quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Silêncio





Assim como do fundo da música 
brota uma nota 
que enquanto vibra cresce e se adelgaça 
até que noutra música emudece, 
brota do fundo do silêncio 
outro silêncio, aguda torre, espada, 
e sobe e cresce e nos suspende 
e enquanto sobe caem 
recordações, esperanças, 
as pequenas mentiras e as grandes, 
e queremos gritar e na garganta 
o grito se desvanece: 
desembocamos no silêncio 
onde os silêncios emudecem.


Octavio Paz
in, "Liberdade sob Palavra"




terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Árvore





Onde os frutos maduram:
sal e sol em minhas veias,
luz e mel em boca alheia.

Onde plantei
a alta acácia das febres
eu mesmo me deitei,
para ser a raiz da semente,
e de madeira e seiva
se fez o meu corpo.

Agora,
chove dentro de mim,
em minhas folhas se demoram gotas,
suspensas entre um e outro Sol.

Em mim pousam
cantos e sombras
e eu não sei
se são aves ou palavras.



Mia Couto
in, Vagas e Lumes




segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

AMO-TE AÍ CONTRA O MURO DESTRUÍDO





AMO-TE AÍ
CONTRA O MURO DESTRUÍDO 


Amo-te aí contra o muro destruído 
contra a cidade e contra o sol e contra o vento 
contra o outro que eu amo e se ficou 
como um guerreiro apanhado nas recordações 

Amo-te contra os teus olhos que se apagam 
e sofrem por dentro esta superfície vã 
e suspeitam vinganças 
e mortes por desolação ou por fastio 

Amo-te para além de portas e esquinas 
de comboios que partiram sem nos levar 
de amigos que se afundaram ascendendo 
janelas periódicas e estrelas 

Amo-te contra a tua alegria e o teu regresso 
contra a dor que estilhaça os teus seres mais amados 
contra o que pode ser e o que foste 
cerimónia nocturna por lugares fantásticos 

Amo-te contra a noite e o verão
contra a luz e a tua semelhança silenciosa
contra o mar e setembro e os lábios que te exprimem 
contra o fumo invencível dos mortos 



HOMERO ARIDJIS
in, QUAL É A MINHA OU A TUA LÍNGUA? 
CEM POEMAS DE AMOR DE OUTRAS LÍNGUAS





sábado, 26 de janeiro de 2019

À MARGEM DE MIM





À MARGEM DE MIM
NÃO HÁ HERÓIS
Digo-te do meu passado porque do futuro não sei. 

Sou do tempo em que não havia heróis. 
E eu também não o sou. 
O escuro continua a ser ele mesmo. 
Com tudo. Todas as sombras. Todos os mistérios. Todos os medos. 
Vejo-me deitado. Na minha cama. 
Com a porta aberta, a cabeça coberta e a luz acesa. 
Para os afastar. A eles. Aos (meus) medos. 
Mas sabes, eu sabia que eles não iam embora. 
Eu sabia que continuavam lá. 
Todos. Escondidos na luz. À minha espera. 
Porque eu nunca fui um herói. 
Fui sempre só um somatório de medos. 
Todos os medos. Na luz. 
Cheio de sombras escondidas.

Depois tu. 
O ter de crescer para ti. 
O ter de ser forte para ti. 
E contigo fui-os esquecendo. 
Arrumados. Em gavetas. 
Mas sabes, hoje tenho ainda os medos. 
E para além deles, um medo maior. 
O medo de chegar e já não seres tu. 
O medo que me esqueças. 
Porque é tanto o que já esqueceste. 
O pano em cima da mesa. 
Os medicamentos na caixa. 
O almoço. 
As horas. 
Até de ti. 
Só resto eu. E tenho medo. 
E agora não adianta cobrir a cabeça, abrir a porta, nem acender a luz. 
Não resulta. 
Não funciona com este medo. 
Embora acenda a luz por diversas vezes - para ver se estás. 
Embora deixe a porta aberta - para poderes circular. 
Embora cubra por vezes a cabeça - para ficar mais junto a ti. 

Um dia (breve) sei que serei eu. 
Sei que irei chegar e já não irás estar. 
Não vais ser mais tu. 
Não irei ser mais eu para ti. 
E eu, que não sou um herói. 
Que sou apenas um somatório de medos, a saltar das gavetas. 
Eu não sei. 
Como vou conseguir viver, sem mim, em ti.


