terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Year's End





Now winter downs the dying of the year,
And night is all a settlement of snow;
From the soft street the rooms of houses show
A gathered light, a shapen atmosphere,
Like frozen-over lakes whose ice is thin
And still allows some stirring down within.

I’ve known the wind by water banks to shake
The late leaves down, which frozen where they fell
And held in ice as dancers in a spell
Fluttered all winter long into a lake;
Graved on the dark in gestures of descent,
They seemed their own most perfect monument.

There was perfection in the death of ferns
Which laid their fragile cheeks against the stone
A million years. Great mammoths overthrown
Composedly have made their long sojourns,
Like palaces of patience, in the gray
And changeless lands of ice. And at Pompeii

The little dog lay curled and did not rise
But slept the deeper as the ashes rose
And found the people incomplete, and froze
The random hands, the loose unready eyes
Of men expecting yet another sun
To do the shapely thing they had not done.

These sudden ends of time must give us pause.
We fray into the future, rarely wrought
Save in the tapestries of afterthought.
More time, more time. Barrages of applause
Come muffled from a buried radio.
The New-year bells are wrangling with the snow.


Richard Wilbur





segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

The Year


Antoine Janssens 



What can be said in New-Year rhymes,
That’s not been said a thousand times?

The new years come, the old years go,
We know we dream, we dream we know.

We rise up laughing with the light,
We lie down weeping with the night.

We hug the world until it stings,
We curse it then and sigh for wings.

We live, we love, we woo, we wed,
We wreathe our brides, we sheet our dead.

We laugh, we weep, we hope, we fear,
And that’s the burden of the year.


Ella Wheeler Wilcox




quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Resto De Gente





Sou pedaço de vida
deitado na Sombra
de uma multidão
sou força vencida
mergulhada e perdida
em desilusão
sou dor viciada
em choro e pranto
sem poder fugir
sou no sofrimento
o espelho do tempo
sem nunca o medir

Sou um rosto secreto
e incompreendido
na palavra sim
sou um resto de gente
vergado ao silêncio
não se riam de mim
sou povo enjeitado
em nudez de encanto
carrego minha cruz
sou um fado pesado
sou compasso trinado
sou canto sem luz

Se digo o que sinto
e minto no que sou
não o faço por querer
não me disfarço
nem me escondo
no falso sentido
do que acabo por ser
se me dou e desfaço
se luto esquecido
e vivo insatisfeito
sou no cinzento tristeza
verbo conjugado
pretérito imperfeito

Sou um rio parado
sem margens sem leito
sem fundo sem foz
Uma barca sem remos
sem redes sem leme
sem velas sem nós
Sou tarde poema
de versos sem rima
lenta de se pôr
sou por entre o nevoeiro
o que desaparece
e se apaga de cor

Sou um resto de gente
o que sobra do início
o que falta para o fim
vergado ao silêncio
não se riam mais de mim


João Jacinto
in, (Re)cantos da Lua





domingo, 22 de dezembro de 2019

UM ROSTO DE NATAL





Caiu sobre o país uma cortina de silêncio
a voz distingue o homem mas há homens que
não querem que os demais se elevem sobre os animais
e o que aos outros falta têm eles a mais
no dia de natal eu caminhava
e vi que em certo rosto havia a paz que não havia
era na multidão o rosto da justiça
um rosto que chegava até junto de mim de nicarágua
um rosto que me vinha de qualquer das indochinas
num mundo onde o homem é um lobo para o homem
e o brilho dos olhos o embacia a água.

Caminhava no dia de natal
e entre muitos ombros eu pensava 
em quanto homem morreu por um deus que nasceu.

A minha oração fora a leitura do jornal
e por ele soubera que o deus que cria
consentia em seu dia o terramoto de manágua
e que sobre os escombros inda havia
as ornamentações da quadra de natal.

Olhava aquele rosto e nesse rosto via
a gente do dinheiro que fugia em aviões fretados
e os pés gretados de homens humilhados
de pé sobre os seus pés se ainda tinham pés
ao longo de desertos descampados.

Morrera nesse rosto toda uma cidade
talvez para que às mulheres de ministros e banqueiros
se permita exercitar melhor a caridade.

A aparente paz que nesse rosto havia
como que prometia a paz da indochina a paz na alma.

Eu caminhava e como que dizia
àquele homem de guerra oculta pela calma:
se cais pela justiça alguém pela justiça
há-se erguer-se no sítio exacto onde caíste
e há-de levar mais longe o incontido lume
visível nesse teu olhar molhado e triste.

Não temas nem sequer o não poder falar
porque fala por ti o teu olhar.

