terça-feira, 31 de julho de 2018

O Som do Silêncio

 




Tudo se acaba. É mentira.
Há parcelas que se juntam,
se adicionam,
como a ideia e o sentimento,
o tempo
perdido
e o momento de acção
iluminado.

Ninguém se convença
que acaba.
Há o céu que nos espera,
a sua ilusão
remordida até ao paroxismo.
Ou há passado
sem destino.

A dolorosa mensagem
da nossa vida
é estar: caminhar sempre;
atar as vides da vinha
vindimada.

Saber esperar.
Andar, andar,
nem que seja de rastos.


Ruy Cinatti





sábado, 28 de julho de 2018

VIGÍLIA

 




Paralelamente sigo dois caminhos 
Abstrato na visão de um céu profundo. 
Nem um nem outro me serve, nem aquele 
Destino que se insinua 
Com voz semelhante à minha. O melhor mundo 
Está por descobrir. Não seque a lua 
Nem o perfil da proa. Vai direito 
Ao vago, incerto, misterioso 
Bater das velas sinalado de oculto. 

Quero-me mais dentro de mim, mais desumano 
Em comunhão suprema, surto e alado 
Nas aragens noturnas que desdobram as vagas, 
Chamam dorsos de peixe à tona de água 
E precipitam asas na esteira de luz. 
Da vida nada senão a melhoria 
De um paraíso sonhado e procurado 
Com ternura, coragem e espírito sereno. 

Doçura luminosa de um olhar. Ameno 
Brincar de almas verticais em pleno 
Sol de alvorada que descerra as pálpebras. 


Ruy Cinatti 
in, Nós Não Somos Deste Mundo






quinta-feira, 26 de julho de 2018

LEI DA AFINIDADE

 




"O controlador atrai o dependente.
O agressivo atrai o submisso.
O isolado atrai o solitário.
O desconfiado atrai o mentiroso.
O egoísta atrai o orgulhoso.
O irónico atrai o debochado.
O sabe-tudo atrai o ignorante.
O nervoso atrai o irritado.
A vítima atrai o culpado.

O inteligente atrai o sábio.
O próspero atrai a riqueza.
O desejo atrai o calor.
O gentil atrai a delicadeza.
O aconchego atrai o alivio.
A dedicação atrai o reconhecimento.
A atenção atrai o amor.
A simpatia atrai o carisma.
A alegria atrai o bom humor.
O silêncio atrai o discernimento.
A maturidade atrai o bom senso."




terça-feira, 24 de julho de 2018

REGRESSO ETERNO

 




Altos silêncios da noite e os olhos perdidos, 
Submersos na escuridão das árvores 
Como na alma o rumor de um regato, 
Insistente e melódico, 
Serpeando entre pedras o fulgor de uma ideia, 
Quase emoção; 
E folhas que caem e distraem 
O sentido interior 
Na natureza calma e definida 
Pela vivência dum corpo em cuja essência 
A terra inteira vibra 
E a noite de estrelas premedita. 

A noite! Se fosse noite ... 
Mas os meus passos soam e não param, 
Mesmo parados pelo pensamento, 
Pelo terror que não acaba e perverte os sentidos 
A esquina do acaso; 
Outros mundos se somem, 
Outros no ar luzes refletem sem origem. 
É por eles que os meus passos não param. 
E é por eles que o mistério se incendeia. 

Tudo é tangível, luminoso e vago 
Na orla que se afasta e a ilha dobra 
Em balas de precário sonho... 
Tudo é possível porque à vida dura 
E a noite se desfaz 
Em altos silêncios puros. 
Mas nada impede o renascer da imagem, 
A infância perdida, reavida, 
Nuns olhos vagabundos debruçados, 
Junto a um regato que sem cessar murmura. 


Ruy Cinatti 
 in, Nós Não Somos Deste Mundo





segunda-feira, 23 de julho de 2018

Rosa

 




Diz-me, rosa, que pensar
do que em ti mesmo habita,
do que a tua lenta essência grita
e impõe a este espaço de escrita,
dessas tuas ânsias de voar?

