domingo, 31 de março de 2019

Anthem






The birds they sang, at the break of day 
Start again, I heard them say
Don’t dwell on what has passed away 
Or what is yet to be. 

Ah the wars, they will be fought again 
The holy dove she will be caught again
Bought and sold and bought again 
The dove is never free. 

Ring the bells that still can ring 
Forget your perfect offering 
There is a crack in everything 
That’s how the light gets in. 

We asked for signs. The signs were sent
The birth betrayed, the marriage spent 
Yeah the widowhood of every government
Signs for all to see. 

I can’t run no more with that lawless crowd 
While the killers in high places say their prayers out loud. 
But they’ve summoned, they’ve summoned up a thundercloud and 
They’re going to hear from me. 

Ring the bells that still can ring… 
You can add up the parts but you won’t have the sum 
You can strike up the march, there is no drum 
Every heart, every heart to love will come 
But like a refugee. 

Ring the bells that still can ring 
Forget your perfect offering 
There is a crack, a crack in everything 
That’s how the light gets in. 
Ring the bells that still can ring 
Forget your perfect offering 
There is a crack, a crack in everything 
That’s how the light gets in.


Leonard Cohen




quinta-feira, 28 de março de 2019

Examinemos um homem no chão





Examinemos um homem no chão
Testemos a transformação de um homem por terra 
A sua natureza tão diferente da lava, a sua maneira mineral 
De adormecer. 
O que mais interessa é ver o seu lugar rodando para perceber o eixo 
Que o move no mundo 
Ou como pode a sua posição orientar as aves e os astros. 

Interessa também a pedra que ele agarra como alimento 
Ou que mão escolhe par lhe servir de funda
- se é que não usa a própria boca para lançar o grito. 

Examinemo-lo quando desperta para percebermos de onde vem
Para sabermos se o caminho se repete. Se abre os olhos
Prontos a receber imagens ou então alguém que desmaiou
Ao chocar contra si próprio
Interessa perceber os motivos da colisão, se acaso
Terá mastigado a pedra até a misturar no sangue.

Examinemos a sua semelhança com um meteoro que cai 
Uma fisionomia sem vocação para subir ao céu 
O peso do seu corpo quando o nosso olhar o levanta. 
Interessa perceber o íman que cria para nós um lugar junto dele 
Um lugar dentro dele. Há um olhar que nos desloca - 
A placa giratória do amor? 

Interessa também o coração que ele agarra como fruto que colhe 
Ou que veia abre no corpo para beber 
- se não é que é a pedra o que ele bebe com as mãos. 

Examinemo-lo como quem sai de casa e vê o seu irmão 
Examinemo-lo voltado, em viagem, a orientação discreta 
De quem cava no peito a bússola. 
Interessa reparar como tropeça no mistério 
E se levanta a pedra para compreender.


Daniel Faria
in, "Homens que são como Lugares mal Situados"





terça-feira, 26 de março de 2019

ESTRELA DA TARDE





Era a tarde mais longa de todas as tardes
Que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas
Tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca,
Tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste
Na tarde tal rosa tardia
Quando nós nos olhamos tardamos no beijo
Que a boca pedia
E na tarde ficamos unidos ardendo na luz
Que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto
Tardaste o sol amanhecia
Era tarde demais para haver outra noite,
Para haver outro dia. 

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza.

Foi a noite mais bela de todas as noites
Que me aconteceram
Dos noturnos silêncios que à noite
De aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois
Corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram.

Foram noites e noites que numa só noite
Nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites
Que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles
Que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto
Se amarem, vivendo morreram.

Eu não sei, meu amor, se o que digo
É ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo
E acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste
Dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida
De mágoa e de espanto.
Meu amor, nunca é tarde nem cedo
Para quem se quer tanto!


JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS






sábado, 23 de março de 2019

Somewhere






somewhere i have never travelled, gladly beyond
any experience, your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near

your slightest look easily will unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully, mysteriously) her first rose

or if your wish be to close me, i and
my life will shut very beautifully, suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;

nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility: whose texture
compels me with the colour of its countries,
rendering death and forever with each breathing

(i do not know what it is about you that closes
and opens; only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody, not even the rain, has such small hands


E. E. Cummings





quinta-feira, 21 de março de 2019

Para onde vai a minha vida





Para onde vai a minha vida, e quem a leva?
Por que faço eu sempre o que não queria?
Que destino contínuo se passa em mim na treva?
Que parte de mim, que eu desconheço, é que me guia?

O meu destino tem um sentido e tem um jeito,
A minha vida segue uma rota e uma escala
Mas o consciente de mim é o esboço imperfeito
Daquilo que faço e sou: não me iguala

Não me compreendo nem no que, compreendendo, faço.
Não atinjo o fim ao que faço pensando num fim.
É diferente do que é o prazer ou a dor que abraço.
Passo, mas comigo não passa um eu que há em mim.

