sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Poema I





A carga do desejo
e os corpos molestados…,
se o amor proibido esquece a condição
que os reprimia e avança sem fronteiras
até deixar que o laço se produza,
até que o sangue ferva
no cerne do prazer,
e cada vez a dor seja maior
quando os gritos transpiram o suor
dos loucos movimentos do delírio,
quando o franger dos ossos
quase que rasga acutilante a carne,
quando o amor se faz anunciar
mas tarde em sobrevir
Porém ele acontece. E sob os corpos
doloridos. Exaustos,
vai-se apagando a carga do desejo.


António Salvado
in, Odes






quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Projecto de Bodas







Hoje apetece que uma rosa seja 
o coração exterior do dia 
e a tua adolescência de cereja 
no meu bico de Isolda cotovia. 

Hoje apetece a intuição dum cais 
para a lucidez de não chegar a tempo 
e ficarmos violetas nupciais 
com a lua a celebrar o casamento. 

Apetece uma casa cor-de-rosa 
com um galo vermelho no telhado 
e os degraus duma seda vagarosa 
que nunca chegue à varanda do noivado. 

Hoje apetece que o cigarro saiba 
a ter fumado uma cidade toda. 
Ser o anel onde o teu dedo caiba 
e faltarmos os dois à nossa boda. 

Hoje apetece um interior de esponja 
E como estátua a que moldar o vento. 
Deitar as sortes e, se sair monja, 
Navegar ao acaso o meu convento. 

Hoje apetece o mundo pelo modo 
Como vai despenhar-se um trapezista. 
Abrir mais uma flor no nosso lodo: 
Pedir-lhe um salto e retirar-lhe a pista. 

Hoje apetece que a cor dum automóvel 
Seja o Egipto de novo em movimento; 
E que no espaço duma gota imóvel 
Caiba a possível capital do vento. 

Hoje apetece ter nascido loiro 
Como apetece ter havido Atenas; 
E tu nas curvas rápidas de um toiro. 
E eu quase intangível como as renas. 

Hoje apetece que venhas no jornal 
Como um anúncio. Sem fotografia. 
E inventar-te uma lenda de cristal 
Para reflectir a minha biografia. 


Natália Correia
in, 'O Sol nas Noites e o Luar nos Dias'






 

terça-feira, 27 de novembro de 2018

SÚPLICA

 




Agora que o silêncio é um mar sem ondas, 
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto. 
Só soubemos sofrer, enquanto 
O nosso amor 
Durou. 
Mas o tempo passou, 
Há calmaria... 
Não perturbes a paz que me foi dada. 
Ouvir de novo a tua voz seria 
Matar a sede com água salgada.


MIGUEL TORGA
in, CÂMARA ARDENTE 





segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Recado

 




desprende-se do teu olhar o magnífico abandono dos animais adormecidos
recordo tuas mãos gretadas pelos sóis oblíquos destes dias
do corpo esquecido jorram espessas resinas
retenho ainda os mais íntimos desejos de me confundir com a paisagem
ou de viver precariamente no outro lado do seu silêncio enrubescido

uma sombra pernoita nos interstícios das unhas
um desmaio, e da língua escorre uma madrugada de galos estáticos
a memória embaraça-me este caminhar de cão abandonado
reclino-me para cima de teu corpo ausente, isolo-me
na poeira, devagar, o sono vem como um ferimento às pálpebras
o mundo era feito de estiletes de luz, mas já te afastavas
devolvendo-me à vigília minuciosa dos meus gestos

ouviu-se então um grito, ou uma lágrima
falava-te daqui, onde nenhum corpo tem sentido ou se define no tempo
crosta de terra sem esperança, arquipélago de insónia, rectângulo sem sonho
treme-me a voz ao pensar em teu amargo nome
em mim envelheceram muitos países, e todos estes anos de fúria de viver

no entanto, fugirei de casa sempre que for preciso
sem arrependimento, atravessarei o tempo medonho dos objectos que tocaste
e possuirei de novo o fulgor dos teus frescos dezassete anos

(quase noite, amo)


Al Berto





sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Os Filhos





           
Vossos filhos não são vossos filhos.           
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.           
Vêm através de vós, mas não de vós.           
E embora vivam convosco, não vos pertencem.           
Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,           
Porque eles têm seus próprios pensamentos.           
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;           
Pois suas almas moram na mansão do amanhã,           
Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.           
Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós,           
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.           
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.           
O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força          
Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.           
Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria:           
Pois assim como ele ama a flecha que voa,           
Ama também o arco que permanece estável. 


