sábado, 29 de setembro de 2018

Narciso

 




Dentro de mim me quis eu ver. Tremia, 
Dobrado em dois sobre o meu próprio poço... 
Ah, que terrível face e que arcabouço 
Este meu corpo lânguido escondia! 

Ó boca tumular, cerrada e fria, 
Cujo silêncio esfíngico bem ouço! 
Ó lindos olhos sôfregos, de moço, 
Numa fronte a suar melancolia! 

Assim me desejei nestas imagens. 
Meus poemas requintados e selvagens, 
O meu Desejo os sulca de vermelho: 

Que eu vivo à espera dessa noite estranha, 
Noite de amor em que me goze e tenha, 
...Lá no fundo do poço em que me espelho! 


José Régio
in, 'Biografia' 






sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Nascença Eterna

 




Nascença Eterna, 
Nasce mais uma vez! 
Refaz a humílima Caverna 
Que nunca se desfez. 

Distância Transcendente, 
Chega-te, uma vez mais, 
Tão perto que te aqueças, como a gente, 
No bafo dos obscuros animais. 

Os que te dizem não, 
Os épicos do absurdo, 
Que afirmarão, na sua negação, 
Senão seu olho cego, ouvido surdo? 

Infelizes supremos, 
Com seu fracasso alcançam nomeada, 
E contentes se atiram aos extremos 
Do seu nada. 

Na nossa ambiguidade, 
Somos piores, nós, talvez, 
E uns e outros só vemos a verdade 
Que, Verdade de Sempre!, tu nos dês. 

Se nada tem sentido sem a fé 
No seu sentido, Sol que não te apagas, 
Rompe mais uma vez na noite, que não é 
Senão o dia de outras plagas. 

Perpétua Luz, Contínua Oferta 
A nossa escuridade interna, 
Abre-te, Porta sempre aberta, 
Mais uma vez, na humílima Caverna. 


José Régio
in, 'Obra Completa' 






quinta-feira, 27 de setembro de 2018

PARA ATRAVESSAR CONTIGO O DESERTO DO MUNDO

 




Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso 

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo 

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento.


SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
in, LIVRO SEXTO




quarta-feira, 26 de setembro de 2018

A SECRETA VIAGEM

 





No barco sem ninguém, anónimo e vazio, 
ficámos nós os dois, parados, de mão dada ... 
Como podem só os dois governar um navio? 
Melhor é desistir e não fazermos nada! 
Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos, 
tornamo-nos reais, e de maneira, à proa... 
Que figuras de lenda! Olhos vagos, perdidos... 
Por entre nossas mâos, o verde mar se escoa... 
Aparentes senhores de um barco abandonado, 
nós olhamos, sem ver, a longínqua miragem... 
Aonde iremos ter? - Com frutos e pecado, 
se justifica, enflora, a secreta viagem! 
Agora sei que és tu quem me fora indicada. 
O resto passa, passa... alheio aos meus sentidos. 
- Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada, 
a eternidade é nossa, em madeira esculpidos!


DAVID MOURÃO-FERREIRA
in, OBRA POÉTICA





terça-feira, 25 de setembro de 2018

His Journey's Just Begun

 




Don't think of him as gone away
his journey's just begun,
life holds so many facets
this earth is only one.

Just think of him as resting
from the sorrows and the tears
in a place of warmth and comfort
where there are no days and years.

Think how he must be wishing
that we could know today
how nothing but our sadness
can really pass away.

And think of him as living
in the hearts of those he touched...
for nothing loved is ever lost
and he was loved so much.



Ellen Brenneman






segunda-feira, 24 de setembro de 2018

ESTIGMA

 




Filhos dum deus selvagem e secreto
E cobertos de lama, caminhamos
Por cidades,
Por nuvens
E desertos.
Ao vento semeamos o que os homens não querem.
Ao vento arremessamos as verdades que doem
E as palavras que ferem.
Da noite que nos gera, e nós amamos,
Só os astros trazemos.
A treva ficou onde
Todos guardamos a certeza oculta
Do que nós não dizemos,
Mas que somos.


ARY DOS SANTOS





domingo, 23 de setembro de 2018

Drifting Flowers of the Sea

 





Across the dunes, in the waning light,
The rising moon pours her amber rays,
Through the slumbrous air of the dim, brown night
The pungent smell of the seaweed strays—
     From vast and trackless spaces
       Where wind and water meet,
         White flowers, that rise from the sleepless deep,
             Come drifting to my feet.
     They flutter the shore in a drowsy tune,
       Unfurl their bloom to the lightlorn sky,
         Allow a caress to the rising moon,
             Then fall to slumber, and fade, and die.