Filipe Paixão




sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

FIDELIDADE





Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
como a só presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quanto assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
como outra vida. Ou como solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais que o momento de estar só consigo?

Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos, se voltassem.


JORGE DE SENA
in, POESIA





quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

PROCURO-TE






Procuro a ternura súbita, 
os olhos ou o sol por nascer 
do tamanho do mundo, 
o sangue que nenhuma espada viu, 
o ar onde a respiração é doce, 
um pássaro no bosque 
com a forma de um grito de alegria. 

Oh, a carícia da terra, 
a juventude suspensa, 
a fugidia voz da água entre o azul 
do prado e de um corpo estendido. 

Procuro-te: fruto ou nuvem ou música. 
Chamo por ti, e o teu nome ilumina 
as coisas mais simples: 
o pão e a água, 
a cama e a mesa, 
os pequenos e dóceis animais, 
onde também quero que chegue 
o meu canto e a manhã de maio. 

Um pássaro e um navio são a mesma coisa 
quando te procuro de rosto cravado na luz. 
Eu sei que há diferenças, 
mas não quando se ama, 
não quando apertamos contra o peito 
uma flor ávida de orvalho. 

Ter só dedos e dentes é muito triste: 
dedos para amortalhar crianças, 
dentes para roer a solidão, 
enquanto o verão pinta de azul o céu 
e o mar é devassado pelas estrelas. 

Porém eu procuro-te. 
Antes que a morte se aproxime, procuro-te. 
Nas ruas, nos barcos, na cama, 
com amor, com ódio, ao sol, à chuva, 
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te.



EUGÉNIO DE ANDRADE
in, AS PALAVRAS INTERDITAS





terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Wild Geese





You do not have to be good.
You do not have to walk on your knees
for a hundred miles through the desert repenting.
You only have to let the soft animal of your body
love what it loves.
Tell me about despair, yours, and I will tell you mine.
Meanwhile the world goes on.
Meanwhile the sun and the clear pebbles of the rain
are moving across the landscapes,
over the prairies and the deep trees,
the mountains and the rivers.
Meanwhile the wild geese, high in the clean blue air,
are heading home again.
Whoever you are, no matter how lonely,
the world offers itself to your imagination,
calls to you like the wild geese, harsh and exciting -
over and over announcing your place
in the family of things.
           


Mary Oliver




sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Reconhecimento à loucura





Já alguém sentiu a loucura
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exatamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descer abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevidamente
e ganhar-Ihe, e ganhar-Ihe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?

Tu Só, loucura, és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais.
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar.


Almada Negreiros
   



quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Notas para o diário





deus tem que ser substituído rapidamente por poe-
mas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis,
vivos e limpos.

a dor de todas as ruas vazias.

sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste
silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abis-
mo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de aca-
bar comigo mesmo.

a dor de todas as ruas vazias.

mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do
deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e
dos encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu cora-
ção, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.

a dor de todas as ruas vazias.

pois bem, mário – o paraíso sabe-se que chega a lis-
boa na fragata do alfeite. basta pôr uma lua nervosa no
cimo do mastro, e mandar arrear o velame.

é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem
cadastro.

a dor de todas as ruas vazias.

sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o
filme acabou. não nos conheceremos nunca.

a dor de todas as ruas vazias.

os poemas adormeceram no desassossego da idade.
fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais
curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me
as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas. ..e
nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida – e
a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.

a dor de todas as ruas vazias.



AL BERTO
in, Horto de Incêndio




terça-feira, 15 de janeiro de 2019

AMIGO





Como é bom sentir a tua mão
e os teus passos junto aos meus,
nas inquietações da estrada da vida.
Como é bom sentir as tuas palavras
nos dias de sofreguidão
escurecidos e sem fio de sol.
Como é bom sentir a tua força
quando os ventos não passam
e o teu abraço no choro sem razão.
Como é bom sentir o teu aconchego
nas quimeras e nas lembranças esquecidas
E repousar no teu ombro
as fraquezas e a imensidão
desta vida sem tempo!
Sabes, é bom sentir a tua presença
e saber que estás de plantão,
quando a vida vai a lugar nenhum
ou em contramão!


