sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Corinna Confesses

 

Tyler  Rayburn 







To think that my eyes once could draw your eyes down for a moment,
    From their lifting and straining up toward the opulent heights—
To think that my face was the face you liked best once to look on,
    When fairer ones softened to pleading ’neath shimmering lights!

Regret you? Not I! I am glad that your proud heart disowned me,
    The while it was lying so sullenly under my feet;
Since Love was to you but a snare and a pain, and you knew not
    Its height and its depth, all unsounded, and soundless, and sweet.

Too dark was the shadow that fell from your face bending over me—
    Too hot was the pant of your breath on the spring of my cheek!
I but dimly divined, yet I shrank from the warring of passions
    So strong that they circled and shook me while leaving you weak.

Acknowledge! You knew not aright if you loved me or hated;
    But you pushed me aside, since I hindered your seeing the heights.
They were but the cold, barren peaks up which selfish sould clamber,
    And for which they surrender the gardens of scented delights.

From where I am sitting I watch your lone steps going upward,
    And to-night I am back in those nights that we knew at the start.
I think of your eyes dark with pain, full of thwarted caressings,
    And suddenly, after these years, from my hold slips my heart!

But no matter! There’s too much between us—we cannot go back now
    I’m glad of it!—yes, I will say it right on to the end!—
I’m glad that my once sore-reluctant, tempestuous lover
    Hasn’t leisure nor heart now to be my most leisurely friend!

My lover! Why how you would fling me the word back in fury!
    Remembering you loved me at arms’ length, in spite of denial;
That the protests were double: each went from the struggle unconquered:
    The hour of soft, silken compliance was not on our dial.

You were angry for loving me, all in despite of your reasoning—
     I was angry because you were able to hold your love down;
And jealous—because in the scales of your logic you weighed me,
    And slighted me for the dry bread of a sordid renown.

So I laughed at your loving—I laughed in the teeth of your passion;
    And I made myself fair, but to stand in you light from sheer malice;
Delighting to hold up the brim to the lips that were thirsting,
    While I scorned to let fall on their dryness one drop from the chalice!

Alas, for the lips that are strange to the sweetness of kisses—
    The kisses we dream of, and cry for, and think on in dying!
Alas, for unspoken endearments that stifle the breathing;
    Since such in the depths of two hearts, never wedded, are lying!

You say, “It is best!” but I know that you catch your breath fiercely.
    I say, “It is best!” but a sob struggles up from my bosom;
For out of a million of flowers that our fingers are free of,
    The one that we care for the most is the never-plucked blossom.

Yet, O, my Unbroken, my strong one—too strong for my breaking!—
    I am glad of the hours when we warred with each other and Love:
Though you never drew nearer than once when your hair swept my fingers
    And their touch flushed your cheek as you bent at my side for my glove.

Never mind! I felt kisses that broke through the bitterest sayings.
    Never mind! since caresses were hid under looks that were proud.
Shall we say there’s no moon when she leaves her dear earth in the shadow
    And hides all her light in the breast of some opportune cloud?

Yet this germ of a love—could it ever have bourgeoned to fulness?—
    For us could there ever have been a sereneness of bliss,
With the thorns overtopping our flowers, turning fondness to soreness?
    Ah, no! ’twas a thousand times better it ended like this!

And yet, if I went to you now in the stress of your toiling—
    If we stood but one moment alone while I looked in your eyes—
What a melting of ice there would be! What a quickening of currents!
    What thrills of despairing delight betwixt claspings and cries!




Laura Redden Searing
(under the pseudonym Howard Glyndon)





quarta-feira, 29 de agosto de 2018

This is My Life

 

Abdullah Evindar 




To feed my soul with beauty till I die;
To give my hands a pleasant task to do;
To keep my heart forever filled anew
With dreams and wonders which the days supply;
To love all conscious living, and thereby
Respect the brute who renders up its due,
And know the world as planned is good and true—
And thus —because there chanced to be an I!

This is my life since things are as they are:
One half akin to flowers and the grass:
The rest a law unto the changeless star.
And I believe when I shall come to pass
Within the Door His hand shall hold ajar
I’ll leave no echoing whisper of Alas!