Quem sou, senhor, na tua treva e no teu fumo?
Além da minha alma, que outra alma há na minha?
Por que me destes o sentimento de um rumo,
Se o rumo que busco não busco, se em mim nada caminha

Senão com um uso não meu dos meus passos, senão
Com um destino escondido de mim nos meus actos?
Para que sou consciente se a consciência é uma ilusão?
Que sou entre quê e os fatos?

Fechai-me os olhos, toldai-me a vista da alma!
Ó ilusões! Se eu nada sei de mim e da vida,
Ao menos eu goze esse nada, sem fé, mas com calma,
Ao menos durma viver, como uma praia esquecida…


Fernando Pessoa





domingo, 17 de março de 2019

POETA NO SUPERMERCADO





Indignar-me é o meu signo diário.
Abrir janelas. Caminhar sobre espadas.
Parar a meio de uma página,
erguer-me da cadeira, indignar-me
é o meu signo diário.
Há países em que se espera
que o homem deixe crescer as patas
da frente, e coma erva, e leve
uma canga minhota como os bois.
E há os poetas que perdoam. Desliza
o mundo, sempre estão bem com ele.
Ou não se apercebem: tanta coisa
para olhar em tão pouco tempo,
a vida tão fugaz, e tanta morte...
Mas a comida esbarra contra os dentes,
digo-vos que um dia acabareis tremendo,
teimar, correr, suar, quebrar os vidros
(indignar-me) é o meu signo diário.



Um homem tem que viver.
e tu vê lá não te fiques
- um homem tem que viver
com um pé na Primavera.
Tem que viver
cheio de luz. Saber
um dia com uma saudade burra
dizer adeus a tudo isto.
Um homem (um barco) até ao fim da noite
cantará coisas, irá nadando
por dentro da sua alegria.
Cheio de luz - como um sol.
Beberá na boca da amada.
Fará um filho.
Versos.
Será assaltado pelo mundo.
Caminhará no meio dos desastres,
no meio de mistérios e imprecisões.
Engolirá fogo.
Palavra, um homem tem que ser 
prodigioso.
Porque é arriscado ser-se um homem.
É tão difícil, é
(com a precariedade de todos os nomes)
o começo apenas.


Fernando Assis Pacheco 
in, "Cuidar dos Vivos"







quinta-feira, 14 de março de 2019

Mas Basta-me um Quadrado de Sossego






Amanhecemos sem materiais suficientes para a luz total
Embora nos estiquemos como cabras nos penhascos para os arbustos
Mais tenros, esticamo-nos para não nos doer a lembrança
Das manhãs tão sossegadas dos cavalos nos pastos

Explico que amanhecemos mastigando as ervas venenosas
Buscando um som mais poderoso do que o bater dos cascos
Um balido interior reunindo rebanhos
Uma palavra fonte múltipla como o úbere das cabras

Amanhecemos cheios de sede como se viéssemos de um outro hemisfério
Num galope rápido
Esticando-nos como arbustos tenros chamando
Amanhecemos nocturnamente fincando os joelhos nos penhascos
Levantamo-nos para sacudir as crinas para escovar os cavalos

Amanhecemos sem braçados bastantes para a luz
Queimados pelas palavras.
Organizamos rebanhos junto das águas
Andamos nas margens no meio da tarde.
Esticamo-nos para seremos setas de fogo
Ou o som dos chocalhos trespassando
Os mais tenros rebentos das chamas.



Daniel Faria
in, "Homens que são como lugares mal situados"





segunda-feira, 11 de março de 2019

Fórmulas de uma luz inexplicável





Às vezes sentimos que o tempo chegou ao fim,
que as portas se estão a fechar por trás de nós,
que já nenhum ruído de passos nos segue;
e temos medo de nos voltar,
de dar de frente com essa sombra que não sabíamos que nos perseguia,
como se ela não andasse sempre atrás de nós,
e não fosse a nossa mais fiel companheira.
Às vezes, em tudo o que nos rodeia,
encontramos essa impressão de que não sabermos onde estamos,
como se o caminho para aqui não tivesse sido o mesmo, desde sempre,
e tudo devesse ser-nos, pelo menos, familiar.
A solução é pegar no fim e metê-lo à boca, 
como se fosse uma pastilha elástica,
derreter o sabor que o envolve, por amargo que seja,
e no fim pegar nesse resto que ficou
e, tal como se faz à pastilha elástica, deitá-lo fora.
Para que queremos nós o nosso próprio fim?
Já bastou tê-lo saboreado, derretido na boca,
sentido o seu amargo sabor.
Então, libertos do nosso fim,
veremos que as portas se voltarão a abrir,
que a gente continua a andar à nossa volta,
que a sombra já não nos mete medo,
e que se nos voltarmos teremos pela frente o rosto desejado,
o amor, a vida de que o fim nos queria ter privado.