ANTÓNIO CARLOS SANTOS
in, VERSOS DE MEL & FEL




segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

SONHOS





Os sonhos são o outro lado da quadratura de um decidir, 
entre posições, 
quantas vezes sem poder decisório. 
Arremessos de um pugnar livre, 
enquanto os olhos fingem dormir 
nas penas de um confortável colchão 
embalado nas nuvens de escritos pluviosos.

Sonhar, 
dizem ser um libertar de clausulados atípicos, 
onde todas as matérias de facto, 
são simples argumentos de instrução, 
talvez livros de capa dura, 
onde a lombada não exibe um título, 
não vá o mundo acordar.

Sonhar, 
dizem ser um verso incapaz de assumir uma razão. 

Sonhar, 
dizem ser a tangente mundial 
como fronteira para um salto no imaginário. 

Sonhar, diz o poeta… 
apenas um libertar de maus olhados, 
onde cada verso assume ser 
um compêndio de gritos 
algemados em aparos cinzeladores.

Ai se eu fosse sonho, 
todas as manhãs tentariam seduzir-me 
com alíneas doces 
e leis dançantes de jurisprudências tácteis.

Mas sou apenas um enclausurado inocente, 
que corrompe o brilho da parede celuar, 
com atrevimentos de vida, 
até que a voz me doa.

Incrédulo, 
pergunto-me neste dicionário da criatividade, 
se sonhar é um verbo palpável?
Ouço apenas o mar sorrir 
e segredar-me - Sonhar é o outro lado da pirâmide, 
nos enclaves dos impossíveis credenciados.



JOSÉ LUÍS OUTONO
in, CONTINNUM - ANTOLOGIA POÉTICA 







domingo, 13 de janeiro de 2019

OXALÁ OS PÁSSAROS





olho o lago

e o corpo da lua
esquece que já foi amarelo
deita-se devagar
sobre o que é água
sobre o que é gelo.

olho o lago

adagas prendem o meu olhar
lágrimas
pássaros e lobos.

mas este é o meu voo
é meu estre uivo
escuto as vozes:
da magrugada
do medo
do mármore.

reencontro o vazio
de ser assim
ardor e poço
mansidão e rebeldia.
dentro eu sei
o voo que afinal queria.

repito o mantra
que combate a inércia:
«amanhã é
outro dia;
hoje falta pouco
para amanhã.»

sigo a sombra lunar
deixo nuas as mãos
que acariciam os olhos
e atravessam a noite.
há música.

a harpa.
o corpo quente.

eu queria um corpo em folha
outras dores, outros fantasmas
talvez mesmo
uma outra coleção de vozes.

mas sou este
em busca da maresia
cercado entre a raiz da prosa
e o que sucede pela poesia;
este corpo ambulante
entre luar e lago
entre gelo e luz
com palavras que me cercam
e se devolvem à minha pele.
como a primeira casa.

aos fantasmas peço silêncio.
visto o espelho
perco-me de vista.
não sei voltar a ler as margens.
preparo os pés; arrumo as sandálias
levanto a âncora
está preparada a canoa.
espera-me o lago, tão
perto da lua;
espera-me a madrugada, tão
perto de mim.
grito para experimentar
a ausência do eco:
era esta a vastidão que ansiava.
dois remos.
a travessia anunciada.
este lago há-de salvar-me
por um par de horas.

olho o corpo invisível da lua.
na lágrima,
um louco a benzer faróis.

desço o poço.
tenho os pés submersos
no sal que a canoa acolhe.

queria poder regressar
a uma espécie de casa.

eu não sou o voo
que afinal seria.

retorno à margem.
é azul-bruma o fio
onde estendo palavras
que hão de evaporar.

dormem longe
os pássaros e os lobos.

o meu labirinto inacabado
faz-se de um sal que não cessa.
diluiu-se o mármore
mas voltará.

perdi a fronteira que
havia traçado
entre medo e madrugada.

estão vivos os fantasmas
aprenderam a uivar.

preparo os pés.
reinicio a caminhada.
carrego na mão a âncora
que me macera o tornozelo.

evaporaram-se as palaras.
está nu o meu estendal.

respiro. espero.

oxalá os pássaros saibam
o caminho de volta até mim.