White flowers, a-bloom on the vagrant deep,
Like dreams of love, rising out of sleep,
You are the songs, I dreamt but never sung,
Pale hopes my thoughts alone have known,
Vain words ne’er uttered, though on the tongue,
That winds to the sibilant seas have blown.
      In you, I see the everlasting drift of years
        That will endure all sorrows, smiles and tears;
          For when the bell of time will ring the doom
            To all the follies of the human race,
               You still will rise in fugitive bloom
                  And garland the shores of ruined space.



Sadakichi Hartmann





sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Volta o Outono

 

Paula Bajanca





Um enlutado dia cai dos sinos
como teia tremente duma vaga viúva,
é uma cor, um sonho
de cerejas afundadas na terra,
é uma cauda de fumo que chega sem descanso
para mudar a cor da água e dos beijos.

Não sei se me entendem: quando lá do alto
se avizinha a noite, quando o solitário poeta
à janela ouve correr o corcel do Outono
e as folhas do medo calcado estalam nas suas artérias,
há qualquer coisa sobre o céu, como língua de boi
espesso, qualquer coisa na dúvida do céu e da atmosfera

Voltam as coisas ao lugar,
o advogado indispensável, as mãos, o óleo,
as garrafas,
todos os indícios da vida: sobretudo as camas
estão cheias dum líquido sangrento,
as pessoas depositam a confiança em sórdidos ouvidos,
os assassinos descem escadas,
e afinal não é isto, mas o velho galope,
o cavalo do velho Outono que treme e dura.

O cavalo do velho Outono tem a barbada vermelha
e a espuma do medo cobre-lhe as ventas
e o ar que o segue tem forma de oceano
e perfume de vaga podridão enterrada.

Todos os dias desce do céu uma cor de cinza
que as pombas devem repartir pela terra:
a corda que o esquecimento e as lágrimas entretecem,
o tempo adormecido longos anos dentro dos sinos,
tudo,
as velhas roupas traçadas, as mulheres que vêem chegar a neve
as papoilas negras que ninguém pode contemplar sem morrer,
tudo vem cair às mãos que levanto 
no meio da chuva.


Pablo Neruda






quinta-feira, 20 de setembro de 2018

FACTO

 




Tudo se acaba. É mentira.
Há parcelas que se juntam,
se adicionam,
como a ideia e o sentimento,
o tempo
perdido
e o momento de acção
iluminado.

Ninguém se convença
que acaba.
Há o céu que nos espera,
a sua ilusão
remordida até ao paroxismo.
Ou há passado
sem destino.

A dolorosa mensagem
da nossa vida
é estar: caminhar sempre;
atar as vides da vinha
vindimada.

Saber esperar.
Andar, andar,
nem que seja de rastos.


Ruy Cinatti
in, o Tédio Recompensado







Farewell dear Mother

 





Somewhere in my heart,
Beneath all of this pain,
Is a smile I still wear…
At the sound of your name.

The precious word is “MOTHER”
She was my world, you see,
But now my heart is breaking,
She’s no longer here with me.

God chose her for His angel
To watch me from above,
To guide me and advise me
And know that I’m still loved.

The day she had to leave me,
Her life on earth was through,
But God had better plans for her
For this, I surely knew.

When I think of her kind heart
And all those loving years,
Because we’re only human,
They’re bound to bring us tears.

She truly was my best friend,
Someone I could confide in,
She always had a tender touch,
A soft and gentle grin.

I want to thank you Mother
For teaching me so well,
Even though the time has come,
That I must bid you farewell.

I’ll remember all you’ve taught me
To put God above all others…
For I had no better teacher,
Than you…My Dear Mother.

Even though you’ve left this earth
And had to take your flight,
I know that you are here with me,
Each morning, noon and night.


Ruth Ann Mahaffey




quarta-feira, 19 de setembro de 2018

O TÉDIO RECOMPENSADO

 




I

Entre mulheres, eu sinto-me cansado.
Veio profundo
corre por mim
que aflora antigas ocorrências,
que me demovem
a fastidiosas empresas.

Sorrio agora
quando muito.

Há supercílios oculares que iludem
a passagem do tempo.


II

Mulher, mulheres, mulher,
fruto proibido
pela carne que ma nega.

Fruto desejado,
tomá-lo-ei nas mãos. Afluirei
aromas de mulher,
com ócios masculinos, reflectindo,
delicado.


III

Saciado,
procuro os teus lábios
semiabertos. Flor
quase a abrir-se…
Meto os teus dedos
nos meus. Suspiro fundo.
E renuncio ao mundo
esquecido de mim em ti.