Quantas vezes esse ar viste
desejar pelas coisas ser aberto
ou, através de um desconcerto
mostrar-se amargo e certo.
Enquanto à tua volta ele insiste,
rosa, em ficar perto.



RAINER MARIA RILKE
in, AS ROSAS






sexta-feira, 20 de julho de 2018

Elegias de Duino

 





Quem, se eu gritasse, entre as legiões dos Anjos
me ouviria? E mesmo que um deles me tomasse
inesperadamente em seu coração, aniquilar-me-ia
sua existência demasiado forte. Pois que é o Belo
senão o grau Terrível que ainda suportamos
e que admiramos porque, impassível, desdenha
destruir-nos? Todo Anjo é terrível.
E eu me contenho, pois, e reprimo o apelo
do meu soluço obscuro. Ai, quem nos poderia
valer? Nem Anjos, nem homens
e o intuitivo animal logo adverte
que para nós não há amparo
neste mundo definido. Resta-nos, quem sabe,
a árvore de alguma colina, que podemos rever
cada dia; resta-nos a rua de ontem
e o apego cotidiano de algum hábito
que se afeiçoou a nós e permaneceu.
E a noite, a noite, quando o vento pleno dos espaços
do mundo desgasta-nos a face – a quem furtaria ela,
a desejada, ternamente enganosa, sobressalto para o
coração solitário? Será mais leve para os que se amam?
Ai, apenas ocultam eles, um ao outro, seu destino.
Não o sabias? Arroja o vácuo aprisionado em teus braços
para os espaços que respiramos – talvez pássaros
sentirão o ar mais dilatado, num vôo mais comovido.

Sim, as primaveras precisavam de ti.
Muitas estrelas queriam ser percebidas.
Do passado profundo afluía uma vaga, ou
quando passavas sob uma janela aberta,
uma viola d’amore se abandonava. Tudo isto era missão.
Acaso a cumpriste? Não estavas sempre
distraído, à espera, como se tudo
anunciasse a amada? (Onde queres abrigá-la,
se grandes e estranhos pensamentos vão e vem
dentro de ti e, muitas vezes, se demoram nas noites?)
Se a nostalgia vier, porém, canta as amantes;
ainda não é bastante imortal sua celebrada ternura.
Tua quase as invejas – essas abandonadas
que te pareceram tão mais ardentes que as
apaziguadas. Retoma infinitamente o inesgotável
louvor. Lembra-te: o herói permanece, sua queda
mesma foi um pretexto para ser – nascimento supremo.
Mas às amantes, retoma-as a natureza no seio
esgotado, como se as forças lhe faltassem
para realizar duas vezes a mesma obra.
Com que fervor lembraste Gaspara Stampa,
cujo exemplo sublime faça enfim pensar uma jovem
qualquer, abandonada pelo amante: por que não sou
como ela? Frutificarão afinal esses longínquos
sofrimentos? Não é tempo daqueles que amam libertar-se
do objeto amado e superá-lo, frementes?
Assim a flecha ultrapassa a corda, para ser no vôo
mais do que ela mesma. Pois em parte alguma se detém.

Vozes, vozes. Ouve, meu coração, como outrora apenas
os santos ouviam, quando o imenso chamado
os erguia do chão; eles porém permaneciam ajoelhados,
os prodigiosos, e nada percebiam,
tão absortos ouviam. Não que possas suportar
a voz de Deus, longe disso. Mas ouve essa aragem,
a incessante mensagem que gera o silêncio.
Ergue-se agora, para que ouças, o rumor
dos jovens mortos. Onde quer que fosses,
nas igrejas de Roma e Nápoles, não ouvias a voz
de seu destino tranquilo? Ou inscrições não se ofereciam,
sublimes? A estela funerária em Santa Maria Formosa…
O que pede essa voz? A ansiada libertação
da aparência de injustiça que às vezes perturba
a agilidade pura de suas almas.