Khalil Gibran
in, O Profeta


terça-feira, 20 de novembro de 2018

Devagar No Centro do Fogo





é claro que sei dizer palavras calmas
e amar devagar os que chegam a meu lado
e recordam o meu nome de todas as maneiras
com que ao redor da vida o foram construindo

é claro que sei inventar cantigas breves
das que à meia-noite perdem as notas mais vibrantes
quando fogem precipitadamente dos nossos bolsos

é claro que sei voltar a casa e abrir a porta
e fingir que tudo está perfeito sobre a mesa
e os objectos guardam os lugares de sempre
e eu continuo na moldura com um riso de quinze anos
tropeçando no teu ar sério quase a sair do retrato

é claro que sei passar os dedos devagar pelo teu corpo
nas noites em que chegas e dizes já não chove
como se colocasses no meu colo uma prenda de natal
e pudesses apagar a tempestade
no brevíssimo instante em que a vida se resume
aos nossos olhos tentando
acreditar que é cedo

é claro que sei esperar por ti
sabendo desde sempre que não vens e mesmo assim
escolho sem sobressalto a música perfeita
de te acolher no sono com o enevoado rumor
de todos os encontros improváveis

é claro que sei as palavras mesmo que as não diga
que misturas ao longe com os afiados gumes
com que tentas a custo perdoar-te
as horas roubadas a todos os seus legítimos donos

é claro que sei fechar as janelas às armadilhas
que as noites constroem dentro dos teus medos
e donde não consegues regressar
e com sorte encontrar numa cómoda
qualquer coisa tua que esqueceste
na pressa da saída e pensar
que foi por mim que ela apareceu
em tão estranho lugar

- mas quando entre os ruídos da noite
a tua ausência é a única divisão da casa
que razoavelmente partilhamos
tudo isso serve desculpa de muito pouco


Alice Vieira
in, Dois Corpos Tombando na Água






segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Amai-vos...

 




Amai-vos um ao outro,
mas não façais do amor um grilhão.

Que haja, antes, um mar ondulante
entre as praias de vossa alma.

Enchei a taça um do outro,
mas não bebais da mesma taça.

Dai do vosso pão um ao outro,
mas não comais do mesmo pedaço.

Cantai e dançai juntos,
e sede alegres,

mas deixai
cada um de vós estar sozinho.

Assim como as cordas da lira
são separadas e,
no entanto,
vibram na mesma harmonia.

Dai vosso coração,
mas não o confieis à guarda um do outro.

Pois somente a mão da Vida
pode conter vosso coração.

E vivei juntos,
mas não vos aconchegueis demasiadamente.

Pois as colunas do templo
erguem-se separadamente.

E o carvalho e o cipreste
não crescem à sombra um do outro.


Kahlil Gibran






sábado, 17 de novembro de 2018

Divina Música!

 




Filha da Alma e do Amor.
Cálice da amargura
e do Amor.
Sonho do coração humano,
fruto da tristeza.
Flor da alegria, fragrância
e desabrochar dos sentimentos.
Linguagem dos amantes,
confidenciadora de segredos.
Mãe das lágrimas do amor oculto.
Inspiradora de poetas, de compositores
e dos grandes realizadores.
Unidade de pensamento dentro dos fragmentos
das palavras.
Criadora do amor que se origina da beleza.
Vinho do coração
que exulta num mundo de sonhos.
Encorajadora dos guerreiros,
fortalecedora das almas.
Oceano de perdão e mar de ternura.
Ó música.
Em tuas profundezas
depositamos nossos corações e almas.
Tu nos ensinaste a ver com os ouvidos
e a ouvir com os corações.