RUY CINATTI 
in, O Tédio Recompensado





terça-feira, 18 de setembro de 2018

Migrações

 
Laura Zalenga





As transformações por que a alma passa 
são análogas às daquela árvore que tenho no quintal. Já a vi despida, 
ébria, numa ânsia de líquidos 
e nuvens. Depois vi-a 
resplandecente de folhas, pesada, 
impondo-me o respeito dos seus frutos - como 
se eles não estivessem ali para que eu os colhesse antes que 
apodreçam, caídos no chão, ou os pássaros os comam! E 
pergunto-me: que relação existe entre 
essa árvore nua do inverno, e a árvore sob o verde manto 
do verão? Serão os mesmos ramos os que se estendem na sua despida 
fragilidade, como se nada os prendesse no ar, e os que ostentam 
a jóia de flores e rebentos, com o seu ar primaveril? 

Ao cortá-los, para que não tapem o sol às plantas que têm de 
nascer à sua volta, penso nesta comparação 
entre a árvore e a alma; e em como, nas coisas da natureza, não se liga 
a sentimentos, deitando fora o que é inútil para que o novo possa ter
o seu lugar. Mas uma alma não se 
deixa podar, como a árvore. O seu crescimento faz-se sobre si mesma; não 
perde as folhas de um inverno para o outro; e as novas flores e frutos crescem 
sobre outras flores e frutos, juntando-se nessa mistura 
que obriga o homem a decidir, a ter de esquecer partes da sua vida, 
mesmo que saiba que a alma guarda tudo, e que um dia tudo voltará 
ao de cima. 

O que não é diferente, numa alma ou 
numa árvore, são os pássaros: tanto esses pardais que o outono leva, e 
o calor volta a trazer, como as aves abstractas que cantam, por vezes, por dentro 
da alma, no verão como no inverno. Só que estas, nenhuma fisga 
as enxota para o outro lado do muro. São as aves do poema. Voam 
num céu de palavras, como se tivessem todo o tempo do mundo 
para atravessar o horizonte. O poeta, esse, colecciona-as na página: presas 
como borboleta do entomologista louco, debatem-se numa agonia de asas (sim tal 
como esse pássaro visado pelo caçador, 
a ave da alma é tão mortal como o sopro do amor). 

Então, 
dou-lhes a sua ração diária de versos, alimentando-as 
com a tua imagem.  E elas 
sobrevivem.




Nuno Júdice 
in, "Cartografia de emoções"


domingo, 16 de setembro de 2018

PRIMEIRA ELEGIA DE DUÍNO

 

Rainer Maria Rilke, 1906
by George Bernard Shaw





Quem, se eu gritasse, entre as legiões dos Anjos
me ouviria? E mesmo que um deles me tomasse
inesperadamente em seu coração, aniquilar-me-ia
sua existência demasiado forte. Pois o que é o Belo
senão o grau do Terrível que ainda suportamos
e que admiramos porque, impassível, desdenha
destruir-nos? Todo Anjo é terrível.
E eu contenho, pois, e reprimo o apelo
do meu soluço obscuro. Ai, que nos poderia
valer? Nem Anjos, nem homens
e o intuitivo animal logo adverte
que para nós não há amparo
neste mundo definido. Resta-nos, quem sabe,
a árvore de alguma colina, que podemos rever
cada dia; resta-nos a rua de ontem
e o apego quotidiano de algum hábito
que se afeiçoou a nós e permaneceu.
E a noite, a noite, quando o vento pleno dos espaços
do mundo desgasta-nos a face – a quem se furtaria ela,
a desejada, ternamente enganosa, sobressalto para o
coração solitário? Será mais leve para os que se amam?
Ai, apenas ocultam eles, um ao outro, seu destino.
Não o sabias? Arroja o vácuo aprisionado em teus braços
para os espaços que respiramos – talvez os pássaros
sentirão o ar mais dilatado, num voo mais comovido.

Sim, as primaveras precisavam de ti.
Muitas estrelas queriam ser percebidas.
Do passado profundo afluía uma vaga, ou
quando passavas sob uma janela aberta,
uma viola d’amore se abandonava. Tudo isto era missão.
Acaso a cumpriste? Não estavas sempre
distraído, à espera, como se tudo
anunciasse a amada? (Onde queres abrigá-la,
se grandes e estranhos pensamentos vão e vêm
dentro de ti e, muitas vezes, se demoram nas noites?)
Se a nostalgia vier, porém, canta às amantes;
ainda não é bastante imortal sua celebrada ternura.
Tu quase as invejas – essas abandonadas
que te pareceram tão mais ardentes que as
apaziguadas. Retoma indefinidamente o inesgotável
louvor. Lembra-te: o herói permanece, sua queda
mesma foi um pretexto para ser – nascimento supremo.
Mas às amantes, retoma-as a natureza no seio
esgotado, como se as forças lhe faltassem
para realizar duas vezes a mesma obra.
Com que fervor lembraste Gaspara Stampa,
cujo exemplo sublime faça enfim pensar uma jovem
qualquer, abandonada pelo amante: por que não sou
como ela? Frutificarão afinal esses longínquos
sofrimentos? Não é tempo daqueles que amam libertar-se
do objeto amado e superá-lo, frementes?
Assim a flecha ultrapassa a corda, para ser no voo
mais do que ela mesma. Pois em parte alguma se detêm.

