segunda-feira, 30 de setembro de 2019

OUTONO






Uma lâmina de ar
Atravessando as portas. Um arco,
Uma flecha cravada no Outono. E a canção
Que fala das pessoas. Do rosto e dos lábios das pessoas.
E um velho marinheiro, grave, rangendo o cachimbo como
Uma amarra. À espera do mar. Esperando o silêncio.
É outono. Uma mulher de botas atravessa-me a tristeza
Quando saio para a rua, molhado como um pássaro.
Vêm de muito longe as minhas palavras, quem sabe se
Da minha revolta última. Ou do teu nome que repito.
Hoje há soldados, eléctricos. Uma parede
Cumprimenta o sol. Procura-se viver.
Vive-se, de resto, em todas as ruas, nos bares e nos cinemas.
Há homens e mulheres que compram o jornal e amam-se
Como se, de repente, não houvesse mais nada senão
A imperiosa ordem de (se) amarem.
Há em mim uma ternura desmedida pelas palavras.
Não há palavras que descrevam a loucura, o medo, os sentidos.
Não há um nome para a tua ausência. Há um muro
Que os meus olhos derrubam. Um estranho vinho
Que a minha boca recusa. É outono
A pouco e pouco despem-se as palavras.



JOAQUIM PESSOA
in, GUARDAR O FOGO




sexta-feira, 27 de setembro de 2019

The Long Shadow of Lincoln: A Litany



Laurence Winram





Be sad, be cool, be kind,
remembering those now dreamdust
hallowed in the ruts and gullies,
solemn bones under the smooth blue sea,
faces warblown in a falling rain.

Be a brother, if so can be,
to those beyond battle fatigue
each in his own corner of earth
      or forty fathoms undersea
      beyond all boom of guns,
      beyond any bong of a great bell,
      each with a bosom and number,
      each with a pack of secrets,
each with a personal dream and doorway
and over them now the long endless winds
      with the low healing song of time,
      the hush and sleep murmur of time.

Make your wit a guard and cover.
Sing low, sing high, sing wide.
Let your laughter come free
remembering looking toward peace:
“We must disenthrall ourselves.”

Be a brother, if so can be,
to those thrown forward
for taking hardwon lines,
for holding hardwon points
      and their reward so-so,
little they care to talk about,
their pay held in a mute calm,
highspot memories going unspoken,
what they did being past words,
what they took being hardwon.
      Be sad, be kind, be cool.
          Weep if you must
      And weep open and shameless
          before these altars.

There are wounds past words.
There are cripples less broken
than many who walk whole.
      There are dead youths
      with wrists of silence
      who keep a vast music
      under their shut lips,
what they did being past words,
their dreams like their deaths
beyond any smooth and easy telling,
having given till no more to give.

      There is dust alive
with dreams of The Republic,
with dreams of the Family of Man
flung wide on a shrinking globe
      with old timetables,
      old maps, old guide-posts
      torn into shreds,
      shot into tatters
      burnt in a firewind,
      lost in the shambles,
      faded in rubble and ashes.

      There is dust alive.
Out of a granite tomb,
Out of a bronze sarcophagus,
Loose from the stone and copper
Steps a whitesmoke ghost
Lifting an authoritative hand
In the name of dreams worth dying for,
In the name of men whose dust breathes
      of those dreams so worth dying for,
what they did being past words,
beyond all smooth and easy telling.

Be sad, be kind, be cool,
remembering, under God, a dreamdust
hallowed in the ruts and gullies,
solemn bones under the smooth blue sea,
faces warblown in a falling rain.

Sing low, sing high, sing wide.
Make your wit a guard and cover.
Let your laughter come free
like a help and a brace of comfort.

      The earth laughs, the sun laughs
over every wise harvest of man,
over man looking toward peace
by the light of the hard old teaching:
      “We must disenthrall ourselves.”