Khalil Gibran






quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Estações

 




Gosto de te rever a silhueta
sob essa luz que revela
as cores quentes das folhas
que caem no Outono,
observando o desmaio suave
da tua saia no chão do quarto,
ou simples movimento descente
dos meus dedos pelo teu rosto.

Por detrás da horizonte das
memórias que construímos
repousa pergunta agreste que
sobrepuja o encantamento:
que pecado, silêncio ou grito
afugentou o Verão do nosso amor?

Sempre cuidaste as águas que navegas
plácidas como as de um lago
- avessas aos crepusculares arroubos de corsário velho de mil refregas! -
mas esquecidas do essencial:
até os barcos de água doce
pedem ventos e correntes que os animem,
como as cinzas suspiram pelo fogo
e as sementes pelo florir da árvore em nova Primavera.

Conjuro-te: em terra outrora fértil
ousemos ser jardineiros
podando velha árvore
ou dando à terra novas sementes.
Tanto faz! Mas não permaneças
na preguiçosa esperança de uma hibernação redentora. 
Lembra-te: o Inverno é longo, a vida breve, 
as recordações por si só mortais.

"Vem" e "adeus" esperam-nos:
abraço apaixonado ou costas voltadas,
decidamos nós sentença e destino, que
as estações seguem livre curso e
do juízo do tempo
não haverá apelação. 


Rui Amaral Mendes 
(RAM Maverick)
in, Frágil





terça-feira, 13 de novembro de 2018

O Louco

 




Perguntais-me como me tornei louco. 
Aconteceu assim: 
Um dia, muito tempo antes de muitos deuses terem nascido, 
despertei de um sono profundo 
e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas. 

sim, as sete máscaras que para mim tinha fabricado 
e utilizado nas minhas sete vidas. 

corri sem máscara pelas ruas cheias de gente gritando: 
- Ladrões, ladrões, malditos ladrões! 

Homens e mulheres riram-se de mim 
e alguns fecharam-se em casa, 
com medo de mim. 

E quando cheguei à praça do mercado, 
um rapaz que estava de pé 
no telhado da casa, 
gritou apontando-me com o dedo: 
- É um louco! 

Ergui os olhos para o ver, 
O sol banhou o meu rosto despido 
e a minha alma 
encheu-se de amor ao sol, 
e desde então 
nunca mais quis usar máscara. 

Depois gritei 
como se estivesse em transe: 
- Benditos, benditos os ladrões 
que me roubaram máscaras!” 

Foi assim que me tornei louco. 

encontrei muita liberdade 
e segurança 
na minha loucura; 
a liberdade da solidão 
e a segurança de nunca ser compreendido, 
pois aqueles que nos compreendem 
fazem de nós escravos. 

mas não deixem que me orgulhe demasiado 
da minha segurança; 
nem sequer o ladrão encarcerado 
está livre de encontrar outro ladrão. 


Khalil Gibran 
in O Louco




sábado, 10 de novembro de 2018

As irrevogáveis trevas

 
António Mora




1.


Alguns ligeiros dias virão
o engano na voz dos homens
o bafo sombrio dos anunciados astros
semeando o anoitecer 
nos acerados campos de setembro

homem despido de razões
a quem nem a subornável malícia
dos deuses consente o duvidoso consolo
de um maio sangrando às mãos da geada

até ao fim serás pequenina árvore
aí onde se desvanece o irrestrito pulsar
das manadas
como um vento que já não soubesse
por que montes acolher-se
quando absortos sinos anunciam
o amotinado repouso dos martelos

alguns ligeiros dias virão
às moradas onde o degredo é compassivo
e reverdece a caudalosa voz das antigas fúrias
razão desta vã arte
florescendo nos vastos campos da metrópole

vaticinado sucesso dos que se extraviaram 
pelo pez dos séculos
e porfiam que o infindável garrote
da intempérie
é a inocente visitação do deus

uma morada só acharás
em fundo precipício
aí onde gratos emboloram
ossos e meteoros 

2.

Como som para sempre extinto,
percute-te o sono a anfíbia música
da idade — desenho de sombras sob um
céu irreal onde o convulsivo eco
prediz o harmatão, seu coro de aflição.