William Stanley Braithwaite





terça-feira, 28 de agosto de 2018

HOMEOPTOTO

 

Carlo Tarsia





Soubesse eu que me aceitas
Sentisse eu nos meus passos a firmeza que tem
nos seus a criança que vai para a escola
levada pelos olhos imensos da mãe
tivesse todo o meu ser a configuração
bastante pra caber na tua longa mão
e lá morrer essa mão onde todas as loucuras são
possíveis fosse a tua presença mais do que eu não ter
mais ninguém a meu lado
Não estivesse eu sujeito ao inverno que vem
mais carregado de memórias do que ninguém
E eu não procuraria este meu nome em vão
na folha que descreve o vento
nesta fronte onde vêm repousar as moscas
fronteira do meu pensamento
nas crianças de gestos decisivos
ou noutros pobres seres transitórios
(Nem tanta servidão precisaria para libertar
umas simples palavras do tempo)

Viesses tu beleza sempre antiga e sempre nova
encher aquela mão que abre
dentro de mim a inquietação
e a minha humilde prece tomaria a forma
do mais agudo ângulo das tuas duas mãos
onde toda a paisagem triangular termina
O teu silêncio ondularia menos que qualquer planície
tão pouco ambíguo como não sei que nuvem

Colhesses um por um os meus passos dispersos
achasses-me nos meus perdidos versos
e eu não repousaria nas ideias que estendo como mantas
nalgum pinhal à hora da sesta perto do mar
O teu lugar
seria sempre no côncavo do sonho
eu não me esqueceria
de agora ou logo ir-te lá buscar
E nestas tardes que sobre nós desdobras
passariam as dobras dos cuidados
Em nós quaisquer outonos morreriam 


Ruy Belo 
in, "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1





sexta-feira, 24 de agosto de 2018

HE WALKS WITH HIS CHIN IN THE AIR

 

Bella von Einsiedel




Life in you is an incurious madness. 
Tell me, how good is life that is not known 
And is but felt, like wind against the temples, 
Like touch beneath the feet, of turf or stone? 

But do not hear me, lover of life; an answer 
Is burning like a sorrow in my breast: 
There is flame in feeling, fineness in the knowing, 
And who shall say which way of life is best? 

Pass on, seeker, seeking the touch of spaces. 
Many the ways of life, and many a one 
Is all too brief a fluttering of hours 
To serve our purpose here beneath the sun.


Hazel Hall





quarta-feira, 22 de agosto de 2018

A Vida Continua

 




A realidade exige 
que por igual seja dito: 
a vida continua. 
Seja em Cannae, em Borodino, 
nos campos de Kosovo ou em Guernica. 

Há um posto de abastecimento
na pequena praça de Jericó, 
estão pintados de fresco 
os bancos de jardim na Montanha Branca. 
Trocam-se cartas 
entre Pearl Harbour e Hastings, 
uma carrinha de mobílias passa 
sob o olhar do leão de Queroneia, 
e, nos pomares em flor dos arredores de Verdun, 
a frente que se estende é só atmosférica. 

Tanto é o Tudo 
que nada velado está o Nada. 
Chega até nós a música dos iates em Ácio, 
e há pares nas cobertas, a dançar ao sol. 

Tanta coisa ocorre de contínuo 
que tem de ocorrer em toda a parte. 
Onde pedra sobre pedra houver, 
haverá um carro de gelados 
cercado de meninos. 

Onde havia Hiroshima 
há de novo Hiroshima 
e fábricas de coisa variadas 
para usar no dia-a-dia. 

Não faltam esplendores a este horroroso mundo, 
nem madrugadas 
para as quais vale a pena despertar. 

Nos campos de Maciejowice 
é verde a relva 
e na relva, como usa ser na relva, 
é transparente o orvalho. 

Talvez não haja lugares como os campos de batalha, 
uns ainda lembrados, 
outros esquecidos já, 
os bosques de cedros e os pinhais, 
as neves e as areias, pântanos de arco-íris 
e os trigais tremeses do negro flagelo, 
onde nalguma súbita aflição 
nos agachamos debaixo de um arbusto. 

