terça-feira, 30 de abril de 2019

COPOS DE SEDE





Se duvidas da tua sede, se não te atreves
a perguntar-lhe ou a dar-lhe um nome,
se só sabes que procuras uma água
que a sacie e não encontras senão poços,
e neles ecos que te chamam, bebe.

Se a sede ao beber desaparece
é porque era só sede. Continua a procurar.

Mas se cresce em ti quando a sacias,
se queres não deixar de ter sede
e sim continuar a beber dia e noite
copos de sede, não duvides:
podes chamar-lhe amor, continuar sofrendo,
e saber que não existe quem te guie.


 Juan Vicente Piqueras
in, Instruções para Atravessar o Deserto




sábado, 27 de abril de 2019

O Instante





Quem posso eu chamar, que palavras lúcidas 
e sóbrias, veementes 
poderão despertar as ondas felizes, 
que outro apelo, que outro alento 
aproximará as árvores, o hálito das suas frases? 

Quem me oferecerá no seu corpo o estuário das mãos,  
que prodígios da terra deslizarão no repouso, 
que declives, que jardins, que palácios diminutos,  
que intangíveis enlaces, que adoráveis volumes? 
Quem me dará o sossego da fábula mais pura 
com o exacto relevo imediata e vagarosa?  

Real e perfeita 
num deslizar de gozo, em lábios que emudecem deslumbrados, 
real e completo, secreto, imediato, maravilhoso 
é o instante que descobre o animal mais ardente, 
a mais ardente exactidão 
a mais oferecida à claridade, 
a mais contínua, a mais profunda suavidade. 

Estamos dentro de um seio onde nascemos  
como de uma montanha latente, somos a nascente confusão 
de múrmurios silvestres e a magia natural 
de um silêncio límpido, abraçamos a maravilha 
aqui e agora, reconcentração na felicidade, 
na evidência de delícias, múltiplas, fatais. 


António Ramos Rosa




Desejos Vãos





Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta a vastidão imensa!
Eu queria ser a pedra que não pensa,
A pedra do caminho rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz imensa,
O bom do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até da morte!

Mas o Mar também chora de tristeza…
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as pedras… essas… pisa-as toda a gente! …


Florbela Espanca





sexta-feira, 26 de abril de 2019

A Sad State Of Freedom





You waste the attention of your eyes,
the glittering labour of your hands,
and knead the dough enough for dozens of loaves
of which you'll taste not a morsel;
you are free to slave for others--
you are free to make the rich richer.

The moment you're born
they plant around you
mills that grind lies
lies to last you a lifetime.
You keep thinking in your great freedom
a finger on your temple
free to have a free conscience.

Your head bent as if half-cut from the nape,
your arms long, hanging,
your saunter about in your great freedom:
you're free
with the freedom of being unemployed.

You love your country
as the nearest, most precious thing to you.
But one day, for example,
they may endorse it over to America,
and you, too, with your great freedom--
you have the freedom to become an air-base.

You may proclaim that one must live
not as a tool, a number or a link
but as a human being--
then at once they handcuff your wrists.
You are free to be arrested, imprisoned
and even hanged.

There's neither an iron, wooden
nor a tulle curtain
in your life;
there's no need to choose freedom:
you are free.
But this kind of freedom
is a sad affair under the stars.



Nazim Hikmet




quinta-feira, 25 de abril de 2019

PÁTRIA





Por um país de pedra e vento duro
Por um país de luz perfeita e clara
Pelo negro da terra e pelo branco do muro
.
Pelos rostos de silêncio e de paciência
Que a miséria longamente desenhou
Rente aos ossos com toda a exactidão
Dum longo relatório irrecusável
.
E pelos rostos iguais ao sol e ao vento
.
E pela limpidez das tão amadas
Palavras sempre ditas com paixão
Pela cor e pelo peso das palavras
Pelo concreto silêncio limpo das palavras
Donde se erguem as coisas nomeadas
Pela nudez das palavras deslumbradas
.
- Pedra rio vento casa
Pranto dia canto alento
Espaço raiz e água
Ó minha pátria e meu centro
.
Me dói a lua me soluça o mar
E o exílio se inscreve em pleno tempo



SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
in, LIVRO SEXTO





quinta-feira, 18 de abril de 2019

O Gato





Com um lindo salto
Lesto e seguro
O gato passa
Do chão ao muro
Logo mudando
De opinião
Passa de novo
Do muro ao chão
E pega corre
Bem de mansinho
Atrás de um pobre
De um passarinho
Súbito, para 
Como assombrado
Depois dispara
Pula de lado
E quando tudo
Se lhe fatiga
Toma o seu banho
Passando a língua
Pela barriga.

