terça-feira, 30 de outubro de 2018

Tenho mil irmãs para amar

 




Tenho mil irmãs para amar sem palavras. 
Tenho aquela irmã que caminha encostada
às paredes e sem voz, tenho aquela irmã de
esperança, tenho aquela irmã que desfaz o
rosto quando chora. Tenho irmãs cobertas 
pelo mármore de estátuas, reflectidas pela
água dos lagos. Tenho irmãs espalhadas por
jardins. Tenho mil irmãs que nasceram 
antes de mim para que, quando eu nascesse,
tivesse uma cama de veludo. Agradeço com
amor a cada uma das minhas irmãs. São mil
e cada uma tem um rosto a envelhecer. As
minhas mil irmãs são mil mães que tenho.
Os olhos das minhas irmãs seguem-me com
bondade e, quando não me compreendem, 
é porque eu próprio não me compreendo. 
Tenho mil irmãs a esperar-me sempre, com
silêncio para ouvir-me e para proteger-me 
no inverno. Tenho aquela irmã que é uma
menina que sai de casa cedo para chegar cedo 
à escola e tenho aquela irmã que é uma 
menina que sai de casa cedo para chegar cedo
à escola. Tenho irmãs como música, como
música. Tenho mil irmãs feitas de branco.
Eu sou o irmão de todas elas. Sou o guardião
permanente e incansável do seu sossego.
Eu tenho de ser feliz pelas minhas irmãs.
Eu tenho de ser feliz pelas minhas irmãs.



JOSÉ LUIS PEIXOTO
in, GAVETA DE PAPÉIS 





domingo, 28 de outubro de 2018

FUNERAL BLUES





Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message 'He is Dead'.
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever: I was wrong.

The stars are not wanted now; put out every one,
Pack up the moon and dismantle the sun,
Pour away the ocean and sweep up the wood;
For nothing now can ever come to any good.


W. H. AUDEN
in, ANOTHER TIME




sexta-feira, 26 de outubro de 2018

LLAGAS DE AMOR

 




Esta luz, este fuego que devora.
Este paisaje gris que me rodea.
Este dolor por una sola idea.
Esta angustia de cielo, mundo y hora.

Este llanto de sangre que decora
lira sin pulso ya, lúbrica tea.
Este peso del mar que me golpea.
Este alacrán que por mi pecho mora.

Son guirnalda de amor, cama de herido,
donde sin sueño, sueño tu presencia
entre las ruinas de mi pecho hundido.

Y aunque busco la cumbre de prudencia,
me da tu corazón valle tendido
con cicuta y pasión de amarga ciencia.


FEDERICO GARCÍA LORCA
in, ANTOLOGÍA DE POESIA AMOROSA CASTELLANO-PORTUGUESA 




quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Mãe, eu quero ir-me embora

 





Mãe, eu quero ir-me embora — a vida não é nada 
daquilo que disseste quando os meus seios começaram 
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande, 
murcharam tão depressa as rosas que me deram —
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu 
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer. 
.
Mãe, eu quero ir-me embora — os meus sonhos estão 
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos, 
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais 
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos 
os sonhos que tiveste para mim — tenho a casa vazia, 
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei 
e o que amei de verdade nunca acordou comigo. 
.
Mãe, eu quero ir-me embora — nenhum sorriso abre 
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca. 
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez 
não chames pelo meu nome, não me peças que fique — 
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me 
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue 
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito 
como uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer. 
.
Mãe, eu vou-me embora — esperei a vida inteira por quem 
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta 
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem. 
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas 
essa voz, tu sabes, não é a tua — a última canção sobre 
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias 
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão 
tão grande, e as rosas que disseste que um dia chegariam 
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.



MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA
in, O CANTO DO VENTO NOS CIPRESTES





segunda-feira, 22 de outubro de 2018

POEMA 9

 




Para onde quer que vás a pequena gente não te entenderá
porque tu não fazes a imitação da vida.
A mais sombria das palavras pede sol à tua boca
e tu enches a boca de sol e vens até mim para ser poema,
para ficares cintilando com a luz do leopardo,
essa luz que os pintores misturam com a terra.
Para onde quer que vás a pequenina gente
não deixará de perseguir-te
com vozes que se quebram nas mãos cheias de pressa
levando à boca uma água de vespas,
oprimindo o brilho de todos os instantes; gente
que não aprendeu nunca a lição mais alta
dos pássaros e dos frutos.
Para onde quer que vás a sombra da pequena gente
morderá os teus pés,
gente árida, sem crenças, sem o sentido do amor,
assustada com o sonho, vivendo
na véspera dos dias.
Para onde quer que vás haverá um regresso.
No entanto, a pequena gente ficará lá, o rosto em contraluz,
com a antiquíssima inveja dos arbustos.
E aqui, na terra que tu mesma desejaste assim,
como um rio sem margens,
habitarás a árvore dos meus versos
cujos frutos molhados são palavras cantando.