A moral que decorre de tudo isto - porventura nenhuma. 
O que corre com certeza é algum sangue estancado depressa, 
e sempre algumas nuvens, alguns rios. 

Nos passos trágicos, 
o vento arranca das cabeças os chapéus 
e não há nada a fazer -
achamos graça.


Wislawa Szymborska






terça-feira, 21 de agosto de 2018

POEMA DE AMOR

 





Os segredos de amor têm profundezas difíceis de alcançar, 
tal como a chuva que hoje cai e nos molha na calçada a face,
nós olhando triste uma saudade imensa
num corpo de mulher metamorfoseada. 


Sou demasiado são para me esquecer
do tempo apaixonado que vivi nos teus braços
e bebo no teu um coração meu
adormecido no mar do meu cansaço
ou no rio das minhas secas lágrimas. 


Tardará muito, se é que as horas contam, 
ver-te, de novo, perto de mim, longe, 
mas eu espero, sou paciente e, no meu canhenho, aponto, 
um dia a menos, o da tua chegada. 
E assim me fico, rente ao horizonte,
abrigado da chuva numa cabine telefónica,
e ligo para ti - que número? - ninguém responde
do oceano que avança e retrai colinas,
o vulto de um navio, tu na amurada
acenando um lenço, ó minha pomba branca!...


Como se tempestade houvesse e um naufrágio de chuva
- as vidraças escorrem, as árvores liquefazem-se... - 
escurecendo os teus cabelos,
ou, se preferes, a minha boca neles 
carregada de ilhas, de nocturnos perfumes
que ateiam lumes, ó minha idolatrada, 
na minh' alma inquieta um outro bater d' asas
ou num jardim um leito de flores!...



Ruy Cinatti
in, Obra Poética




domingo, 19 de agosto de 2018

PELA VOZ CONTRAFEITA DA POESIA

 




Ah
onde estão os relógios que nos davam
o tempo generoso
os dedos virtuosos os pezinhos
musicais do tempo
as salas onde o luxo abria a asas
e voava de cadeira em cadeira
de sorriso em sorriso
até cair exausto mas feliz
na almofada muito azul do sono

Onde está o amor a sublime
rosa que os amantes desfolhavam
tão alheios a tudo raptados
pela mão aristocrática do tempo
o amor feito nos braços do regaço
de um tempo fácil
perdulário 
vosso

Hoje não é fácil o tempo
já não é vosso o tempo
viajantes de sonho que divide
doces irmãos da rosa
colunas do templo do Imóvel
prudentes amigos da vertigem
deliciados poetas duma angústia
sem visceras reais
já não é vosso o tempo.

Noivas do invisível
não é vosso o tempo
Relógios do eterno
não é vosso o tempo.


ALEXANDRE O'NEILL
in, TEMPO DE FANTASMAS






sábado, 18 de agosto de 2018

Carta para um amor

 





Os nossos companheiros tiveram
a coragem de partir,
vivem nas grandes cidades, com história,
do mundo,
eu fui covarde e fiquei.

Cidade!
nunca fui mais longe do que 
à raia de Espanha.
Creio amar Paris,
conheço Paris dos filmes, a Concórdia
dos postais, a Torre Eiffel divulgada,
Hitler passando sob o Arco do Triunfo.
Amo Paris em Aragon e Eluard,
Paris dos pintores, Paris de Eremburgo.
Amo outras cidades, todas grandes
cidades.
Madrid dos espanhóis e do coração despedaçado,
Stalinegrado das batalhas, Berlim do triunfo.
Nunca fui às grandes cidades,
amo-as porque os homens mas ensinaram
a amar.

Cidade, menina fútil
de pouca história,
carros pequenos nas ruas,
velas na baía, patinadores nos ringues,
terra de sete estuários,
de cinema e cafés buliçosos,
de alegrias e pequenas traições,
leviana, ingénua, snob, bonita,
mulata, branca,
hindu, negra
de cabelos louros e olhos amendoados,
morena sensual,
terra índica, minha terra,
minha amada inocente, prostituída.