Olhei mais uma vez aquele rosto era natal
é certo que o silêncio entristecia
mas não fazia mal pensei pois me bastara olhar
tal rosto para ver que alguém nascia.


RUY BELO
in, TODOS OS POEMAS II 






quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

A Supermarket in California





What thoughts I have of you tonight, Walt Whitman, for I walked down the
streets under the trees with a headache self-conscious looking at the full moon.

In my hungry fatigue, and shopping for images, I went into the neon fruit
supermarket, dreaming of your enumerations.
What peaches and what penumbras! Whole families shopping at night! Aisles
full of husbands! Wives in the avocados, babies in the tomatoes! --- and you,
Garcia Lorca, what were you doing down by the watermelons?

I saw you, Walt Whitman, childless, lonely old grubber, poking among the
meats in the refrigerator and eyeing the grocery boys.
I heard you asking questions of each: Who killed the pork chops? What price
bananas? Are you my Angel?
I wandered in and out of the brilliant stacks of cans following you, and
followed in my imagination by the store detective.
We strode down the open corridors together in our solitary fancy tasting
artichokes, possessing every frozen delicacy, and +never passing the cashier.

Where are we going, Walt Whitman? The doors close in an hour. Which way does
your beard point tonight?
(I touch your book and dream of our odyssey in the supermarket and feel
absurd.)
Will we walk all night through solitary streets? The trees add shade to
shade, lights out in the houses, we'll both be lonely.
Will we stroll dreaming of the lost America of love past blue automobiles in
driveways, home to our silent cottage?
Ah, dear father, graybeard, lonely old courage-teacher, what America did you
have when Charon quit poling his ferry and you got out on a smoking bank and
stood watching the boat disappear on the black waters of Lethe?


Allen Ginsberg





segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

A Love That Makes Everything Else More





It’s not that she doesn’t need him
Or only wants him
Ego satisfying lust
It’s just that she doesn’t need him
To be her
She doesn’t need him to define her spaces
Or edges
She doesn’t need him to have the same dreams she does 
To tell her yes or no
So she knows what her next move should be
She doesn’t need him to buy her the world
Or make it possible for her to believe in herself 
Because actually none of that 
Is really what matters most
None of that is about two wholes sharing their energy
Lighting the world on fire
But just because she doesn’t need him to pay for her dreams
Or become the little woman to
Tending house
And maintaining expiring gender roles 
Doesn’t mean she doesn’t need him
His soul
Energy
Because the thing with her is she doesn’t need just anyone 
She needs a someone who gives her what she can’t buy or provide for herself 
To compliment who she already is
Those aspects of life whose value exceeds any monetary quality at all
Because feeling truly understood 
Accepted
Having someone choose her
As fiercely as she chooses herself 
Someone who knows her tears are a sign of strength
And doesn’t bat an eyelash 
When once again she says I changed my mind
Because he knows he’s the one thing she won’t ever change her mind about
It’s about him
The one who can calm her storms
Call her on her shit
Make her laugh until she’s gasping for breath
And then kiss her making her loose it altogether 
It’s about a soft place to land
An arm over a curved waist at the end of a long day 
The deep exhale 
And eyes that continually look at her like it’s the first time
Every time
It’s needing him to understand that what she needs the most
Isn’t found
Will never be found
In anything he can give her
But in simply who he is
The space he shows up in for her
And the way that he gives her something no one else
Nothing else ever has
The way he
Makes life just a little more beautiful 
A little more full of light
Because for her that’s all she’s ever needed
A love
That just makes everything else more.


Kate Rose





sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Elogio da Sombra






A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)
pode ser o tempo de nossa felicidade.
O animal morreu ou quase morreu.
Restam o homem e sua alma.
Vivo entre formas luminosas e vagas
que não são ainda a escuridão.
Buenos Aires,
que antes se espalhava em subúrbios
em direção à planície incessante,
voltou a ser La Recoleta, o Retiro,
as imprecisas ruas do Once
e as precárias casas velhas
que ainda chamamos o Sul.
Sempre em minha vida foram demasiadas as coisas;
Demócrito de Abdera arrancou os próprios olhos para pensar;
o tempo foi meu Demócrito.
Esta penumbra é lenta e não dói;
flui por um manso declive
e se parece à eternidade.
Meus amigos não têm rosto,
as mulheres são aquilo que foram há tantos anos,
as esquinas podem ser outras,
não há letras nas páginas dos livros.
Tudo isso deveria atemorizar-me,
mas é um deleite, um retorno.
Das gerações dos textos que há na terra
só terei lido uns poucos,
os que continuo lendo na memória,
lendo e transformando.
Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte
convergem os caminhos que me trouxeram
a meu secreto centro.
Esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressurreições,
dias e noites,
entressonhos e sonhos,
cada ínfimo instante do ontem
e dos ontens do mundo,
a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,
os atos dos mortos,
o compartilhado amor, as palavras,
Emerson e a neve e tantas coisas.
Agora posso esquecê-las. Chego a meu centro,
a minha álgebra e minha chave,
a meu espelho.
Breve saberei quem sou.