ONDJAKI
in, HÁ GENTE EM CASA




sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

A Casada Infiel






Levei-a comigo ao rio,
pensando que era donzela,
porém já tinha marido.
Foi na noite de Santiago
e quase por compromisso.
Os lampiões se apagaram
e acenderam-se os grilos.
Nas derradeiras esquinas
toquei seus peitos dormidos
e para mim logo se abriram
como ramos de jacintos.
A goma de sua anágua
soava no meu ouvido,
como uma peça de seda
lacerada por dez facas.
Sem luz de prata nas copas
as árvores têm crescido,
e um horizonte de cães
ladra mui longe do rio.

*


Passadas as sarçamoras

os juncos e os espinheiros,
por debaixo da folhagem
fiz um fojo sobre o limo.
Minha gravata tirei.
Tirou ela seu vestido.
Eu, o cinto com revólver.
Ela, seus quatro corpetes.
Nem nardos nem caracóis
têm uma cútis tão fina,
nem os cristais ao luar
resplandecem com tal brilho.
Suas coxas me fugiam
como peixes surpreendidos,
metade cheia de lume,
metade cheia de frio.
Percorri naquela noite
o mais belo dos caminhos,
montado em potra de nácar
sem bridas e sem estribos.
Dizer não quero, homem sendo,
as coisas que ela me disse.
A luz do entendimento
me faz ser mui comedido.
Suja de beijos e areia,
trouxe-a comigo do rio.
A aragem travava luta
com as espadas dos lírios.
Portei-me como quem sou.
Como um gitano legítimo.
Uma cesta de costura
dei-lhe de raso palhiço
e não quis enamorar-me
porque tendo ela marido
me disse que era donzela
quando a levava eu ao rio.


Federico García Lorca
in, 'Romanceiro Gitano' 




quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

A Divisão do Mundo





Faço uma linha a meio do corpo, como num 
tratado de tordesilhas, para dividir o que me 
pertence e o que apenas pertence ao espelho 
que te reflecte, quando passas a meio do quarto, 
e de um lado és presente e material aos 
meus olhos, e do outro lado és só imagem, 
como se estivesses a entrar numa espécie de 
realidade em que não existe hoje nem ontem, 
mas apenas a beleza que dura para além do 
tempo e das circunstâncias em que te vejo.

É um tratado que faço entre mim e mim para
te dividir, e saber que este corpo que hoje 
possuo logo deixará de me pertencer quando 
o deitar no poema, como alguma vénus de 
rubens ou banhista de renoir, envoltas 
em véus ou em arbustos, à luz das velas ou 
do sol. E sinto o que tenho quando te perco, 
e o teu corpo se imprime para lá dessa linha 
abstracta que te separa de ti própria, quando 
em ti se juntam a realidade e o seu reflexo.

Mas se tiro da tua frente esse espelho, é 
dentro de mim que tu te reflectes, e sou eu 
o espelho em que entras para deixares de 
fazer parte de mim, e seres quem aqui vive, 
e para sempre respira neste último verso.


Nuno Júdice
in, Formulas de Uma Luz Inexplicável





terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Dádiva







“Fala-nos da dádiva.” 

 E ele respondeu:

 “Vós pouco dais quando dais de vossas posses. 
 É quando dais de vós próprios que realmente dais. 

 Pois, 
o que são vossas posses 
senão coisas que guardais 
por medo de precisardes delas amanhã? 

 E amanhã, 
que trará o amanhã 
ao cão ultraprudente 
que enterra ossos na areia movediça 
enquanto segue os peregrinos para a cidade santa? 

 E o que é o medo da necessidade 
senão a própria necessidade? 

 Não é vosso medo da sede, 
quando vosso poço está cheio, 
a sede insaciável? 

 Há os que dão pouco do muito que possuem, 
e fazem-no para serem elogiados, 
e seu desejo secreto desvaloriza suas dádivas. 

 E há os que têm pouco e dão-no integralmente. 
 Esses confiam na vida e na generosidade da vida, 
e seus cofres nunca se esvaziam. 

 E há os que dão com alegria, 
e essa alegria é já a sua recompensa. 

 E há os que dão com pena, 
e essa pena é o seu batismo. 

