quarta-feira, 31 de julho de 2019

TRAZ-ME UM TEMPO





Traz-me um tempo sem mistério. 
Um tempo sem mácula e límpido, 
comigo sentado na soleira 
por entre o zunido dos insetos 
e a cantilena dos homens no lagar.

Devolve-me os gestos que julgava perdidos.
Não me fales de viagens! 
De cidades onde não vivi, 
dos corpos que consumiste 
em aventuras mais ou menos frustradas, 
quando eu nem miragem era.

Cala o que me desarma, 
o que me avoluma o tédio:
a imagem desses bares onde bebias, 
nessas noites em que tropeçavas noutros 
e eu não passava de uma impossibilidade 
a fermentar numa paisagem 
antecipadamente derrotada.

Concede-me de novo esse tempo sem mistério, 
um tempo cristalino, 
um tempo de loucura e inocência, 
um tempo de desejos transparentes, 
de corpos ardentes e simples 
como só as coisas puras conseguem ter.


VICTOR OLIVEIRA MATEUS 
in, AQUILO QUE NÃO TEM NOME





terça-feira, 30 de julho de 2019

Confissão





esperando pela morte
como um gato
que vai pular
na cama

sinto muita pena de
minha mulher

ela vai ver este
corpo
rijo e
branco

vai sacudi-lo e
talvez
sacudi-lo de novo:

“Henry!”

e Henry não vai
responder.

não é minha morte que me
preocupa, é minha mulher
deixada sozinha com este monte
de coisa
nenhuma.

no entanto,
eu quero que ela
saiba
que dormir
todas as noites
a seu lado

e mesmo as
discussões mais banais
eram coisas
realmente esplêndidas

e as palavras
difíceis
que sempre tive medo de
dizer
podem agora
ser ditas:

eu
te amo.



Charles Bukowski




domingo, 28 de julho de 2019

Para onde vai a minha vida


Marc Huybrighs






Para onde vai a minha vida, e quem a leva?
Por que faço eu sempre o que não queria?
Que destino contínuo se passa em mim na treva?
Que parte de mim, que eu desconheço, é que me guia?

O meu destino tem um sentido e tem um jeito,
A minha vida segue uma rota e uma escala
Mas o consciente de mim é o esboço imperfeito
Daquilo que faço e sou: não me iguala

Não me compreendo nem no que, compreeendendo, faço.
Não atinjo o fim ao que faço pensando num fim.
É diferente do que é o prazer ou a dor que abraço.
Passo, mas comigo não passa um eu que há em mim.

Quem sou, senhor, na tua treva e no teu fumo?
Além da minha alma, que outra alma há na minha?
Por que me destes o sentimento de um rumo,
Se o rumo que busco não busco, se em mim nada caminha

Senão com um uso não meu dos meus passos, senão
Com um destino escondido de mim nos meus atos?
Para que sou consciente se a consciência é uma ilusão?
Que sou entre quê e os fatos?

Fechai-me os olhos, toldai-me a vista da alma!
Ó ilusões! Se eu nada sei de mim e da vida,
Ao menos eu goze esse nada, sem fé, mas com calma,
Ao menos durma viver, como uma praia esquecida…



FERNANDO PESSOA
in, OBRA POÉTICA DE FERNANDO PESSOA 
POESIA - I 
1902-1929




sábado, 27 de julho de 2019

To be anything else but me


RJ Muna




Today
I gave up
On healing my trauma 
I gave up 
On practicing the skills 
To become whole 
Today I gave up
On evolving 
Into that ever elusive 
Better version of myself 
Today I submitted 
To the wound of love 
I stopped pointing at it 
Looking at it 
Soothing it
Tweaking it 
Fixing it
Finessing it
Hiding it
Polishing it 
I stopped this game of separation
I crawled inside the wound 
And spread it open 
I decided to wear it like a gown 
I accepted my total and utter 
Failure 
To be anything else
But me


~ Maya Luna



sexta-feira, 26 de julho de 2019

The More Loving One





Looking up at the stars, I know quite well 
That, for all they care, I can go to hell, 
But on earth indifference is the least 
We have to dread from man or beast. 

How should we like it were stars to burn 
With a passion for us, we could not return? 
If equal affection cannot be, 
Let the more loving one be me. 