É estranho, sem dúvida, não habitar mais a terra,
abandonar os hábitos apenas aprendidos,
à rosas e a outras coisas singularmente promissoras
não atribuir mais o sentido do vir-a-ser humano;
o que se era, entre mãos trêmulas, medroas,
não mais o ser; abandonar até mesmo o próprio nome
como se abandona um brinquedo partido.
Estranho, não desejar mais nossos desejos. Estranho,
ver no espaço tudo quanto se encadeava, esvoaçar,
desligado. E o estar-morto é penoso
e quantas tentativas até encontrar em seu seio
um vestígio de eternidade. – Os vivos cometem
o grande erro de distinguir demasiado
bem. Os Anjos (dizem) muitas vezes não sabem
se caminham entre vivos ou mortos.
Através das duas esferas, todas as idades a corrente
eterna arrasta. E a ambas domina com seu rumor.

Os mortos precoces não precisam de nós, eles
que se desabituam do terrestre, docemente,
como de suave seio maternal. Mas nós,
ávidos de grandes mistérios, nós que tantas vezes
só através da dor atingimos a feliz transformação, sem eles
poderíamos ser? Inutilmente foi que outrora, a primeira
música para lamentar Linos, violentou a rigidez da
matéria inerte? No espaço que ele abandonava, jovem,
quase deus, pela primeira vez o vácuo estremeceu
em vibrações – que hoje nos trazem êxtase, consolo e amparo.




Rainer Maria Rilke
in, “ELEGIAS DE DUINO”, I e II (TRECHO)





quarta-feira, 18 de julho de 2018

Linha de Rumo

 




Quem não me deu Amor, não me deu nada.
Encontro-me parado…
Olho em redor e vejo inacabado
O meu mundo melhor.
Tanto tempo perdido…
Com que saudade o lembro e o bendigo:
Campos de flores
E silvas…
Fonte da vida fui. Medito. Ordeno.
Penso o futuro a haver.
E sigo deslumbrado o pensamento
Que se descobre.
Quem não me deu Amor, não me deu nada.
Desterrado,
Desterrado prossigo.
E sonho-me sem Pátria e sem Amigos.
Adrede.


Ruy Cinatti
In, O Livro do Nómada meu Amigo






terça-feira, 17 de julho de 2018

Quando o Amor Morrer Dentro de Ti

 




Quando o amor morrer dentro de ti, 
Caminha para o alto onde haja espaço, 
E com o silêncio outrora pressentido 
Molda em duas colunas os teus braços. 
Relembra a confusão dos pensamentos, 
E neles ateia o fogo adormecido 
Que uma vez, sonho de amor, teu peito ferido 
Espalhou generoso aos quatro ventos. 
Aos que passarem dá-lhes o abrigo 
E o nocturno calor que se debruça 
Sobre as faces brilhantes de soluços. 
E se ninguém vier, ergue o sudário 
Que mil saudosas lágrimas velaram; 
Desfralda na tua alma o inventário 
Do templo onde a vida ora de bruços 
A Deus e aos sonhos que gelaram. 


Ruy Cinatti
in, “Obra Poética”






sábado, 14 de julho de 2018

After a While

 




After a while you learn the subtle difference
Between holding a hand and chaining a soul,
And you learn that love doesn’t mean leaning 
And company doesn’t mean security,
And you begin to learn that kisses aren’t contracts
And presents aren’t promises.
And you begin to accept your defeats
With your head up and your eyes open
With the grace of a woman, not the grief of a child.
And you learn to build all your roads on today,
Because tomorrow’s ground is too uncertain for plans,
And futures have a way of falling down in mid-flight.
After a while you learn
That even sunshine burns if you get too much.
So you plant your own garden and decorate your own soul,
Instead of waiting for someone to bring you flowers.
And you learn that you really can endure,
That you really are strong,
And you really do have worth.
And you learn and learn,
With every goodbye you learn.