Carl Sandburg
in, The Complete Poems of Carl Sandburg




quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Casa


Montserrat Diaz





durante a noite
a casa geme agita-se aquece e arrefece
no interior frio do olho da tua sombra sentada
na cadeira aparentemente vazia

esperas acordado sem sono
que a temperatura da casa funda
com a temperatura incerta do mundo
depois
escreves exactamente isto: o horror dos dias
secou contra os dentes - e rouco
dobrado para dentro do teu próprio pensamento
ferido
atravessas as sílabas diáfanas do poema

levantas-te tarde
atordoado
para extinguires o lume ateado
junto à memória da casa - respiras fundo
para que o gelo derreta e afogue
a vulgar noite do mundo

olhas-te no espelho
atribuis-te um nome um corpo um gesto
dormes
com a árvore de saliva das ilhas - com o vento
que arrasta contigo esta chuva de fósforo e
estes presságios de tranquilos ossos




Al Berto
in, Horto de Incêndio





sábado, 21 de setembro de 2019

ADEUS





Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.



EUGÉNIO DE ANDRADE
in, OS AMANTES SEM DINHEIRO





sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Once the world was perfect


Alexis Pifou




Once the world was perfect, and we were happy in that world.
Then we took it for granted. 
Discontent began a small rumble in the earthly mind.
Then Doubt pushed through with its spiked head.
And once Doubt ruptured the web,
All manner of demon thoughts
Jumped through -
We destroyed the world we had been given
For inspiration, for life -
Each stone of jealousy, each stone
Of fear, greed, envy, and hatred, put out the light.
No one was without a stone in his or her hand.
There we were, 
Right back where we had started.
We were bumping into each other
In the dark.
And now we had no place to live, since we didn’t know
How to live with each other.
Then one of the stumbling ones took pity on another
And shared a blanket. 
A spark of kindness made a light.
The light made an opening in the darkness.
Everyone worked together to make a ladder.
A Wind Clan person climbed out first into the next world,
And then the other clans, the children of those clans, their children, 
And their children, all the way through time -
To now, into this morning light to you.


Joy Harjo
in, Conflict Resolution for Holy Beings: Poems






quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Untitled






No matter the rush of undertow 
everything else is still 
here. I scrawl your name 
at the bottom of the river 
I sing it and it sings me 
back. What I’d give for a name 
so keen     it whittles 
the valleys of my neck. I’m forever drenched 
in this night, and you 
no longer exist. The river catches 
the sky’s black, ink 
meant to preserve a memory. I stay 
because it’s easy. Here. I relive 
what you did to me, find myself again 
in the water - swollen and sullen 
as a bruise. I trace 
and retrace, graffiti
every river’s bank, drown 
into ecstasy 

instead of moving on with my life. 
I wear what you did to me 
like gills, a new way to breathe. 
I jump into the river 
for days. I forget I have lungs at all.


Noor Ibn Najam




segunda-feira, 16 de setembro de 2019

A PRENDA


Alexander Jansson 
Mr. Puppethead




O menino
recebeu a dádiva.

Era o seu dia, assim disseram.

Estranhou:
os outros dias não eram seus?

Se achegou.
Espreitou.

A oferenda,
era coisa nenhuma
que nem parecia existir.

– O que é isso?, perguntou.
– É uma prenda, responderam.

Que prenda poderia ser
se tinha forma de nada.

– Abre.

Abrir como
se não tinha fora nem dentro?

– Prova.

Como provar
o que não tem onde se pegar?

Olhou melhor.
Fixou não a prenda,
mas os olhos de quem a dava.

Foi, então:
o que era nada
lhe pareceu tudo.

Grato,
retribuiu com palavra e beijo.

O que lhe ofereciam
era a divina graça do inventar.

Um talento
para não ter nada.

Mas um dom
para ser tudo.



Mia Couto
in, “Vagas e Lumes“





sexta-feira, 13 de setembro de 2019

DÁ-ME





Dá-me um cavalo uma alma uma nave
Algo que voe ou galope ou navegue
E seja azul ou de outra cor mas leve
No seu vagar qualquer coisa que lave

Dá-me uma curva um espelho uma pausa
Algo que brilhe e demore e seduza
E se transforme ao ar em luz difusa
Ou nada ou coisa que não tenha causa

Dá-me um comboio um apito um berlinde
Algo que parta ou que role ou decida
E ao passar perto da hora perdida
Nos traga a rima precisa de brinde