 E há os que dão sem sentir pena 
nem buscar alegria nem pensar na virtude: 
 Dão como, no vale, o mirto espalha sua fragrância no espaço. 

 Pelas mãos de tais pessoas, Deus fala; 
e através de seus olhos Ele sorri para o mundo. 

 É belo dar quando solicitado; 
é mais belo, porém, 
dar sem ser solicitado, 
por haver apenas compreendido; 

 E para os generosos, 
procurar quem recebe 
é uma alegria maior ainda que a de dar. 

 E existe alguma coisa que possais guardar? 
 Tudo o que possuís será um dia dado. 

 Dai agora, 
portanto, 
para que a época da dádiva seja vossa 
e não de vossos herdeiros. 

 Dizeis muitas vezes: 
“Eu daria, mas somente a quem merece”. 

 As árvores de vossos pomares não falam assim, 
nem os rebanhos de vossos pastos. 
 Dão para continuar a viver, 
pois reter é perecer. 

 Certamente, 
quem é digno de receber seus dias e suas noites 
é digno de receber de vós tudo o mais. 

 E quem mereceu beber do oceano da vida, 
merece encher sua taça em vosso pequeno córrego. 

 E que mérito maior haverá 
do que aquele que reside na coragem e na confiança, 
mais ainda, 
na caridade de receber? 

 E quem sois vós 
para que os homens devam expor o seu íntimo
 e desnudar seu orgulho 
a fim de que possais ver seu mérito despido 
e seu amor-próprio rebaixado? 

 Procurai ver, 
primeiro, 
se mereceis ser doadores e instrumentos do dom. 
 Pois, na verdade, 
é a vida que dá à vida, 
enquanto vós, 
que vos julgais doadores, 
são meras testemunhas. 

 E vós que recebeis – e vós todos recebeis – não 
assumais encargo de gratidão 
a fim de não pordes um jugo 
sobre vós e vossos benfeitores. 
 Antes, erguei-vos, 
junto com eles, 
sobre asas feitas de suas dádivas; 
 Pois se ficardes demasiadamente preocupados com vossas dívidas, 
estareis duvidando da generosidade 
daquele que tem a terra liberal por mãe 
e Deus por pai.”


Khalil Gibran
in, O Profeta




sábado, 5 de janeiro de 2019

Diz-me Tudo





Há uma regra inflexível no amor: o seu horizonte 
tem a vastidão do mar, para lá do qual outros 
horizontes se abrem se o muro, ao longo da 
praia, não impuser os seus limites a quem 
deseja a viagem. O espírito, porém, seguindo 
um rumo platónico, voa sobre as ondas, 
afastando-se da apressada respiração das marés; 
e é no alto, onde se confundem nuvens e
gaivotas, que o olhar descobre a imensidão
do oceano para que o sentimento o empurra, 
se não houver pela sua frente um porto, 
ou uma ilha, que ponham fim à navegação. 

Mas estas são apenas as convenções que 
obrigam a imaginação; porque se o amor se 
libertar das palavras que o oprimem, dando 
ao corpo a mesma plenitude que se encontra 
neste mar, está aberto o caminho para o abismo 
em que o ser se dilui no puro espaço, onde 
só o azul existe. Então, os dedos tocam 
o teclado do infinito, e ouvir-se-á a música 
dos murmúrios que nenhum ouvido recebe 
se os sons da terra o magoam. E é como 
se o dia durasse, para além do tempo e 
das coisas da vida, até ao fim do mundo.