Veronica A. Shoffstall




Versão alterada do poema:

After some time you learn the difference,
The subtle difference between holding a hand and chaining a soul.
And you learn that love doesn’t mean leaning,
And company doesn’t always mean security.
And you begin to learn that kisses aren’t contracts,
And presents aren’t promises.
And you begin to accept your defeats,
With your head up and your eyes ahead,
With the grace of a woman, not the grief of a child.
And you learn to build all your roads on today,
Because tomorrow’s ground is too uncertain for plans,
And futures have a way of falling down in mid-flight.
After a while you learn,
That even the sun burns if you get too much,
And learn that it doesn’t matter how much you do care about,
Some people simply don’t care at all.
And you accept that it doesn’t matter how good a person is,
She will hurt you once in a while,
And you need to forgive her for that.
You learn that talking can relieve emotional pain.
You discover that it takes several years to build a relationship based on confidence,
And just a few seconds to destroy it.
And that you can do something just in an instant,
And which you will regret for the rest of your life.
You learn that the true friendships,
Continue to grow even from miles away.
And that what matters isn’t what you have in your life,
But who you have in your life.
And that good friends are the family,
Which allows us to choose.
You learn that we don’t have to switch our friends,
If we understand that friends can also change.
You realize that you are your best friend,
And that you can do anything, or nothing,
And have good moments together.
You discover that the people who you most care about in your life,
Are taken from you so quickly,
So we must always leave the people who we care about with lovely words,
It may be the last time we see them.
You learn that the circunstances and the enviroment have influence upon us,
But we are responsible for ourselves.
You start to learn that you should not compare yourself with others,
But with the best you can be.
You discover that it takes a long time to become the person you wish to be,
And that the time is short.
You learn that it doesn’t matter where you have reached,
But where you are going to.
But if you don’t know where you are going to,
Anywhere will do.
You learn that either you control your acts,
Or they shall control you.
And that to be flexible doesn’t mean to be weak or not to have personality,
Because it doesn’t matter how delicate and fragile the situation is,
There are always two sides.
You learn that heroes are those who did what was necessary to be done,
Facing the consequences.
You learn that patience demands a lot of practice.
You discover that sometimes,
The person who you most expect to be kicked by when you fall,
Is one of the few who will help you to stand up.
You learn that maturity has more to do with the kinds of experiences you had
And what you have learned from them,
Than how many birthdays you have celebrated.
You learn that there are more from you parents inside you than you thought.
You learn that we shall never tell a child that dreams are silly,
Very few things are so humiliating,
And it would be a tragedy if she belived in it.
You learn that when you are angry,
You have the right to be angry,
But this doesn’t give you the right to be cruel.
You discover that only because someone doesn’t love you the way you would like her to,
It doesn’t mean that this person doesn’t love you the most she can,
Beacuse there are people who love us,
But just don’t know how to show or live that.
You learn that sometimes it isn’t enough being forgiven by someone,
Sometimes you have to learn how to forgive yourself.
You learn that with the same harshness you judge,
Some day you will be condemned.
You learn that it doesn’t matter in how many pieces your heart has been broken,
The world doesn’t stop for you to fix it.
You learn that time isn’t something you can turn back,
Therefore you must plant your own garden and decorate your own soul,
Instead of waiting for someone to bring you flowers.
And you learn that you really can endure.
You really are strong .
And you can go so farther than you thougt you could go.
And that life really has a value.
And you have value within the life.
And that our gifts are betrayers,
And make us lose
The good we could conquer,
If it wasn’t for the fear of trying.