Admirer as I think I am 
Of stars that do not give a damn, 
I cannot, now I see them, say 
I missed one terribly all day. 

Were all stars to disappear or die, 
I should learn to look at an empty sky 
And feel its total dark sublime, 
Though this might take me a little time. 


W. H. Auden
in,  Homage to Clio 



segunda-feira, 15 de julho de 2019

Tudo o que de menos trago







Atravesso esses campos outra vez
E sabes, desta vez tenho algo a menos na bagagem
Menos pessoas, menos dramas, menos medos e menos culpas
Trago até menos sonhos, menos objectivos, menos ambições
Trago menos e tudo o que de menos trago é muito mais
Trago o coração de um guerreiro que perdeu muitas vezes
E mais do que aprender a ganhar
Esse guerreiro prefere aprender a caminhar
Como aquele que nasce no útero de um eclipse
E se contempla como aquele que sempre esteve lá
Reprimido, oprimido, por trás dos medos e das culpas escondido
Agora revelado, aprendendo a amar-se de novo
Na sombra da lua que a ocidente cresce
E na luz do sol que a oriente clama
Para que o coração do guerreiro
Seja apenas um coração que Ama!!!


Ricardo Moutinho



Um homem sentado no seu tempo





Está um homem sentado no seu tempo
cismando na mudança e em tantos
outros lógicos inexoráveis topos.
A pele o reveste com estrema cordura
como se manto, resguardando os vincos
de quebranto esparsos pelo corpo dentro.
Tem a mão combatente espalmada
sobre o rosto recoberto de incertezas -
ou é uma pragmática, anfíbia barbatana
tacteando o interior, seu elemento?

Eis uma máquina de produzir sistemas, 
que belo organismo em movimento.
Um engenho que, incessantemente, 
como um fio de baba vai debitando angústia. 
Ah, mas já a porção se completou, 
já ele toma a tesoura dos seus dedos 
e recolhe uma ideia arredondada 
e a acondiciona entre outras mil, 
todas densas, agudas, de morrer. 
O corpo do homem - exígua embalagem. 

Mas a máquina não pára, o fio finamente 
tecido das mais ínvias confissões 
já forma outra ideia, de configuração 
idêntica às restantes, e tão diversa, 
tão matematicamente original. 
Está um homem sentado no seu tempo, 
recebe do século as mais embravecidas 
aflições - e prossegue segregando, 
tão perfeita engrenagem de sofrer, 
sua atlética fronte tão suada. 


António Manuel Pires Cabral




sábado, 13 de julho de 2019

Pecado Original





Sim, Mãe! sim, quanta vez te vi chorar..., 
Sem desistir de te fazer sofrer! 
Gozava então nem sei que atroz prazer 
De te arranhar no peito... e me arranhar. 

Mas quis lutar comigo, Mãe! lutar 
Contra esse monstro obscuro do meu ser. 
Que sonho, Mãe!: ter-me eu em meu poder, 
Talhar-me bom, feliz, simples, vulgar... 

Mãe! com que força eu vi que era impotente! 
... Porque de bem mais longe e bem mais fundo 
A culpa do meu ser a nós dois veio. 

Perdoemos um ao outro, humildemente: 
Eu, Mãe! — ter-me o teu seio dado ao mundo; 
Tu, — ter-me eu feito vida no teu seio. 


José Régio
in, 'Antologia Poética'



sexta-feira, 12 de julho de 2019

Meu Amigo





Meu Amigo, não sou o que pareço. 
O que pareço é apenas uma vestimenta cuidadosamente tecida, 
que me protege de tuas perguntas 
e te protege da minha negligência.

            Meu Amigo, o Eu em mim mora na casa do silêncio, 
e lá dentro permanecerá para sempre, 
despercebido, inalcançável.

            Não queria que acreditasses no que digo 
nem confiasses no que faço – pois minhas palavras 
são teus próprios pensamentos em articulação e meus feitos, 
tuas próprias esperanças em ação.

            Quando dizes: “O vento sopra do leste”, 
eu digo: “Sim, sopra mesmo do leste”, 
pois não queria que soubesses 
que minha mente não mora no vento, mas no mar.

            Não podes compreender meus pensamentos, 
filhos do mar, nem eu gostaria que compreendesses. 
Gostaria de estar sozinho no mar.

