 

Mas para mim será já tão frio e já tão tarde 

E nem mesmo uma lembrança amarga 
ou doce ficará 
desta hora redonda 
em que ninguém repara 


Mário Dionísio
in, 'O Silêncio Voluntário' 





sábado, 26 de maio de 2018

After our planet

 




I

I am writing from a place you have never been,
Where the trains don’t run, and planes
Don’t land, a place to the west,

Where heavy hedges of snow surround each house,
Where the wind screams at the moon’s blank face,
Where the people are plain, and fashions,

If they come, come late and are seen
As forms of oppression, sources of sorrow.
This is a place that sparkles a bit at 7 P.M.,

Then goes out, and slides into the funeral home
Of the stars, and everyone dreams of floating
Like angels in sweet-smelling habits,

Of being released from sundry services
Into the round of pleasures there for the asking—
Days like pages torn from a family album,

Endless reunions, the heavenly choir at the barbecue
Adjusting its tone to serve the occasion,
And everyone staring, stunned into magnitude.

II

The soldiers are gone, and now the women are leaving.
The dogs howl at the moon, and the moon flees
Through the clouds. I wonder if I shall ever catch up.

I think of the shining cheeks, the serious palettes
Of my friends, and I am sure I am not of their
   company.
There was a time when I touched by the pallor of truth,

When the fatal steps I took seemed more like the drift
Of summer crossed at times by the scented music of
   rain,
But that was before I was waved to the side

By the officer on duty, and told that henceforth
I would have to invent my pleasure, carve it out of
   the air,
Subtract it from my future. And I could have no
   illusions;

A mysterious crape would cover my work. The roll of a
   drum
Would govern the fall of my feet in the long corridors.
“And listen,” the officer said, “on any morning look down

Into the valley. Watch the shadows, the clouds dispersing
Then look through the ice into nature’s frozen
   museum,
See how perfectly everything fits in its space.”

III

I have just said good-bye to a friend
And am staring at fields of cornstalks.
Their stubble is being burned, and the smoke

Forms a gauze over the sun’s blank face.
Off to the side there is a line of poplars.
And beyond, someone is driving a tractor.

Does he live in that little white house?
Someone is playing a tape of birds singing.
Someone has fallen asleep on a boxcar of turnips.

I think of the seasonal possibilities.
O pretty densities of white on white!
O snowflake lost in the vestibules of April air!

Beyond the sadness—the empty restaurants,
The empty streets, the small lamps shining
Down on the town—I see only the stretches

Of ice and snow, the straight pines, the frigid moon.

IV

“I would like to step out of my heart’s door and be
Under the great sky.” I would like to step out
And be on the other side, and be part of all

That surrounds me. I would like to be
In that solitude of soundless things, in the random
Company of the wind, to be weightless, nameless.

But not for long, for I would be downcast without
The things I keep inside my heart; and in no time
I would be back. Ah! the old heart

In which I sleep, in which my sleep increases, in which
My grief is ponderous, in which the leaves are falling,
In which the streets are long, in which the night

Is dark, in which the sky is great, the old heart
That murmurs to me of what cannot go on,
Of the dancing, of the inmost dancing.

V

I go out and sit on my roof, hoping
That a creature from another planet will see me
And say, “There’s life on earth, definitely life;

“See that earthling on top of his home,
His manifold possessions under him,
Let’s name him after our planet.” Whoa!



Mark Strand





quinta-feira, 24 de maio de 2018

RUMOR

 




Visto-me deste silêncio
como de um vestido de folhas.
Como álamo espreguiço o verde
no rumor de muitas águas.

Sou corpo, beijo profundo e desejo
e sinto-me perder nos lençóis
das tuas mãos que me envolvem
e convidam como linho fresco.

Descalça, para lá das montanhas sábias,
as ondas desnorteadas de um mar redondo.
Sei que nas asas de uma gaivota entontecida
eu parti contigo nos rumores das coisas libertas.

Asa e fogo, grito e beijo,
folhagem e água,
amor e ternura agreste
eu sou.


LÍLIA TAVARES
in, EVOCAÇÃO DAS ÁGUAS





A história de um dia

 