Da escada de serviço e do elevador
para o prédio, do prédio para a rua,
da rua para a praça, da praça para a cidade,
da cidade para o subúrbio, onde crescem
a doença, o medo, a fome e o futuro,
(...)

Da escada de serviço e do elevador
para o prédio, do prédio para a rua,
da rua para a praça, da praça para a cidade,
da cidade para o subúrbio, onde crescem
a doença, o medo, a fome e o futuro,
(...)

Nós os humildes e os humilhados,
os que não temos rosto próprio porque somos
o rosto da multidão. Nós, o branco-branco,
o preto-preto e o branco-preto.
(...)

E velho guarda negro
do elevador, a piscar, a piscar um sono
nunca redimido. E o contínuo que não vai
de elevador, mas sobe pela escada de serviço
até o quinto andar, carregando em jeito
de via sacra a bicicleta da firma.
(...)

Na fuligem luminosa do cais, nas zonas
de carga e descarga, na longa fita de asfalto
ardente, na perigosa articulação dos ângulos
de betão do prédio de onze andares.
(...) Os que dormitam
atentos, em bancos públicos de jardim,
(...)

Os que alimentam de miséria a sua miséria
e outros que, estando melhor, a nutrem
na miséria de pequenas e grandes indústrias.
E os que nem sequer a alimentam
no lôbrego ventre de oficinas e fábricas

Toda população flutuante do elevador
e da escada de serviço, do prédio e da rua;
o senhor engenheiro com uma dor de corno
e dois projectos enguiçados; o clínico preso
aos afazeres (cinco prédios, uma hérnia estrangulada
e o consultório cheio de pacientes); o advogado
a correr atrás dos prazos, dos prazos
cada vez mais curtos; a senhora enfrentando
a crise difícil da menopausa, a viúva
de negro que vai ao médico com uma pontada
no baixo-ventre e uma amostra de urina
num frasco embrulhado em papel de jornal.

Esse perfil distante de cimento
e argamassa é toda uma geometria
decantada e gostosa molhando os quadris
deleitados no charco doce da baía.
Diacho, que perfil mais bonito, hem?


Rui Knopfli 
in, O País dos Outros





quinta-feira, 16 de agosto de 2018

A DANÇA

 




Não te amo como se fosses rosa de sal, topázio 
ou seta de cravos que propagam o fogo: 
amo-te como se amam certas coisas obscuras, 
secretamente, entre a sombra e a alma. 

Amo-te como a planta que não floriu e tem 
dentro de si, escondida, a luz das flores, 
e, graças ao teu amor, vive obscuro em meu corpo 
o denso aroma que subiu da terra. 

Amo-te sem saber como, nem quando, nem onde, 
amo-te directamente sem problemas nem orgulho: 
amo-te assim porque não sei amar de outra maneira, 

a não ser deste modo em que nem eu sou nem tu és, 
tão perto que a tua mão no meu peito é minha, 
tão perto que os teus olhos se fecham com meu sono.


PABLO NERUDA
in CEM SONETOS DE AMOR






quarta-feira, 15 de agosto de 2018

A DOR DE LEMBRAR

 




Não sei muito bem o que me liga a ti:
O passado, de que ainda me lembro,
E que não se pode mudar,
O futuro que ainda não foi escrito,
Ou essas memórias
Que não são minhas nem nossas
Porque nunca existiram.
Sei apenas que te lembro,
Que foste importante,
Que deixaste em mim
Essa marca demasiado profunda
Para que o tempo te mude ou te apague.

Depois a vida aconteceu,
As memórias misturam-se,
Confundem-se entre o que foi
E o que podia ter sido,
Esta a dor de lembrar
E o estar no presente.
Confrontar-me comigo mesma
Nesse espelho de censura
Que é a verdade,
Que é envelhecer e esquecer os sonhos
E a força com que se acredita
Por debaixo do tapete do quarto
Junto com aquilo que não se quer ver.