            Quando é dia contigo, meu Amigo, é noite comigo. 
Contudo, mesmo assim falo do meio-dia 
que dança sobre os montes e da sombra de púrpura 
que se insinua através do vale: porque não podes ouvir 
as canções de minhas trevas 
nem ver minhas asas batendo 
contra as estrelas – e eu prefiro que não ouças nem vejas. 
Gostaria de ficar a sós com a noite.

            Quando ascendes a teu Céu, 
eu desço ao meu Inferno – mesmo então 
chamas-me através do abismo intransponível, 
“Meu Amigo, Meu Companheiro, Meu Camarada”, 
e eu te respondo: 
“Meu Amigo, Meu Companheiro, Meu Camarada” – porque 
não gostaria que visses meu Inferno. 
A chama queimaria teus olhos, 
e a fumaça encheria tuas narinas. 
E amo demais meu Inferno para querer que o visites. 
Prefiro ficar sozinho no Inferno.

            Amas a Verdade, e a Beleza, e a Retidão. 
E eu, por tua causa, 
digo que é bom e decente amar essas coisas. 
Mas, no meu coração rio-me de teu amor. 
Mas não gostaria que visses meu riso. 
Gostaria de rir sozinho.

            Meu Amigo, tu és bom e cauteloso e sábio. 
Tu és perfeito – e eu também, falo contigo sábia e cautelosamente. 
E, entretanto, sou louco. 
Porém mascaro minha loucura. 
Prefiro ser louco sozinho:

            Meu Amigo, tu não és meu Amigo, 
mas como te farei compreender? 
Meu caminho não é o teu caminho. 
Contudo juntos marchamos, 
de mãos dadas.



Khalil Gibran
in, O Louco



quinta-feira, 11 de julho de 2019

Aqui Mereço-te





O sabor do pão e da terra 
e uma luva de orvalho na mão ligeira. 
A flor fresca que respiro é branca. 
E corto o ar como um pão enquanto caminho entre searas. 
Pertenço em cada movimento a esta terra. 
O meu suor tem o gosto das ervas e das pedras. 
Sorvo o silêncio visivel entre as árvores. 
É aqui e agora o dilatado abraço das raízes claras do sono. 
Sob as pálpebras transparentes deste dia 
o ar é o suspiro dos próprios lábios. 
Amar aqui é amar no mar, 
mas com a resistência das paredes da terra. 

A mão flui liberta tão livre como o olhar. 
Aqui posso estar seguro e leve no silêncio 
entre calmas formas, matérias densas, raízes lentas, 
ao fogo esparso que alastra ao horizonte. 
No meu corpo acende-se uma pequena lâmpada. 
Tudo o que eu disser são os lábios da terra, 
o leve martelar das línguas de água, 
as feridas da seiva, o estalar das crostas, 
o murmúrio do ar e do fogo sobre a terra, 
o incessante alimento que percorre o meu corpo. 
Aqui no grande olhar eu vejo e anuncio 
as claras ervas, as pedras vivas, os pequenos animais, 
os alimentos puros, 
as espessas e nutritivas paredes do sono, 
o teu corpo com todo o vagar da sua massa, 
todo o peso das coisas e a ligeireza do ar. 

Ao flexível volante trabalhado pelas seivas 
a minha mão alia-se: bom dia, horizonte. 

Uma saúde nova vai nascer destes ombros. 
A lâmpada respira ao ritmo da terra. 
Sei os caminhos da água pelas veredas, 
as mãos das ervas finas embriagadas de ar, 
o silêncio donde se ergue a torre do canto. 

Abrem-se os novos lábios e eu mereço-te. 

É este o reino de insectos e de jogos, 
das carícias que sabem a uma sede feliz. 
Aqui entre o poço e o muro, 
neste pequeno espaço de pedra cai um silêncio antigo: 
uma infância inextinguível se alimenta 
de uma fábula que renasce em todas as idades. 
É aqui, minha filha, que dança a fada do ar 
com seu brilho sedoso de erva fina 
e a sua abelha silenciosa sobre a fronte. 
É aqui o eterno recanto onde a água diz 
a pura praia da infância. 
Aqui bebe e bebe longamente 
o hálito da tristeza no silêncio da vida, 
aqui, ó pátria de água calada e de pão doce, 
da fundura do tempo, da lonjura permanente, 
aqui, bom dia, minha filha. 