JOAQUIM PESSOA
in, À MESA DO AMOR




sexta-feira, 19 de outubro de 2018

ONDE?

 

Laura Zalenga




Em busca da Verdade, o bem sagrado,
Tenho corrido todos os caminhos,
Ferido os pés em todos os espinhos,
Os horizontes todos perscrutado.

Aos tropeções, portanto ter andado,
A alma queimada em todos os cadinhos
Da Dor e da Amargura, bens mesquinhos,
Cheguei ao fim sem nada ter achado.

Exausta e só, voltei desiludida,
Mísera, nua, ao ponto da partida,
Sem, vislumbrar o bem que tanto almejo.

Meu Deus, suma Verdade, onde te escondes
Que aos meus brados de dor me não respondeis?
Onde existes, meu Deus, que não te vejo?



FLORBELA ESPANCA
in, OS ÚLTIMOS POEMAS DE FLORBELA ESPANCA





quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Princípio do dia

 




Rompe-me o sono um latir de cães
na madrugada. Acordo na antemanhã
de gritos desconexos e sacudo
de mim os restos da noite
e a cinza dos cigarros fumados
na véspera.
Digo adeus à noite sem saudade,
digo bom-dia ao novo dia.
Na mesa o retrato ganha contorno,
digo-lhe bom-dia
e sei que intimamente ele responde.

Saio para a rua
e vou dizendo bom-dia em surdina
às coisas e pessoas por que passo.

No escritório digo bom-dia.
Dizem-me bom-dia como quem fecha
uma janela sobre o nevoeiro,
palavras ditas com a epiderme,
som dissonante, opaco, pesado muro
entre o sentir e o falar.

E bom dia já não é mais a ponte
que eu experimentei levantar.
Calado,
sento-me à secretária, soturno, desencantado.

(Amanhã volto a experimentar).


RUI KNOPFLI







terça-feira, 16 de outubro de 2018

Ícaro

 





A minha Dor, vesti-a de brocado, 
Fi-la cantar um choro em melopeia, 
Ergui-lhe um trono de oiro imaculado, 
Ajoelhei de mãos postas e adorei-a. 

Por longo tempo, assim fiquei prostrado, 
Moendo os joelhos sobre lodo e areia. 
E as multidões desceram do povoado, 
Que a minha dor cantava de sereia... 

Depois, ruflaram alto asas de agoiro! 
Um silêncio gelou em derredor... 
E eu levantei a face, a tremer todo: 

Jesus! ruíra em cinza o trono de oiro! 
E, misérrima e nua, a minha Dor 
Ajoelhara a meu lado sobre o lodo. 


José Régio
in, 'Poemas de Deus e do Diabo'




sábado, 13 de outubro de 2018

Concluindo

 

Jean - Philippe Piter




"Concluindo, há pessoas que se compõem de 
atos, ruídos, retratos. 
Outras de palavras.
Poetas e tontos se compõem com palavras. "
Manoel de Barros 
.
O mundo não é feito de pessoas nem de casas nem de coisas 
menos ainda de afectos e sentidos. 
O mundo é feito com palavras pefiladas 
como pedras 
sobre pedra 
em cima de outra pedra, ainda. 
.
São de palavras de pedra as paredes do mundo: 
direitas e exactas como um fio de prumo. 
.
Se nos tiram a língua, 
as várias línguas que tem a nossa língua: 
esta língua com que te falo, 
a língua com que te beijo, 
esta mesma língua em que te digo esse nome que tu és, 
roubam-nos mais mundo ao nosso mundo. 
.
E um mundo rente, sem paredes, raso ao chão. 
que não se tenha de pé e num pé direito 
tão alto que lhe caibam todas as palavras empilhadas 
é um mundo do inverso e do regresso 
em que ao privilégio absurdo de viver se segue 
o direito adquirido de sofrer. 