Hás-de saber, no entanto,
que pela tarde destas mãos
espigam tributos matizados, 
simples matéria de assombro 
que a nora dos versos
polvilha de épicas fulgurações.

Real é dizer — anda o mar aqui
incrustado às minhas veias e as palavras
migram como aves que um aguarelista
pintasse à calota de um céu revolto.

Ao vê-las, no sépia disfarçado
em que os séculos uivam, juro
que uma rémora friável me infiltra
o coração que antes aqueci à pedra
onde tua boca, tuas coxas arrematei
num lance que hoje me escorra a orfandade.

Porém, nem sempre a sageza dos anos
nos ensina palavras com que suster o pranto,
porque o som que se extingue
no escuro da boca
é inumana infiel memória duma outra vida
tão para sempre ida 

— vagamente, um piério rumor te rediz
do mundo a inconclusa trama; agora
resta-te apenas a litania indecisa
dos corpos caminho do engano,
mas nenhuma queixa, nenhum lamento,
que sempre foi o naufrágio ciência dos audazes.


3.

Quem te disse adeus quando a manhã
se incendiou para o lado das searas?
Mar ao fundo, pobre horizonte de turista,
agora que a borrasca interdita
o polimento da alma nas escadarias do passado 

— fica o hálito, um rumor de véspera,
que não chega para acender no coração
o clarão da culpa, pois onde o látego
é consorte e o desterrado sonha
uma pátria improvável, não chegam
dos deuses o juízo e o preceito.

Quem pode, caminha até ao largo
onde o mundo arde em penas virtuais.
Mas tu não precisas de razões
para saber que nenhum cromado
polimento ilude a tua salitrada vocação
para a queda, desígnio que ombreia
com o tremendo rasgão do vento
desacoitando os óxidos embutidos à nascença.

Mesmo se tudo é cinza e passagem,
a ti, negro lázaro, que para uma segunda
morte hás-de nascer, oferto estes frutos
do fraco engenho, mudável reflexo
da vã alegria, fogo que ardesse
do princípio ao fim do mundo.


José Luiz Tavares
in, Lisbon Blues






quinta-feira, 8 de novembro de 2018

O AMOR EM VISITA

 
Christian Coigny




Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.
.
Cantar? Longamente cantar.
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas -
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes.
Ele - imagem vertiginosa e alta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.
Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.
.
Em cada mulher existe uma morte silenciosa.
E enquanto o dorso imagina, sob os dedos,
os bordões da melodia,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
- Oh cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.
.
Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.
E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para depois cantar a morte
e a alegria da morte.
.
Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
- Então cantarei a exaltante alegria da morte.
.
Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.
- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.
Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra - invento para ti a música, a loucura
e o mar.
.
Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza oculta,
o corpo iluminado pelas luzes longas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor? eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo -
eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada
beleza.
.
Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura,
não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.
.
Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida - e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém
teu silêncio de fogo e leite repõe a força
maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.
.
Mais inocente que as árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz sobre
as casas, a cidade arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos dementes,
arde a madeira - para que tudo cante
pelo teu poder fechado.
Com minha face cheia de teu espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo pudor
e a água inicial de outros sentidos.
.

Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.
.
Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
- Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.
Oh teoria de instintos, dom de inocência,
taça para beber junto à perturbada intimidade
em que me acolhes.
.
Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
- Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.
.
Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada em sua força e pungência.
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite
- o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.
.
Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.
.
Se te aprendessem minhas mãos, forma do vento
na cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
- No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca, e serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue.
.
Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
- Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.
.
As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso
jovem da carne aspiram longamente
a nossa vida. As sombras que rodeiam
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto
seu bárbaro fulgor, o rosto divino
impresso no lodo, a casa morta, a montanha
inspirada, o mar, os centauros
do crepúsculo
- aspiram longamente a nossa vida.
.
Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho,
no mosto aberto
- no amor mais terrível do que a vida.
.
Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo.
.
E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.
.
De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.
Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável -
em cada espasmo eu morrerei contigo.
.
E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.



HERBERTO HELDER
in, OBRA POÉTICA