António Ramos Rosa
in, 'A Construção do Corpo' 




terça-feira, 9 de julho de 2019

Corpo Ligeiro Desenhado





Talvez a linha se acenda e continue 
ondeando a página e sendo nós só a margem 
de um domínio onde fulge a inocência, 
talvez se revele a transparência inicial 
em que a luz de estar a ver seja a palavra mesma. 

Vêm figuras que se espraiam e crescem 
até serem apenas ondulada memória. 
Adensam-se outros corpos e enterram-se no fogo. 
As linhas enovelam-se num delírio exacto. 
A alegria ilumina penumbras de volumes. 

Em tensos membros lúcidos e redondos 
move-se o desenhado corpo ligeiro 
e lento. Aumenta a densidade até ao centro 
de um deus que diz o esplendor silencioso. 
Ou só o ar ondeia num planalto de vento. 


António Ramos Rosa




segunda-feira, 8 de julho de 2019

SE EU FOSSE A TI





Se eu fosse a ti amava-me, telefonava, 
não perdia tempo, dizia-me que sim. 
Não hesitava mais, fugia. 
Dava o que tens, o que tenho, 
para ter o que dás, o que me darias. 
Soltava o cabelo, chorava 
de prazer, cantava descalça, dançava, 
punha em fevereiro um sol de agosto, 
morria de prazer, não punha 
nenhum mas a este amor, inventava 
nomes e verbos novos, estremecia 
de medo perante a dúvida de que fosse 
só um sonho, fugia 
para sempre de ti, de ali, comigo. 
Se eu fosse a ti amava-me. 
Dizia-me que sim, vinha 
a correr para os meus braços, 
ou pelo menos, sei lá, respondia 
às minhas mensagens, às minhas tentativas 
de saber que é feito de ti, telefonava-me, 
que será de nós, dava-me 
um sinal de vida, se eu fosse a ti. 


Juan Vicente Piqueras
in, Instruções para Atravessar o Deserto





domingo, 7 de julho de 2019

PODIA


Laura Makabresku 





Podia dizer-te que não me importo
Podia fingir que fugi
Ou que estou morto.
Podia deixar o galho frágil 
onde pousa a minha vida,
abandonar o rotineiro rebuliço
das aves que abalam.

Com a verdade mais pura
A única verdade
A única que dura
Faria a minha despedida
A promessa de mil abraços
E uma palavra sofrida

Que sou eu mais que um pássaro só
que uma folha que no outono desiste
e se desfaz?
Podia dizer-te que volto
E seria breve
Como um poeta escreve
Livre e solto.

Sou azul como as gaivotas ao final da tarde,
branca como o leite que não bebi da ternura
mel como o sumo dos favos que abelhas interromperam

(E tu, minha vida, acreditas
Nas palavras que não digo?
Será o silêncio castigo?
Será em silêncio que gritas?)

Podia dizer-te que são pequenas
As saudades do teu sorrir
Mas seriam palavras apenas
E seria mentir.

Porque metade de mim permanece nas águas que choro,
outra metade partiu na certeza de um sol.


CARLOS CAMPOS e LÍLIA TAVARES





sábado, 6 de julho de 2019

À IMAGINAÇÃO





Quando da labuta diária estou cansada,
E do terreno devir de dor em dor,
E perdida me sinto, quase desesperada,
Tua voz terna chama-me ao labor:
Ah, fiel amiga! Não estou só,
Enquanto puderes falar-me nessa voz!

Nada espero do mundo exterior;
O mundo interior, prezo-o a dobrar;
O teu mundo, onde dúvida, ódio, desamor
E fria suspeição jamais hão-de medrar;
Onde tu, e eu, e a Liberdade,
Temos incontestada e suprema autoridade.

Que importa, se à nossa volta
Paira o perigo, a culpa, o breu,
Se há em nossa alma à solta
Um radioso e sereno céu,
Aquecido por dez mil raios luminosos
De sóis que não conhecem dias invernosos?