Nuno Júdice
in, Fórmulas de uma luz inexplicável






sexta-feira, 8 de março de 2019

Homens que são como lugares mal situados





Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem

Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas

Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas

Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são como sítios desviados
Do lugar

#

Homens que são como projectos de casas
Em suas varandas inclinadas para o mundo
Homens nas varandas voltados para a velhice
Muito danificados pelas intempéries

Homens cheios de vasilhas esperando a chuva
Parados à espera
De um companheiro possível para diálogo interior

Homens muito voltados para um modo de ver
Um olhar fixo como quem vem caminhando ao encontro
De si mesmo
Homens tão impreparados tão desprevenidos
Para se receber

Homens à chuva com as mãos nos olhos
Imaginando relâmpagos
Homens abrindo lume
Para enxugar o rosto para fechar os olhos
Tão impreparados tão desprevenidos
Tão confusos à espera de um sistema solar
Onde seja possível uma sombra maior.



Daniel Faria
in, "Homens que são como lugares mal situados"




quarta-feira, 6 de março de 2019

POEMA PRIMEIRO





Gosto-te. E desta certeza
se abre a manhã como uma imensa
rosa de desejo indestrutível. O futuro
é o próximo minuto, para além
da infatigável religião dos meus versos,
em cuja luz me acendo, feliz e nu.
O meu sorriso conhece a bondade
dos animais, o poder frágil das corolas,
e repete o nome feminino dos arcanjos de
peitos redondos, perfumados
pelas giestas dos caminhos
do céu.
Gosto-te. Amarrado
pelos meus braços de beduíno do sol,
pobre senhor dos desertos,
profeta da distância que há dentro das palavras,
onde se alongam sombras
e o sofrimento se estende até à orla
da mais inquieta serenidade.
Gosto-te. E tenho sido
feliz, por nunca ter seguido os trilhos
que me quiseram destinar. Aqui
e ali me pergunto, despudoradamente. E sei
que não sei mentir. É por isso,
que recolho na face a luz imprescindível
ao orgulho dos peixes
e dos frutos.
Gosto-te. Na-na-na, na-ô...
Na-na-na, na-ô... na-nô...
Canta o espírito do caminho,
canta para mim e canta para ti, eleva
o coração das grandes árvores, coração
de seiva e de coragem,
sangue fresco e verde, apaixonado
e doce,
de tanto contemplar o perfil das tardes.
Gosto-te. Mas "longe"
é uma palavra húmida, grávida,
onde os sinos da erva tocam
para convocar as sílabas. E,
ao procurar-te, tremo apenas
de ternura
para que nem mesmo a inteligente brisa
da manhã
possa dar por mim.

Mais discreto que isto
é impossível.



JOAQUIM PESSOA
in, GUARDAR O FOGO 




segunda-feira, 4 de março de 2019

COM A TUA LETRA


Souldigger





Fala-se de amor para falar de muitas
coisas que entretanto nos sucedem.
Para falar do tempo, para falar do mundo
usamos o vocabulário preciso
que nos dá o amor.
.
Eu amo-te. Quer dizer: eu conheço melhor
as estradas que servem o meu território.
Quer dizer: eu estou mais acordado,
não me enredo nas silvas, não me enredo,
não me prendo nos cardos, não me prendo.
Quer também dizer: amar-te-ei
cada dia mais, estarei cada dia
mais acordado. Porque este amor não pára.
.
E para falar da morte; da enorme
definitiva irremediável morte,
do carro tombado na valeta
sacudindo uma última vez (fragilidade)
as rodas acendedoras de caminhos
- eu lembraria que o amor nos dá
uma forma difícil de coragem,
uma difícil, inteira possessão
de nós próprios, quando aveludada
a morte surge e nos reclama.
.
Porque eu amo-te, quer dizer, eu estou atento
às coisas regulares e irregulares do mundo.
Ou também: eu envio o amor
sob a forma de muitos olhos e ouvidos
a explorar, a conhecer o mundo.
.
Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo
da escuridão do mundo.
Porque tudo se escreve com a tua letra



FERNANDO ASSIS PACHECO
in, A MUSA IRREGULAR




sexta-feira, 1 de março de 2019

Sou Feita de Retalhos





Sou feita de retalhos... 
pedacinhos coloridos de cada vida que passa pela minha 
e que vou costurando na alma. 
Nem sempre bonitos, 
nem sempre felizes, 
mas me acrescentam e me fazem ser quem eu sou. 

Em cada encontro, em cada contato, vou ficando maior... 
Em cada retalho uma vida, 
uma lição, um carinho, uma saudade...
que me tornam mais pessoa, 
mais humana, 
mais completa.

E penso que é assim mesmo que a vida se faz: 
de pedaços de outras gentes, 
que vão se tornando parte da gente também. 
E a melhor parte é que nunca estaremos prontos, finalizados...
haverá sempre um retalho novo para adicionar à alma.

Portanto, 
obrigada a cada um de vocês, 
que fazem parte da minha vida 
e que me permitem engrandecer minha história 
com os retalhos deixados em mim. 
Que eu também possa deixar pedacinhos de mim pelos caminhos 
e que eles possam ser parte das suas histórias. 

E que assim, 
de retalho em retalho, 
possamos nos tornar um dia, 
um imenso bordado de "nós".



CRIS PIZZIMENTI
in, UMA PITADA DE ENCANTO