Beniamino Pisati





A abóbada da tarde mais uma vez acaba
o sol de a fechar sobre a minha diária aventura
Viram-no partir pontualmente à mesma hora
quando num pouco de dia a um canto sempre a um canto
já eu tinha conseguido arredondar
uma íntima ampola de som para a palavra definitiva
Ia mesmo soltá-la eu que todo o dia fui para ela
quando ele me deixou e foi abrir outras portas
erguer verticalmente caídas esperanças
e passar novas mãos por tantas faces mortas
Só me resta recolher o meu rebanho de pensamentos
com um vago rumor de guizos
enquanto à beira-mar os camponeses deixam
palavras não aladas cair na água morta
Morro irremediavelmente nesses pensamentos
que ainda agora o sol iluminava
enquanto eu os estendia e os recolhia
e os orientava numa direcção que convinha
e os precipitava sobre o fumo de uma casa
sobre um buraco de luz ou uma coluna de fumo
mais volúveis que um bando de pássaros
Morro mais uma vez criticamente completo
Todos os gestos
carregados com vinte e quatro horas de história
de ventre ferido na aventura do restolho
petrificaram inevitavelmente 
na face orientada de uma estátua 
aqui ou noutro jardim 
Todo o caminho é de regresso 
Amanhã serei outro: 
lavarei os dentes com toda a solenidade
como antigamente meu pai antes das grandes viagens 
enquanto alguém no espelho 
se encarregará de olhar pelos meus olhos 
Assim sou passado de dia em dia 
confiado pelo dia que parte ao dia que chega 
não venha o sino que ao longe toca perturbar
as linhas de um rosto que recompus 
e pus de pé na atmosfera doméstica 
Fechar um postigo pode ser um gesto cheio de significado quando 
na arrumada paisagem quotidiana 
a expectativa marcada pela funda inspiração 
nos revela duas ou três mãos
postas sobre a colina 
Amanhã serei outro 


Ruy Belo
in, Obra Poética de Ruy Belo





quarta-feira, 23 de maio de 2018

Não procures o verso grandioso

 




Não procures o verso grandioso
aquele que nos tolhe os passos,
a nós, que não somos senão animais,

embriagados de luz

na orla do sonho

Não queiras o saber que pesa
aquele que nos aprisiona o olhar,
a nós, que não procuramos senão
a epiderme do instante e a voz
do vento, em asa veloz.

Não queiras ser senão este animal
de seiva e olhos de fogo que nada sossega
olha como a sua pele repete
o enigma das estrelas
e o calor das savanas,
olha como o seu coração conhece
essa música que arde na noite antiga.

Não procures senão a sombra a ausência
O início do círculo e que nos salva
A nós, que não somos senão animais,



embriagados de luz

na orla do sonho



Maria João Cantinho
in, Do Ínfimo




domingo, 20 de maio de 2018

Are You There?

 





Each lover has a theory of his own 
About the difference between the ache
Of being with his love, and being alone:

Why what, when dreaming, is dear flesh and bone 
That really stirs the senses, when awake, 
Appears a simulacrum of his own.

Narcissus disbelieves in the unknown; 
He cannot join his image in the lake
So long he assumes he is alone.

The child, the waterfall, the fire, the stone,
Are always up to mischief, though, and take
The universe for granted as their own.

The elderly, like Proust, are always prone
To think of love as a subjective fake;
The more they love, the more they feel alone.

Whatever view we hold, it must be shown
Why every lover has a wish to make
Some other kind of otherwise his own:
Perhaps, in fact, we never are alone. 


W. H. Auden






quarta-feira, 16 de maio de 2018

Velho Colono

 

Oscar Lopez




Sentado no banco cinzento
entre as alamedas sombreadas do parque.
Ali sentado só, àquela hora da tardinha,
ele e o tempo. O passado certamente,
que o futuro causa arrepios de inquietação.
Pois se tem o ar de ser já tão curto,
o futuro. Sós, ele e o passado,
os dois ali sentados no banco de cimento.

Há pássaros chilreando no arvoredo,
certamente. E nas sombras mais densas
e frescas, namorados que se beijam
e se acariciam febrilmente. E crianças
rolando na relva e rido tontamente.

Em redor há todo o mundo e a vida.
Ali, está ele, ele e o passado,
sentados os dois no banco de frio cimento.
Ele, a sombra e a névoa do olhar.
Ele, a bronquite e o latejar cansado
das artérias. Em volta os beijos húmidos,
as frestas gargalhadas, tintas de outono
próximo na folhagem e o tempo.

O tempo que cada qual, a seu modo,
vai aproveitando.


RUI KNOPFLI
in, Reino Submarino



terça-feira, 15 de maio de 2018

Assombro

 




Sentas-te na sombra e sabes
do modo como apenas o crepúsculo
salva a tua urgência, a tua sede
de chuva e do avesso da noite
o assombro
o desvario de palavras,
essa lâmina que rasga o real
uma garra de nada, uma pedra
no teu caminho.

E procuras o escopro,
o arado alquímico, o compasso,
o fogo e o atanor
que há-de medir-te
o ritmo matemático
e a matéria transfigurada do poema,
esse golpe certeiro e lírico,
asa de sonho,
magma, víscera, palavra
suor, sangue, alma
língua, jogo, imagem
trevas esperando a alba
e a clara luz, esse estremecimento
mínimo
oculto nos detalhes.

Nascente, luminescente,
é um abismo em forma de rosa.