Na verdade, pode queixar-se a Razão
Da triste realidade da própria Natureza,
E dizer ao amargurado coração
Que são vãos os sonhos que ela tanto preza;
E pode a Verdade espezinhar rudemente,
Da Fantasia, as flores imanescentes:

Mas, atenta, tu refreias sempre
Meus voos delirantes e, enquanto
Derramas novas glórias sobre a nefanda nascente,
Extrais da Morte uma Vida de maior encanto.
E com voz divina me falas, ciciante,
De mundos reais, como o teu tão fascinantes.

Não me rendo à tua fátua bênção;
Porém, no silêncio do entardecer,
Con indefecível gratidão,
Eu te acolho, Benigno Poder;
Consolo, se a vida nos exaspera,
Esperança mais doce, quando a esperança desespera!


EMILY BRONTË 
(ELLIS BELL)
in, POEMAS ESCOLHIDOS DAS IRMÃS BRONTË



sexta-feira, 5 de julho de 2019

O RITO






1. 
A nossa terra veio a ser um rito, um signo de descoberta 
na qual o homem se encontrou. 
A reconciliação com a terra pode talvez ser substituída pela necessidade, 
pela inexorabilidade de existir que a terra impõe, 
toda a terra, inclusivamente esta que com o coração escolheste 
entre todas as outras. 
Quando nela ganhas raízes para a vida e para a morte, 
ela vai-te quebrantando até reduzir-te a pó. 
Vês com dificuldade e com dificuldade te tornas visível 
através da necessidade terrestre. 

Supõe um esforço incessante subtrair os homens 
à inexorabilidade imposta pela terra - e este 
esforço tem um nome: «história.» 
A história não é ressurreição, mas uma constante 
conformidade com a morte, que apenas faz transparecer 
a sucessão das agonias humanas. 
Ela não alcança o rito em que se converteu a terra,
a nossa terra. 
Daí nasce o amor à terra. 
O amor não flui a par da morte: ultrapassa-a. 
Pelo amor que ultrapassa a morte, a terra veio a ser um rito. 
Pelo amor que ultrapassa a morte, a nossa terra converteu-se num rito. 

2. 
O rito das águas inumeráveis que surgem da terra como plantas; 
- as plantas desta terra são os rios, como a água é a terra das plantas; 
no inverno, os rios gelam, gelam os lagos e os tanques, 
mas as fontes brotam: a Vida das águas fará o gelo explodir. 
A nossa terra aproximar-se-á do sol e ele será suficiente 
para que a vida ressurja. 
Reviverão as águas, reviverão as árvores, REVIVERÁ 
A TERRA e virá a ser um rito, 
levar-te-á para lá do círculo da morte inscrito nela. 
A necessidade de VIVER - dizem a terra e a água cada primavera -, 
não é talvez mais forte que a necessidade de morrer? 
- assim dizem a terra e a água no seu sussurro recíproco. 

Tal sussurro, como o traduzirás na tua própria linguagem? 
Como enxertarás no teu pensamento a morte e a Vida da terra? 
O rito das águas tem uma voz diferente na primavera, 
quando devolve a vida à terra, 
e é diferente no verão, quando o homem arde em sede 
como o leito de um rio 
e o corpo é todo ele um anelo de pureza e frescura...
O homem absorve então o rito das águas 
- e nele encontra o seu equilíbrio. 

A água fala-nos mais de durar do que de passar 
no fluxo dos teus destinos és duradoura, ó água! 
A ti, homem imerso na água, digo 
que és o destino da terra. 
A nossa terra veio a ser um rito de plantas e de árvores 
que se abrem como um pensamento saturado de sabedoria, 
Sabedoria que é a nossa Pátria, escolhida pelo coração, 
com o assentimento da terra. 

3. 
Com as suas mãos o homem agarra a luz como um
remador que dirige a barca, 
entra na luz com todo o seu ser, com toda a carga 
das suas palavras e dos seus atos. 
Quer ficar nela, quer guardá-la dentro de si, 
ou quer mesmo irradiá-la? 
Sente a obscuridade, a penumbra, às vezes sustenta 
sobre as palmas das mãos 
um frágil véu de luz, como sustentaria uma criança recém-nascida; 
e canta à luz as canções que uma ama cantaria ao embalar; 
- depois cala-se e as canções brilham até que a criança 
é envolvida na sombra da existência. 