Lembro-me de ter sido jovem,
De ter sonhado,
De ter enterrado tudo quanto fui
E me fez sorrir.
Lembro-me e não queria lembrar,
é mais difícil suportar o presente,
Os dias que se esgotam, sem amanhã.


ANA BRILHA
in, A APOLOGIA DO SILÊNCIO






segunda-feira, 13 de agosto de 2018

QUANDO EU PARTIR

 

Aamer





Quando eu partir, quando eu partir de novo 
A alma e o corpo unidos, 
Num último e derradeiro esforço de criação; 
Quando eu partir... 
Como se um outro ser nascesse 
De uma crisália prestes a morrer sobre um muro estéril, 
E sem que o milagre se abrisse 
As janelas da vida. . . 
Então pertencer-me-ei. 
Na minha solidão, as minhas lágrimas 
Hão de ter o gosto dos horizontes sonhados na adolescência, 
E eu serei o senhor da minha própria liberdade. 
Nada ficará no lugar que eu ocupei. 
O último adeus virá daquelas mãos abertas 
Que hão de abençoar um mundo renegado 
No silêncio de uma noite em que um navio 
Me levará para sempre. 
Mas ali 
Hei de habitar no coração de certos que me amaram; 
Ali hei de ser eu como eles próprios me sonharam; 
Irremediavelmente... 
Para sempre. 


Ruy Cinatti
in, Nós Não Somos Deste Mundo







sábado, 11 de agosto de 2018

Nosso Tempo

 
Arnar Kristjansson




I

Esse é tempo de partido,
tempo de homens partidos.

Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se
na pedra.

Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,
penhor de meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimos, nenhum beijo
sobe ao ombro para contar-me
a cidade dos homens completos.

Calo-me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!
Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam o sentido, apenas querem explodir.

II

Esse é tempo de divisas,
tempo de gente cortada.
De mãos viajando sem braços,
obscenos gestos avulsos.

Mudou-se a rua da infância.
E o vestido vermelho
vermelho
cobre a nudez do amor,
ao relento, no vale.

Símbolos obscuros se multiplicam.
Guerra, verdade, flores?
Dos laboratórios platônicos mobilizados
vem um sopro que cresta as faces
e dissipa, na praia, as palavras.

A escuridão estende-se mas não elimina
o sucedâneo da estrela nas mãos.
Certas partes de nós como brilham! São unhas,
anéis, pérolas, cigarros, lanternas,
são partes mais íntimas,
e pulsação, o ofego,
e o ar da noite é o estritamente necessário
para continuar, e continuamos.

III

E continuamos. É tempo de muletas.
Tempo de mortos faladores
e velhas paralíticas, nostálgicas de bailado,
mas ainda é tempo de viver e contar.
Certas histórias não se perderam.
Conheço bem esta casa,
pela direita entra-se, pela esquerda sobe-se,
a sala grande conduz a quartos terríveis,
como o do enterro que não foi feito, do corpo esquecido na mesa,
conduz à copa de frutas ácidas,
ao claro jardim central, à água
que goteja e segreda
o incesto, a bênção, a partida,
conduz às celas fechadas, que contêm:
papéis?
crimes?
moedas?

Ó conta, velha preta, ó jornalista, poeta, pequeno historiados urbano,
ó surdo-mudo, depositário de meus desfalecimentos, abre-te e conta,
moça presa na memória, velho aleijado, baratas dos arquivos, portas rangentes, solidão e asco,
pessoas e coisas enigmáticas, contai;
capa de poeira dos pianos desmantelados, contai;
velhos selos do imperador, aparelhos de porcelana partidos, contai;
ossos na rua, fragmentos de jornal, colchetes no chão da
costureira, luto no braço, pombas, cães errantes, animais caçados, contai.
Tudo tão difícil depois que vos calastes...
E muitos de vós nunca se abriram.

IV

É tempo de meio silêncio,
de boca gelada e murmúrio,
palavra indireta, aviso
na esquina. Tempo de cinco sentidos
num só. O espião janta conosco.