Nuno Júdice
in, A Pura Inscrição do Amor



sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Muriel





Às vezes se te lembras procurava-te
retinha-te esgotava-te e se te não perdia
era só por haver-te já perdido ao encontrar-te
Nada no fundo tinha que dizer-te
e para ver-te verdadeiramente
e na tua visão me comprazer
indispensável era evitar ter-te
Era tudo tão simples quando te esperava
tão disponível como então eu estava
Mas hoje há os papéis há as voltas dar
há gente à minha volta há a gravata
Misturei muitas coisas com a tua imagem
Tu és a mesma mas nem imaginas
como mudou aquele que te esperava
Tu sabes como era se soubesses como é
Numa vida tão curta mudei tanto
que é com certo espanto que no espelho da manhã
distraído diviso a cara que me resta
depois de tudo quanto o tempo me levou
Eu tinha uma cidade tinha o nome de madrid
havia as ruas as pessoas o anonimato
os bares os cinemas os museus
um dia vi-te e desde então madrid
se porventura tem ainda para mim sentido
é ser solidão que te rodeia a ti
Mas o preço que pago por te ter
é ter-te apenas quanto poder ver-te
e ao ver-te saber que vou deixar de ver-te
Sou muito pobre tenho só por mim
no meio destas ruas e do pão e dos jornais
este sol de Janeiro e alguns amigos mais
Mesmo agora te vejo e mesmo ao ver-te não te vejo
pois sei que dentro em pouco deixarei de ver-te
Eu aprendi a ver a minha infância
vim a saber mais tarde a importância desse verbo para os gregos
e penso que se bach hoje nascesse
em vez de ter composto aquele prelúdio e fuga em ré maior
que esta mesma tarde num concerto ouvi
teria concebido aqueles sweet hunters
que esta noite vi no cinema rosales
Vejo-te agora vi-te ontem e anteontem
E penso que se nunca a bem dizer te vejo
se fosse além de ver-te sem remédio te perdia
Mas eu dizia que te via aqui e acolá
e quando te não via dependia
do momento marcado para ver-te
Eu chegava primeiro e tinha de esperar-te
e antes de chegares já lá estavas
naquele preciso sítio combinado
onde sempre chegavas sempre tarde
ainda que antes mesmo de chegares lá estivesses
se ausente mais presente pela expectativa
por isso mais te via do que ao ter-te à minha frente
Mas sabia e sei que um dia não virás
que até duvidarei se tu estiveste onde estiveste
ou até se exististe ou se eu mesmo existi
pois na dúvida tenho a única certeza
Terá mesmo existido o sítio onde estivemos?
Aquela hora certa aquele lugar?
À força de o pensar penso que não
Na melhor das hipóteses estou longe
qualquer de nós terá talvez morrido
No fundo quem nos visse àquela hora
à saída do metro de serrano
sensivelmente em frente daquele bar
poderia pensar que éramos reais
pontos materiais de referência
como as árvores ou os candeeiros
Talvez pensasse que naqueles encontros
em que talvez no fundo procurássemos
o encontro profundo com nós mesmos
haveria entre nós um verdadeiro encontro
como o que apenas temos nos encontros
que vemos entre os outros onde só afinal somos felizes
Isso era por exemplo o que me acontecia
quando há anos nas manhãs de roma
entre os pinheiros ainda indecisos
do meu perdido parque de villa borghese
eu via essa mulher e esse homem
que naqueles encontros pontuais
Decerto não seriam tão felizes como neles eu
pois a felicidade para nós possível
é sempre a que sonhamos que há nos outros
Até que certo dia não sei bem
Ou não passei por lá ou eles não foram
nunca mais foram nunca mais passei por lá
Passamos como tudo sem remédio passa
e um dia decerto mesmo duvidamos
dia não tão distante como nós pensamos
se estivemos ali se madrid existiu
Se portanto chegares tu primeiro porventura
alguma vez daqui a alguns anos
junto de califórnia vinte e um
que não te admires se olhares e me não vires
Estarei longe talvez tenha envelhecido
Terei até talvez mesmo morrido
Não te deixes ficar sequer à minha espera
não telefones não marques o número
ele terá mudado a casa será outra
Nada penses ou faças vai-te embora
tu serás nessa altura jovem como agora
tu serás sempre a mesma fresca jovem pura
que alaga de luz todos os olhos
que exibe o sossego dos antigos templos
e que resiste ao tempo como a pedra
que vê passar os dias um por um
que contempla a sucessão de escuridão e luz
e assiste ao assalto pelo sol
daquele poder que pertencia à lua
que transfigura em luxo o próprio lixo
que tão de leve vive que nem dão por ela
as parcas implacáveis para os outros
que embora tudo mude nunca muda
ou se mudar que se não lembre de morrer
ou que enfim morra mas que não me desiluda
Dizia que ao chegar se olhares e não me vires
nada penses ou faças vai-te embora
eu não te faço falta e não tem sentido
esperares por quem talvez tenha morrido
ou nem sequer talvez tenha existido


Ruy Belo