O terra que nos geras, não geras connosco a luz, 
mas apenas o véu frágil, ténue, que basta às plantas e aos animais! 
Bem diferente é a luz de que uma criança precisa, 
luz feita de substância que o abraço materno não pode encerrar. 
Bem diferente é a luz de que uma criança precisa...

Sou-te leal, terra, quando falo da luz que tu não podes dar 
porque falo da LUZ: sem a qual o HOMEM não pode realizar-se, 
nem tu tão-pouco, terra, te poderias realizar no homem. 

No rito da água e da luz estás presente e calas. 

O homem passará sobre o rito com a sua vida e a sua morte 
e tu pensarás que o terá espezinhado. .. 
Passará o homem, passarão os homens - correrão,
gritando «a vida é luta» 
e da luta, que farão surgir: uma terra nova? 
(Quando a terra, depois das lutas dos homens, ficar 
plena da sua própria quietude, pensarás que a espezinha ?) 



KAROL WOJTYLA
in, A PEDREIRA E OUTROS POEMAS


quinta-feira, 4 de julho de 2019

OPIÁRIO






              Ao Senhor Mário de Sá-Carneiro

É antes do ópio que a minh’alma é doente.
Sentir a vida convalesce e estiola
E eu vou buscar ao ópio que consola
Um Oriente ao oriente do Oriente.

Esta vida de bordo há-de matar-me.
São dias só de febre na cabeça
E, por mais que procure até que adoeça,
Já não encontro a mola para adaptar-me.

Em paradoxo e incompetência astral
Eu vivo a vincos de ouro a minha vida,
Onda onde o pundonor é uma descida
E os próprios gozos gânglios do meu mal.

É por um mecanismo de desastres,
Uma engrenagem com volantes falsos,
Que passo entre visões de cadafalsos
Num jardim onde há flores no ar, sem hastes.

Vou cambaleando através do lavor
Duma vida-interior de renda e laca.
Tenho a impressão de ter em casa a faca
Com que foi degolado o Precursor.

Ando expiando um crime numa mala,
Que um avô meu cometeu por requinte.
Tenho os nervos na forca, vinte a vinte,
E caí no ópio como numa vala.

Ao toque adormecido da morfina
Perco-me em transparências latejantes
E numa noite cheia de brilhantes
Ergue-se a lua como a minha Sina.

Eu, que fui sempre um mau estudante, agora
Não faço mais que ver o navio ir
Pelo canal de Suez a conduzir
A minha vida, cânfora na aurora.

Perdi os dias que já aproveitara.
Trabalhei para ter só o cansaço
Que é hoje em mim uma espécie de braço
Que ao meu pescoço me sufoca e ampara.

E fui criança como toda a gente.
Nasci numa província portuguesa
E tenho conhecido gente inglesa
Que diz que eu sei inglês perfeitamente.

Gostava de ter poemas e novelas
Publicados por Plon e no Mercure,
Mas é impossível que esta vida dure,
Se nesta viagem nem houve procelas!

A vida a bordo é uma coisa triste,
Embora a gente se divirta às vezes.
Falo com alemães, suecos e ingleses
E a minha mágoa de viver persiste.

Eu acho que não vale a pena ter
Ido ao Oriente e visto a Índia e a China.
A terra é semelhante e pequenina
E há só uma maneira de viver.

Por isso eu tomo ópio. É um remédio.
Sou um convalescente do Momento.
Moro no rés-do-chão do pensamento
E ver passar a Vida faz-me tédio.

Fumo. Canso. Ah uma terra aonde, enfim,
Muito a leste não fosse o oeste já!
Para que fui visitar a Índia que há
Se não há Índia senão a alma em mim?

Sou desgraçado por meu morgadio.
Os ciganos roubaram minha Sorte.
Talvez nem mesmo encontre ao pé da morte
Um lugar que me abrigue do meu frio.

Eu fingi que estudei engenharia.
Vivi na Escócia. Visitei a Irlanda.
Meu coração é uma avozinha que anda
Pedindo esmola às portas da Alegria.

Não chegues a Port-Said, navio de ferro!
Volta à direita, nem eu sei para onde.
Passo os dias no smoking-room com o conde —
Um escroc francês, conde de fim de enterro.

Volto à Europa descontente, e em sortes
De vir a ser um poeta sonambólico.
Eu sou monárquico mas não católico
E gostava de ser as coisas fortes.