É tempo de cortinas pardas,
de céu neutro, política
na maçã, no santo, no gozo,
amor e desamor, cólera
branda, gim com água tônica,
olhos pintados,
dentes de vidro,
grotesca língua torcida.
A isso chamamos: balanço.

No beco,
apenas um muro,
sobre ele a polícia.
No céu da propaganda
aves anunciam
a glória.
No quarto,
irrisão e três colarinhos sujos.

V

Escuta a hora formidável do almoço
na cidade. Os escritórios, num passe, esvaziam-se.
As bocas sugam um rio de carne, legumes e tortas vitaminosas.
Salta depressa do mar a bandeja de peixes argênteos!
Os subterrâneos da fome choram caldo de sopa,
olhos líquidos de cão através do vidro devoram teu osso.
Come, braço mecânico, alimenta-te, mão de papel, é tempo de comida,
mais tarde será o de amor.

Lentamente os escritórios se recuperam, e os negócios, forma indecisa, evoluem.
O esplêndido negócio insinua-se no tráfego.
Multidões que o cruzam não vêem. É sem cor e sem cheiro.
Está dissimulado no bonde, por trás da brisa do sul,
vem na areia, no telefone, na batalha de aviões,
toma conta de tua alma e dela extrai uma porcentagem.

Escuta a hora espandongada da volta.
Homem depois de homem, mulher, criança, homem,
roupa, cigarro, chapéu, roupa, roupa, roupa,
homem, homem, mulher, homem, mulher, roupa, homem,
imaginam esperar qualquer coisa,
e se quedam mudos, escoam-se passo a passo, sentam-se,
últimos servos do negócio, imaginam voltar para casa,
já noite, entre muros apagados, numa suposta cidade, imaginam.
Escuta a pequena hora noturna de compensação, leituras, apelo ao cassino, passeio na praia,
o corpo ao lado do corpo, afinal distendido,
com as calças despido o incômodo pensamento de escravo,
escuta o corpo ranger, enlaçar, refluir,
errar em objetos remotos e, sob eles soterrados sem dor,
confiar-se ao que bem me importa
do sono.

Escuta o horrível emprego do dia
em todos os países de fala humana,
a falsificação das palavras pingando nos jornais,
o mundo irreal dos cartórios onde a propriedade é um bolo com flores,
os bancos triturando suavemente o pescoço do açúcar,
a constelação das formigas e usurários,
a má poesia, o mau romance,
os frágeis que se entregam à proteção do basilisco,
o homem feio, de mortal feiúra,
passeando de bote
num sinistro crepúsculo de sábado.

VI

Nos porões da família
orquídeas e opções
de compra e desquite.
A gravidez elétrica
já não traz delíquios.
Crianças alérgicas
trocam-se; reformam-se.
Há uma implacável
guerra às baratas.
Contam-se histórias
por correspondência.
A mesa reúne
um copo, uma faca,
e a cama devora
tua solidão.
Salva-se a honra
e a herança do gado.

VII

Ou não se salva, e é o mesmo. Há soluções, há bálsamos
para cada hora e dor. Há fortes bálsamos,
dores de classe, de sangrenta fúria
e plácido rosto. E há mínimos
bálsamos, recalcadas dores ignóbeis,
lesões que nenhum governo autoriza,
não obstante doem,
melancolias insubornáveis,
ira, reprovação, desgosto
desse chapéu velho, da rua lodosa, do Estado.
Há o pranto no teatro,
no palco ? no público ? nas poltronas ?
há sobretudo o pranto no teatro,
já tarde, já confuso,
ele embacia as luzes, se engolfa no linóleo,
vai minar nos armazéns, nos becos coloniais onde passeiam ratos noturnos,
vai molhar, na roça madura, o milho ondulante,
e secar ao sol, em poça amarga.
E dentro do pranto minha face trocista,
meu olho que ri e despreza,
minha repugnância total por vosso lirismo deteriorado,
que polui a essência mesma dos diamantes.

VIII

O poeta
declina de toda responsabilidade
na marcha do mundo capitalista
e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas
prometa ajudar
a destruí-lo
como uma pedreira, uma floresta
um verme.



Carlos Drummond de Andrade