Vozes, vozes. Ouve, meu coração, como outrora apenas
os santos ouviam, quando o imenso chamado
os erguia do chão; eles porém permaneciam ajoelhados,
os prodigiosos, e nada percebiam,
tão absortos ouviam. Não que possas suportar
a voz de Deus, longe disso. Mas ouve essa aragem,
a incessante mensagem que gera o silêncio.
Ergue-se agora, para que ouças, o rumor
dos jovens mortos. Onde quer que fosses,
nas igrejas de Roma e Nápoles, não ouvias a voz
de seu destino tranquilo? Ou inscrições não se ofereciam,
sublimes? A estela funerária em Santa Maria Formosa…
O que pede essa voz? A ansiada libertação
da aparência de injustiça que às vezes perturba
a agilidade pura de suas almas.

É estranho, sem dúvida, não habitar mais a terra,
abandonar os hábitos apenas aprendidos,
às rosas e a outras coisas singularmente promissoras
não atribuir mais o sentido do vir-a-ser humano;
o que se era, entre mãos tremulas, medrosas,
não mais o ser; abandonar até mesmo o próprio nome
como se abandona um brinquedo partido.
Estranho, não desejar mais nossos desejos. Estranho,
ver no espaço tudo quanto se encadeava, esvoaçar,
desligado. E o estar-morto é penoso
e quantas tentativas até encontrar em seu seio
um vestígio de eternidade. – Os vivos cometem
o grande erro de distinguir demasiado
bem. Os Anjos (dizem) muitas vezes não sabem
se caminham entre vivos ou mortos.
Através das duas esferas, todas as idades a corrente
eterna arrasta. E a ambas domina com seu rumor.

Os mortos precoces não precisam de nós, eles
que se desabituam do terrestre, docemente,
como de suave seio maternal. Mas nós,
ávidos de grandes mistérios, nós que tantas vezes
só através da dor atingimos a feliz transformação, sem eles
poderíamos ser? Inutilmente foi que outrora, a primeira
música para lamentar Linos violentou a rigidez da
matéria inerte? No espaço que ele abandonava, jovem,
quase deus, pela primeira vez o vácuo estremeceu
em vibrações – que hoje nos trazem êxtase, consolo e amparo.


Rainer Maria Rilke






sexta-feira, 14 de setembro de 2018

The Old Man At The Sea

 



He stands silently looking seaward, 
Perhaps longing to be free? 
To be free from land's firm clutches 
To roam the endless sea? 

Perhaps he's just a dreamer? 
Staring at a peaceful tide. 
Or was he once a surfer 
Dreaming of huge waves to ride? 

There's a sadness in his staring, 
Looking neither left nor right. 
Standing on a lonely boardwalk 
From dawn to late at night. 

His suit has seen its best of days. 
His shirt unbuttoned at the top. 
There's a pride - Yes! There's a longing 
For his looking never stops. 

Does he see his early youth 
On a Merchant Navy ship? 
Did he fish the deepest oceans 
On each fraught, each dangerous trip? 

Did he lose his dearest love one 
In a battle with the foam? 
Or does he spend his lonely hours 
Wishing that the sea was home? 

There's an ocean full of questions 
Which he would think absurd. 
There's a sea so full of answers 
Which never will be heard!


Joe Hughes





 

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

A PALAVRA SEDA

 





A atmosfera que te envolve
atinge tais atmosferas
que transforma muitas coisas
que te concernem, ou cercam.

E como as coisas, palavras
impossíveis de poema:
exemplo, a palavra ouro,
e até este poema, seda.

É certo que tua pessoa
não faz dormir, mas desperta;
nem é sedante, palavra
derivada da de seda.

E é certo que a superfície
de tua pessoa externa,
de tua pele e de tudo
isso que em ti se tateia,

nada tem da superfície
luxuosa, falsa, académica,
de uma superfície quando
se diz que ela é “como seda”.

Mas em ti, em algum ponto,
talvez fora de ti mesma,
talvez mesmo no ambiente
que retesas quando chegas,

há algo de muscular,
de animal, carnal, pantera,
de felino, da substância
felina, ou sua maneira,

de animal, de animalmente,
de cru, de cruel, de crueza, que sob a palavra gasta
persiste na coisa seda.



João Cabral de Melo Neto