Gostava de ter crenças e dinheiro,
Ser vária gente insípida que vi.
Hoje, afinal, não sou senão, aqui,
Num navio qualquer um passageiro.

Não tenho personalidade alguma.
É mais notado que eu esse criado
De bordo que tem um belo modo alçado
De laird escocês há dias em jejum.

Não posso estar em parte alguma. A minha
Pátria é onde não estou. Sou doente e fraco.
O comissário de bordo é velhaco.
Viu-me co’a sueca... e o resto ele adivinha.

Um dia faço escândalo cá a bordo,
Só para dar que falar de mim aos mais.
Não posso com a vida, e acho fatais
As iras com que às vezes me debordo.

Levo o dia a fumar, a beber coisas,
Drogas americanas que entontecem,
E eu já tão bêbado sem nada! Dessem
Melhor cérebro aos meus nervos como rosas.

Escrevo estas linhas. Parece impossível
Que mesmo ao ter talento eu mal o sinta!
O facto é que esta vida é uma quinta
Onde se aborrece uma alma sensível.

Os ingleses são feitos para existir.
Não há gente como esta para estar feita
Com a Tranquilidade. A gente deita
Um vintém e sai um deles a sorrir.

Pertenço a um género de portugueses
Que depois de estar a Índia descoberta
Ficaram sem trabalho. A morte é certa.
Tenho pensado nisto muitas vezes.

Leve o diabo a vida e a gente tê-la!
Nem leio o livro à minha cabeceira.
Enoja-me o Oriente. É uma esteira
Que a gente enrola e deixa de ser bela.

Caio no ópio por força. Lá querer
Que eu leve a limpo uma vida destas
Não se pode exigir. Almas honestas
Com horas para dormir e para comer,

Que um raio as parta! E isto afinal é inveja.
Porque estes nervos são a minha morte.
Não haver um navio que me transporte
Para onde eu nada queira que o não veja!

Ora! Eu cansava-me do mesmo modo.
Queria outro ópio mais forte para ir de ali
Para sonhos que dessem cabo de mim
E pregassem comigo nalgum lodo.

Febre! Se isto que tenho não é febre,
Não sei como é que se tem febre e sente.
O facto essencial é que estou doente.
Está corrida, amigos, esta lebre.

Veio a noite. Tocou já a primeira
Corneta, para vestir para o jantar.
Vida social por cima! Isso! E marchar
Até que a gente saia pela coleira!

Porque isto acaba mal e há-de haver
(Olá!) sangue e um revólver lá prò fim
Deste desassossego que há em mim
E não há forma de se resolver.

E quem me olhar, há-de-me achar banal,
A mim e à minha vida... Ora! um rapaz...
O meu próprio monóculo me faz
Pertencer a um tipo universal.

Ah quanta alma haverá, que ande metida
Assim como eu na Linha, e como eu mística!
Quantos sob a casaca característica
Não terão como eu o horror à vida?

Se ao menos eu por fora fosse tão
Interessante como sou por dentro!
Vou no Maelstrom, cada vez mais prò centro.
Não fazer nada é a minha perdição.

Um inútil. Mas é tão justo sê-lo!
Pudesse a gente desprezar os outros
E, ainda que co’os cotovelos rotos,
Ser herói, doido, amaldiçoado ou belo!

Tenho vontade de levar as mãos
À boca e morder nelas fundo e a mal.
Era uma ocupação original
E distraía os outros, os tais sãos.

O absurdo, como uma flor da tal Índia
Que não vim encontrar na Índia, nasce
No meu cérebro farto de cansar-se.
A minha vida mude-a Deus ou finde-a...

Deixe-me estar aqui, nesta cadeira,
Até virem meter-me no caixão.
Nasci para mandarim de condição,
Mas falta-me o sossego, o chá e a esteira.

Ah que bom que era ir daqui de caída
Prà cova por um alçapão de estouro!
A vida sabe-me a tabaco louro.
Nunca fiz mais do que fumar a vida.

E afinal o que quero é fé, é calma,
E não ter estas sensações confusas.
Deus que acabe com isto! Abra as eclusas —
E basta de comédias na minh’alma!

                        No Canal de Suez, a bordo.


Álvaro de Campos
in, Orpheu





A Baby's Bill of Rights





I have a right to
be seen 
as an innocent and vulnerable human being
in need of 
caring care in many ways.