Vinicius de Moraes






segunda-feira, 15 de abril de 2019

O SILÊNCIO DOS DIAS





Foi ali que o guardou naquele canto secreto
onde os silêncios eram jóias raras
e as palavras se misturavam nos perfumes do tempo
Já não importava o cansaço dos dias
nem as manhãs vestidas de cinza
a memória era um pequeno baú
onde guardava as lembranças mais vivas
existência rica de quem muito viveu
de quem muito se deu.
Abria o baú
de tempos a tempos
e o perfume das palavras
entranhava-se nas narinas
chegando ao âmago do ser.
Era aí que a luz mais brilhante raiava no quarto
nas cortinas cor de sangue
e no corpo tatuado de palavras e silêncios.
Foi ali que guardou a história que marcou um tempo
nesse tempo agitado de figurantes a deriva
de mares revoltos e ondas bravias
de mulheres perdidas de ciúme
e de homens tentando amainar as violentas marés
Foi ali no baú do tempo
que o guardou para sempre
longe dos holofotes 
projectores de sonhos inacabados
de esperanças naufragadas.
Foi ali que o guardou
para sempre
no silêncio dos dias que passam.



SÃO GONÇALVES





sábado, 13 de abril de 2019

AMOR DA PALAVRA, AMOR DO CORPO





A nudez da palavra que te despe.
Que treme, esquiva.
Com os olhos dela te quero ver,
que não te vejo.
Boca na boca através de que boca
posso eu abrir-te e ver-te?
É meu receio que escreve e não o gosto
do sol de ver-te?
Todo o espaço dou ao espelho vivo
e do vazio te escuto.
Silêncio de vertigem, pausa, côncavo
de onde nasces, morres, brilhas, branca?
És palavra ou és corpo unido em nada?
É de mim que nasces ou do mundo solta?
Amorosa confusão, te perco e te acho,
à beira de nasceres tua boca toco
e o beijo é já perder-te.


António Ramos Rosa
in, "Nos Seus Olhos de Silêncio"




quarta-feira, 10 de abril de 2019

AS MINHAS ASAS






Eu tinha umas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Que, em me eu cansando da terra,
Batia-as, voava ao céu.

-Eram brancas, brancas, brancas,
Como as do anjo que m'as deu:
Eu inocente como elas,
Por isso voava ao céu.

Veio a cobiça da terra,
Vinha para me tentar;
Por seus montes de tesouros
Minhas asas não quis dar.

-Veio a ambição, cóas grandezas,
Vinham para m'as cortar,
Davam-me poder e glória;
Por nenhum preço as quis dar.

Porque as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Em me eu cansando da terra,
Batia-as, voava ao céu.

Mas uma noite sem lua
Que eu contemplava as estrelas,
E já suspenso da terra,
Ia voar para elas,

-Deixei descair os olhos
Do céu alto e das estrelas...
Vi entre a névoa da terra,
Outra luz mais bela que elas.

E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Para a terra me pesavam,
Já não se erguiam ao céu.

Cegou-me essa luz funesta
De enfeitiçados amores...
Fatal amor, negra hora
Foi aquela hora de dores!

-Tudo perdi n'essa hora
Que provei nos seus amores
O doce fel do deleite,
O acre prazer das dores.

E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Pena a pena me caíram...
Nunca mais voei ao céu.



ALMEIDA GARRETT
in, FOLHAS CAIDAS





quinta-feira, 4 de abril de 2019

O CAMINHANTE





Não me perguntes 
O que é salvação 
Ou onde a encontrar, 
Não sou investigador, mas apenas poeta... 
Vivo agarrado a esta terra. 
Perante mim corre o rio da vida... 
Levando na sua corrente 
Luz e sombra, bem e mal, 
Ganhos e perdas, lágrimas e risos, 
Coisas que se entrelaçam 
E se esquecem! 
Sobre as suas águas 
A manhã chega em profundos matizes, 
O ocaso estende o seu véu carmesim, 
E os raios lunares caem como o suave tacto de uma mãe. 
Na noite escura 
As estrelas elevam as suas orações; 
Sobre as suas ondas 
A madhuri oferece os seus dons, 
E as aves soltam os seus cantos. 
Quando ao ritmo das ondas 
Silencioso dança o meu coração 
Então nesse ritmo 
Estão os meus limites e a minha liberdade. 
Não desejo conservar nada 
Nem apegar-me a nada. 
Desatando os nós da união e da separação, 
Quero flutuar com o Todo 
Içando as minhas velas ao vento que paira. 

Oh, grande Caminhante! 
Para ti abrem-se os dez caminhos 
Nos confins da terra, 
E não tens templo, nem céu, 
Nem limite final. 
A cada passo tocas o chão sagrado. 
Caminhando a teu lado, oh, Incansável! 
Encontro a salvação 
No tesouro do caminho. 
Em luz e sombra, 
Nas páginas sempre novas da criação, 
Em cada novo instante de dissolução 
Ouve-se o ritmo das tuas danças e canções. 


Rabinadranath Tagore




terça-feira, 2 de abril de 2019

A Morte Absoluta





Morrer. 
Morrer de corpo e de alma. 
Completamente. 

Morrer sem deixar o triste despojo da carne, 
A exangue máscara de cera, 
Cercada de flores, 
Que apodrecerão - felizes! - num dia, 
Banhada de lágrimas 
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte. 

Morrer sem deixar porventura uma alma errante... 
A caminho do céu? 
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu? 

Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra, 
A lembrança de uma sombra 
Em nenhum coração, em nenhum pensamento, 
Em nenhuma epiderme. 

Morrer tão completamente 
Que um dia ao lerem o teu nome num papel 
Perguntem: "Quem foi?..." 

Morrer mais completamente ainda, 
Sem deixar sequer esse nome.


Manuel Bandeira