RITA TABORDA DUARTE
in ROTURAS E LIGAMENTOS



sexta-feira, 12 de outubro de 2018

VISITATIONE

 




os ossos encheram-se de lodo e
eu comprei um albatroz empalhado
para te vigiar a alma - ao anoitecer

é com os dedos incendiados que enterro
os dias - esta poeira brilhante
que se desprende dos cedros e cai
na fissura entre a máscara e o rosto

um lume maligno solta-se então das águas
a pele adquire o sabor do estuque e do bolor
não há morte ou paixão
que esta cidade não conheça - mas o corpo

não se lembra de tudo - a noite ardendo
desperta o coração - este palácio de plâncton
e de fantasmas com asas de sombra

depois
talvez se ouça o canto quase límpido
do mundo - cinzas onde mergulho
para abrir o tempo e visitar tuas mãos
que a lucidez do amor escureceu


Al Berto
in, O Medo






quarta-feira, 10 de outubro de 2018

A Forma Justa

 




Sei que seria possível construir o mundo justo 
As cidades poderiam ser claras e lavadas 
Pelo canto dos espaços e das fontes 
O céu o mar e a terra estão prontos 
A saciar a nossa fome do terrestre 
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia 
Cada dia a cada um a liberdade e o reino 
— Na concha na flor no homem e no fruto 
Se nada adoecer a própria forma é justa 
E no todo se integra como palavra em verso 
Sei que seria possível construir a forma justa 
De uma cidade humana que fosse 
Fiel à perfeição do universo 

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco 
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo 



Sophia de Mello Breyner Andresen
in "O Nome das Coisas" 





terça-feira, 9 de outubro de 2018

Poema do Silêncio

 




Sim, foi por mim que gritei. 
Declamei, 
Atirei frases em volta. 
Cego de angústia e de revolta. 

Foi em meu nome que fiz, 
A carvão, a sangue, a giz, 
Sátiras e epigramas nas paredes 
Que não vi serem necessárias e vós vedes. 

Foi quando compreendi 
Que nada me dariam do infinito que pedi, 
- Que ergui mais alto o meu grito 
E pedi mais infinito! 

Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas, 
Eis a razão das épi trági-cómicas empresas 
Que, sem rumo, 
Levantei com sarcasmo, sonho, fumo... 

O que buscava 
Era, como qualquer, ter o que desejava. 
Febres de Mais. ânsias de Altura e Abismo, 
Tinham raízes banalíssimas de egoísmo. 

Que só por me ser vedado 
Sair deste meu ser formal e condenado, 
Erigi contra os céus o meu imenso Engano 
De tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano! 

Senhor meu Deus em que não creio! 
Nu a teus pés, abro o meu seio 
Procurei fugir de mim, 
Mas sei que sou meu exclusivo fim. 

Sofro, assim, pelo que sou, 
Sofro por este chão que aos pés se me pegou, 
Sofro por não poder fugir. 
Sofro por ter prazer em me acusar e me exibir! 

Senhor meu Deus em que não creio, porque és minha criação! 
(Deus, para mim, sou eu chegado à perfeição...) 
Senhor dá-me o poder de estar calado, 
Quieto, maniatado, iluminado. 

Se os gestos e as palavras que sonhei, 
Nunca os usei nem usarei, 
Se nada do que levo a efeito vale, 
Que eu me não mova! que eu não fale! 

Ah! também sei que, trabalhando só por mim, 
Era por um de nós. E assim, 
Neste meu vão assalto a nem sei que felicidade, 
Lutava um homem pela humanidade. 

Mas o meu sonho megalómano é maior 
Do que a própria imensa dor 
De compreender como é egoísta 
A minha máxima conquista... 

Senhor! que nunca mais meus versos ávidos e impuros 
Me rasguem! e meus lábios cerrarão como dois muros, 
E o meu Silêncio, como incenso, atingir-te-á, 
E sobre mim de novo descerá... 

Sim, descerá da tua mão compadecida, 
Meu Deus em que não creio! e porá fim à minha vida. 
E uma terra sem flor e uma pedra sem nome 
Saciarão a minha fome. 


José Régio 
in, 'As Encruzilhadas de Deus' 






segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Life and Death

 





Life is the companion of death;
death is the beginning of life,
Who can understand
how the two are related?
But if life and death are companions,
why should you be concerned?
All things are connected at the root.
We arrive here from the unknown
and go back to where we came from.

What people love about life
is its miraculous beauty;
what they hate about death
is the loss and decay around it.
Yet losing is not losing, and decay
turns into beauty, as beauty
turns back into decay.
We are breathed in, breathed out.
Therefore all you need
is to understand the one breath
that makes up the world.
The Master is always conscious
of the mistery at the heart of all things.