Jorge Luis Borges





quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

CORAGEM





É necessário ter coragem para
aceitar os próprios defeitos,
questionar os próprios atos,
assumir os erros.
Aceitar os defeitos dos outros.
Enfrentar os mais fortes.
Dar a mão a quem mais ninguém dá.
Brincar como as crianças
Brincar com as crianças
Estar do lado das crianças, quando
falham,
estão tristes,
precisam de ajuda.
Estar do lado dos perdedores,
dos fracos,
dos desprezados,
dos esquecidos,
dos feios,
dos imperfeitos.

Não é necessário ter coragem para
censurarmo-nos a nós próprios,
censurar os outros,
bater nos mais fracos,
transferir responsabilidades,
virar as costas.
deixar as crianças entregues a si próprias quando
falham,
estão tristes,
precisam de ajuda.
Estar do lado dos vencedores,
dos fortes,
dos venerados,
dos bonitos,
dos perfeitos.

É necessário ter coragem para
Amar
Amparar
Ouvir
Libertar
Agradecer
Obedecer
Dizer a verdade
Praticar a justiça.

Não é necessário ter coragem para
Ralhar
Agredir
Despachar
Culpar
Desprezar
Controlar
Subjugar
Reprimir
Mentir.



CRISTINA TORRÃO
in, A MINHA PALAVRA - ANTOLOGIA DE ESCRITOS AVULSOS








quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

O DA NENA DE PEL BRANCA COMO A NEVE


Jamshid Tajdolat






13

Aquela muller estaba afeita
A torcer o destino
Cando non lle gustaba
O que intuía
Nel

Aquela muller rebelábase
Cada maná
Diante dun espello
Co seu cabelo salvaxe
Cubrindo as cicatrices da vida que levara
Antes de poõ.erse teas con encaixe
Refaixo e saia

Aquela muller querería berrar
Que baixo a pel transparente da casa real
Corría o sangue sucio das veas
Azuis
E que non está ben
Amosar a podredume
Porén
Non se arriscaba a que a acusasen
De terrorismo, desacato ou bruxería

Aquela muller podería abrir
Calquera porta
Podería ter
Calquera aspecto
Calquera idade
Calquera cor

No sangue
Vermello
Coma os labios da princesa viva
Violeta
Coma os labios da princesa morta

Aquela muller nunca matou a ninguén
Non por falta de vontade
Nin de oportunidade
Ata ela sabía que era o máis doado
E, polo tanto,
O menos interesante
Aquela muller non desempeñba ningún papel
Foi ela mesma
Quen quixo ser



PAULA CARBALLEIRA
in, HAI QUEN ESCOLLE OS CAMIÑOS MÁIS LONGOS






terça-feira, 10 de dezembro de 2019

AS PALAVRAS NÃO-AMADAS





As palavras não-amadas
desgastam-se
como películas usadas
pela desatenção do tempo

As palavras não-amadas
tornam-se vagas testemunhas
de um esplendor desprezado
vagueiam sem sentido
como solitárias carpas
no aquário do tempo

A marca do vivido
auto-usa-se
quando não acreditamos mais


ANA HATHERLY
in, O PAVÃO NEGRO





quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

EXPLICAÇÃO DA AUSÊNCIA


Sebastien Del Grosso






Desde que nos deixaste o tempo nunca mais se transformou
Não rodou mais para a festa não irrompeu
Em labareda ou nuvem no coração de ninguém.
A mudança fez-se vazio repetido
E o a vir a mesma afirmação da falta.
Depois o tempo nunca mais se abeirou da promessa
Nem se cumpriu
E a espera é não acontecer - fosse abertura -
E a saudade é tudo ser igual.