Dá-me um baloiço um esquadro uma vez
Algo que meça que oscile que seja
Uma surpresa o gesto que se beija
A última loucura que se fez

Dá-me um segredo uma cor uma uva
Algo que importe ou se cheire ou escorregue
(mas não tropece nem ceda nem negue)
Por entre dedos ou gotas de chuva

Dá-me uma febre um papel uma esquina
Algo que rasgue ou se dobre ou estremeça
E que se esconda e mais tarde apareça
Sombra de vulto subindo a colina

Dá-me um arco que seja íris
Dá-me um sonho que seja doce
Dá-me um porto que tenha barcos
Dá-me um barco que nunca fosse
Dá-me um remo
Dá-me um prado
Dá-me um reino
Dá-me um verso
Dá-me um cesto
Dá-me um cento

Dá-me só
Um universo


MÁRIO DOMINGOS
in, O DESPERTAR DOS VERBOS




terça-feira, 10 de setembro de 2019

ÁGUA NOCTURNA





A noite de olhos de cavalo que tremem na noite
a noite de olhos de água no campo adormecido,
está nos teus olhos de cavalo que treme,
está nos teus olhos de água secreta.

Olhos de água de sombra,
olhos de água de fonte,
olhos de água de sonho.

O silêncio e a solidão,
como dois animais pequenos que a lua guia,
bebem nesses olhos,
bebem nessas águas.

Se abres os olhos,
abre-se a noite de portas de musgo,
abre-se o reino secreto da água
que emana do centro da noite.

E se os fechas,
um rio, uma corrente doce e silenciosa,
inunda-te por dentro, avança, torna-te obscuro:
a noite molha margens na tua alma.


Octavio Paz




domingo, 8 de setembro de 2019

Gravity and Center







I'm sorry I cannot say I love you when you say

you love me. The words, like moist fingers,

appear before me full of promise but then run away

to a narrow black room that is always dark,

where they are silent, elegant, like antique gold,

devouring the thing I feel. I want the force

of attraction to crush the force of repulsion

and my inner and outer worlds to pierce

one another, like a horse whipped by a man.

I don't want words to sever me from reality.

I don't want to need them. I want nothing

to reveal feeling but feeling—as in freedom,

or the knowledge of peace in a realm beyond,

or the sound of water poured in a bowl.


Henri Cole




sábado, 7 de setembro de 2019

Anoitecendo A Vida Recomeça





Dorme e não creias em fantasmas
que, entretanto, se debruçam no teu leito
ferozes como pancadas
rápidas, inconsequentes,
avisos radiofónicos,
inesperadas veredas estreitas ladeadas
por medos ocultos nas paredes
e mais a gama de assaz novidades
contra as quais abusas de pastilhas
honoríficas, sálvicas e químicas,
boas para a garganta
e para o duodeno.

Dorme e atende as mãos afeiçoadas
que fecham as pálpebras
ao poder dos sonhos repartidos
pelo passado, pelo presente,
pelo tempo não havido ainda,
conhecido lamento diferente
como pancada
ininterrupta,
como aviso que não atendeste,
como vereda
beco sem saída
e novidades, algumas engraçadas,
que afastam os fantasmas por momentos.


Ruy Cinatti




quarta-feira, 4 de setembro de 2019

TENTATIVAS PARA UM REGRESSO À TERRA





o sol ensina o único caminho 
a voz da memória irrompe lodosa 
ainda não partimos e já tudo esquecemos 
caminhamos envoltos num alvéolo de ouro fosforecente 
os corpos diluem-se na delicada pele das pedras 

falam os rios deste regresso e pelas margens ressoam passos 
os poços onde nos debruçámos aproximam-se perigosamente 
da ausência e da sede procurámos os rostos na água 
conseguimos não esquecer a fome que nos isolou 
de oásis em oásis 

hoje
é o sangue branco das cobras que perpetua o lugar 
o peso de súbitas cassiopeias nos olhos 
quando o veludo da noite vem roer a pouco e pouco a planície 

caminhamos ainda 
sabemos que deixou de haver tempo para nos olharmos 
a fuga só é possível para dentro dos fragmentados corpos 
e um dia... quem sabe? 
chegaremos


Al Berto