Veronica A. Shoffstall







quarta-feira, 11 de julho de 2018

Segunda Elegia de Natal

 




Teria hoje dezasseis anos
a nossa filha que nasceu morta
Só no silêncio a recordamos
tanto a sentimos à nossa volta

Ano após ano sempre em silêncio
emocionados fomos seguindo
todos os passos de um crescimento
no seu sorriso que nunca vimos

Subiu aos ferros da nossa cama
sem termos medo de que tombasse
Tocou nos livros que fui comprando
sem que rasgasse nem uma página

Andou connosco por longe e perto
sem ter saído do seu abrigo
Hoje intercede pelos meus netos
que nem suspeitam ser seus sobrinhos

Não teve nome    Não há retrato
E de tais dados não precisamos
Mesmo sem rosto cresceu-lhe o rasto
ao longo destes dezasseis anos

Senta-se à mesa da consoada
numa cadeira que não existe
mas cujas tábuas trazem a marca
das mãos aladas de Jesus Cristo

Agora vejo-a da tua altura
com uma fita sobre o cabelo
Vem ilibar-me de toda a culpa
dentro dos versos em que a descrevo

É tão sensata que até parece
ser mais adulta que nós os dois
Os nossos laços ela os aperta
Mal-entendidos ela os transpõe

É ela sempre quem nos reúne
Mais porventura que estando viva
Que importam chamas luas ou lumes
perante o brilho daquela cinza

Da sua morte nunca falamos
Ei-la a velar-nos do alto céu
E já tem hoje dezasseis anos
a nossa filha que não morreu.


David Mourão Ferreira






sábado, 7 de julho de 2018

Gulls

 




My townspeople, beyond in the great world,
are many with whom it were far more
profitable for me to live than here with you.
These whirr about me calling, calling!
and for my own part I answer them, loud as I can,
but they, being free, pass!
I remain! Therefore, listen!
For you will not soon have another singer. 

First I say this: you have seen 
the strange birds, have you not, that sometimes 
rest upon our river in winter? 
Let them cause you to think well then of the storms 
that drive many to shelter. These things 
do not happen without reason. 

And the next thing I say is this: 
I saw an eagle once circling against the clouds 
over one of our principal churches - 
Easter, it was - a beautiful day! 
three gulls came from above the river 
and crossed slowly seaward! 
Oh, I know you have your own hymns, I have heard them -
and because I knew they invoked some great protector 
I could not be angry with you, no matter 
how much they outraged true music - 

You see, it is not necessary for us to leap at each other, 
and, as I told you, in the end 
the gulls moved seaward very quietly.


William Carlos Williams






quarta-feira, 4 de julho de 2018

Essay on the One Hand and on the Other

 




Consider the palms. They are faces,
eyes closed, their five spread fingers
soft exclamations, sadness or surprise.
They have smile lines, sorrow lines, like faces.
Like faces, they are hard to read.

Somehow the palms, thought they have held my life
piece by piece, seem young and pale.
So much has touched them, nothing has remained.
They are innocent, maybe, though they guess
they have a darker side that they cannot grasp.

The backs of my hands, indeed, are so different
that sometimes I think they are not mine,
shadowy from the sun, all bones and strain,
but time on my hands, blood on my hands -
for such things I have never blamed my hands.

One hand writes. Sometimes it writes a reminder
on the other hand, which knows it will never write, 
though it has learned, in secret, how to type.
That is sad, perhaps, but the dominant hand is sadder,
with its fear that it will never, not really, be written on.

They are like an old couple at home. All day,
each knows exactly where the other is.
They must speak, though how is a mystery,
so rarely do they touch, so briefly come together,
now and then to wash, maybe in prayer.

I consider my hands, palms up. Empty, I say,
thought it is exactly then that they are weighing
not a particular stone or loaf I have chosen
but everything, everything, the whole tall world,
finding it light, finding it light as air.



James Richardson



segunda-feira, 2 de julho de 2018

Canção Breve

 




Tudo me prende à terra onde me dei:
o rio subitamente adolescente,
a luz tropeçando nas esquinas, 
as areias onde ardi impaciente. 

Tudo me prende do mesmo triste amor 
que há em saber que a vida pouco dura, 
e nela ponho a esperança e o calor 
de uns dedos com restos de ternura. 

Dizem que há outros céus e outras luas 
e outros olhos densos de alegria, 
mas eu sou destas casas, destas ruas, 
deste amor a escorrer melancolia. 


Eugénio de Andrade