DANIEL FARIA
in, POESIA






sábado, 30 de novembro de 2019

POEMA DO DESAMOR






Desmama-te desanca-te desbunda-te
Não se pode morar nos olhos de um gato

Beija embainha grunhe geme
Não se pode morar nos olhos de um gato

Serve-te serve sorve lambe trinca
Não se pode morar nos olhos de um gato

Queixa-te coxa-te desnalga-te desalma-te
Não se pode morar nos olhos de um gato

Arfa arqueja moleja aleija
Não se pode morar nos olhos de um gato

Ferra marca dispara enodoa
Não se pode morar nos olhos de um gato

Faz festa protesta desembesta
Não se pode morar nos olhos de um gato

Arranha arrepanha apanha espanca
Não se pode morar nos olhos de um gato



ALEXANDRE O´NEILL
in, DEZANOVE POEMAS
POESIAS COMPLETAS




quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Arte Privada


Alexander Yakovlev






Deveria ter feito da minha música um amor mais silencioso 
como se de uma arte privada se tratasse. 

A ti, a quem falo de poesia, a ti 
que assistes ao desenrolar de qualquer coisa que não compreendes,
respondo-te que também eu não compreendo, 
que não há nada a compreender, 
porque nada nos condena à fala 
antes que as palavras aconteçam. 

Por exemplo, esse poema começado numa manhã de Junho 
e nunca terminado: um princípio de verão, 
a janela que dá para o alcatrão sem tráfego serpenteando pelas colinas. 

A rua de dia de semana 
e o arquipélago da solidão despertando 
para as poucas coisas que procuro 
e que o poema irá entretecer 
se entretecer. 
A virtude que, cega, 
vai conhecendo o seu caminho. 

Desprende-se um fio luminoso da impossibilidade das palavras, 
e se ficamos tristes não era para ficarmos, 
pois não existem momentos irrepetíveis. 

Eles aninham-se no sangue 
e voltam a mergulhar-nos na experiência: 
um dia de Verão, um bosque, colinas 
onde a serpente de alcatrão se enrola. 
A ausência de tráfego como motivo. 

A pouco e pouco vou recuperando a gravura. 
Agora sei que havia uma ave sobre as colinas, 
pois há sempre uma ave, ou a sombra dela, 
nos meus poemas. Que havia água, 
o cheiro das inusitadas chuvas 
pela manhã de Junho. 

O rumor da imagem colado aos dedos. 
O ocre escuro das areias espalhado na mesa 
é um símbolo da infância, 
mas não o reconheço ainda. 
O poema é uma enumeração que não teve lugar, 
que nunca terá. Eu, à beira do fracasso, 
não o reconheço ainda. 

Enquanto isso tem lugar em mim o advento 
do que me define, 
e o barro de que sou feito coze por dentro. 


Luís Quintais
in, A Imprecisa Melancolia




terça-feira, 26 de novembro de 2019

Eu Falo Das Casas E Dos Homens


Kenan Talas






Eu falo das casas e dos homens, 
dos vivos e dos mortos: 
do que passa e não volta nunca mais... 
Não me venham dizer que estava matematicamente 
previsto, 
ah, não me venham com teorias! 
Eu vejo a desolação e a fome, 
as angústias sem nome, 
os pavores marcados para sempre nas faces trágicas 
das vítimas. 
E sei que vejo, sei que imagino apenas uma ínfima, 
uma insignificante parcela da tragédia. 
Eu, se visse, não acreditava. 
Se visse, dava em louco ou profeta, 
dava em chefe de bandidos, em salteador de estrada, 
- mas não acreditava! 

Olho os homens, as casas e os bichos. 
Olho num pasmo sem limites, 
e fico sem palavras, 
na dor de serem homens que fizeram tudo isto: 
esta pasta ensanguentada a que reduziram a terra inteira, 
esta lama de sangue e alma, 
de coisa e ser, 
e pergunto numa angústia se ainda haverá alguma 
esperança, 
se o ódio sequer servirá para alguma coisa... 

Deixai-me chorar - e chorai! 
As lágrimas lavarão ao menos a vergonha de estarmos 
vivos, 
de termos sancionado com o nosso silêncio o crime feito
instituição 
e enquanto chorarmos talvez julguemos nosso o drama, 
por momentos será nosso um pouco do sofrimento alheio, 
por um segundo seremos os mortos e os torturados, 
os aleijados para toda a vida, os loucos e os encarcerados, 
seremos a terra podre de tanto cadáver, 
seremos o sangue das árvores, 
o ventre doloroso das casas saqueadas, 
- sim, por um momento seremos a dor de tudo isto... 

Eu não sei porque me caem as lágrimas, 
porque tremo e que arrepio corre dentro de mim, 
eu que não tenho parentes nem amigos na guerra, 
eu que sou estrangeiro diante de tudo isto, 
eu que estou na minha casa sossegada, 
eu que não tenho guerra à porta, 
- eu porque tremo e soluço? 
Quem chora em mim, dizei - quem chora em nós? 