I have the right to
be understood 
as a fully embodied Soul

I have the right not to
 have to 
justify my existence

I have the right to
have my ongoing needs for 
shelter, quiet, calm voices, 
to hear the heartbeat of a mother, 
to be held, sung to, comforted.

I have the right to
 identify myself differently
 - a human being- 
rather than an alien or other legalese term

I have a right to 
keep my natal language 
and to also learn a new language

I have a right to 
be seen as a baby, 
not as chattel, 
not as a detainee

I have the right to 
sleep in a bed, 
to be protected from predators, 
to have a full night's sleep, 
to be fed nutritious food.

I have the right to 
receive medical care with 
a mother's insight and touch instead of 
a via a governmental or ruling hierarchy mandate.
 I have a right to live in sanitary conditions.

I have the right to
 be with my familiares, 
relatives, brothers and sisters, 
primos, cousins, tios y tias 
y mami y papi y abuelos.

I have the right not to 
be shamed because of 
my nationality, 
race or ethnicity or religion.

I have the right to 
grow up in dignity, 
to be treated with integrity,
 to be treated as others would want 
their precious children treated...

I have a right to 
have my first cry answered right away, 
not to be forced into distressed weeping 
and despairing sobbing, 
and finally dead silence 

I have the right to 
sunshine, clean air, clean water, 
to see the stars in the night, 
to songs and music and art, 
to have simple toys, 
to laugh and to be happy.



Clarissa Pinkola Estés






quarta-feira, 3 de julho de 2019

O Ofício





Recomeço.
Não tenho outro ofício.

Entre o pólen subtil
e o bolor da palha,
recomeço.

Com a noite de perfil
a medir-me cada passo,

recomeço,
pedra sobre pedra,
a juntar palavras;

quero eu dizer:
ranho baba merda


Eugénio de Andrade




terça-feira, 2 de julho de 2019

CANTA





Atreve-te a julgar. Julga os outros julgando-te a ti mesmo.
A natureza das coisas é a tua natureza. Respira-te, despe-te
faz amor com as tuas convicções, não te limites a sorrir
quando não sabes mais o que dizer. Os teus dentes
estão lavados, as tuas mãos são amáveis, mas falta-te
decisão nos passos e firmeza nos gestos.
Procura-te. Tenta encontrar-te antes que te agarre a
voracidade do tempo.

Faz as coisas com paixão. Uma paixão irrequieta,
que não te dê descanso
e te faça doer a respiração. Aspira o ar, bebe-o com força, é
teu, nem um centavo pagarás por ele.
Quanto deves é à vida, o que deves é a ti mesmo. Canta.
Canta a água e a montanha e o pescoço do rio,
e o beijo que deste e o beijo que darás, canta
o trabalho doce da abelha e a paciência com que crescem
as árvores,
canta cada momento que partilhas com amigos, e cada
amigo
como um astro que desponta no firmamento breve do teu
corpo.

E canta o amor. E canta tudo o que tiveres razão para
cantar.
E o que não souberes e o que não entenderes, canta.
Não fujas da alegria. A própria dor ajuda-te a medir
a felicidade. Carrega nos teus ombros os séculos passados e
os séculos vindouros,
muito do pó que sacodes já foi vida, talvez beleza, orgulho,
pedaços de prazer.
A estrela que contemplas talvez já não exista, quem sabe,
o que te ajudou a ser vida de quantas vidas precisou. Canta!
Se sentires medo, canta. Mas se em ti não couber a alegria,
não pares de cantar.

Canta. Canta. Canta. Canta. Canta. Constrói o teu amor,
vive o teu amor,
ama o teu amor. De tudo o que as pessoas querem, o que
mais querem é o amor.
Sem ele, nada nunca foi igual, nada é igual, nada será igual
alguma vez.
Canta. Enquanto esperas, canta.
Canta quando não quiseres esperar.
Canta se não encontrares mais esperança. E canta quando a
esperança te encontrar.
Canta porque te apetece cantar e porque gostas de cantar e
porque sentes que é preciso cantar.
E canta quando já não for preciso. Canta porque és livre.

E canta se te falta a liberdade.


JOAQUIM PESSOA
in, VOU-ME EMBORA DE MIM