Stephen Mitchell, 
in, "The Second Book of the Tao"







sábado, 6 de outubro de 2018

A Mais Perfeita Imagem

 





Se eu varresse todas as manhãs as pequenas 
agulhas que caem deste arbusto e o chão 
que lhes dá casa, teria uma metáfora perfeita para 
o que me levou a desamar-te. Se todas as manhãs 
lavasse esta janela e, no fulgor do vidro, além 
do meu reflexo, sentisse distrair-se a transparência 
que o nada representa, veria que o arbusto não passa 
de um inferno, ausente o decassílabo da chama. 
Se todas as manhãs olhasse a teia a enfeitar-lhe os 
ramos, também a entendia, a essa imperfeição 
de Maio a Agosto que lhe corrompe os fios e lhes 
desarma geometria. E a cor. Mesmo se agora visse 
este poema em tom de conclusão, notaria como o seu 
verso cresce, sem rimar, numa prosódia incerta e 
descontínua que foge ao meu comum. O devagar do 
vento, a erosão. Veria que a saudade pertence a outra 
teia de outro tempo, não é daqui, mas se emprestou 
a um neurónio meu, unia memória que teima ainda 
uma qualquer beleza: o fogo de uma pira funerária. 
A mais perfeita imagem da arte. E do adeus.


Ana Luísa Amaral
in, 'A Arte de Ser Tigre'





quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Dia de Descanso

 




Hoje reservo o dia inteiro para chorar 
É o domingo decadente    em que muitos 
esperam pela morte de pé 
É o dia do sarro que vem à boca da mediocridade 
circular    dos gestos que andam disfarçados de gestos 
dos amores que deram em estribilhos 
das correrias pederásticas para o futebol em calções 
mais o melhor fato    e a mesquinhez nacional dos 10% 
de desconto em todo o vestuário 

E choro   choro   porque a coragem 
não me falta para tudo isto e assisto 
na nega de me ceder ao braço dado 

Precisarei de um cansaço mas 
lá estavam espertas 
as mil e não sei quantas lojas abertas 
para mo vender! 

Mas hoje é domingo 
Lá está o chão reluzente de martírio 
e nem já o sonho me dá de graça o ter por não ter 
já nem o amor que suponho me dá o sonho de ser 

E choro de coragem    isto é 
as lágrimas hão-de cair sêcas nas minhas mãos 
Falo cristalinamente sozinho 
procurando entre as paredes e as varandas que vão cair 
algum acaso    isto é 
o eco, de qualquer drama vazio 

Espero como quem espera 
o momento de posse entre dois ponteiros 
de torneira em torneira nas súplicas febris 
em que me trago aquecendo as mãos nas orelhas 
para as não cortar em gritos 
Espero e entretanto o mundo não se cansa 
de me dar drogas para dormir e criar 
novelos de lã à volta do coração 
Não me lastimo grito 
Quero que estas correntes da boca se tornem úteis 
e não ficar pr'aqui moldado estátua 
em verdete de ser chorado 
A tropeçar onde não há perigo 
com calçado duro a pisar as nuvens 
neste tão estreitado mundo 

Choro hoje o dia todo e lembro-me    o que disso 
podem pensar os homens das ideias revolucionárias 
e choro 
choro de coragem e para os microfones da revolução 
As lágrimas e a revolução são como a morte de cada um 

Cá do meu alto não se desce por escadas    mas por desalento 
por amor ao chão de terra que me pisam 

e choro neste dia burguês fazendo cá a minha revolução 
alheia às tais guerras de papel químico 

Espero sem esperança mas certo 
do que espero como de saber que um homem 
não chora e choro 

Choro hoje porque reservei o dia inteiro para chorar 
porque é domingo e o que espero não é a morte de pé 
talvez a coragem de que o mundo não esteja certo 

Uma vez era ainda pequeno 
chorei ao ver um prédio desabitado 
Moro nele mesmo aos domingos e rio-me 
das revoluções que ameaçam de pôr ou tirar-me as janelas 
Sei que nada adianta 
Vi o prédio desabitado era eu muito pequeno 
Nê-le me reservo hoje o dia todo à liberdade de me dar 
ao choro da coragem de esperar 

E espero porque mesmo que o mundo fique desabitado 
um grito afinal terá assim o seu eco 

Enquanto durar este domingo vou chorar gradualmente 
até que a noite me venha 
cobrir o corpo de abafo quente 

Então sairei à procura da prostituta cega 
para lhe contar junto ao peito 
como as pessoas se comportam aos domingos 


Fernando Lemos
in, 'Teclado Universal' 






terça-feira, 2 de outubro de 2018

GOLPE

 




Por medo da insónia adio o sono
nas noites em que com um golpe frio
a memória levanta a onda morta
do irrecuperável: o que adio?

Estou deitado num tempo muito extenso
entre a luz e o escuro, estou perdido
entre o imaginado e a verdade
de um mundo sem imagens: o que adio

não é o sono de que temo a falta
nem o sonho feroz nele contido
é a história do corpo percutindo
na fundura impiedosa do vazio.


GASTÃO CRUZ
in, EXISTÊNCIA