Tudo aqui vai como um rio farto de conhecer os seus 
meandros: 
as ruas são ruas com gente e automóveis, 
não há sereias a gritar pavores irreprimíveis, 
e a miséria é a mesma miséria que já havia... 
E se tudo é igual aos dias antigos, 
apesar da Europa à nossa volta, exangue e mártir, 
eu pergunto se não estaremos a sonhar que somos gente, 
sem irmãos nem consciência, aqui enterrados vivos, 
sem nada senão lágrimas que vêm tarde, e uma noite 
à volta, 
uma noite em que nunca chega o alvor da madrugada... 


Adolfo Casais Monteiro




domingo, 24 de novembro de 2019

O Que Somos





Uma vertigem, 
a dor que não passa, 
um sabor que nos falta, 
uma ardência que nos gasta. 

Por tudo isto nos movemos 
sem conhecer, muito bem, 
o destino final. 

Os amores, 
as estórias que necessitamos contar. 

De repente, 
vindo de um sítio inexplicável, 
alguém nos dá um beijo. 

Duas lágrimas embelezam uma face. 
Partes de um todo escondido.
É quase uma loucura, 
servida numa bandeja de fogo, 
a amálgama de sentimentos 
que faz de nós sua casa. 

Correr como uma criança, 
não olhar aos obstáculos, 
ultrapassar o impossível. 
Dar e pedir colo.

Somos, 
por vezes, 
a impossível convivência. 
Quase bichos. 
A muito estranha maneira de estar. 
A resposta sem sentido. 
As desculpas e o perdão. 
Tudo sem confissão nem genuflexório. 
Só festas e olhares de crianças perdidas. 
A absolvição sem rezas nem sacrifícios. 
Apenas uma dádiva, 
um colar de braços 
e uns lábios que se colam aos nossos. 
Os corpos ligados.

Somos uma montanha russa 
de sentimentos por estabilizar. 
Somos muitas vezes a louca e abrupta descida, 
o looping infernal. 
De cabeça para baixo, 
enchemos a consciência 
de tudo o que nos erra pelo corpo. 
Ficamos prenhes de coisas novas.

Nunca mais seremos os mesmos.


JORGE C. FERREIRA



quinta-feira, 21 de novembro de 2019

The Moment


Margaret Atwood
by Tim Walker




The moment when, after many years
of hard work and a long voyage,
you stand in the centre of your room,
house, half-acre, square mile, island, country,
knowing at last how you got there,
and say, I own this,
is the same moment the trees unloose
their soft arms from around you,
the birds take back their language,
the cliffs fissure and collapse,
the air moves back from you like a wave
and you can’t breathe.

No, they whisper. You own nothing.
You were a visitor, time after time
Climbing the hill, planting the flag, proclaiming.

We never belonged to you.
You never found us.
It was always the other way round.


~ Margaret Atwood





terça-feira, 19 de novembro de 2019

Your Mother Is Always With You





Your mother is always with you…
She’s the whisper of the leaves
as you walk down the street.

She’s the smell of bleach in
your freshly laundered socks.

She’s the cool hand on your
brow when you’re not well.

Your mother lives inside
your laughter. She’s crystallized
in every tear drop…

She’s the place you came from,
your first home. She’s the map you
follow with every step that you take.

She’s your first love and your first heart
break….and nothing on earth can separate you.

Not time, Not space…
Not even death….
will ever separate you
from your mother….

You carry her inside of you….



Sherry Martin 





sexta-feira, 15 de novembro de 2019

A VIDA





A vida, as suas perdas e os seus ganhos, a sua
mais que perfeita imprecisão, os dias que contam
quando não se espera, o atraso na preocupação
dos teus olhos, e as nuvens que caíram
mais depressa, nessa tarde, o círculo das relações
a abrir-se para dentro e para fora
dos sentidos que nada têm a ver com círculos,
quadrados, rectângulos, nas linhas
rectas e paralelas que se cruzam com as
linhas da mão;

a vida que traz consigo as emoções e os acasos,
a luz inexorável das profecias que nunca se realizaram
e dos encontros que sempre se soube que
se iriam dar, mesmo que nunca se soubesse com
quem e onde, nem quando; essa vida que leva consigo
o rosto sonhado numa hesitação de madrugada,
sob a luz indecisa que apenas mostra
as paredes nuas, de manchas húmidas
no gesso da memória;

a vida feita dos seus
corpos obscuros e das suas palavras
próximas.



NUNO JÚDICE
in, TEORIA GERAL DO SENTIMENTO