Maria João Cantinho
in, Do Ínfimo





domingo, 13 de maio de 2018

Carpe Diem

 

Eric Lafforgue





Aproveita o dia,
Não deixes que termine sem teres crescido um pouco.
Sem teres sido feliz, sem teres alimentado teus sonhos.
Não te deixes vencer pelo desalento.
Não permitas que alguém te negue o direito de expressar-te, que é quase um dever.
Não abandones tua ânsia de fazer de tua vida algo extraordinário.
Não deixes de crer que as palavras e as poesias sim podem mudar o mundo.
Porque passe o que passar, nossa essência continuará intacta.
Somos seres humanos cheios de paixão.
A vida é deserto e oásis.
Nos derruba, nos lastima, nos ensina, nos converte em protagonistas de nossa própria história.
Ainda que o vento sopre contra, a poderosa obra continua, tu podes trocar uma estrofe.
Não deixes nunca de sonhar, porque só nos sonhos pode ser livre o homem.
Não caias no pior dos erros: o silêncio.
A maioria vive num silêncio espantoso. Não te resignes, e nem fujas.
Valorize a beleza das coisas simples, se pode fazer poesia bela, sobre as pequenas coisas.
Não atraiçoes tuas crenças.
Todos necessitamos de aceitação, mas não podemos remar contra nós mesmos.
Isso transforma a vida em um inferno.
Desfruta o pânico que provoca ter a vida toda a diante.
Procures vivê-la intensamente sem mediocridades.
Pensa que em ti está o futuro, e encara a tarefa com orgulho e sem medo.
Aprendes com quem pode ensinar-te as experiências daqueles que nos precederam.
Não permitas que a vida se passe sem teres vivido…



Walt Whitman





quarta-feira, 9 de maio de 2018

Cardiology

 




When we first met, my heart pounded. They said
the shock of it was probably what broke
his heart. In search of peace, we traveled once
to Finland, tasted reindeer heart. It seemed
so heartless, how you wanted it to end.
I noticed on the nurse who took his pulse
a heart tattooed above her collarbone.
The kids played hearts all night to pass the time.
You said that at its heart rejection was
impossible to understand. “We send
our heartfelt sympathy,” was written in
the card your mother sent, in flowing script.
I tried interpreting his EKG,
which looked like knife wounds to the heart. I knew
enough to guess he wouldn’t last much longer.
As if we’d learned our lines by heart, you said,
“I can’t explain.” “Please don’t,” was my reply.
They say the heart is just a muscle. Or
the heart is where the human soul resides.
I saw myself in you; you looked so much
like him. You didn’t have the heart to say
you didn’t want me anymore. I still
can see that plastic statue: Jesus Christ,
his sacred heart aflame, held out in his
own hands. He finally let go. How grief
this great is borne, not felt. Borne in the heart.


Rafael Campo





terça-feira, 8 de maio de 2018

Do Ínfimo

 




Não sei senão do ínfimo
e do murmúrio das pequenas coisas,
as que não chegam à palavra
como a sombra ou o vento
desenhando-se sob os álamos,
em quieta reverberação.

E nada sei, senão desse canto
Invisível, mais sonho que metáfora,
do tempo que é no fruto
ou do que sabe ser sol, sem alarde
do breve e da passagem.

E nada sei dessa grandiloquência
dos homens, das suas promessas
e dos gestos que traem o coração,
dessa palavra ou excesso que mata
a perfeição circular do instante.

Se é vida, sangue ou oiro,
nada sei, nada de nada
escondido que ele é
no ínfimo e na sombra. Oculto.



Maria João Cantinho
in, Do Ínfimo





sábado, 5 de maio de 2018

Sem Que Soubesses

 




Falei de ti com as palavras mais limpas,
viajei, sem que soubesses, no teu interior.
Fiz-me degrau para pisares, mesa para comeres,
tropeçavas em mim e eu era uma sombra
ali posta para não reparares em mim.

Andei pelas praças anunciando o teu nome,
chamei-te barco, flor, incêndio, madrugada.
Em tudo o mais usei da parcimónia
a que me forçava aquele ardor exclusivo.

Hoje os versos são para entenderes.
Reparto contigo um óleo inesgotável
que trouxe escondido aceso na minha lâmpada
brilhando, sem que soubesses, por tudo o que fazias.



Fernando Assis Pacheco
in, A Musa Irregular




quinta-feira, 3 de maio de 2018

E Tudo Era Possível

 




Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer


Ruy Belo
in Homem de Palavra(s)





quarta-feira, 2 de maio de 2018

De Um Amor Morto

 




De um amor morto fica
Um pesado tempo quotidiano
Onde os gestos se esbarram
Ao longo do ano

De um amor morto não fica
Nenhuma memória
O passado se rende
O presente o devora
E os navios do tempo
Agudos e lentos
O levam embora

Pois um amor morto não deixa
Em nós seu retrato
De infinita demora
É apenas um facto
Que a eternidade ignora



Sophia de Mello Breyner Andresen
in, Geografia